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domingo, 26 de abril de 2020

Canção da partida



Ao meu coração um peso de ferro
Eu hei-de prender na volta do mar.
Ao meu coração um peso de ferro...
Lançá-lo ao mar.

Quem vai embarcar, que vai degredado,
As penas do amor não queira levar...
Marujos, erguei o cofre pesado.
Lançai-o ao mar.

E hei-de mercar um fecho de prata.
O meu coração é cofre selado.
A sete chaves: tem dentro uma carta... 
- A última, de antes do teu noivado.

A sete chaves - a carta encantada!
E um lenço bordado...Esse hei-de o levar. 
Que é para o molhar na água salgada
No dia em que enfim deixar de chorar. 

 Camilo Pessanha, in Clepsidra
 
 
 
 
 
 
 
 
 

quinta-feira, 14 de março de 2019

"Vontade de dormir"...


Fios de oiro puxam por mim
A soerguer-me na poeira --
Cada um para o seu fim,
Cada um para o seu norte...
... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ...
-- Ai que saudades da morte...
... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ...
Quero dormir... ancorar... 
... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ...
Arranquem-me esta grandeza! 
-- Para que me sonha a beleza, 
Se a não posso transmigrar?

in  Poesias de Mário de Sá- Carneiro


domingo, 24 de fevereiro de 2019

O verdadeiro uso da razão




A dignidade da inteligência está em reconhecer, com desgosto próprio ou não que as leis naturais se não vergam aos nossos desejos, que o mundo existe independentemente da nossa vontade, que o sermos tristes nada prova sobre o estado moral dos astros, ou até do povo que passa pelas nossas janelas: nisto está o vero uso da razão e a dignidade racional da alma.

Fernando Pessoa [Barão de Teive]- in A Educação do Estóico


segunda-feira, 17 de dezembro de 2018

Sorriso...

[29.10.1935]
Teus olhos entristecem
Nem ouves o que digo  
Dormem, sonham, esquecem...
 Não me ouves e prossigo.

Digo o que já, de triste,
Te disse tanta vez... 
Creio que nunca o ouviste
De tão tua que és.


Olhas-me de repente
De um distante impreciso
Como um olhar ausente,
Começas o sorriso.

Continuo a falar
Continuas ouvindo
O que estás a pensar,
Já quase não sorrindo.

Até que neste ocioso
Sumir da tarde fútil
Se esfolha silencioso
O teu sorriso inútil.


Fernando Pessoa,  in  Cancioneiro

quarta-feira, 25 de julho de 2012

SOL NULO


Sol nulo dos dias vãos,
Cheios de lida e de calma,
Aquece ao menos as mãos
A quem não entras na alma!

Que ao menos a mão, roçando
A mão que por ela passe,
Com externo calor brando
O frio da alma disfarce!

Senhor, já que a dor é nossa
E a fraqueza que ela tem,
Dá-nos ao menos a força
De a não mostrar a ninguém!

Fernando Pessoa, Cancioneiro

segunda-feira, 28 de maio de 2012

domingo, 7 de agosto de 2011

Canção


Este corpo de flanela
onde o meu corpo meto,
foi ao tintureiro da cela
para o tingirem de preto.

O meu fato cinzento.

Dentro dele há tempestades,
uivo e nego, canto e berro.
Foi ao brunidor das grades
para o passarem a ferro.

O meu fato cinzento.

Sempre colado ao meu peito,
medo de morrer sozinho?
Fiz dele a cova do leito
em negro catre de pinho.

O meu fato cinzento.

Parece a minha pele verdadeira.
Ah! quando se abrirem as celas
hei-de fazê-lo bandeira
e pô-lo num mastro de estrelas.

Luís Veiga Leitão, Noite de Pedra, in Ciclo das Pedras

terça-feira, 17 de maio de 2011

Ventura



" Envolve-te em ti mesma,

ó alma triste,

talvez sem esperança haja ventura."-Antero de Quental

sábado, 5 de fevereiro de 2011

Se todo o ser ao vento...




Se todo o ser ao vento abandonamos
E sem medo nem dó nos destruímos
Se morremos em tudo o que sentimos
E podemos cantar é porque estamos
Não em sangue, embalando a própria dor
Em frente às madrugadas do amor.
Quando a manhã brilhar refloriremos
E a alma possuirá esse esplendor
Prometido nas formas que perdemos.
Aqui deposta enfim a minha imagem,
Tudo que é jogo e tudo que é passagem
No interior das coisas canto nua.

Aqui livre sou eu - eco da lua
E dos jardins, os gestos recebidos
E o teu vulto dos gestos pressentidos
Aqui sou eu em tudo quanto amei.

Não pelo meu ser que só atravessei,
Não pelo meu amor que só perdi,
Não pelos incertos actos que vivi,
Mas por tudo de quanto ressoei
E em cujo amor de amor me eternizei.

