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domingo, 12 de dezembro de 2010

Cenas da Vida Liceal - Parte V




Matinée dançante [cont.]

De certo modo, as apreciações de Catarina sobre Francisco eram descabidas. Francisco era um moço desempenado, simpático no trato, mas que sofria de uma certa dose de fatuidade, patente perante pessoas que o conhecessem superficialmente e o observassem com olhos mais severos que benevolentes e Catarina até estava neste caso e daí a antipatia que nutria por ele. Isabel não se cansava de lhe observar que Francisco, em família, era muito mais simples e afável do que com estranhos. E nem nunca fora menos delicado para Catarina, mas esta achava pouca afabilidade nessa delicadeza, assim como um verniz com que a jovem embirrava quase que por instinto.E nem se podia dizer que não fosse charmoso, com cabelos negros, lisos e brilhantes e uns olhos verdes num rosto um pouco pálido. No todo, era um rapaz cuja compleição física e modo de se apresentar muito agradava às meninas e às senhoras da sociedade que frequentava, que viam nele um possível bom partido se possuíssem filhas para casar.
Depois de cumprimentar polidamente as duas amigas, a convite da tia Francisco sentou-se um pouco a conversar sobre a excelência do grupo orquestral que animava aquela tarde dançante. E quando este iniciou um novo número, Francisco sentiu-se obrigado a convidar a prima para dançar. Irónica, Isabel observou-lhe que talvez devesse começar pelas convidadas, e que muito admirava a falta a esse acto da mais estrita delicadeza... ligeiramente atrapalhado, o jovem encolheu os ombros com um infeliz "Tanto faz!..." antes de se inclinar perante Catarina.pedindo-lhe uma vaga desculpa da involuntária delicadeza. Sentindo-se colocada numa situação um pouco desagradável, Catarina reagiu com uma veemência de que logo se arrependeu: - Não ligue ao que a sua prima diz! Ela conhece-me e sabe muito bem que não ligo a certas etiquetas1 Só quis entrar consigo!...
E como o rapaz insistisse, acabou por alegar cansaço e vontade de acabar o chá antes que este esfriasse.
Ao passar com o primo em direcção à pista, Isabel não se coibiu de soltar um murmúrio ao ouvido da amiga: - Ouve...Prega-lhe a partida., ao qual a rapariga fez um imperceptível sinal de assentimento. E quando a seguir, Carlos foi por ela, Catarina não opôs obstáculos e foi também dançar.
Francisco ironizou para Isabel ao vê-los: - Então a tua colega já não está cansada?
Com alguma severidade, a prima retorquiu: - Fez-te o que merecias. Agora vê lá se és indelicado ao ponto de lhe dizeres alguma coisa.
- Eu? Nem penses...
- Pagou-te indelicadeza com indelicadeza.
- Aquela menina, quando a vejo na rua,dá.me a impressão que passa a vida a fazer troça. - O rosto de Francisco tinha vincada na testa alta uma ruga de alguma contrariedade.
Com uma entoação difícil de definir, sorrindo, Isabel soltou um: - Sim?!...
- De que te ris?
- De mim, de ti, de nós... Não interessa!Acabou. Vamos atè à mesa. parece que os músicos vão fazer intervalo.
Catarina e Carlos pareciam muito divertidos. E a rapariga contou que numa incursão até à zona dos pequeninos, se sentira fortemente agarrada pela cintura e se vira em riscos de cair.Quando se voltara, furiosa com a situação, vira que era a Mimi. Quando tentava inquirir da miúda o porquê do inopinado abraço, eis que chegara o Luisinho, o filho do dr. Simões, que lhe pega na mão e a arrasta atrás dele gritando-lhe: - Anda daí! Vamos dançar1 não sejas pateta!" E a Mimi lá fora, arrastada pelo opressor,de braço no ar, fazendo vãos esforços para se libertar e acenando um vago adeus com a mãozita erguida. E Carlos e Catarina tinham rido muito com a cena entre os miúdos. "Felizmente que a Mimi não fora arrastada pelos cabelos..." . comentava ainda.
Claro que o dr. Simões de que se falava era nem mais nem menos que o professor de Português das pequenas, o que as fez descer à realidade das aulas do dia seguinte.
- E se nós contássemos isto num "caso da semana" ao dr. Simões? . troçou Isabel.
Catarina, atenta aos acordes da orquestra, interrompeu-a: - Escuta, Isabel1 São os "Beijos de fogo"!
- É mesmo! Lembras-te o que nós dançámos esta música em Pinhel. há dois anos? E mesmo no ano passado...
- Eu gosto.
- Eu também. - concordou Isabel. Carlos, que ficara por ali, convidou-a para dançar o novo número e Isabel concordou, e afastou-se com um simpático "Até já!" a Catarina e Francisco, ainda de pé, junto da mesa.
por essa altura, dona Guilhermina, que se entretinha ora a conversar, ora a dançar com pessoas amigas, aproximou-se.
- Então os meninos não dançam? Onde está Isabel?
- Saiu mesmo agora. Anda a dançar com o Carlos.

