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sexta-feira, 12 de abril de 2019

«Vidro côncavo»...



 


Tenho sofrido poesia
        como quem anda no mar. 
Um enjoo.
Uma agonia.
Sabor a sal.
Maresia.
 Vidro côncavo
a boiar.
Dói esta corda vibrante.
A corda que o barco prende
à fria argola do cais.
Se vem onda que a levante
vem logo outra que a distende.
Não tem descanso jamais. 

António Gedeão, in Poesias Completas 


*** Imagens colhidas na net.

terça-feira, 22 de agosto de 2017

MAR. MANHÃ...

16.11.1909
Suavemente grande avança
Cheia de sol a onda do mar; 
Pausadamente se balança,
E  desce como a descansar.


Tão lenta e longa que parece
De uma criança de Titã 
O glauco sonho que adormece, 
Arfando à brisa da manhã.


Parece ser um ente apenas
Este correr da onda do mar, 
Como uma cobra que em serenas 
Dobras se alongue a colear.


Unido e vasto e interminável
No são sossego azul do sol, 
Arfa com um mover-se estável
O oceano ébrio de arrebol.

E a minha sensação é nula, 
Quer de prazer, quer de pesar... 
Ébria de alheia a mim ondula
Na onda lúcida do mar. 

in Cancioneiro - Fernando Pessoa 

domingo, 17 de novembro de 2013

Liberdade...


Aqui nesta praia onde
Não há nenhum vestígio de impureza,
Aqui onde há somente
Ondas tombando ininterruptamente,
Puro espaço e lúcida unidade,
Aqui o tempo apaixonadamente
Encontra a própria liberdade.

Sophia de Mello Breyner Andresen - Mar Novo (1958)

quarta-feira, 28 de agosto de 2013

Carta de chamada...


Latitude Norte  1 de Janeiro

Meu irmão: Porque não vieste?
Ando no mar    Sou marinheiro
Mal sabes o bem que tu perdeste
Vogamos de porto em porto
como as aves de ramo em ramo
Por isso quando te chamo
ao romper do novo ano
sou mais livre e mais humano

E tu irmão absorto?

E tu irmão absorto
de fronte caída
nos mapas onde o mar é morto
e morta a vida?

Deixa os teus horizontes pequenos
e vem meu irmão e meu amigo
vem ver ao menos
o mar que trago comigo

Luís Veiga Leitão (1915) ,Ciclo de Pedras

terça-feira, 27 de agosto de 2013

Barcos pescadores...


Dormem na praia os barcos pescadores
Imóveis mas abrindo
Os seus olhos de estátua

E a curva do seu bico
Rói a solidão.

Sophia de Mello Breyner Andresen . Coral (1950)

domingo, 14 de julho de 2013

O mar


Um ser único, sem sangue.
Uma só carícia, morte ou rosa.
Vem o mar e junta as nossas vidas
e sozinho investe e reparte-se e canta
na noite no dia no homem na criatura.
A essência: fogo e frio: movimento.

Pablo Neruda, Plenos Poderes

sexta-feira, 18 de janeiro de 2013

Abyssus Abyssum...


Gosto do mar desesperado,
A bramir e a lutar;


 E gosto de um barco ainda mais ousado
Sobre esta rebeldia a navegar.

Miguel Torga, in Diário III

sexta-feira, 11 de janeiro de 2013

«Meu país desgraçado»...


Meu país desgraçado!...
E no entanto há Sol a cada canto
E não há Mar tão lindo noutro lado.
Nem há Céu mais alegre do que o nosso,
nem pássaros, nem águas...

Meu país desgraçado!...
Por que fatal engano?
Que malévolos crimes
teus direitos de berço violaram?

Meu Povo
de cabeça pendida, mãos caídas,
de olhos sem fé 
 - busca, dentro de ti, fora de ti, aonde
a causa da miséria se te esconde.

E em nome dos direitos
que te deram a terra, o Sol,  o Mar, 
fere-a sem dó
com o lume do teu antigo olhar.

Alevanta-te, Povo! 
Ah!, visses tu, nos olhos das mulheres,
a calada censura 
que te reclama filhos mais robustos!

Povo anémico e triste, 
meu Pedro Sem sem forças, sem haveres! 
 - olha a censura muda das mulheres! 
Vai-te de novo ao Mar!
Reganha tuas barcas, tuas forças
e o direito de amar e fecundar
as que só por Amor te não desprezam!

Sebastião da Gama, Cabo da Boa Esperança

sexta-feira, 10 de agosto de 2012

Paisagem...



Passavam pelo ar aves repentinas.
O cheiro da terra era fundo e amargo,
E ao longe as cavalgadas do mar largo
Sacudiam na areia as suas crinas.

Era o céu azul, o campo verde, a terra escura,
Era a carne das árvores elástica e dura,
Eram as gotas de sangue da resina
E as folhas em que a luz se descombina.

Eram os caminhos num ir lento,
Eram as mãos profundas do vento
Era o livre e luminoso chamamento
Da asa dos espaços fugitiva.

Eram os pinheirais onde o céu poisa,
Era o peso e era a cor de alguma coisa,
A sua quietude, secretamente viva,
E a sua exalação afirmativa.

Era a verdade e a força do mar largo,
Cuja voz, quando se quebra, sobe,
Era o regresso sem fim e a claridade
Das praias onde a direito o vento corre.

Sophia de Mello Breyner Andersen, Poesia I

quinta-feira, 9 de agosto de 2012

Aí, também te espero...


