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quarta-feira, 27 de março de 2019
terça-feira, 5 de março de 2019
segunda-feira, 24 de março de 2014
Íntima...
Hora crepuscular, pálida e triste...
No luxuoso salão, como um desmaio,
O sol, pela janela que entreabriste,
Dizia-nos adeus no último raio.
Ficámos um momento extasiados,
Vendo as glórias do poente moribundo,
E os nossos pensamentos enlaçados
Fugiam na visão de um outro mundo.
Os lábios nem de leve se agitavam,
Comprimindo suspiros inefáveis,
Mas quando os nossos olhos se cruzavam
Faziam confidências adoráveis.
E assim ficámos deliciosamente
Sem escutar, na mística abstracção,
O movimento isócrono e plangente
Dum antigo relógio de salão.
Caía a noite, no silêncio amigo,
Do céu profundo como azul ferrete;
Deram seis horas, e o relógio antigo
Fez ouvir um gracioso minuete.
E aqueles sons um eco despertaram,
Que nos encheu de angústia e de saudade...
- A saudade dos tempos que passaram,
A vaga nostalgia de outra idade...
E nesses largos sonhos impolutos,
Que daríamos nós, Alma insofrida,
Para imobilizar esses minutos
Que nunca se repetem nesta vida?!
António Feijó (1859-1917), in Bailatas
sábado, 1 de outubro de 2011
Matinalmente
Que ronda matinal,
que luz tão jovem
treme e se demora
nos ramos altos,
e já distante
nem lembra que poisou?
Eugénio de Andrade, Mar de Setembro
segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011
Serenidade

Hoje há cada vez mais espíritos descrentes e desesperados que atribuem aos progressos da técnica, e ao instrumental prodigioso de que dispõe a vida moderna, as culpas de todos os malefícios de que sofremos.
Aqui surge então um tentativa de dar e receber lições de fé transcendente, de uma espécie de atenção orante, a apontar caminhos pelos quais nos poderemos libertar da descrença e do desespero.
Não existe incompatibilidade entre o mundo moderno e o de antigamente, aquele criado por Deus e posto â disposição do homem para que dele disfrutrasse ao máximo. Simplesmente, o homem sempre persistiu no erro fatal de o considerar hostil, inimigi da sua felicidade, julgando dever seu modificá-lo, violentá-lo, destruí-lo mesmo, para o adaptar às suas supostas necessidades reais.
Desse absurdo e nefasto processo de compreender e estar no mundo resultam todas as calamidades artificiais que sobre ele se abateram ao longo da História. Calamidades tais que, nos tempos que correm, atingiram o grau máximo de absurdez, eliminando todas as possibilidades de defesa, mergulhando o ser humano numa série permanente de conflitos desastrosos, desde a frustração individual e o desentendimento social à guerra entre grupos e facções.
E sempre houve guerra . E sempre houve frustração..
Então donde o problema do desespero de hoje e da descrença generalizada?
domingo, 18 de abril de 2010
Gato branco sob o céu

O céu tem ilhas de azul e as nuvens escurecidas e pesadas de água estão orladas por fitas claras de luminosidade.
...E, de vez em quando, a chuva cai em bátegas grossas e geladas que fazem um barulho rítmico que ecoa sobre os telhados e parece que se cola às vidraças.
No entanto, é uma manhã de Abril, uma daquelas manhãs da outrora Primavera, que agora só surge em breves lapsos de memória.
As flores dos pinheiros derramam o pólen molhado e pegajoso ao vento e parece sorrirem por entre o verde-negro das carumas que espetam o ar frio.
No solo,em montes cinza e branco, florescem as giestas E os brotos dos carvalhos oferecem aos olhos carentes de amplidão a maravilha dum verde tenro orlado a rosa levemente acastanhado.
E eu...sinto-te perto de mim.
domingo, 23 de agosto de 2009
Paisagens...

Paisagens...
Paisagens quero-as comigo.
Paisagens, quadros que são...
Ondular louro do trigo,
Faróis dos sóis que sigo,
Céu mau, juncos, solidão...
Uma pela mão de Deus,
Outras pelas mãos das fadas,
Outras por acasos meus,
Outras por lembranças dadas...
Paisagens...Recordações.
Porque até o que se vê
Com primeiras impressões
Algures foi o que é,
No ciclo das sensações.
Paisagens...Enfim, o teor
Da que está aqui é a rua
Onde ao sol bom do torpor
Que na alma se me insinua
Não vejo nada melhor.
Fernando Pessoa, 08-03-1931 [Poesias Coligidas/ Inéditas 1919-1935]
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