terça-feira, 22 de agosto de 2017

MAR. MANHÃ...

16.11.1909
Suavemente grande avança
Cheia de sol a onda do mar; 
Pausadamente se balança,
E  desce como a descansar.


Tão lenta e longa que parece
De uma criança de Titã 
O glauco sonho que adormece, 
Arfando à brisa da manhã.


Parece ser um ente apenas
Este correr da onda do mar, 
Como uma cobra que em serenas 
Dobras se alongue a colear.


Unido e vasto e interminável
No são sossego azul do sol, 
Arfa com um mover-se estável
O oceano ébrio de arrebol.

E a minha sensação é nula, 
Quer de prazer, quer de pesar... 
Ébria de alheia a mim ondula
Na onda lúcida do mar. 

in Cancioneiro - Fernando Pessoa