Ai!,
o berço da tua voz,
e esse jeito de mão que tens nas ondas,
Mar!

Quando eu cair exausto
sobre as conchas da praia e fique ali
doente e sem ninguém,
hás-de ser tu quem me trate,
quero que sejas tu a minha Mãe.

Há-de embalar-me a tua voz de berço,
pra que a febre me deixe sossegar;
e hás-de passar, ó Mar!,
pelo meu corpo em chaga,
as tuas mãos piedosas, comovidas,
pra que sintas por mim asa minhas dores
e eu sinta só o bálsamo nas feridas.

Sebastião da Gama, Serra Mãe

sábado, 28 de julho de 2012

Mar!


Mar!
E é um aberto poema que ressoa
No búzio do areal.

Ah, quem pudesse ouvi-lo sem mais versos
Assim puro,
Assim azul,
Assim salgado...
Universal,

Numa palavra só realizado.

Miguel Torga, Diário

quarta-feira, 27 de junho de 2012

Praia...


As ondas desenrolam os seus braços
E brancas tombam de bruços

Sophia de Mello Breyner Andresen, No Tempo Dividido 

sábado, 19 de maio de 2012

Balada da água do mar


O mar
sorri ao longe.
Dentes de espuma,
lábios de céu.

- Que vendes tu,rapariga,
de turvos seios ao ar?

- Vendo, senhor,água
 do mar.

- Essas lágrimas salobras,
onde te nascem, mãe?

- Choro, senhor, água 
do mar.

 - Coração, esta amargura
tão funda, donde te vem?

- Amarga muito, a água
 do mar.

O mar
sorri ao longe.
Dentes de espuma,
lábios de céu.

García Lorca

segunda-feira, 3 de outubro de 2011

Serão Palavras


Diremos prado bosque
primavera,
e tudo o que dissermos
é só para dizermos
que fomos jovens.


Diremos mãe amor
um barco,
e só diremos
que nada há
para levar ao coração.


Diremos terra mar
ou madressilva,
mas sem música no sangue
serão palavras só,
e só palavras, o que diremos.

Eugénio de Andrade, Mar de Setembro


domingo, 25 de setembro de 2011

Marinha - I

Pintura de Volengov

Do coração faço um remo.
da solidão faço um mar.
E do teu sorriso terno
a rede que hei-de lançar.

Trarei peixe? desengano?
ferida aberta? cicatriz?
- Não sei quem és. Sei que te amo!
Não sei quem sou. Sou feliz!

António Luís Moita, Teoria do Girassol

sábado, 20 de agosto de 2011

Maresia


Neste mar à minha frente
O sol repoisa e os nossos olhos dormem...

- Caem saudades mortas como chuva miúda,
Ou sobem, trémulas, como o vapor das algas,
Ou ficam, extáticas como um bafo da areia,
Calmas, sobre a paisagem,
Como um véu de cambraia deixado...

Não sei se é o calor das algas,
Se é o bafo da areia que baila,
Ou se é a chuva miúda que cai neste dia de sol
Como um véu de cambraia deixado,

Sei que me lembram um signo do zodíaco
Em boa caligrafia,
Uns signos como nem sequer eu tinha imaginado!...

E este calor que dimana da terra e nos confunde com ela,
Nos aquece as pernas de encontro à areia, numa vida exterior
Com mais sangue que a nossa e, sobretudo, cheia
Duma inconsciência que se não parece com nada,
Esta respiração pausada como as ondas, de trás para diante
Fazendo, lentas, e desfazendo
A mesma curva humaníssima e sensível,
Faz-me escrever, devagar, e com letra de menino pequeno
Sobre o chão acamado, esta palavra
AMOR.

António Pedro. ( In Aventura, nº 3)

domingo, 10 de julho de 2011

Meditação...


Tudo imaterial na praia rasa
Cheia de sol, ao fim da tarde.
Proa ao vento quebrada,
A vaga, entre rochedos, se ilumina.

É tudo imaterial, tudo neblina
Ténue que aos poucos arde,
Ao fim da tarde se desfaz, flutua,
E voo de ave desliza
Ao longe linha pura.
Tudo imaterial na praia rasa.

Aqui ninguém me vê: amo a ternura.

Ruy Cinatti, O Livro do Nómada Meu Amigo

segunda-feira, 30 de maio de 2011

Sargaceiro




É longo e pesado o engaço!
A barca vem cheia
de suor e de sargaço
e fome.
Tanto e nada!

Sargaceiro!
Limpas sargaço
do fundo deste mar
que, para ti, é baço
e não tem aquele aspecto sonhador
que nós lhe damos.
Ele, o mar...
Empresta-me o teu engaço:
há tanto que limpar!

Álvaro Feijó, («Diário de Bordo», in Os Poemas)

sábado, 8 de maio de 2010

Tristeza sem nome...




Iam de cabo em cabo nomeando
Baías promontórios enseadas;
Encostas e praias surgiam
Como sendo chamadas.

E as coisas mergulhadas no sem-nome
De sua própria ausência regressadas
Uma por uma ao seu nome respondiam
Como sendo criadas.


Sophia de Mello Breyner Andresen, Geografia

terça-feira, 18 de agosto de 2009

"Sofia"... a sabedoria

Criar um dia puro...

Que nenhuma estrela queime o teu perfil
Que nenhum deus se lembre do teu nome
Que nem o vento passe onde tu passas.

Para ti eu criarei um dia puro
Livre como o vento e repetido
Como o florir das ondas ordenadas.

Sophia de Mello Breyner Andresen [ No Tempo Dividido]