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quarta-feira, 26 de março de 2014

Luar


Apenas o luar chegou,
desfez-se em asas no ar.
E toda a noite levou
a regressar devagar...

Em noites alvas, de lua,
não há nudez com vergonha.
À luz do luar, o barro
é o mármore com que sonha.

À luz do luar, as aves
nocturnas,breve, enlanguecem
e, no seu crepúsculo da sombra,
mortas de sonho adormecem...

Os silêncios do luar são
aléns de notas agudas,
são gritos paralisados
em rictos de bocas mudas!

O luar rouba ao escuro
o que de dia é segredo.
À luz do luar podemos
ver respirar o arvoredo...

Canção ouvida ao luar
não terá ritmos perdidos
 - é som vivendo no olhar
- luz que fica nos ouvidos.

Edmundo de Bettencourt (1899-1973)

domingo, 27 de outubro de 2013

O diamante e a luz...


 - Tenho só o meu peso em luz - dizia o diamante.
- É verdade , disse a luz.
Porém tornamo-nos pesados ,
 muito mais pesados do que o dinheiro 
quando nas mãos dos negociantes.

Maurice Carême, poèmes pour petits enfants- tradução livre

sexta-feira, 1 de março de 2013

PERPLEXIDADE


Luminosa era a hora que passava
E breve o sinal que nos fazia.
Mas como um não sei quê nos demorava
A hora que passava ia vazia.

Que aceno levaria a nossa vida
Um pouco mais além? - Hesitantes
Invocadores de céus! Constantes
Amadores da terra estremecida.

Não vamos nem ficamos todavia.
A uma vaga saudade nos prendemos
Entre a pedra do chão e a noite fria
Entretidos a amar o que não temos.

João Maia, Um Halo de Solidão

quarta-feira, 25 de abril de 2012

"Liberdade"


28 de Agosto de 1975

 - Liberdade, que estais no céu...
Rezava o padre-nosso que sabia,
A pedir-te, humildemente,
O pão de cada dia.
Mas a tua bondade omnipotente
Nem me ouvia.

- Liberdade, que estais na terra...
E a minha voz crescia
De emoção.
Mas um silêncio triste sepultava
A fé que ressumava 
Da oração.

Até que um dia, corajosamente,
Olhei noutro sentido, e pude, deslumbrado,
Saborear, enfim,
O pão da minha fome.
- Liberdade, que estais em mim,
Santificado seja o vosso nome.

Miguel Torga, DiárioXII

sábado, 1 de outubro de 2011

Matinalmente

Que ronda matinal,
que luz tão jovem
treme e se demora
nos ramos altos,
e já distante
nem lembra que poisou?

Eugénio de Andrade, Mar de Setembro