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quinta-feira, 11 de julho de 2019

**Ramblin' Rose** - Acker Bilk

                         

Um sorriso para Cibele

Aqui não há nada, Cibele*,
A não ser uma alameda estreita
com renques de flores à esquerda e à direita.

As flores são daquelas de que eu não gosto, Cibele.
Pretensiosas.
Zínias, dálias, crisântemos, margaridas e rosas.
As flores de que eu gosto são das que ninguém planta nem semeia,
daquelas que a gente passa e diz:« Olhe, faz-me o favor.
sabe-me dizer como se chama esta flor?»

Não gosto delas, não,
mas à falta de melhor, Cibele,
é nelas que cevo a minha solidão.

Todas as manhãs, quando aqui passo para as ver
acaricio-as à flor da pele
e balbucio as palavras que ficaram por dizer.

Assim se vai passando o tempo, Cibele.

António Gedeão, in Poesias Completas

Cibele* - deusa romana da natureza selvagem, da fertilidade, da criação.

terça-feira, 21 de maio de 2019

Flores e Primavera



Entre o orgulho espaventoso do antúrio  e a simplicidade humilde do malmequer nunca tive dúvidas: prefiro o malmequer!

Ele ergue a corola ao Sol  pleno, acolhe os insectos com afecto e deixa-os viver no seu cálice amarelinho, em conforto e segurança. É na cor e aroma acre destas flores  tão singelas que repousa, afinal, a frescura de cada Primavera - a que permanece no tempo como a mais bela das recordações.  
  
 




terça-feira, 5 de março de 2019

"Árvores nuas"


Quando as mãos carinhosas de outro sol
seu corpo agreste enfeitem novamente,
que será já dos ventos que as despiram?

Pobres ventos sem alma que as despiram!


Sebastião da Gama, in Cabo da Boa esperança

domingo, 3 de fevereiro de 2019

Aventurança...



Ver o mundo de baixo, como um céu 
Onde se há-de subir;
Onde a vida nasceu
E onde tem, afinal, de se cumprir.

 Erguer os olhos à divina altura
De uma leira de terra semeada;
À imensidão da lura
Onde cresce a ninhada.

 Ver astros, nuvens, tempestades, mitos, 
Onde há luas, quimeras, ambições, desejos; 
Onde há gritos
E beijos. 
  
Miguel Torga, in Libertação,-1944



sábado, 5 de janeiro de 2019

Mês Puro



Sol pleno de janeiro; transparência gelada, desnudante.
De repente todas as nuvens se dissipam. No matagal das colinas 
obscurecido ainda pelas grandes chuvas sobe
o fumo azul dos pastores. E lá ao fundo as cadeias de montanhas
de um azul exclusivo - o azul supremo. Nesta paisagem
vasta e límpida - diz ele - não há lugar para outra cor,
 excepto o vermelho ínfimo do galo que estrangularam
sobre a pedra das fundações. Foram as suas palavras.
Assim se referia
ao movimento de dois dedos que descobriam
um ombro nu, uma ferida, uma fonte ou um sonho.

[Yannis Ritsos- poeta grego;1909-1990]


Tradução de Eugénio de Andrade, in Trocar de rosa

quinta-feira, 3 de janeiro de 2019

Quando a geada cai...


 Nas noites de inverno, quando a geada cai
Nem sequer se ouve o ladrar de um cão;
Por baixo do céu enorme e luminoso 
  A lua, hirta como um pedaço de metal,
Brilha, gélida e imóvel.
Sucede, porém , por vezes, ouvir-se
Um cão que, não se sabe porquê,
 Uiva longe, muito ao longe, 
Lá no fundo, sob a lua indiferente, 
Como se o som  subisse  do fundo do inferno
Quando a geada cai, nas noites de inverno.

[Tradução livre do poema de Maurice Carême, Quand la nuit gèle]


segunda-feira, 26 de novembro de 2018

A filosofia sobre as cousas...


Todas as ideias que há sobre a natureza
Nunca fizeram crescer uma erva ou nascer uma flor.
Toda a sabedoria a respeito das cousas
Nunca foi cousa em que pudesse pegar como nas cousas;


Se a ciência quer ser verdadeira,
Que ciência mais verdadeira que a das cousas sem ciência?


Fecho os olhos e a terra dura sobre que me deito
Tem uma realidade tão real que até as minhas costas a sentem.
Não preciso de raciocínio onde tenho espáduas.

Fernando Pessoa[29/05/1918] in Poemas Completos de Álvaro de Campos

sábado, 31 de março de 2018

Ainda é tempo de frio...

Quando está frio no tempo do frio, para mim é como se estivesse agradável,
Porque para o meu ser adequado à existência das cousas
O natural é o agradável só por ser natural.

*
Aceito as dificuldades da vida porque são o destino,
Como aceito o frio excessivo no alto do Inverno - 
Calmamente, sem me queixar, como quem meramente aceita,
E encontra uma alegria no facto de aceitar -
No facto sublimemente científico e difícil de aceitar o natural inevitável.
*
Que são para mim as doenças que tenho e o mal que me acontece
Senão o Inverno da minha pessoa e da minha vida?
O Inverno irregular, cujas leis de aparecimento desconheço,
Mas que existe para mim em virtude da mesma fatalidade sublime,
Da mesma inevitável exterioridade a mim,
Que o calor da terra no alto do Verão
E o frio da terra no cimo do Inverno.
*
*
Aceito por personalidade.
Nasci sujeito como os outros a erros e a defeitos,
Mas nunca ao erro de querer compreender demais,
Nunca ao erro de querer compreender só com a inteligência,
Nunca ao defeito de exigir do Mundo
Que fosse qualquer cousa que não fosse o Mundo.
 
