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domingo, 3 de março de 2019

A propósito de maus-tratos...

O luar quando bate na relva
Não sei que cousa me lembra...
Lembra-me a voz da criada velha
Contando-me contos de fadas. 


E de como Nossa Senhora vestida de mendiga 
Andava à noite nas estradas
Socorrendo as crianças maltratadas...

Se eu já não posso crer que isso é verdade,
Para que bate o luar na relva? 

Fernando Pessoa/ Obra Poética/ Ficções do Interlúdio/ Poemas Completos de Alberto Caeiro

quinta-feira, 31 de janeiro de 2013

Seca...


Dois anos de seca
vividos
como só Deus sabe!

Vagueiam pela cidade
esqueléticas crianças.
Chegaram de fora
dos campos onde outrora
havia
a harmonia
de plantas exuberantes,
a promessa da fartura!

Pedem tostões pelas ruas
as suas
frágeis vozinhas
musicais.
Seus olhos tristes
cobertos
dessa expressão precoce de renúncia
namoram sacos abertos
do pirão tentador
que há nas lojas à venda...

As mulheres e os homens
também têm
a mesma tristeza infantil
no olhar pasmado...

Parecem bonecos macabros
e causam dó
os petizes de meses
com vida só
nos lábios infatigáveis
que chupam vazias tetas maternais,
cada vez mais
com mais sofreguidão...

Os seios secos das mães
amamentam ainda!

Jorge Barbosa, Ambiente


quarta-feira, 18 de abril de 2012

"Puericultura em Chão Pobre"...

Lisboa,12 de Maio de 1948

Há quem diga que são rosas,
Mas não são.
Não há rosas andrajosas
Em botão.

Imagem, mesmo que fosse,
Não servia.
O amargo não é doce
Nem sequer na fantasia.


Chamem-lhes pois pelo nome,
Pelo seu nome infeliz
De seres humanos com fome
Na raiz.

Miguel Torga




sábado, 22 de maio de 2010

Ser criança




Criança que passas,
Contente e ladina,
Suspiras com graça,
Tens voz cristalina,
Após ti deixaste
Um sopro de amor;
Decerto aspiraste
Colher uma flor,
Gentil, bonitinha,
De rosto rosado,
Como uma andorinha
Em voo folgado,
Que traz a saudade
Espalha a alegria;
Jeitos de ansiedade
E melancolia...
Criança que passas,
Tão bela e risonha,
Sorris à desgraça...
E a vida sonha
Pousar nuns cabelos
Só beijos garridos,
Prender-te nos elos
De prados floridos.
Linda criancinha
De rosto fagueiro,
Escondendo asinha
Um riso brejeiro...
E a vida que corre -
- Tu sempre sonhando -
Um beijo que morre...
E tu caminhando...
E se a tua idade
Traz risos e cor,
Ignora a ansiedade,
Semeia calor!
Escuta a lição
Das rugas marcadas
Na fechada expressão
Dum rosto apontadas.
Criança crescida,
Mocidade em flor,
Não esperes da vida
Só sonhos de amor!

Sophia Guiomar, Poemetos, [29-10-1958]

segunda-feira, 28 de dezembro de 2009

Menina do Natal


Durante anos, eu fui menina do Natal por amor às minhas crianças e também pela lembrança de ter sido menina sem natais de ternura para recordar. Não queria que as crianças da minha responsabilidade se recordassem de natais sem amor ou sem calor, sem prendas, sem presépio, sem árvore com mil bolinhas e muitas luzinhas que piscassem e sem muitos livros que as fizessem sentir vontade de sonhar. E era menina, mais menina do que elas, quando me quedava sozinha, sentada na alcatifa da sala, olhando a maravilha da árvore de que sentia desprender-se sempre uma suave magia que parecia consolar a ausência do abraço dum carinho há muito tempo perdido, ou nunca sentido, ou depois não consentido.
Já não sei hoje se continuei a ser menina do Natal, porque as minhas crianças foram crescendo e partiram para o mundo, ainda que regressem até junto de mim em cada nova data marcada para Natal. E sempre me preocupo em proporcionar-lhes a melhor festa de Natal que me é possível: escolho a ementa, os vinhos, as prendas, decoro a árvore e a casa, não esqueço o presépio e as luzinhas que piscam, preparo os quartos e aqueço a casa para que não sintam nunca os pés ou as mãos gelados e deixo-os circular sem os obrigar a marcarem presença junto de mim, como meus pais fizeram, criando-me a vontade de ficar sempre que possível longe, mesmo que tivesse de optar por ficar sozinha, mesmo que me visse obrigada a festejar na solidão todos os dias de Natal e todas as passagens de ano, todos os primeiros dias de ano novo e, por fim, todos os outros dias do novo ano porque esses eram depois meus e das minhas crianças, dos nossos pequenos prazeres e das nossas calmas alegrias, ouvindo os ventos fortes da Primavera, a chuva que caía sob os candeeiros das ruas nas noites de Inverno, o som do oceano imenso nos dias do glorioso sol de Verão, o chape-chape nocturno das ondas contra o molhe quando a luz do luar prateava de mistério um passeio pelo paredão à beira-mar... Todos esses momentos foram para mim magia de natal, daquele natal sem data marcada, mas que sempre acontecia.
... Porque menina do natal ... vou deixar de ser um dia.