sábado, 29 de maio de 2010

A menina dos fósforos




"...Era o eterno paradoxo que se revela sempre na existência dos pensadores - o constante anseio de calma em plena tempestade, o eterno desejo de vendavais no oásis da quietude."
Stefan Zweig


Premonição?...

O ter registado este pensamento, numa noite calma de meados de Junho, corresponderia a uma realidade já então cruelmente sentida?...


Não se sentia capaz de responder.

... É que o tempo marcara meio século na sua vida, cansada de aquilatar o sofrer alheio em função do seu próprio, movida por aquela entranhada consciência de que sofrer era o fim último da criatura, só que ninguém nunca lhe tinha explicado porquê e também nunca perguntara.

Sem o saber, afigurava-se-lhe algo de tão natural como sentir sede, frio, calor ou vontade de se enroscar. como os gatos, e deixar a imaginação voar até mundos desconhecidos onde era absolutamente proibido sofrer.

... Ou, se tal acontecesse, deveria aparecer alguém com uma varinha de condão, ou vontade forte, que não mostrasse medo de lutar pelo que fosse verdadeiro, justo e bom e vencesse essa batalha contra o sofrimento.

Só que, nessa altura, não raro um grito de raiva a sobressaltava... e fazia fugir o sonho. Acordada para a triste realidade do momento, logo que podia, - sobretudo quando as borrascas, em catadupa, estalavam furiosas sobre a sua cabeça de menina - retomava o sonho antes de lhe darem ordem de adormecer, proibida que estava também de ligar a luz para ler, não só porque, enquanto lia, não estudava, como porque gastava muita electricidade.

E nos gélidos invernos, quando custava mais a adormecer com o frio, os sonhos tornavam-se então mais prolongados...

Um dia tinham-lhe contado uma história que a impressionara: a da menina que vendia fósforos.

Não, não fora bem assim : tinham-lhe mostrado um livro com uma história ilustrada, Não a cores... que era então rara, a cor, nos livros de histórias para crianças.

O livro era velho e alguém pintara - a lápis de cor, uma das maravilhas desse tempo de menina, lembrava-se! - um ou outro pormenor da narrativa que estava também numa língua que não conhecia e, mais tarde, veio a saber que era o francês.

De imediato, se identificara com a menina dos fósforos - pobrezinha, passando frio, estendendo as "allumettes" a quem passasse, pudesse e quisesse comprar.

Numa noite em que o frio, a fome e o desamparo eram demais, a menina que vendia fósforos cedeu à tentação de tentar aquecer-se queimando as acendalhas que lhe restavam...

Cada acendalha concretizou-lhe um lindo sonho até que se tinham esgotado.

No dia seguinte, a menina foi encontrada com um imenso sorriso feliz espalhado no seu rostinho que indiciava a fome, o frio e sofrimentos de toda a ordem. Misericordiosamente estava, agora, agasalhada num lindo manto de espessa neve.

Fizera-lhe muita impressão, aquela história. Já vira muitos meninos sujos, esfarrapados, descalços, cheirando a urina... até tinha tido uma ou outra companheira de escola nessas condições a quem nem a professora, nem as colegas, davam atenção a não ser para a amesquinharem e, ainda mais, ignorarem.

Também com estas meninas da vida real se identificara, talvez porque suspeitasse nelas um sofrimento maior do que o seu próprio,privadas de bens essenciais que a ela - ainda não tinha, nessa altura, muita consciência disso - não tinham faltado, o que não a tinha impedido de sentir frio, desconforto, injustiça e menosprezo. Só quando começara a destacar-se nos estudos - aí por volta da 3ª classe - é que começara a sentir-se olhada, primeiro com estranheza e, só depois, com alguma admiração, mas sempre acompanhado de uma espécie de rancor sorna a que, só muito tarde, na vida, veio a saber dar-lhe nome... Era um sentimento feio, hediondo, revoltante, mas mais generalizado do que parecia à primeira vista. Mas, isso, também desconhecia então.
Felizmente nunca estivera na sua natureza senti-lo em relação a outrem.

..." L'Enfant aux allumettes"(conforme viera a descobrir quando aprendera francês ) doeu-lhe , porque,a princípio, não entendeu o que lhe tinha acontecido e julgara que o manto de neve, miraculosamente, aconchegara mesmo a menininha e a libertara do frio. Ante o gáudio larvar dos circunstantes, desatara a chorar ao descobrir que, afinal, os sonhos luminosos não tinham passado disso e que a realidade brutal era muito outra, porque a menina não voltara a acordar para a sua vida de miséria...

Lembrava-se bem de quanto lhe custara libertar-se da ideia trágica da morte daquela criança. E tivera de sonhar acordada mil e um enredos para exorcizar, num happy-end que a satisfizesse, o destino trágico da menina a quem tudo faltara, até o que,a ela,frequentemente sobrara: a presença da mãe.

Pela vida fora, aqueles sonhos de mundos harmoniosos e felizes sempre lhe tinham trazido , em traços finos , negros, delicados, a imagem onde se destacava um imenso halo amarelado ilustrando a única coisa que valia a pena sobre a terra : sonhar e ser capaz.assim de fugir ao frio, à fome, ao desamor, à solidão... à dor.

...E arremessar ao charco da vida uma pedra que conseguisse fazer ondas.

Marta Alvito - Fazedora de sonhos