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quarta-feira, 27 de fevereiro de 2019

«Nada do mundo»...


Nada do mundo me é segredo ainda:
tudo já sei, já espero, ou o que acontece
apenas do imprevisto se ilumina
de quanto aqui se repetiu diverso
mas tanto não que a estupidez humana 
a mesma não pareça que conheço.

Perdi toda a inocência, todo o espanto,
e todo o encanto de que a vida ferve
o pouco juvenil de horror e anseio
e de prazer também, com que chegamos,
vazios e sem nada, ao passo extremo
que só de inútil tempo se prolonga.

Bogna Patrycjia Altman

Quanto melhor seria ter servido 
alguma ideia, um deus, qualquer senhor,
bem falsos ou mundanos , e traíveis
nesse fingir de crença ou lealdade 
com que a miséria humana se imagina
mais rica e nobre do que o nada oculto!

[...]

Jorge de Sena, in 40 anos de servidão

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2019

Dístico




O viver que grita muito não diz nada.
A morte ao dizer tudo é bem calada.
[1938-07-08]
Jorge de Sena, in 40 anos de servidão

quinta-feira, 31 de janeiro de 2019

Palavras e silêncio...


O silêncio é a minha maior tentação.

(...)
 As palavras, esse vício ocidental, 
estão gastas. envelhecidas, envilecidas.
 Fatigam, exasperam.
E mentem, separam,  ferem.  


 Também apaziguam, é certo, mas é tão raro! 


 Por cada palavra que chega até nós,
 ainda quente das entranhas do ser, 
quanta baba nos escorre em cima
 a fingir de música suprema!





 A plenitude do silêncio
 só os orientais a conhecem!
 Lao Tsé ensinou
 que quem sabe não fala
 e quem fala não sabe.(...)

Eugénio de Andrade, in Poesia e Prosa: Rosto Precário

*** Formatação da responsabilidade de Msilva.

quinta-feira, 24 de janeiro de 2019

Busca da verdade...


A montanha por achar
Há de ter, quando a encontrar,
Um templo aberto na pedra
Da encosta onde nada medra.

O santuário que tiver,
Quando o encontrar, há-de ser 
Na montanha procurada
E na gruta ali achada.

A verdade, se ela existe,
Ver-se-á que só consiste
Na procura da verdade,
Porque a vida é só metade.

Fernando Pessoa, in Inéditos

sábado, 29 de dezembro de 2018

A vida que é sonho...


Treme em luz a água.
Mal vejo. Parece
Que uma alheia mágoa
Na minha alma desce - 

Mágoa erma de alguém
De algum outro mundo
Onde a dor é um bem
E o amor é profundo,

E só punge ver,
Ao longe, iludida,
A vida a morrer
O sonho da vida.

Fernando Pessoa, in Cancioneiro

segunda-feira, 24 de dezembro de 2018

Assim fosse eu...


É brando o dia, brando o vento.
É brando o sol e brando o céu.
Assim fosse meu pensamento!
Assim fosse eu, assim fosse eu!


Mas entre mim e as brandas glórias
Deste céu limpo e este ar sem mim
Intervêm sonhos e memórias...
Ser eu assim, ser eu assim!


Ah, o mundo é quanto nós trazemos.
Existe tudo porque existo.
Há porque vemos.
E tudo é isto, tudo é isto!

Fernando Pessoa, in Cancioneiro[15.08.1933]




sábado, 24 de novembro de 2018

Fatal o Inverno na vida...

[...]
Que são para mim as doenças que tenho  e o mal que me acontece
Senão o Inverno da minha pessoa e da minha vida?
O Inverno irregular, cujas leis de aparecimento desconheço,
Mas que existe para mim em virtude da mesma fatalidade sublime,
Da mesma inevitável exterioridade a mim,
Que o calor da terra no alto do Verão
E o frio da terra no cimo do Inverno.


Aceito por personalidade.
Nasci sujeito como os outros a erros e a defeitos,
Mas nunca ao erro de querer compreender demais,
Nunca ao erro de querer compreender só com a inteligência,
Nunca ao defeito  de exigir ao Mundo 
Que fosse qualquer cousa que não fosse o Mundo.

