quinta-feira, 16 de julho de 2009

Le couloir sombre

La Solitude

Le couloir sombre


Là...
Où le couloir sombre
Garde
L'empreinte
Et l'écho
De tes pas.

...E tudo "lá" me fala de ti.
Foi rápido e intenso.
Cansa e dói recordar.
Brancuras bordadas guardam ainda as formas e o cheiro dum espasmo derradeiro que o silêncio amarfanhou. O ardor calado está filtrado em todo o lado como odor que secou.
Ainda o agora é ontem. Ainda é recente. Alguém insiste em que esqueça e ,se mais houvera que soubessem o nosso/meu segredo, mais insistiriam em torná-lo tapete de olvido, cerzido de amor e coisa nenhuma. Mas, através do espaço, surge inconsútil e puro a força nervosa e quente, a pureza do abraço. Foi contudo muito minha a ilusão e o muito amor investido nessa estranha e fugaz relação.
Quando o amor está longe de ser apenas sexo, perdura.
Perdura para lá da dor. Perdura apesar de e para além da loucura dos dias e do silêncio das noites. E do desgaste e desgosto da partida.
Metáforas para quê? Ainda o Sol não tombava no horizonte frio e quieto da tarde e alguma coisa morria e foi cedendo, cedendo, como a melodia morrente que precede o anoitecer.
Depois...depois foi só morrer.
[Chorar? Já não choro. Só verto lágrimas.]
...E, por fim, foi bom saber que alguém se deu a muito trabalho para ter razão. Porém, não sei, lá muito bem qual, ou mesmo porquê. Que abismos imensos guarda a alma de gente solitária, por vezes - e quanto! - carentes de um afecto sincero, total e seguro?! E do fundo estranho da desilusão dos afectos a estranha impressão de que houve quem se preocupasse, quem estivese a sobreviver e a ajudar a sobreviver.
Sem objectivo definido. Só para oferecer um ombro amigo.
E fez-se o esforço. Nunca se sabe até quando, tão frágil parece e já a acusar desilusão e cansaço.
...Sobrevivo? Já nem sei. Apenas sei que senti pertencer pela primeira vez a alguém e que isso não pode ser apagado, nem hoje, nem nunca. Um sonho louco? Que seja. Pena não poder multiplicá-lo entre a dor e a sensação insaciável da pertença. E só isso contou. Só isso conta.
Sonhei-me livre outrora. Mas ninguém é livre de ninguém se há encantamento. O que outrora foi... nem existiu no vento, nem no passamento para onde tudo corre. Outrora... outrora nunca existiu comparado com hoje, porque nem o amor, nem a dor, sinto que morre.
E é nesta dualidade estranha que reside a força tamanha deste bemquerer que ninguém socorre.
Tento apagar, com a força da razão, a angústia de viver. É sim? É não?.. Se a amizade gera ainda mais solidão, como evitá-la?
... Sou apenas o que sou - muito carinho e a falta dele. E o desejo do abraço. E para toda esta singeleza, a afundá-la, todo um imenso mar de sargaço. Ou todo o imenso lodo do cansaço que já não há como vencer... nem com o abraço.
... Mas deixar de sofrer para voltar à indiferença dos dias mal vividos, sem ilusões nem crença?...
- Antes, e só, as recordações.
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[13,52] [10-05-2009]

"Sentir? Sinta quem lê" - Fernando Pessoa