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quinta-feira, 18 de janeiro de 2018

Ao cair da tarde...


Vinha caindo a tarde. Era um poente de agosto
A sombra já evitava as moitas. A humidade
Aveludava o musgo. E tanta suavidade
Havia de fazer chorar, nesse sol~posto.


A viração do oceano acariciava o rosto
Como incorpóreas mãos. Fosse mágoa ou saudade,
Tu olhavas, sem ver, os vales e a cidade.
- Foi então que senti sorrir o meu desgosto...


Ao fundo, o mar batia a crista dos escolhos
Depois o céu... e mar e céus azuis, dir-se-ia
Prolongarem a cor ingénua de teus olhos...

A paisagem ficou espiritualizada.
Tinha adquirido uma alma. E uma nova poesia
Desceu do céu, subiu do mar, cantou na estrada...


Manuel Bandeira

quarta-feira, 20 de setembro de 2017

Um engenheiro destroçado ...



Conclusão a sucata!...Fiz o cálculo, 
Saiu-me certo, fui elogiado...
Meu coração é um enorme estrado
Onde se expõe um pequeno animálculo...
Artesanato feito com sucata
A microscópio de desilusões
Findei, prolixo nas minúcias fúteis...
Minhas conclusões práticas, inúteis...
Minhas conclusões teóricas, confusões...

Que teorias há para quem sente
O  cérebro quebrar-se, como um dente 
Dum pente de mendigo que emigrou?


Fecho o caderno dos apontamentos
E faço riscos moles e cinzentos
Nas costas do envelope do que sou...

     
Soneto IV de  Barrow-on-Furness,
in "Ficções do Interlúdio", de Álvaro de Campos,
heterónimo de Fernando Pessoa

                                      
                                   







domingo, 2 de julho de 2017

"De sua natureza murcham rosas..."




                                                                                            [20-11-1928]
Nem da erva humilde se o Destino esquece.
Saiba a lei o que vive.
De sua natureza murcham rosas
E prazeres se acabam.
Quem nos conhece, amigo, tais quais fomos?
Nem nós os conhecemos


Fernando Pessoa/-Obra Poética -Ficções do Interlúdio- Odes de Ricardo Reis








quarta-feira, 24 de julho de 2013

Envelhecer...

«5 de Maio de 1860
(...)
Envelhecer é mais difícil que morrer, pela mesma razão que custa menos renunciar por uma vez, e em bloco, do que renovar todos os dias, e pormenorizadamente, o sacrifício. Suportar o nosso declínio, aceitar a nossa diminuição é uma virtude mais amarga e mais rara do que afrontar a morte. Há uma auréola no fim trágico e prematuro; há apenas uma longa tristeza na progressiva caducidade. Mas se virmos melhor as coisas, a velhice resignada e piedosa parece então mais emocionante do que o ardor heróico da juventude. A maturidade da alma vale mais que o brilho das faculdades e a abundância de forças e, o que há em nós, de eterno deve aproveitar de todas as devastações causadas pelo tempo, este pensamento consola:
Querer o que Deus quer é a única ciência
Que nos leva ao descanso.»

Ariel, Journal Intime

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2013

Fadiga...


Minha fadiga veste-se de luto
e canta para si mesma em voz de choro,
e a terra esquece as culpas que lhe cabem, 
e arranca dos punhais fulgências de ouro.

Alexandre Pinheiro Torres

sábado, 3 de novembro de 2012

«Perdição»...



Coimbra,12 de Outubro de 1958

Como a  tarde sem mim tem alegria!
como o sol vai contente sem me ver!
Uma noite de angústia em pleno dia...
Um tição na fogueira, sem arder...

Ah, danada trição de quem não sabe
Viver a vida!
Ah, pombas felizes
A catar o piolho do presente
Diante da tristeza dos meus olhos
Postos na eternidade!
Deus, a morte, a verdade,
E esta ilha de sombra
Num mar de luz!
Este molde vazio
De cada hora,
Agónico por dentro e fúnebre por fora

Miguel Torga, Diário VIII

terça-feira, 23 de outubro de 2012

Vela ao longe...