sábado, 11 de dezembro de 2010

Vida Liceal - Parte V



Matinée dançante

Os exames estavam próximos.
O sr.dr. Simões já há muito que tinha levado à cena os jovens artistas, que tinham obtido fartos aplausos das entidades políticas e religiosas da terra, da família, dos amigos e colegas à mistura com assobios irreverentes, logo contidos pelos contínuos que os faziam calar, às vezes só com um olhar de reprovação. Agora, os alunos estudavam com afinco por quererem ver-se livres do 2º ciclo e ingressarem no 3º que lhes iria abrir caminho para estudos superiores, ou a dedicarem-se a outros misteres. Frequentemente, porém, depois de um dia de porfiados esforços, as faces dos jovens mostravam-se pálidas e cansadas, emagreciam a olhos vistos e sempre havia alguém que pensava seriamente em proporcionar alguma diversão aos pobres estudantes. O caso, porém, é que nem todos pensavam assim e os pais de Catarina estavam entre estes. " Que fizesse o exame primeiro e depois teria tempo para se divertir à vontade"... - diziam. Isabel, sabendo por experiência que não seria fácil que deixassem Catarina ir com ela à matinée dançante,resolveu pedir-lhes, por intermédio de uma sua tia, a necessária permissão. E a srª Dona Guilhermina lá se encarregou bondosamente da tarefa. Depois de umas recusas e uma conversa de longos minutos, conseguiu o desejado consentimento e as raparigas respiraram de alívio,muito contentes,agradecendo a senhora o gesto complacente.
E, no dia do baile, as duas amigas, uma boa meia hora antes da tia desta as vir buscar,estavam prontas, ambas muito gentis nos seus leves e simples atavios: Catarina de vestido de organza azul-pálido, com fita de veludo do mesmo tom a prender-lhe os longos cabelos, de um tom de ouro velho, que lhe caíam pelas costas e Isabel com o seu alvo vestidinho também de organza apertado na cintura por um fino cinto preto de camurça e sapatos pretos do mesmo material. Na cabeça, a apanhar os caracóis escuros. uma simples grinalda branca. Estavam gentis e frescas e nos lábios naturalmente rosados pairavam sorrisos de emoção e os seus olhos - escuros os de Isabel, muito claros, os de Catarina - brilhavam com o brilho de estrelas. E quando a Dona Guilhermina chegou com a filha, uma menina muito interessante e ladina, que a todos fazia rir com os seus repentes de inocência, seguiram para o chá dançante realizado em honra das crianças, mas de que a juventude também beneficiava.
Quando as duas amigas penetraram nas salas contíguas onde se dançava, conversava e ria animadamente,sentiram que aquela pequena reunião social ficaria indelével na sua memória e prometeram a si mesmas tirar o melhor partido possível do acontecimento. E logo trocaram impressões sobre os circunstantes.
- Olha, Catarina, o Carlos Simões anda a dançar com a Armanda- confidenciou Isabel à amiga,Catarina fez um sinal de assentimento.
A orquestra de música ligeira começara a tocar uma valsa de Strauss, precisamente o "Danúbio Azul", sempre muito apreciada.
- Vamos dançar, Bela?
Isabel acedeu e depois de pedirem licença à dona Alice, juntaram-se aos pares que rodopiavam pela sala. Ainda não se encontravam Há muito na pista e já Carlos Simões e Jorge Manuel se lhes juntavam e lhes pediam gentilmente as honras da dança. após uma ligeira agitação, as raparigas acederam. O par formado por Jorge Manuel e Catarina, nos rodopios da valsa, travava um diálogo de circunstância.
- Então veio com a Isabel?
- Sim, viemos com a tia dela.
- Ah! Então ela gosta de bailes?
Catarina olhou-o,meio desconcertada, antes de responder. Com um sorriso meio trocista,que lhe encrespou a boca de lábios bem desenhados, de contorno suave.
- Suponho que sim...E porque não havia de gostar? Até pode odiar certas pessoas que por lá circulem, mas festas e bailes não me parece que sejam eventos que nã mereçam as honras de serem distinguidos com a sua má-vontade.
O rapaz fixou a jovem com insistência, mas esta manteve-se imperturbável.
- Não sei o que quer dizer com isso, mas se não me entendeu , creia que me dá o maior desgosto da vida... - e o rapaz mostrava-se um tanto contrariado.
Catarina simulou um perfeito ar de espanto e alguma indignação, ao retorquir:
- Você não está bom da cabeça! Estará a brincar comigo?
Ele olhava-a com insistência e determinação: - Quer-me dizer, Catarina, que não sabe de nada?
Parecia de repente triste e a rapariga deu-se conta que de nada lhe valeriam dissimulações: jorge Manuel, brincalhão, indomável, era um rapaz leal que, quando entendia,sabia falar sábia e adequadamente. E concordou: - Percebo ao que se quer referir, Jorge Manuel. Estou tanto a par que foi com muita apreensão que encarei aquilo que chegou pelo correio e tive de inventar que vinha de uma nossa amiga de Lisboa, para evitar sarilhos da pessoa a quem era dirigida com a família através da cusquice da empregada e dama de companhia. Se foi sincero no que escreveu, penso que compreenderá porquê.
