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terça-feira, 21 de maio de 2013

«Do outro lado»...



«Também eu já me sentei algumas vezes às portas do crepúsculo, mas quero dizer-te que o meu comércio não é o da alma, há igrejas de sobra e ninguém te impede de entrar. Morre se quiseres por um deus ou pela pátria, isso é contigo; pode até acontecer que morras por qualquer coisa que te pertença, pois sempre pátrias e deuses foram propriedade apenas de alguns, mas não me peças a mim, que só conheço os caminhos da sede, que te mostre a direcção das nascentes.»


Eugénio de Andrade, in Memória de Outro Rio

quinta-feira, 31 de janeiro de 2013

Seca...


Dois anos de seca
vividos
como só Deus sabe!

Vagueiam pela cidade
esqueléticas crianças.
Chegaram de fora
dos campos onde outrora
havia
a harmonia
de plantas exuberantes,
a promessa da fartura!

Pedem tostões pelas ruas
as suas
frágeis vozinhas
musicais.
Seus olhos tristes
cobertos
dessa expressão precoce de renúncia
namoram sacos abertos
do pirão tentador
que há nas lojas à venda...

As mulheres e os homens
também têm
a mesma tristeza infantil
no olhar pasmado...

Parecem bonecos macabros
e causam dó
os petizes de meses
com vida só
nos lábios infatigáveis
que chupam vazias tetas maternais,
cada vez mais
com mais sofreguidão...

Os seios secos das mães
amamentam ainda!

Jorge Barbosa, Ambiente


segunda-feira, 10 de outubro de 2011

Sobre outros lábios


Eu crescia para o verão.
para a água
antiquíssima da cal
crescia violento e nu.

Podiam ver-me crescer rente ao vento,
podiam ver-me em flor,
exasperado e puro.

À beira do silêncio,
eu crescia para o ardor
calcinado dos cardos
e da sede.

Morre-se agora
entre contínuas chuvas,
os lábios só lembrados
de um verão sobre outros lábios.

Eugénio de Andrade, Obscuro domínio

domingo, 9 de outubro de 2011

Parágrafos da sede


Animal do deserto, o sexo. Expulso da alegria, Que procura ainda, no território da sede? Outra boca, mordendo a poeira? A língua do sol, entre a cegueira e o cio? A semente do linho?
Animal do deserto, marrando contra o muro.

Eugénio de Andrade, Memória doutro rio