Da sede meu amor farei um barco.
Uma vela no porto.E ao vê-la perto
eu direi meu amor que por ti parto
e fico e firo e faço e sigo e ardo.

Direi a rosa o cravo o trevo o cardo.
darei o corpo, amor. Direi um astro.
Ai flor de quem está farto farto farto
de rimar contra a maré em pinho incerto.

Que mais direi amor? Eu que maldigo
eu que mal amo as coisas conquistadas
que mais direi? Anéis corais espadas?
Já mal me há.de bastar o que eu não digo.

É aqui, de bruços sobre a espuma
que o mar nos causa a dor de estar em terra.
E as palavras nos doem uma a uma.
E os homens em Lisboa fazem guerra.

Joaquim Pessoa, Canção de estar em terra

terça-feira, 31 de janeiro de 2012

Será possível


Será possível que nada se cumprisse?
Que o roseiral a brisa as folhas de hera
Fossem como palavras sem sentido
- Que nada sejam senão seu rosto ido
Sem regresso nem resposta - só perdido

Sophia de Mello, O nome das coisas

quinta-feira, 29 de setembro de 2011

Andorinha


Tonta de Poesia,
caiu a manhã.
É uma andorinha
morta de cansaço..

Deixem-na ficar
caída no chão.
Não façam barulho:
podem acordá-la.

Se ela se levanta,
mesmo assim cansada,
suas asas negras
encobrem o Sol.

Deixem-nas paradas,
suas asas meigas.
Sereninhas dormem
o seu voo morto...

Sebastião da Gama, Itinerário Paralelo

sexta-feira, 26 de agosto de 2011

Juventude



Arde e não queima
o que sinto agora
junto à lareira.

Não foi desejo,
não, infelizmente,
o que perdi.
Foi o coração,
mais que demente
esteio da vida.

Palavras tenho
para queimar.

Ruy Cinatti (O Tédio Recompensado)

terça-feira, 2 de agosto de 2011

«Como queiras,Amor...»


Como queiras, Amor,como tu queiras.
Entregue a ti, a tudo me abandono,
seguro e certo, num terror tranquilo.
A tudo quanto espero e quanto temo,
entregue a ti, Amor, eu me dedico.

Nada há que eu não conheça, que eu não saiba,
e nada, não, ainda há por que eu não espere
como de quem ser vida é ter destino.

As pequeninas coisas da maldade, a fria
tão tenebrosa divisão do medo
em que os homens se mordem com rosnidos
de malcontente crueldade imunda,
eu sei quanto me aguarda, me deseja,
e sei até quanto ela a mim me atrai.

Como queiras, Amor, como tu queiras.
De frágil que és, não poderás salvar-me.
Tua nobreza, essa ternura tépida
quais olhos marejados, carne entreaberta,
será só escárnio, ou pior, um vão sorriso
em lábios que se fecham como olhares de raiva.
Não poderás salvar-me, nem salvar-te.
Apenas como queiras ficaremos vivos.

Será mais duro que morrer, talvez.
Entregue a ti, porém, eu me dedico
àquele amor por qual fui homem,posse
e uma extrema sujeição de tudo.

Como tu queiras, meu Amor, como tu queiras.

Jorge de Sena


sexta-feira, 1 de julho de 2011

Poeira


A poeira vai-nos queimando
a voz; e fugindo
o gosto de levar à boca
a luz despida.
O que falta aqui é um regaço
na água; um ardor na cinza.

Eugénio de Andrade, O Peso da Sombra

domingo, 1 de maio de 2011

Fingimento



Há quem goste de fingir
E repartir sua verdade
Em pedacinhos de dor
Ou amor
Por aqui... Ou acolá...
E eu aceito
Eu acato essa vontade
Fingindo também
Na minha lealdade.

E chego a acreditar
Por um instante
Que é natural
Haver quem goste
De usar a sua máscara
E assim conciliar
As opostas
Mil e uma realidades
Do mundo virtual.

Mas às vezes surge a revolta
Contra a minha natureza
Ao procurar a beleza
Sinceridade, firmeza,
Além do irreal.

