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domingo, 17 de março de 2019

"Campainhada"



As duas ou três vezes que me abriram
A porta do salão onde está gente, 
Eu entrei, triste de mim, contente - 
E à entrada sempre me sorriram...

Mário de Sá-Carneiro, in  Poesias

segunda-feira, 17 de dezembro de 2018

Sorriso...

[29.10.1935]
Teus olhos entristecem
Nem ouves o que digo  
Dormem, sonham, esquecem...
 Não me ouves e prossigo.

Digo o que já, de triste,
Te disse tanta vez... 
Creio que nunca o ouviste
De tão tua que és.


Olhas-me de repente
De um distante impreciso
Como um olhar ausente,
Começas o sorriso.

Continuo a falar
Continuas ouvindo
O que estás a pensar,
Já quase não sorrindo.

Até que neste ocioso
Sumir da tarde fútil
Se esfolha silencioso
O teu sorriso inútil.


Fernando Pessoa,  in  Cancioneiro

sábado, 15 de julho de 2017

Os girassóis na tarde...




levemente os girassóis estremecem
na tarde onde a brisa se quedou


no alto, o sol é uma brasa,
 é lume
as abelhas gigantes cansam o ar
volitando incessantes
de asas douradas pela claridade
e buscam néctar em cada flor aberta


as aves escondem-se sob as copas roçagantes
piam levemente e em surdina

o céu é de um azul ferrete
onde pequenas nuvens se destacam

no meu interior escuro e tépido
nem a sombra de um abraço
faz doer o silêncio

o calor lá de fora não permite
a saudade.

terça-feira, 15 de junho de 2010

Vida Liceal ...em anos 50




Cap.III -Os ensaios para as comemorações de Almeida Garrett


- Ora valha-nos Deus! - gemia a Clara, com a cara mais aflita que podia arranjar - Como é que nós havemos de dizer ao Dr, Simões que a Catarina está doente? Olhem que isto...

- Então, menina, que lhe arranje uma substituta. E que não seja nenhuma de nós, credo!... E o pior é se teima em me dar "Os Olhos Negros", lá por o meu poema ser dos mais pequenos...

- Ó menina! Só te digo que a Catarina não podia ter adoecido em pior altura.

- O que vale é que depois de amanhã já deve estar fina e fresca. Isto de anginas é assim.
- Está bem, está!... Mas só quero que me digas como havemos de aturar o Simões. Ó meu Deus, o que havia de nos acontecer!...

Enquanto esperavam pelo professor Luís Simões Gomes, e pelos rapazes que colaborariam no ensaio para a festa da comemoração de Garrett, as raparigas iam-se lamentando da doença da colega.

- A Catarina já recitava aquilo bem. - opinou a Lola.

- Humm...mas para o paladar do Simões... - duvidou a Bela.

- Recitava como qualquer de nós, não estejas a desfazer, Bela! - admoestou a Clara.

Bela ia retorquir quando se ouviu barulho do outro lado do corredor e, em tropel, correndo uns após os outros, os rapazes surgiram. Cumprimentaram-se e o Zé Luís iniciou logo os seus eternos comentários e observações.

- Então a nossa amiga Catarina não veio hoje aturar o Simões? Resolveu fazer gazeta? Certas meninas são de um descaramento inaudito!...Só queria que me dissessem o que anda aquela santinha a fazer...porque nós, infelizes mortais, temos mesmo é de aturar o nosso comum inimigo dos feriados e recreios!...

- A catarina, a esta hora, desejaria antes aqui do que no lugar onde se encontra.- observou a Clara.

- Oh! Porquê? Estará por acaso na prisão? - alarmou-se comicamente o rapaz.

- Sim, talvez... Está presa à cama com anginas e 40º de febre.

- Oh! Coitada! - soaram exclamações consternadas do grupo dos rapazes.

E o Carlos Smões, que conversava com a Isabel, inquiriu: - O que foi?

- Não ouviste? - esclareceu o Jorge Manuel - A Catarina está doente, com 40 º de febre.

- Mas que tem ela? - quis saber o rapaz.

- 40º de febre - repisou o Zé Luís.

- Bolas! Quero saber que espécie de doença tem?... - impacientou-se o outro.

- Anginas, segundo a informação. Porque perguntas? Temes o contágio? - troçou o Henrique.

- Olhem que o caso é triste demais para merecer comentários jocosos - observou Isabel. Os rapazes calaram-se, um pouco interditos, e só Carlos precisou: - Pois...mas os meus colegas acham que não...

Logo depois o Zé Luís voltou à carga, agora dirigindo-se a Isabel: Vocês são mesmo muito amigas.

- Quem?...A Kaety e eu? !

