terça-feira, 24 de agosto de 2010

Vida liceal... - Parte V




Um baile


Nesse dia, a Isabel esperava, muito excitada, no recreio, porque morria em desejos de comunicar à amiga Catarina o quer que fosse que a animava a um tal ponto. Mas, pensava consigo, que aquela rapariga era assim mesmo: como sempre, atrasada! E, até ao momento em que Catarina chegou junto dela, não se cansou de enumerar, em pensamento, todos os defeitos que lhe encontrava. Porém, assim que a viu, não se conteve:
- Kaety! Sabes? Vamos ao baile!
- Baile?! Qual baile?
- Ó menina! Há um baile no Grémio e a minha tia convidou-nos a ir com ela!
- Um baile de cerimónia?!?
- Ora! Não sejas pateta! Querias um baile de cerimónia, não?! Com a nossa idade...
- Precisamente porque achei a ideia descabida é que a formulei. Não deu para perceber? Porque estou meia atarantada...Chego e logo me dizes: Vamos ao baile!E sabes se me deixam ir?
- Vou pedir aos teus pais, que remédio!
- Bem. Isso é outra coisa. E o teu pai deixa-te ir, por sua vez?
- Com a minha tia, deixa. E como tu vais...
- Certo, muito certo, mas passemos a outro assunto: já descompuseste o Jorge?
- Nem me fales nesse palerma!Pelo amor de Deus! Pensava precisamente pedir-te um conselho sobre o que hei-de fazer.
- Olha, menina, se o caso fosse comigo fazia o seguinte: - fingia que não tinha recebido nada e não lhe dava resposta nenhuma. Até porque ele nem ta pede. Quere-a, sabemos que sim, mas não pede porque pensa- sei lá! - que vais render-te aos seus encantos. Continua a não lhe ligar e procura não corar na frente dele.
Isabel, à medida que a amiga falava, tornava-se um lacre:sobre o lado esquerdo havia uma mancha mais escarlate que se acentuava no seu rosto moreno. Catarina, que observava a amiga enrubescer, rematou, encolhendo os ombros:
- É contigo. Eu fazia assim.
Durante algum tempo, Isabel conservou-se pensativa. Pouco depois, murmurou:
- É mesmo, acho que vou seguir o teu conselho. Não lhe respondo.
Mas dir-se-ia que não estava muito convencida... Para ultrapassar o ligeiro silêncio entre elas, pouco depois Catarina quis saber pormenores:
- E sabes em que dia calha o baile, Isabel?
- Já no próximo domingo. Logo já vou a tua casa pedir a desejada autorização. Desejada e indispensável.
- Está bem. E obrigada pela tua lembrança. E também tenho que agradecer à tua tia Guilhermina.
E, dizendo isto, Catarina sorria, porque adorava dançar.
Nesse preciso momento, a campainha retiniu por todo o amplo edifício do Liceu e as duas jovens engrossaram o caudal de batas brancas por entre apertos, cotoveladas, gritos, correrias. Fortemente empurrada, Catarina protestava que era sempre o mesmo!...

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