*25.03.10*

sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

Pressão



Conhecia-se.
Sempre lidara mal com a pressão, tanto com a atmosférica, como a psicológica. Sobretudo com esta.
Muitos gritos, muitos ralhos, muita música e barulho, muita confusão, sempre tinham tido o efeito de a gelar por dentro. E sentir desejos de afastamento, de fuga.
Habituara-se a escutar o silêncio.
Não tinha receio da trovoada, nem de ruídos naturais, desde que lhes conhecesse a proveniência. Mas o desequilíbrio individual, ou generalizado, característico de situações de crise ou de festa, horrorizavam-na de tal modo que o stress era inevitável e breve redundava em doença que, algumas vezes, precisava mesmo da intervenção de um clínico.
Era pior quando não podia lutar contra e tinha que aceitar. Aí ficava de mãos manietadas perante os acontecimentos, quaisquer que fossem.
Recordava-se de que sempre fora assim.
Teria pouco mais de quatro anos, quando fora metida numa sala de aulas de um colégio da cidade para educação de meninas. Recordava o bibe de xadrezinho preto e branco que a mãe lhe fizera e que tinha a obrigação de não sujar, assim como do laçarote branco que lhe era colocado logo de manhã no alto da cabeça. assim como recordava a professora, sempre embrulhada num xaile de lã e sentada atrás de enorme secretária donde se recordava de nunca a ter visto levantar: estava sentada quando se entrava na sala e lá ficava quando se saía. E também do seu ar triste e friorento. Porém, era exigente quanto às tarefas que mandava executar às alunas de idades variadas que segredavam umas com as outras enquanto desenhavam letras e algarismos.Ou faziam cópias. Ou resolviam contas e tiravam a prova dos nove.
A pressão sobre ela, provinda da professora e das colegas, colocara-se-lhe aquando do aprendizado dos números. Os seus deditos não conseguiam desembaraçar-se das esquinas do cinco... Não havia maneira de acertar com aquela curva e a professora já falava em castigos, como a privação do recreio, que acontecia durante um quarto de hora a meio da manhã, ou a meio da tarde.
Lembrava-se de estar já farta de se esforçar em vão e das palavras pouco simpáticas da Dona Idalina acerca daquele arrevezado algarismo cujas voltas não conseguia desenhar com a perfeição requerida: o mais agradável à vista que conseguira lembrava um enforcado com a gravata ao vento.
Mas ficava triste. Ralhos em casa, ralhos no colégio, davam-lhe vontade de fugir, de se libertar de qualquer jeito.
Pediu nessa manhã para ir à casinha e, dada a sua pouca idade, uma criada conduziu-a às casas de banho do rés-do-chão, altas, estreitas e escuras. A pequenita levantou a pequena aldraba de ferro pintada de cinzento duma das portas e sentou-se na borda da pia. E deixou-se ficar, finalmente em paz, finalmente sossegada.
Nessa manhã, perante a sua recusa em abrir a porta do cubículo escuro onde voluntariamente se encerrara, a confusão foi generalizada por causa de uma garota fechada numa casa de banho, com adultos e crianças a tentarem tirá-la de lá. Mas tudo para aquela criança fora mais suportável do que os comentários monótonos e depreciativos da professora, ou o escárnio das colegas, todas mais velhas do que ela.
Informados, os pais tinham-se zangado muito com a atitude que ninguém conseguira explicar e que a maioria tomara à conta de travessura. E nem se lembrava se tinha sido bem sovada pela mãe em casa como era habitual. Como quando se lembrava de fugir para casa das coleguinhas sem avisar, ou fugia para o jardim próximo para ver os peixinhos vermelhos nadarem no lago redondo com repuxo no meio, e fazia andar meio mundo à sua procura.
Não. Dessa vez nem sentira em casa uma pressão maior da que a que era habitual. Só se recordava dos seus cincos parecerem uns pontos de interrogação ao contrário. E isso doía sem o perceber. E nem percebia porque razão a professora insistia com a directora que não lhe tinha batido, nem a tratara mal...
..................................................................................
Recentemente, porém, a pressão fora de outro género e tentara enfrentá-la até já não poder mais. Mas o esforço, via agora, tinha sido contraproducente e arrastara-a ao desespero.
E esse desespero vivia agora dentro dela e obrigava-a a fugir à banalidade e ao lugar comum. E a desejar um pouco mais de altura no seu dia a dia.
Mas um passado recente e muito sofrido tanto na alegria quanto na dor não se pode apagar. Nunca se pode apagar.
Mas disso só ela sabia.