- Kaety? Que Kaety?! - espantou-se o rapaz.. Isabel Maria, meio interdita, corou. Clara, atenta à conversa, riu divertida, explicando: - Nós tratamos a Catarina por Kaety, não sabia? É mais o menos o diminutivo dela em inglês, visto que ela também é assim meio alourada...

Zé Luís também riu.

- É giro.. Vou também passar a tratá-la por Miss Kaety.

- Está doido! Deus o livre! Zangava-se comigo por lhe ter dito isto!

Do lado, trocista, o Jorge Manuel não se conteve de curiosidade.

- Mas ela é assim tão terrível?

- Ainda assim, é bem menos terrível que o senhor! - Bela mostrava-se irritada e foi um coro de gargalhadas que acolheu a sua réplica. Disfarçadamente, Jorge Manuel segredou-lhe: - E a mim... acha-me assim tão terrível?... E antes que a atordoada pequena lhe pudesse dar uma resposta, riu com gosto, juntando-se aos colegas, enquanto Isabel, vermelha como um pimentão, tomava uns ares superiores de rainha ofendida nos seus brios e se encostava à parede como quem se queria pôr de parte na conversa.

Como sempre, o Dr, Simões surgiu ao fundo do corredor no seu passo esgalgado, a pasta de cabedal castanho suspensa da mão direita e a bata branca desabotoada e sempre acanhada sobre o casaco apertado, ou, ainda mais quando a usava sobre o sobretudo cinzento um tanto coçado, saudando e desculpando-se do atraso com as fórmulas costumadas, tudo isto antes de chamar, um por um, os rapazes para o ensaio como habitualmente.

Nesse dia, porém, havia uma pequena diferença: - o dr. Simões informou que os trajes para a representação das duas cenas de "Frei Luís de Sousa" haviam chegado e que se tornava necessário que os alunos os experimentassem para ver as modificações a fazer. Assim, o dr. Simões só notou a falta de Kaety quando a Isabel recitava "As minhas asas".
- Olhem lá! A Catarina Maria não veio hoje?

E foi o Zé Luís que se encarregou de responder: - Está com 40º, sr. dr.

- Com quê?...

- Sim, com 40º de febre. Anginas, segundo informação fidedigna.

- Ah! Está doente? Com anginas? Que maçada! E a representação é já...de hoje a seis dias .
E o dr. Simões mostrava-se consternado.

- Bem, sr. dr., ela amanhã, ou depois, já se deve levantar. Com as anginas...costuma acontecer assim.

- Mas é aborrecido. Bem , Maria Isabel, continua lá. E se acaso a doença da vossa colega se prolongar, um de vós terá de substituí-la.

- Mau... - fez o Zé Luís.

- Forte estopada! - resmungou por entre os dentes Jorge Manuel. E as raparigas trocaram entre si olhares compungidos.

terça-feira, 25 de maio de 2010

Mar do tempo




É tão suave ouvir o respirar
Da noite que circunda os meus cansaços
Que atrai sonhos enigmáticos e baços
Para a beleza dessa música que é a tua

Atenta espreito então o céu sem lua
E fixo o olhar exangue na senda dos espaços
Onde lucila uma estrela agónica e soturna
Na escuridão de insectos feitos astros

E olho as minhas mãos molhadas pelo mar
Naquele salgado arfar da escuridão nocturna
Plena de murmúrios dolentes e devassos
Que me encantam e envolvem como se falua
Fosse e espreitasse
O mar na tempestade
Curiosa da sua força e da sua intensidade

Então recolho a mim de novo
E no silêncio deixo que a calma
Penetre na minh' alma
Reescreva o périplo do sonho
E paute a melodia
Para poder renascer em harmonia
E saber ofertar-te rosas no amanhecer.

Sophia Guiomar, Poemetos

quarta-feira, 3 de março de 2010

Em louvor do poeta anónimo




Tinha a idade de uma flor
Em seu enleio embebida
E a viola era o seu modo
Amante de estar na vida.

No amor nascera o rio
Que o coração lhe inundava.
Nascera o rio no amor
Mas o fim não lhe enxergava.

De cada vez que tocava
No infinito se perdia
Do corpo dessa viola
Que mais amor lhe pedia.

Ficou entre nós o tempo
Em que fica uma andorinha.
Deu-nos essa primavera
Porque deu tudo o que tinha.

Foi-lhe o corpo atrás da alma
Que lhe pedia mais amor.
O seu nome ninguém sabe.
Dizem que era Trovador.

Natália Correia, Inéditos

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010

Imaginem, por Mário Crespo



Imaginem que todos os gestores públicos das setenta e sete empresas do Estado decidiam voluntariamente baixar os seus vencimentos e prémios em 10%. Imaginem que decidiam fazer isso independentemente dos resultados. Se os resultados fossem bons as reduções contribuíam para a produtividade. Se fossem maus ajudavam em muito na recuperação.

