[29.10.1935]
Teus olhos entristecem
Nem ouves o que digo
Dormem, sonham, esquecem...
Não me ouves e prossigo.
Digo o que já, de triste,
Te disse tanta vez...
Creio que nunca o ouviste
De tão tua que és.
Olhas-me de repente
De um distante impreciso
Como um olhar ausente,
Começas o sorriso.
Continuo a falar
Continuas ouvindo
O que estás a pensar,
Já quase não sorrindo.
Até que neste ocioso
Sumir da tarde fútil
Se esfolha silencioso
O teu sorriso inútil.
Fernando Pessoa, in Cancioneiro


Sem comentários:
Enviar um comentário