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quinta-feira, 4 de julho de 2019

"Amargo estilo novo"


Tudo é fácil quando se está a brincar com a flor entre os dedos,
quando se olham nos olhos as crianças,
quando se visita no leito o amor convalescente.
É bom ser flor, criança ou ser doente.
Tudo são terras donde brotam esperanças,
pétalas, tranças,
a porta do hospital aberta à nossa frente.

Desde que nasci que todos me enganam, 
em casa, na rua, na escola, no emprego, na igreja, no quartel, 
com fogos de artifício e fatias de pão besuntadas com mel.
E o mais grave é que não me enganam com erros nem com falsidades 
mas com profundas, autênticas verdades.

E é tudo tão simples quando se rola a flor entre os dedos! 
Os estadistas não sabem,
mas nós, os das flores, para quem os caminhos do sonho não guardam segredos, 
sabemos isso e todas as coisas mais que nos livros não cabem.

António Gedeão, in Poesias Completas


sábado, 2 de março de 2019

"Adágio"...


Coimbra, 21 de Fevereiro de 1983



Tão curta a vida e tão comprido o tempo!...
Feliz quem o não sente.
Quem respira tão fundo
O ar do mundo,
Que vive em cada instante eternamente.

Miguel Torga,  in Diário XIII

quarta-feira, 27 de fevereiro de 2019

«Nada do mundo»...


Nada do mundo me é segredo ainda:
tudo já sei, já espero, ou o que acontece
apenas do imprevisto se ilumina
de quanto aqui se repetiu diverso
mas tanto não que a estupidez humana 
a mesma não pareça que conheço.

Perdi toda a inocência, todo o espanto,
e todo o encanto de que a vida ferve
o pouco juvenil de horror e anseio
e de prazer também, com que chegamos,
vazios e sem nada, ao passo extremo
que só de inútil tempo se prolonga.

Bogna Patrycjia Altman

Quanto melhor seria ter servido 
alguma ideia, um deus, qualquer senhor,
bem falsos ou mundanos , e traíveis
nesse fingir de crença ou lealdade 
com que a miséria humana se imagina
mais rica e nobre do que o nada oculto!

[...]

Jorge de Sena, in 40 anos de servidão

sexta-feira, 25 de janeiro de 2019

No canto dum galo...

Encontro


Quando o galo cantou na escuridão
Como um claro rumor que afasta o medo,
É que ele viu que chegara a ocasião
E que findara enfim o seu degredo.

Fosse qual fosse o dedo
Que lhe apontava a vida, era de mão
Que conhecia o mágico segredo
De negar e rasgar a solidão.

- Mundo! - disse ele então. - Mundo de todos!
Mundo de estrelas, de ilusões, de lodos,
Onde nada é sozinho nem disperso.

Mundo! Sou eu aquela voz perdida,
Que vem juntar-se a ti, arrependida,
Trazendo a humana gratidão de um verso.

Miguel Torga, in Poesia Completa I




terça-feira, 15 de agosto de 2017

"Visão"... por Fernando Pessoa


Há um país imenso mais real
Do que a vida que o mundo mostra ter
Mais do que a Natureza natural
À verdade tremendo de viver.
  

Sob um céu uno e plácido e normal
Onde nada se mostra haver ou ser
Onde nem vento geme, nem fatal 
A ideia de uma nuvem se faz crer,


Jaz - uma terra não - não há um solo
Mas estranha, gelando, em desconsolo
À alma que vê esse país sem véu,


Hirtamente silente nos espaços
Uma floresta de escarnados braços 
Inutilmente erguidos para o céu.

Fernando Pessoa, in Cancioneiro

quinta-feira, 31 de janeiro de 2013

Seca...


Dois anos de seca
vividos
como só Deus sabe!

Vagueiam pela cidade
esqueléticas crianças.
Chegaram de fora
dos campos onde outrora
havia
a harmonia
de plantas exuberantes,
a promessa da fartura!

Pedem tostões pelas ruas
as suas
frágeis vozinhas
musicais.
Seus olhos tristes
cobertos
dessa expressão precoce de renúncia
namoram sacos abertos
do pirão tentador
que há nas lojas à venda...

As mulheres e os homens
também têm
a mesma tristeza infantil
no olhar pasmado...

Parecem bonecos macabros
e causam dó
os petizes de meses
com vida só
nos lábios infatigáveis
que chupam vazias tetas maternais,
cada vez mais
com mais sofreguidão...

Os seios secos das mães
amamentam ainda!

Jorge Barbosa, Ambiente


domingo, 30 de dezembro de 2012

«Descobrimento»...


Saudavam com alvoroço as coisas
Novas
O mundo parecia criado nessa mesma
Manhã.

Sophia de Mello Breyner Andresen, Ilhas

segunda-feira, 24 de setembro de 2012

Gritam todos...


Gritam todos: venham!
E os outros: tenham!
Aqueles que estão comigo
Sonham. Não querem, nem partem,
Encantados...