Imaginem que os gestores públicos optavam por carros 10% mais baratos e que reduziam as suas dotações de combustível em 10%.
Imaginem que as suas despesas de representação diminuíam 10% também. Que retiravam 10% ao que debitam regularmente nos cartões de crédito das empresas. Imaginem ainda que os carros pagos pelo Estado para funções do Estado tinham ESTADO escrito na porta. Imaginem que só eram usados em funções do Estado.
Imaginem que dispensavam 10% dos assessores e consultores e passavam a utilizar a prata da casa para o serviço público. Imaginem que gastavam 10% menos em pacotes de rescisão para quem trabalha e não se quer reformar. Ima ginem que os gestores públicos do passado, que são os pensionistas milionários do presente, se inspiravam nisto e aceitavam uma redução de 10% nas suas pensões. Em todas as suas pensões. eles acumulam várias. não era nada de muito dramático. Ainda ficavam, todos, muito acima dos mil contos por mês.
Imaginem que o faziam, por ética ou por vergonha. Imaginem que o faziam por consciência. Imaginem o efeito que isto teria no défice das contas públicas. Imaginem os postos de trabalho que se mantinham e os que se criavam. Imaginem os lugares a aumentar nas faculdades, nas escolas, nas creches e nos lares. Imaginem este dinheiro a ser usado em tribunais para reduzir 10% o tempo de espera por uma senença. Ou no posto de saúde para esperarmos menos 10% do tempo por uma consulta ou por uma operação às cataratas.

Imaginem remédios 10% mais baratos.

Imaginem dentistas incluídos no serviço nacional de saúde. Imaginem a segurança que os municípios podiam comprar com esses dinheiros. Imaginem uma Polícia 10% mais bem paga, 10% mais bem equipada e mais motivada. Imaginem as pensões que se podiam actualizar. Imaginem todo esse dinheiro bem gerido. Imaginem IRC, IRS e IVA a descerem 10% também e a economia a soltar-se à velocidade de mais 10% em fábricas, lojas, ateliers, teatros, cinemas, estúdios, cafés, restaurantes e jardins.

Imaginem que o inédito acto de gestão de Fernando Pinto, da TAP, de baixar 10% as remunerações do seu Conselho de Administração nesta altura de crise na TAP, no país e no Mundo é seguida pelas outras setenta e sete empresas públicas em Portugal. Imaginem que a histórica decisão de Fernando pinto de reduzir em 10% os prémios de gestão, independentemente dos resultados serem maus ou bons, é seguida pelas outras empresas públicas.

Imaginem que é seguida por aquelas que distribuem prémios quando dão prejuízo.

Imaginem que país podíamos ser se o fizéssemos.

Imaginem que país seremos se não o fizermos.

quinta-feira, 7 de janeiro de 2010

Beijinhos


Beijinhos?...
Que custam
beijinhos?!
São docinhos
Ceguinhos
Carinhos
Cheinhos
de vontade de
abraçar!...

Sophia Guiomar, Poemetos [31-08 a 01-09/2009]




quinta-feira, 22 de outubro de 2009

Juventude eterna

Não são as rugas que nos fazem velhos,
Nem o tempo quem faz envelhecer.
A alma não se marca nos espelhos,
Nem é feito de rugas o morrer.

Não se é velho enquanto por abrir
Rosas-desejos cada um tiver.
Enquanto houver promessas por cumprir
Ou nos lábios palavras por dizer...

Não é ser velho o ter passado uns dias
Sem pensarmos nos dias por passar...
Ser velho - é não ter mais alegrias
E nem sequer a esperança de as achar...

A alma não se marca nos espelhos,
Nem é feito de rugas o morrer.
... Não são as rugas que nos fazem velhos,
Nem o tempo quem faz envelhecer.

Jorge Vila, Via Latina, anos 50



sábado, 25 de julho de 2009

Recurso



Recurso

Foi um sorriso o gesto que ficou
de me desperdiçar sem desalento:
uma pequena onda, no momento
mais trágico do mar - pequena e só.

Tudo evoluiu; apenas alvo e puro
prolonga-se o momento em jogo breve
dum sorriso que ficou a quem não teve
a âncora firmada em cais seguro.

De resto, o vendaval foi amansado
perante a tempestade dum sorriso
(tempestade oculta, como um guizo
que ninguém agitou, por ser cansado).

Dentro do meu cais, desfez-se a bruma.
Um sorriso domou a tempestade.
E o mundo se jogou na imensidade
duma pequena coisa, apenas uma.

Fernanda Botelho, As Coordenadas Líricas, 1951