- Compreendo. E a resposta, que nunca recebi? Sabe-a, por acaso?
- Já a devia ter percebido. Não negue. E permita-me, apesar de ser mais nova que você, dar-lhe um pequeno conselho:o pensar que uma rapariga séria, que tem consciência do caminho que trilha, não dá aereamente resposta ao tipo de solicitação recebida, não do género que você esperava. É quase obrigada a a não acreditar nas palavras que qualquer um lhe dirija nesse sentido.
- Mas não sei porquê - protestou o rapaz - se são sentidas.
- Acontece que a maior parte delas são falsas e constituem para o seu sexo um mero divertimento, assim como uma espécie de desporto para os que as dizem. Vá lá, e para que não se ofenda, admito que haja excepções a esta regra, raras como todas as excepções.E ouça o que lhe digo, se quiser que a Isabel sinta simpatia por si: trate-a como uma outra qualquer camarada amável e finja que não se lembra de lhe ter escrito ..."aquilo"... Creia que é a única coisa que tem de fazer e você não conhece a Isabel tão bem como eu, que sou sua amiga.
E Catarina calou-se, perguntando-se se estaria a sonhar e se seria mesmo ela que falava naqueles termos sensatos a um rapaz que, não sendo um desconhecido, também não era um familiar e metendo-se num assunto no qual nunca pensara imiscuir-se, assim, volteando ao ritmo de uma lânguida valsa, que lhe fazia proferir o longo discurso com sucessivas intermitências.
Calado por momentos, foi um pouco pensativo que Jorge Manuel respondeu:
- Obrigada pelo conselho, Catarina. A sério. E estou a perceber porque é que o Zé Luís diz não conhecer rapariga mais franca e leal que você, apesar de saber que nunca o toma a sério. Agradeço a sua franqueza e lembre-se que de hoje em diante terá em mim, mais que um colega, um amigo.
Disse isto com um semblante algo carregado, que logo se lhe desanuviou ao perguntar, meio ansioso:- E acha que poderei convidar a Isabel para dançar?
Um pouco desorientada com tudo aquilo, a rapariga riu.
- Claro! Parece-me - talvez uma contradição, que quer? - mas até lhe ficaria mal se o não fizesse.
E como nesse momento soassem os últimos acordes da valsa, a rapariga concluiu, risonha: - E agora adeus. Veja lá como se porta, se tem juizinho... E perante o rapaz que também a olhava sorrindo, Catarina desapareceu por entre os muitos pares que conversavam esperando um novo número, dirigindo-se para a mesa circular onde dona Guilhermina e outras senhoras conversavam. Mimi, a pequena prima de isabel, correu ao seu encontro, alvoroçada.
- Olha, sabes? Esteve aqui o Gaspar! quando a mamã lhe disse que tinha trazido a Belinha e a ti, perguntou-me quem tu eras!
Catarina riu, pegando na miúda ao colo: - Ai, sim? E que lhe respondeu a nossa Mimizinha?
- Disse-lhe que eras a Kaety e que a Belinha gostava muito de ti e eu também!
Pouco depois, quando Isabel Maria se aproximou, encontrou Catarina a rir com vontade das várias observações e histórias da engraçada pequena.
- vocês estão muito bem dispostas!...
- Se soubesses! Calcula que a tua prima foi dizer ao Francisco que ela parecia ter ido a um enterro!...
- Oh! Oh! E porque disseste tu isso, Mimi?
- ora1 Foi a Kaety que outro dia disse para ti que ele era um enjoado e que parecia vir de um enterro cheio de cerimónia. Eu ouvi e disse-lhe...
O riso esfuziava entre as raparigas, quando se ouviram os prelúdios de uma nova valsa e Carlos Simões e Jorge Manuel se aproximavam de novo a convidar as duas jovena para a nova dança, com desespero da Mimi que lhes queria contar mais qualquer coisa que só vieram a saber quando voltaram a regressar à mesa, depois de mais duas danças, agora já com o par trocado.
- Olha! E eu também lhe disse que ele era um enfatuado, mas que era bom rapaz. E ele ficou muito admirado e perguntou-me quem me tinha ensinado isso...e eu disse-lhe.
- Disseste-lhe?!
- Disse. Disse-lhe assim: "Foram umas meninas".
- Tu disseste isso?! - insistiu Isabel. Catarina fingia-se alarmada.
- Disse. e depois ele perguntou quem foi. E eu disse que tinham sido umas meninas que estavam em tua casa, mas não sabia o nome...
- Oh!, menina! - gemeu Catarina. - e ele não te perguntou mais nada?
- Perguntou muitas coisas. e também perguntou se tu estavas lá em casa.
-Eu?!...
- Sim e eu disse-lhe que não, para tu não te zangares comigo se dissesse que estavas.
Mais tranquilizadas, as raparigas optaram por rir de todo aquele palavreado inocente da pequena Mimi. E, quando pouco depois, Francisco, um primo da Bela, surgiu de novo perto de dona Guilhermina, as duas raparigas tiveram de morder os lábios para sufocarem o riso ao lembrar as fofocas da garota.