Fernando Pessoa, 1917 (in Poemas Completos de Alberto Caeiro)

terça-feira, 3 de abril de 2018

João Villaret - O Mostrengo de Fernando Pessoa



Quantos mostrengos nos rodeiam cada dia!...
Há que saber conseguir a coragem de enfrentá-los até ao último dia em que já nem nos interesse combatê-los!...

sexta-feira, 30 de março de 2018

"Páscoa"...



Anho do sacrifício
Que o ritual impõe,
É um balido discreto que lhe pedem
Homens e deuses, feras fraternais:
Que o perfume 
Dum lírico queixume 
Enterneça os fiéis sentimentais.



Mas o cordeiro agónico protesta.
E a paz familiar da festa
É perturbada.
Sem qualquer conivência,
A violência
Tem de ser friamente consumada.

Junta-se então,
No altar da imolação,
A pura crueldade
À impura liturgia.
E o sangue do poeta assassinado,
A correr como um verso derramado,
É um hino rubro à eterna rebeldia.

Miguel Torga, in «Câmara Ardente», 1962

domingo, 14 de janeiro de 2018

O tempo...




O tempo não é uma medida.
Um ano não conta, dez anos não representam nada.
Ser artista não significa contar - é crescer como a árvore que não apressa a sua seiva e resiste, serena, aos grandes ventos da primavera, sem temer que o verão possa vir. O verão há-de vir. Mas só vem  para aqueles que sabem esperar, tão sossegados como se tivessem na frente a eternidade.

Rainer Maria Rilke

sexta-feira, 22 de dezembro de 2017

Mãos nunca vazias...

Apesar das ruínas e da morte,
Onde sempre acabou cada ilusão,
                                                         A força dos meus sonhos é tão forte, 
                                                           Que de tudo nasce a exaltação
                                                                  E nunca as minhas mãos 
                                                                             Ficam vazias.



                                       Sophia de Mello Breyner Andresen, in Antologia Poética

sábado, 23 de setembro de 2017

L'ETE INDIEN- [JOE DASSIN ] que antecede o outono dos amores...

Luís Romero

As cores do outono quentes, vivas,
conservam todo o sabor 
que o verão emprestou...
com as tonalidades das paixões vividas
aquecem o ar, 
 dominam os cabelos do vento
e este faz-se doce ao embalar de  manso 
tudo que é já frágil 
e anseia descanso...

 A claridade é diáfana 
as nuvens rosadas ao sol poente 
e a paz chega de uma forma quente
e aprende-se a amar as últimas rosas 
não com a ânsia sem medida
de quem é jovem e voraz 
mas dos que experimentam o outono
 dum tempo outrora pleno de promessas
e se preparam a encarar com galhardia
o mistério da morte, essa eterna ferida...

Lá vai mais uma folha ao vento 
pisada, macerada,
cumprido que foi o seu ciclo de vida...

Folhas  cansadas são as que o vento leva
  de gentes que amaram
sofreram, choraram...e sossobraram 
abraçando lúcidas, conscientes, 
 o seu sonho de amor.

segunda-feira, 18 de setembro de 2017

Irritações de um engenheiro...

Corre, raio de rio, e leva ao mar
A minha indiferença subjectiva! 
Qual "leva ao mar"! Tua presença esquiva
Que tem comigo e com o meu pensar?
Lesma de sorte! Vivo a cavalgar 
A sombra de um jumento. A vida viva 
Vive a dar nomes ao que não se ativa, 
Morre a pôr etiquetas ao grande ar...
Arte com sucata

Escancarado Furness*, mais três dias
Te aturarei, pobre engenheiro preso
A sucessibilíssimas vistorias... 
E. Munch - Auto-retrato com cigarro aceso

Depois, ir-me-ei embora, eu e o desprezo
(E tu irás do mesmo modo que ias),
Qualquer, na gare, de cigarro aceso...