Ruy Cinatti, Nós não Somos Deste Mundo

quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

Esta gente


Esta gente cujo rosto
Às vezes luminoso
E outras vezes tosco

Ora me lembra escravos
Ora me lembra reis

Faz renascer meu gosto
De luta e de combate
Contra o abutre e a cobra
O porco e o milhafre

Pois a gente que tem
O rosto desenhado
Por paciência e fome
É a gente em quem
Um país o cupado
Escreve o seu nome

E em frente desta gente
Ignorada e pisada
Como a pedra do chão
E mais do que a pedra
Humilhada e calcada 
Meu canto se renova
E recomeço a busca
Dum país liberto
Duma vida limpa
E dum tempo justo

Sophia de Mello Breyner Andresen, Geografia

terça-feira, 6 de setembro de 2011

«Num pingo de verniz»

Num pingo de verniz
o mundo inteiro cabe

Q que se sabe e não sabe
o que se diz e não diz
luz um momento só

que enquanto o brilho escorre
e se cobre de pó
o encanto desfaz-se
dir-se-ia que morre

Mas o que aí floresce
não mais se apaga ou esquece

É o que se diz e não diz
o que se sabe e não sabe
na baça luz do verniz
enquanto morre renasce

Mário Dionísio, Memória Dum Pintor Desconhecido

terça-feira, 23 de agosto de 2011

"Europa a Ferros"



Sol, pássaros voando, seara madura...
Este, o poema interrompido.

Só os dias a fio que o não são:
Tempo retido
Como água podre no charco;
Gritos e sangue escorrendo
Como linha de formigueiro
No chão encardido,
Amassando
Pontas de cigarro, vómitos, dentes partidos.

Nem dia nem noite:
Apenas a janela entaipada
( Lá fora a promessa das quatro estações),
E a porta que de súbito se abre,
Guinchando como pássaro agoirento.

O resto, como ressaca distante ou búzio,
São as pancadas surdas, sábias, sádicas,
Como passos de patrulha a horas mortas,
Como tiquetaque de relógio
Marcando não sei que hora...

Ou se a hora!

Tomaz Kim, Flora & Fauna

segunda-feira, 30 de maio de 2011

Sargaceiro




É longo e pesado o engaço!
A barca vem cheia
de suor e de sargaço
e fome.
Tanto e nada!

Sargaceiro!
Limpas sargaço
do fundo deste mar
que, para ti, é baço
e não tem aquele aspecto sonhador
que nós lhe damos.
Ele, o mar...
Empresta-me o teu engaço:
há tanto que limpar!

Álvaro Feijó, («Diário de Bordo», in Os Poemas)

quarta-feira, 25 de maio de 2011

Medo das multidões



Ninguém escapa ao medo das multidões.
Mesmo um homem destemido e corajoso, que pode não ter medo de um outro homem, ou de três ou quatro, será louco se tentar afrontar uma multidão, porque esta não atendem a raciocínios inteligentes sobretudo se se encontra exasperada, electrizada. E será então perigoso contrariá-la.
Também os políticos as temem.
Gustavo Le Bon, in "Psicologia das multidões", afirma que " os estadistas, em vez de orientarem a multidão, procuram seguir-lhe as indicações, atingindo um grau de temor que tira toda e qualquer compreensão à linha de conduta desses homens de estado."
As multidões aterrorizam todas as pessoas. Até os espíritos mais esclarecidos tremem perante elas, transigindo frequentemente, sobretudo se precisam dos seus aplausos e lhes temem a cólera.
Daí que o estadista, ou o condutor de multidões, aceite, nos dias de hoje, o que ontem reprovou apenas porque teve medo e não quis arcar com a impopularidade: e não queira sofrer as consequências de uma luta desproporcionada e inglória em que ficará irremediavelmente vencido.
Uma pessoa sozinha não poderá enfrentar uma multidão desvairada e ululante e com ela argumentar se dominada pelos piores fanatismos e menos ainda discordar: seria um suicídio.
A multidão funciona na base da irresponsabilidade.
Quando cada um dos seus componentes está isolado pode ser cordato e sensível; num grupo alargado torna-se ameaçador.
Em todo o tempo assim foi. E todos os que tentaram fazer frente a uma multidão, não temendo as suas apóstrofes, nem os seus rugidos, se tornaram suas vítimas.
É essa a principal razão porque se temem as revoluções. Por norma,os revoltosos sentem-se no direito de cometer todo o tipo de atropelos, qualquer que seja o seu ideário: assaltos, vinganças políticas ou outras, morticínios, estupros e outras violências, sobretudo se excitadas por indesejáveis ou outros agentes provocadores ao serviço de interesses de variados grupos sociais que sabiam, a partida, que a multidão desenfreada cometeria os piores abusos sobre o público anónimo. E o que obriga tacitamente este último a não reagir sob o império do medo.Quando muito a fugir, caso possa.
A multidão impõe-se pelo medo que provoca.