Sophia de Mello Breyner Andresen

terça-feira, 25 de maio de 2010

Quando a tristeza não sabe chorar



À memória de Adriano Pires


Hoje há alguém que está comigo
Porque a barreira da morte o libertou.
Percorrerá a meu lado
E sempre
Os caminhos do sonho e da verdade
E libertará a luz dentro de si
Desvelando-se na ternura alvinitente
Que adormece a dor, no macerar
Triste
Da alma lassa, dolente...

Vou evocá-lo ao contemplar o mar
Que tanto amava
Ou ao sentir a força do vento
Roçando bravo
Por sobre a ria que adorava
Escutando as canções da apanha do moliço
Ou olhando as proas altaneiras dos batéis
Reflectidas nas águas sujas da maré vazia -
- Inclinado sobre as águas onde o verei
A pescar sonhos com cheiro a maresia...

E vê-lo-ei a olhar o longe, sempre mais longe,
Com aquele espanto de quem não pode nunca
Conceber partir numa aventura
Porque sabe ser pura loucura
Deixar o mundo da infância e as raízes
Profundas e ternas do lar, da paisagem,
Da mulher amada e dos rebentos felizes...

Ó meu amigo, com nome de filósofo,
A quem polia levemente os versos,
A quem perscrutava o sentir
No vai-vém das sensíveis rimas -
- Desabafos poéticos de uma vida...
Vida de amor à mãe, à terra, à mulher querida
E aos amigos que sempre fez por merecer,

Não te digo adeus, não, porque a partida
Nada representa para quem soube, como tu, viver.

Hoje o dia foi triste. Amanhã...
,...amanhã chorarei.
Esta dor, em choro desatada,
Será lembrança lenta
Perene e condenada,
Recolhida num cofre que criei.

[23/24 de maio de 2010]







...

sábado, 27 de fevereiro de 2010

Bruma no horizonte




Horas. Nove...Dez...
Que importa?
Veio o tempo
Bater sempre à minha porta
Sem que lhe desse permissão
De entrar.

Ficou.
E a mágoa que deixou
Conta-se nos minutos
Que encontrou
No tecer da vida
Por passar.

Sophia Guiomar - Poemetos [10-09-2005}

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010

Vento triste



Meu coração triste, meu coração ermo,
Tornado a substância dispersa e negada
Do vento sem forma, da noite sem termo,
Do abismo e do nada!

Fernando Pessoa

segunda-feira, 16 de novembro de 2009

Buscando o impossível


[...]

É subir, é subir além dos céus
Que as nossas almas só acumularam,
E prostrados a rezar, em sonho, ao Deus
Que as nossas mãos de auréolas lá douraram.

É partir sem temor contra a montanha
Cingidos de quimera e de irreal;
Brandir a espada fulva e medieva,
A cada hora acastelando em Espanha.

É suscitar cores endoidecidas,
Ser garra imperial enclavinhada,
E numa extrema-unção d' alma ampliada,
Viajar outros sentidos, outras vidas.

Ser coluna de fumo, astro perdido,
Forçar os turbilhões aladamente,
Ser ramo de palmeira, água nascente
E arco de oiro e chama distendido...

Asa longínqua a sacudir loucura,
Nuvem precoce de subtil vapor,
Ânsia revolta de mistério e olor,
Sombra, vertigem, ascensão - Altura!

E eu dou-me todo neste fim de tarde
À espira aérea que me eleva aos cumes.
Doido de esfinges o horizonte arde!...
Mas fico ileso entre clarões e gumes!...

Miragem roxa de nimbado encanto -
Sinto s meus olhos a volver-se em espaço!
Alastro, venço, chego e ultrapasso;
Sou labirinto, sou licorne e acanto.

Sei a distância, compreendo o Ar;
Sou chuva d' oiro e sou espasmo de luz,
Sou taça de cristal lançada ao mar;
Diadema e timbre, elmo real e cruz...

O bando das quimeras longe assoma...
Que apoteose imensa pelos céus!
A cor já não é cor - é som e aroma!
Vêm-me saudades de ter sido Deus...

*
Ao triunfo maior, avante pois!
O meu destino é outro - é alto e é raro.
Unicamente custa muito caro:
A tristeza de nunca sermos dois...

Paris, Fevereiro de 1913

Mário de Sá-Carneiro





sábado, 14 de novembro de 2009

Canção de vida


Não te fies do tempo nem da eternidade
que as nuvens me puxam pelos vestidos,
que os ventos me arrastam contra o meu desejo!
Apressa-te, amor, que amanhã eu morro,
que amanhã morro e não te vejo!
Não demores tão longe, em lugar tão secreto,
nácar de silêncio que o mar comprime,
ó lábio limite do instante absoluto!
Apressa-te, amor, que amanhã eu morro,
que amanhã morro e não te escuto!
Aparece-me agora que ainda reconheço
a anémona aberta na tua face
e em redor dos muros o vento inimigo...
apressa-te, amor, que amanhã eu morro,
que amanhã morro e não te digo...