segunda-feira, 8 de março de 2010

A flor e a borboleta



Tu voas, borboleta! e que eu não possa
Voar, amor!
Diversa como é nisto a sorte nossa!
Dizia a flor.

No vale, ambas irmãs, nascidas fomos;
És como eu sou;
E amamo-nos, e flores ambas somos,
Mas eu não voo!

A ti levanta-te o ar; prende-me a terra
A mim; e eu
Como hei-de perfumar-te em vale e serra,
E lá no céu?

Mais longe inda tu vás, por outras flores
Girar talvez,
Enquanto a minha sombra, meus amores,
Gira a meus pés!

E vens-me ver depois, mas vais-te embora,
Sabendo assim
Que em lágrimas me encontra sempre a aurora!
Pobre de mim!

Acabem-se estas mágoas, meu tesouro
E meu amor!
Cria raiz ou dá-me as asas de ouro,
Celeste flor!

Vítor Hugo, numa versão de João de Deus

segunda-feira, 23 de novembro de 2009

À espera da vida








Se precisa de muitas palavras para dizer o que pensa... pense mais um pouco.
Dennis Roch


Sempre à espera da vida...

E ela a passar...

E a vida passou

Enquanto se olhou o espelho.

As rugas são, agora, cicatrizes fundas

Vincadas

De vidas passadas

Por passar.


Sophia Guiomar, Poemetos, 23-12-2007




quinta-feira, 5 de novembro de 2009

Dança das palavras


Rasgaram-mo...
Fulgor que me guiou,
Apagaram-mo...
As taças coruscantes de vanádio,
Onde bebi a Crápula e a Loucura?...
Tardes macias de Amor...
Oiro que em mim reflectia...
Tudo lambeu o gládio
Do Anjo que me acordava
E me falava
Na noite escura...
Tardes macias de Amor...
Oiro que em mim reflectia...
::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::
Há um peregrino que me bate à porta
E vem passar comigo as noites, em sono insano...
Esse peregrino... é o Desespero Humano!
::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::
Como eu queria que florisse a minha Alma morta!
- Porquê? O oiro já passou...
- Porquê? - O laivar negro já foi luar,
E desse lume nada em mim ficou
A brilhar...

Vítor A.e Silva - 1956-01-30



terça-feira, 6 de outubro de 2009

Fragmentos 36

The City Gate, 1900 - Ralph Hedley


"São as pessoas que habitualmente me cercam que, desconhecendo-me, todos os dias me conhecem com o convívio e a fala, que me põem na garganta do espírito o nó salivar do desgosto físico. É a sordidez monótona da sua vida, paralela à exteriorização da minha, e a sua consciência íntima de serem meus semelhantes, que me veste o traje de forçado, me dá a cela de penitenciário, me faz apócrifo e mendigo."


Bernardo Soares, Livro do Desassossego



segunda-feira, 27 de julho de 2009

Dorme,coração

Dorme,coração...

Há no firmamento
Um frio lunar.
Um vento nevoento
Vem de ver o mar.

Quase maresia
A hora interroga,
E uma angústia fria
Indistinta voga.

Não sei o que faça,
Não sei o que penso,
O frio não passa
E o tédio é imenso

Não tenho sentido.
Alma ou intenção...
Estou no meu olvido...
Dorme, coração...

Fernando Pessoa
[11-03-1917]

sábado, 25 de julho de 2009

Tristeza


Cansaço

Estás triste, meu coração,
E tão cansado
Esse querer não te leva
A nenhum lado
E quem sou eu
Afinal
P'ra to dizer

Catarina Álvares, Ainda com Lágrimas, 05/2009