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terça-feira, 28 de abril de 2020

...do desassossego...


 
 "Sinto o tempo com uma dor enorme. É sempre com uma comoção exagerada que abandono qualquer coisa.  [...] - sim, mas as coisas pequenas da vida, quando as abandono e penso, com toda a sensibilidade dos meus nervos, que nunca mais as verei e as terei, pelo menos naquele preciso e exacto momento, doem-me metafisicamente. Abre-se-me um abismo na alma e um sopro frio da boca de Deus roça-me pela face lívida.
 O tempo! O passado! Aí algures, uma voz, um canto, um perfume ocasional levantou em minha alma o pano de boca das minhas recordações.... Aquilo que fui e nunca mais serei! Aquilo que tive e não tornarei a ter! Os mortos! Os mortos que me amaram na minha infância.
Quando os evoco, toda a alma me esfria e eu sinto-me desterrado de corações, sozinho na noite de mim próprio, chorando como um mendigo o silêncio fechado de todas as portas."

Fernando Pessoa, in «O livro do desassossego»

terça-feira, 21 de maio de 2019

...A Primavera esquece nos barrancos...



Jan Baptist Bosschaert  - Still Life of Flowers

Há um Poeta em mim que Deus me disse...
A Primavera esquece nos barrancos
As grinaldas que trouxe nos arrancos
Da sua efémera e espectral ledice... 

Pelo prado orvalhado a meninice
Faz soar a alegria os seus tamancos...
Pobre de anseios teu ficar nos bancos 
Olhando a hora como quem sorrisse ...


Florir do dia a capitéis de Luz...
Violinos do silêncio enternecidos...
Tédio onde o só ter tédio nos seduz...

Minha alma beija o quadro que pintou...
Sento-me ao pé dos séculos perdidos
E cismo o seu perfil de inércia e voo...

Fernando Pessoa, in Cancioneiro - poema II de Passos da Cruz

sábado, 12 de janeiro de 2019

"Se alguém mentiu..."


Se alguém mentiu, não fui eu.
 - Eu vinha alegre e cantava.
Se alguém mentiu foi o Sol,
se alguém mentiu foi o Mar,
que ficavam tristes, tristes,
à medida que eu cantava.

Se alguém mentiu não fui eu.
 - Se alguém mentiu, foi o Céu:
era azul e fez-se pardo,
como se fosse da Morte
que a minha boca falava.

Eu vinha alegre e cantava.
Tudo, à volta, escurecera. 
Se havia naquele dia
qualquer palavra sincera,
da minha boca saía.

Sebastião da Gama, in Cabo da Boa Esperança

quarta-feira, 21 de novembro de 2018

Bebendo horizontes...


Eu? -- bebo o horizonte...
(Cecília Meireles, in Mar Absoluto)


Uma vez amei, julguei que me amariam,
Mas não fui amado.
Não fui amado pela única grande razão -
Porque não tinha que ser.


Consolei-me voltando ao sol e à chuva,
E sentando-me outra vez à porta de casa.
Os campos, afinal, não são tão verdes para os que são amados 
Como para os que o não são.
Sentir é estar distraído.

(Fernando Pessoa, in Poemas Completos de  Álvaro de Campos)

terça-feira, 22 de agosto de 2017

MAR. MANHÃ...

16.11.1909
Suavemente grande avança
Cheia de sol a onda do mar; 
Pausadamente se balança,
E  desce como a descansar.


Tão lenta e longa que parece
De uma criança de Titã 
O glauco sonho que adormece, 
Arfando à brisa da manhã.


Parece ser um ente apenas
Este correr da onda do mar, 
Como uma cobra que em serenas 
Dobras se alongue a colear.


Unido e vasto e interminável
No são sossego azul do sol, 
Arfa com um mover-se estável
O oceano ébrio de arrebol.

E a minha sensação é nula, 
Quer de prazer, quer de pesar... 
Ébria de alheia a mim ondula
Na onda lúcida do mar. 

in Cancioneiro - Fernando Pessoa 

segunda-feira, 20 de junho de 2011

Levitar...