Cecília Meireles







quinta-feira, 29 de outubro de 2009

Intimidade


Vieste. Abri-te feliz a porta da minha intimidade
Para um amor que nasceu da música das palavras
No carinho que brotou por um desconhecido...

Só não sei porque partiste à pressa
Com medo do meu amor e de procurar-te
Talvez no gelado vento
Do meu sofrimento.

No ar pairou apenas o teu cheiro
E a cruel necessidade de varrer,
Ainda que com doçura,
Imensa ternura
E uma secreta mágoa,
O pó fininho
Impresso
No chão escuro...
Eco longínquo
E manso
Dos teus passos.

Sophia Guiomar, Av. 18-12-2008



quinta-feira, 8 de outubro de 2009

Mágoa


Mágoa

E toda a vida esperei
Busquei
Achei
Beijei
Chorei
Não reconheci
Tão pouco esqueci
E no amálgama do horizonte
Não encontrei fonte
Nem água
Que fizesse a ponte
Para além da mágoa

M. Silva [08-10-2009]



quarta-feira, 16 de setembro de 2009

Dias outonais


Monótonos correm os dias dum fim de verão citadino em que o sol brilha sempre, ainda dá calor e os espaços do tempo parecem infinitos como uma ténue linha sobre a água parada dum lago limpo e sem vida. Um ar morno compadece-se suavemente da natureza que ensandeceu sob o calor tórrido, quase líquido, de metal em fusão, do astro rei que tanto tem o poder de dar a vida quanto de destruí-la sem piedade. E no interior da cidade, entre os prédios feios e deselegantes, um espécie de silêncio, entrecortado de vagos rumores de motor,de passos nas calçadas e de vozes abafadas, ressoa como um suspirar de fim de dia.
Há no ar parado das pessoas que passam um desespero mudo, entranhado, resultante talvez de férias fugidias, frustrantes, desejadas ou não gozadas. Já nem se dá por que um novo ano escolar começou, porque as escolas ficam fora da vida da cidade: as crianças e jovens raramente circulam a pé e em buliçosos magotes como outrora, privadas dos passeios e calçadas, apinhadas agora em veículos pesados ou conduzidas nos automóveis particulares de família ou conhecidos. Tudo o que borbulhava e estuava de vida parece ter-se plasmado no tempo do que é adulto e cinzento, cinzento e adulto.
Nos bancos dos jardins pousam, na tarde morna, as pombas que em vão esvoaçam à procura de alimento. Há uma praça larga que a maioria dos passantes atravessa quase em passo de corrida sob as tílias que se desfazem lentamente das folhas de um verde acinzentado que desbotou em tons suaves de amarelo. A sombra que foi fresca e desejada torna-se quase gélida se o vento norte sopra.
Não apetece deambular pela cidade - não tem vida. A vida pasmou nos bairros e fugiu das calçadas, das ruas, dos passeios. As pessoas arvoram um ar triste ou compenetrado agressivo ou indiferente. Caminha-se por necessidade, vive-se por viver, olha-se por olhar. Fadigas inconfessáveis pairam como pó entorpecente e há o rumor surdo que tudo orquestra: as pessoas e os raros bichos que se atrevem por ali a deambular, a atravessar as ruas - é o barulho surdo de autómatos, que se arrastam sobre as rodas de borracha, verdadeiramente os únicos que transitam e mostram alguma energia.
Os veículos são os habitantes citadinos privilegiados nas ruas dos dias outonais. Ditos ao serviço das pessoas fazem melhor que isso - substituem-nas e promovem a asfixia do ar envolvente.
A poesia do outono lê-se olhando o chão não varrido das folhas caídas, entrelaçadas com o lixo urbano, raramente biodegradável.

domingo, 23 de agosto de 2009

Paisagens...


Paisagens...

Paisagens quero-as comigo.
Paisagens, quadros que são...
Ondular louro do trigo,
Faróis dos sóis que sigo,
Céu mau, juncos, solidão...

Uma pela mão de Deus,
Outras pelas mãos das fadas,
Outras por acasos meus,
Outras por lembranças dadas...

Paisagens...Recordações.
Porque até o que se vê
Com primeiras impressões
Algures foi o que é,
No ciclo das sensações.

Paisagens...Enfim, o teor
Da que está aqui é a rua
Onde ao sol bom do torpor
Que na alma se me insinua
Não vejo nada melhor.

Fernando Pessoa, 08-03-1931 [Poesias Coligidas/ Inéditas 1919-1935]



sábado, 25 de julho de 2009

Tristeza


Cansaço

Estás triste, meu coração,
E tão cansado
Esse querer não te leva
A nenhum lado
E quem sou eu
Afinal
P'ra to dizer

Catarina Álvares, Ainda com Lágrimas, 05/2009