Fernando Pessoa, in Poemas Completos de Alberto Caeiro 


domingo, 29 de outubro de 2017

Das cinzas da nossa memória...

Das cinzas da nossa memória...

há momentos que só poetas 

conseguem fazer reviver...

ou  os artistas 
que manipulam cores, tons, 
imagens que amaram, 
aconchegando-as no âmago de sentidos
sempre despertos
 para o perene enamoramento do mundo 
em que apareceram e evoluíram.



Oh, a frescura intensa da manhã,
Batendo, lado a lado, toda a estrada! 
- Inda há pouco apanhei uma braçada
De alfazema florida, ingénua e sã.

Abre no céu a fúlgida romã 
Que em beijos de oiro se desfaz, cansada,
Oh, como eu sinto, agora remoçada,
A minha fé tranquila de cristã...

Nos silvados despontam as amoras,
Começa, ao longe, a vibração das noras.
Todo o campo se alegra e se ilumina!

Passam pardais a grazinar em bando,
Um rebanho, um pastor, de quando em quando,
- E cheira a mato, a frutos, a resina...

Virgínia Vitorino






terça-feira, 15 de agosto de 2017

"Visão"... por Fernando Pessoa


Há um país imenso mais real
Do que a vida que o mundo mostra ter
Mais do que a Natureza natural
À verdade tremendo de viver.
  

Sob um céu uno e plácido e normal
Onde nada se mostra haver ou ser
Onde nem vento geme, nem fatal 
A ideia de uma nuvem se faz crer,


Jaz - uma terra não - não há um solo
Mas estranha, gelando, em desconsolo
À alma que vê esse país sem véu,


Hirtamente silente nos espaços
Uma floresta de escarnados braços 
Inutilmente erguidos para o céu.

Fernando Pessoa, in Cancioneiro

terça-feira, 15 de julho de 2014

Cores do verão...

são as cores fortes do verão incandescente 
que martirizam folhas, obrigam a brotar as flores
e cruelmente as pintam de morte e sequidão
numa paleta de ocres e castanhos de mel

a temperatura  sobe e o ar tremula
e  a natureza baqueia num sufoco angustiado
e treme no horror do incêndio
pelo só contacto de uma palha seca
 beijada pelo sol


quarta-feira, 26 de março de 2014

Luar


Apenas o luar chegou,
desfez-se em asas no ar.
E toda a noite levou
a regressar devagar...

Em noites alvas, de lua,
não há nudez com vergonha.
À luz do luar, o barro
é o mármore com que sonha.

À luz do luar, as aves
nocturnas,breve, enlanguecem
e, no seu crepúsculo da sombra,
mortas de sonho adormecem...

Os silêncios do luar são
aléns de notas agudas,
são gritos paralisados
em rictos de bocas mudas!

O luar rouba ao escuro
o que de dia é segredo.
À luz do luar podemos
ver respirar o arvoredo...

Canção ouvida ao luar
não terá ritmos perdidos
 - é som vivendo no olhar
- luz que fica nos ouvidos.

Edmundo de Bettencourt (1899-1973)

sexta-feira, 7 de março de 2014

A íbis...


A íbis, a ave do Egipto
Pousa sempre sobre um só pé
O que é
Esquisito:
É uma ave sossegada
Porque assim não anda nada.

Fernando Pessoa

domingo, 2 de fevereiro de 2014

Sítio...


Sobre el monte pelado
un calvario.
Agua clara
y olivos centenarios.
Por las callejas
hombres embozados,
y en las torres
veletas girando.
Eternamente
girando.
! Oh pueblo perdido
en la Andalluía del llanto!

F. García Lorca

quinta-feira, 18 de julho de 2013

Nasce...


Aqui cheguei, aos limites
onde não é preciso falar,
tudo se aprende com o tempo e o oceano,
a lua aparecia
com as suas linhas prateadas
e aos poucos desfazia-se a sombra
com um golpe de onda
e na varanda do mar o dia
abre as asas, nasce o fogo
e tudo continua azul como amanhã.

Pablo Neruda, Plenos Poderes


domingo, 12 de maio de 2013

Primavera que passa... em vão


Primavera que Maio  viu passar
Um bosque de bailados e segredos
Embalando no anseio dos teus dedos
Aquela misteriosa maravilha
Que à transparência das paisagens brilha.

Sophia de Mello

terça-feira, 22 de maio de 2012

A árvore...


(...) " Mas apesar das alegrias, apesar dos bons negócios e dos grandes passeios todos eles se lembravam com saudade da velha árvore.
 - Como era alta e bela! - diziam.
- Como a sua sombra era perfumada!
- Como era doce e leve o sussurrar da brisa nas suas folhas!
- Como a sua copa era redonda e bem formada!
- Como as suas folhas eram bem desenhadas!
- Como era tão suave a frescura debaixo dos seus ramos nas manhãs de Verão!
 E assim, entre palavras e pensamentos, a árvore nunca era esquecida."

Sophia de Mello Breyner, in " A Árvore"

terça-feira, 13 de dezembro de 2011

Chove...


Chove, é o deserto, o lume apagado,
que fazer destas mãos, cúmplices do sol?...
Eugénio de Andrade, Matéria solar

segunda-feira, 14 de novembro de 2011

Desejar...


Podemos ter tudo o que desejamos,
se o desejarmos desesperadamente.
Temos de o desejar com uma exuberância
que nos atravesse a pele
e se una à energia que criou o mundo.
Sheila Graham

quarta-feira, 2 de novembro de 2011

Preparar o futuro...





Mesmo que eu soubesse de certeza que o mundo acabaria



amanhã,



plantaria uma macieira ainda hoje.

Martinho Lutero (1483-1546)




macieira