Sou entre flor e nuvem, estrela e mar.
Porque havemos de ser unicamente humanos,
limitados em chorar?
Não encontro caminhos fáceis de andar.
Meu rosto vário desorienta as firmes pedras
que não sabem de água e ar.
E por isso levito.

É bom deixar um pouco de ternura
e encanto indiferente,
de herança em cada lugar.
Rastro de flor e estrela, nuvem e mar,
meu destino é mais longe 
e meu passo mais rápido:
a sombra é que vai devagar.

Cecília Meirelles

domingo, 22 de maio de 2011

Rejeição



Pessoas que rejeitam outras, ou rejeitaram e que talvez sintam a inconsciente fobia de virem, um dia, a ser rejeitadas, são, por norma, calculistas, frias, cerebrais, preocupadas apenas consigo e os seus interesses, estes por si considerados sagrados e que os movem.
Os outros são peças no vasto tabuleiro de xadrez que é o mundo.
Costumam ter um olhar frio, reptilíneo, vítreo, incapazes, por opção, de olhar o outro apreciando-o na complexidade individual de um outro ser de igual valor. Convém-lhe ou não lhe convém... e é tudo.
Se momentaneamente sofrem de um ou outro tipo de atracção mais humano, menos cerebral, cedo regressam sobre os próprios passos, tecendo um qualquer juízo de valor... confessando breve para si, com alívio: - "do que me livrei!"
Nem deixam, frequentemente, de ser pessoas encantadoras, ás vezes de meter no coração, como diz o povo... Mas essa aparente bonomia faz parte de uma estratégia de auto-defesa do tipo:"estou a testar-te, porque se não fores por mim, és contra mim".
E nessas pessoas, muitas vezes de elevada inteligência e muito saber, instala-se o que considero uma espécie de mediania de afectos, estes superficiais ou incompletos, eivados de muita razão e pouca emoção por esta ser poe elas considerada uma fraqueza da vontade.
Há pessoas assim. Mas entre estas e as puramente passionais... prefiro, incondicionalmente, as primeiras se tiverem carácter e se forem honestas e generosas,
pois não será por elas que virá muito mal ao mundo.

quarta-feira, 6 de abril de 2011

Esconder o rosto



Escondeu na sombra o rosto
Na recusa de olhar o sol
Olhou o horizonte sem o ver
Pouco mais restou do desgosto...
E havia muita vida p'ra viver.

Levantou devagar a sua voz
Voz de alma cansada de voar
Num sonho que não fora o seu...
Devaneio de alguém muito feroz
Por recusar aceitar que envelheceu.

Entendera por fim o seu papel
No labirinto da coisa virtual:
Fora o ensejo de criar palavras
E animar páginas de sedução real
Fruto desse poder e suas lavras.

Agora,ao raiar da madrugada,
Sabia que soubera desde sempre
O que lera naquela boca austera:
"Caminho e sonho e que me lembre
Sou senhor da vida e da quimera."


Mario Llosa

domingo, 3 de abril de 2011



Vês?...
Fizeste escorrer água nestas mãos
e recusaste as ternas carícias
que vinham até ti em sonhos sãos...
e que quedaram desalentadas e vazias,
proibidas de tocar tuas delícias
corroídas pela dor e exaustão.

E neste espaço que para mim criaste
fica para sempre a marca ensandecida
daquele sonho para sempre adiado
de uma triste alma imersa em solidão.

sábado, 11 de dezembro de 2010

Generosidade



Por mais longa e escura que seja a noite, o sol volta sempre a brilhar.

O homem sereno, tranquilo e que pratica a bondade com nada se angustia nem se

preocupa - ele desconhece a perplexidade. Pela sua atitude de bondade desarma tudo que é mau não se tornando nunca cúmplice do mal.

...É preferível não dar nada, não fazer nada, a fazê-lo por "frete".