Concluindo: multidão e racionalidade não conseguem coexistir.

quinta-feira, 3 de março de 2011

Aprender a serenidade



Alguns pensadores têm proposto ao homem de hoje uma revivescência do estoicismo adaptado às condições hodiernas, mas afastado do paradigma daquele super-homem nietzquiano em que a soberba deva ser substituída pela humildade. E que se torne necessário criar uma espécie de civilização interior que compense e anule todos os obstáculos levantados pela civilização exterior , sempre materialista, e inconsciente dos perigos que arrasta com ela, não apenas no que toca à alma, mas ao mero devir da existência quotidiana.
Desde logo, é um problema da inteligência que impõe uma revolução que altere, desde os alicerces, a cultura vigente, desprendida dos ensinamentos do passado que muitos consideram não só obsoletos como inaproveitáveis. Haverá que instituir uma cultura que se liberte dos preconceitos estéreis das chamadas ciências humanas que afinal desumanizam o homem, afastando-o da ideia de um ideal de perfeição superior a que é comum denominar como Deus. Esta cultura poderá ver-se resumida no conceito: " É importante ser-se da sua época e estar no eterno".
Não estar certo de crer em Deus e estar convicto da sua ajuda... é uma espécie de incoerência susceptível de preparar o aprendizado da serenidade como estado de espírito capaz de melhorar o homem no mundo em que não podemos deixar de viver enquanto vivos.

sábado, 19 de fevereiro de 2011

Sabedoria chinesa



Provérbio chinês:

Quem quer colher rosas deve suportar os espinhos.

Só que agora me recuso a colher as rosas, porque gosto de vê-las no jardim.
...E ainda que o sol as queime, sedento e implacável.
E porque rosas também nasceram para sofrer. E depois morrer como é natural que aconteça.

sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

Lágrimas



Lágrimas...
Ainda escorrem.
Mágoa?
Ainda a sinto...
Não sei por quanto tempo,
Mas pressinto
Não haver tempo de tempo
A fazê-la esquecer
Qualquer que seja o tempo de sofrer
Qualquer que seja o tempo de abraçar
A memória da dor
Ou
A memória de amar.

11.02.04-IIH

Marta Coutinho, Traição

quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

Justiça




A paz é fruto da justiça

Gastar milhões com máscaras
e enfeites
- "Carnaval é brilho,
luz, fascinação!" -
Quando as famílias
que no bairro presenciam o desfile
têm filhos numerosos
e uma mesa -
sem pão.


...E não há paz, e nem interessa a justiça.
sem afecto e sem compreensão.
O que sempre acontece
com muito ou pouco pão.

(Parafraseando C. A. Schmitt)

segunda-feira, 9 de novembro de 2009

Mulher, mãe e amante



Mulher é sempre aquela que redime
Fraquezas que uma falta em si contém.
Que, sendo boa esposa, é boa mãe
E sabe ser na dor grande e sublime.

É a que no silêncio tudo exprime...
E, digna, sofre e cala o que convém...
Que avante passa à afronta e ao desdém,
Guardando num segredo o que a oprime.

Farrapo muitas vezes que se prende
A uma afeição livre e sacrossanta,
Nem sempre o mundo mau a compreende.

É mártir, ou é santa, ou é heróica:
- Heróica no dever que a torna santa,
E santa no sofrer que a torna heróica!

Maria Joana Couto




sábado, 10 de outubro de 2009

A Velhinha


Eu gosto, pelas ruas da cidade,
De ver uma velhinha corcovada,
Cheia de rugas, cheia de saudade,
Invejosa, mirando a mocidade
Que passa crente, alegre, descuidada.

Acho que tem beleza e poesia
Esse invejar saudoso do passado,
E, na cara da velha, que se ria,
Vê-se, coitada! só melancolia,
Saudades sepulcrais do seu noivado.

Pára sozinha, às vezes, numa esquina,
Olhando para o chão como espantada;
E a pobre e vã cabeça que se inclina
Busca na terra alguma luz divina,
Que se esvaiu desfeita e apagada.

Outras vezes, sorrindo de ironia,
Pára mirando uma mulher formosa
Que vai vivendo das visões que cria
E põe felicidade e poesia
Onde a velha só vê desgraça e prosa.

Na velhinha enrugada, a espaços, vejo
Que há nos olhos volúpia relembrada!
Corda quebrada a dar o último harpejo!
Ei-la! olha as primaveras com desejo
E caminha tremente e corcovada.

Carlos Fradique Mendes/Eça de Queirós,
in Revolução de Setembro [29 de Agosto de 1869]



terça-feira, 6 de outubro de 2009

Fragmentos 36

The City Gate, 1900 - Ralph Hedley


"São as pessoas que habitualmente me cercam que, desconhecendo-me, todos os dias me conhecem com o convívio e a fala, que me põem na garganta do espírito o nó salivar do desgosto físico. É a sordidez monótona da sua vida, paralela à exteriorização da minha, e a sua consciência íntima de serem meus semelhantes, que me veste o traje de forçado, me dá a cela de penitenciário, me faz apócrifo e mendigo."


Bernardo Soares, Livro do Desassossego