Soneto III in Barrow-on- Furness, última parte de " Ficções do Interlúdio"- Poemas de Álvaro de Campos,
 heterónimo de F. Pessoa


Furness* - Barrow-on-Furness, hoje cidade situada a norte de Inglaterra. Era uma aldeia pertencente ao condado de Cúmbria onde se desenvolvia então a indústria da construção de navios e onde, supostamente, o engenheiro naval Álvaro de Campos trabalharia.



sábado, 12 de agosto de 2017

«Eternidade»... por Miguel Torga

Coimbra, 4 de Outubro de 1945


A vida passa lá fora, 
Ou na pressa de uma roda,
Ou na altura de uma asa,




Ou na paz de uma cantiga; 
E vem guardar-se num verso 
Que eu talvez amanhã diga.

in  »Nihil Sibi»,1948

sábado, 15 de julho de 2017

Os girassóis na tarde...




levemente os girassóis estremecem
na tarde onde a brisa se quedou


no alto, o sol é uma brasa,
 é lume
as abelhas gigantes cansam o ar
volitando incessantes
de asas douradas pela claridade
e buscam néctar em cada flor aberta


as aves escondem-se sob as copas roçagantes
piam levemente e em surdina

o céu é de um azul ferrete
onde pequenas nuvens se destacam

no meu interior escuro e tépido
nem a sombra de um abraço
faz doer o silêncio

o calor lá de fora não permite
a saudade.

sábado, 9 de janeiro de 2016

Cântico do sacrifício...


Eu colhi rosas no jardim da vida, 
Mas tive sofrimento;
Sofri tudo porém, sem um lamento
Pois colhi rosas no jardim da vida.

Feri as minhas mãos pelos espinhos,
Vi-as chorando sangue...
Continuei de coração exangue,
Ferindo as minhas mãos pelos espinhos.

Se perfumei o íntimo da alma,
Que importa o sofrimento?
Bendita dor, bendito sofrimento,
Pois perfumei o íntimo da alma.

Norberto Ávila

sábado, 24 de maio de 2014

Estrela da Manhã


Numa qualquer manhã, um qualquer ser,
vindo de qualquer pai,
acorda e vai.
Vai.

Como se cumprisse um dever.

Nas incógnitas mãos transporta os nossos gestos;
nas inquietas pupilas fermenta o nosso olhar.
E em seu impessoal desejo latejam todos os restos
de quantos desejos ficaram antes por desejar.

Abre os olhos e vai.


Vai descobrir as velas dos moinhos
e as rodas que os eixos movem,
o tear que tece os linhos,
a espuma roxa dos vinhos,
incêndio na face jovem.

Cego, vê, de olhos abertos.
Sozinho, a multidão vai com ele.
Bagas de instintos despertos
ressumam-lhe à flor da pele.

[...]

Vai.

Lábios húmidos do amor da manhã,
polpas de cereja.
desdobra-te e beija 
em ti mesmo a carne sã.

Vai.

À tua cega passagem
a convulsão da folhagem
diz aos ecos
«tem que ser»;
o mar que rola  e se agita,
toda a música infinita,
tudo grita
«tem que ser».

Cerra os dentes, alma aflita.
Tudo grita
«tem que ser».

António Gedeão, Poesias Completas




sexta-feira, 27 de setembro de 2013

Clepsidra


Epígrafe

Murmúrio de água na clepsidra gotejante,
lentas gotas de som no relógio da torre,
fio de areia na ampulheta vigilante,
leve sombra azulando a pedra do quadrante,
 - assim se escoa a hora, assim se vive e morre...

Homem, que fazes tu? Para quê tanta lida,
tão doidas ambições, tanto ódio e tanta ameaça?  
Procuremos somente a Beleza, que a Vida
é um punhado infantil de areia ressequida,
um som de água ou de bronze e uma sombra que passa...


Eugénio de Castro (1869-1944)

segunda-feira, 23 de setembro de 2013

Poema-notícia...

João Gostoso era carregador de feira-livre e morava no morro de Babilónia num barracão sem número
    Uma noite ele chegou no Bar Vinte de Novembro
     Bebeu
     Cantou
     Dançou
     Depois se atirou na Lagoa Rodrigo de Freitas e morreu afogado.


Manuel Bandeira - Libertinagem in Obras Poéticas, 1956

quarta-feira, 18 de setembro de 2013

No meio do caminho...


No meio do caminho tinha uma pedra
Tinha uma pedra no meio do caminho


Tinha uma pedra
No meio do caminho tinha uma pedra

Nunca me esquecerei desse acontecimento
Na vida das minhas retinas tão fatigadas.
Nunca me esquecerei que no meio do caminho
Tinha uma pedra
Tinha uma pedra no meio do caminho
No meio do caminho tinha uma pedra.


Carlos Drummond de Andrade