Citando J. Freitas Dinis

quarta-feira, 9 de junho de 2010

Arco-íris




No arco-íris de um país estranho
O milagre de Pã aconteceu,
Num alento de vida, dom tamanho,
Bafejando o corpo que foi teu.

Tudo é secreto e lindo se a harmonia
Existe entre o pensar e o sentir;
Se puder dar à nossa fantasia
Alimento feito de arte a eclodir.

Quedo toda enlevada na beleza
De tempos que passaram, de quimeras,
A tentar recriar um amanhã...

E gosto de penetrar com singeleza
Todo esse universo de outras eras
De que sei zombaria o meu deus Pã.

Sophia Guiomar, Poemetos

domingo, 17 de janeiro de 2010

A Primeira Hora



O ano desfolhou-se, dia a dia,
como uma flor cortada, um girassol
e dia a dia a sua voz calou-se
como velha, cansada, melodia
de velho rouxinol.

Ontem, à meia-noite, a minha rua
abriu de par em par as portas, as janelas
e deitou fora o lixo, as coisas velhas:
cacos, farrapos, latas e panelas.

Era a Primeira Hora
do ano que chegava.
... E eu?...pensei...que posso deitar fora?
Que poderemos todos deitar fora?

Ai, Senhor, tanta coisa!
Nem cacos, nem farrapos
nem latas velhas, nem trapos,
mas tanta dor,
Senhor,
mal empregada!
Tantos gestos errados,
as pequenas traições,
os pequenos pecados.
As calúnias subtis,
as flores venenosas
da alma envenenada
e a cicatriz da culpa inconfessada
e as palavras que ferem como gumes
de afiadas adagas.

Ressentimentos, azedumes
que te fazem sangrar as Cinco Chagas.
As larvas dos ciúmes
e as cobras rastejantes
dos pensamentos impuros.
Egoísmos sem fim
e os altos muros
das torres de marfim.
Descrença,
indiferença,
despeitos recalcados,
amassados com ódio, com rancor
e o amargo sabor
da solidão.

Ah, Senhor, nesta hora de perdão,
nesta Primeira Hora,
quantas coisas podemos deitar fora!

Fernanda de Castro, in "39 poemas"

sábado, 16 de janeiro de 2010

O artista



O artista e os outros homens

O artista, como artista, sente menos do que os outros homens porque ou produz ao mesmo tempo que sente e, nesse caso, há uma dualidade de espírito incompatível com o estar entregue a um sentimento, ou então depois. Mas, para o poder fazer, deve poder lembrar-se e o lembrar-se indica o ter sentido realmente, ainda que sem consciência disso.[1914?]

O artista e a sua arte

[...]
Tão pouco se deve o artista preocupar com a verdade do que descreve. É-lhe lícito escrever um poema onde se violem todas as probabilidades - logo que, é claro, a violação dessas probabilidades não implique directamente uma falha na natureza do poema como seria, por exemplo, o anacronismo num poema histórico, o erro psicológico num drama, etc. A verdade pertence à ciência, a moral à vida prática. A faculdade do espírito que trabalha na ciência é a Inteligênci (Observação, Reflexão). A faculdade que trabalha na vida activa é a Vontade. A faculdade de que depende a arte é a Emoção. Não tem de comum com as outras nada a não ser o ser humano como elas.
Quanto à má influência exercida pela Arte na vida prática isso é um dos delírios dos avinhados da Inteligência. A arte propaganda faz mal porque, por ser propaganda, é sempre má arte e, por ser arte, é sempre má propaganda.

O artista não tem que se importar com o fim social da arte, ou antes, com o papel da arte adentro da vida social. Preocupação é essa que compete ao sociólogo e não ao artista. O artista tem só que fazer arte. Pode, é certo, especular sobre o fim da arte na vida das sociedades, mas, ao fazê-lo, não está sendo artista, mas sim sociólogo. Não é um artista quem faz essa especulação: é um sociólogo simplesmente.

Fernando Pessoa, Páginas sobre Literatura e
Estética