terça-feira, 24 de agosto de 2010

Vida liceal... - Parte V




Um baile


Nesse dia, a Isabel esperava, muito excitada, no recreio, porque morria em desejos de comunicar à amiga Catarina o quer que fosse que a animava a um tal ponto. Mas, pensava consigo, que aquela rapariga era assim mesmo: como sempre, atrasada! E, até ao momento em que Catarina chegou junto dela, não se cansou de enumerar, em pensamento, todos os defeitos que lhe encontrava. Porém, assim que a viu, não se conteve:
- Kaety! Sabes? Vamos ao baile!
- Baile?! Qual baile?
- Ó menina! Há um baile no Grémio e a minha tia convidou-nos a ir com ela!
- Um baile de cerimónia?!?
- Ora! Não sejas pateta! Querias um baile de cerimónia, não?! Com a nossa idade...
- Precisamente porque achei a ideia descabida é que a formulei. Não deu para perceber? Porque estou meia atarantada...Chego e logo me dizes: Vamos ao baile!E sabes se me deixam ir?
- Vou pedir aos teus pais, que remédio!
- Bem. Isso é outra coisa. E o teu pai deixa-te ir, por sua vez?
- Com a minha tia, deixa. E como tu vais...
- Certo, muito certo, mas passemos a outro assunto: já descompuseste o Jorge?
- Nem me fales nesse palerma!Pelo amor de Deus! Pensava precisamente pedir-te um conselho sobre o que hei-de fazer.
- Olha, menina, se o caso fosse comigo fazia o seguinte: - fingia que não tinha recebido nada e não lhe dava resposta nenhuma. Até porque ele nem ta pede. Quere-a, sabemos que sim, mas não pede porque pensa- sei lá! - que vais render-te aos seus encantos. Continua a não lhe ligar e procura não corar na frente dele.
Isabel, à medida que a amiga falava, tornava-se um lacre:sobre o lado esquerdo havia uma mancha mais escarlate que se acentuava no seu rosto moreno. Catarina, que observava a amiga enrubescer, rematou, encolhendo os ombros:
- É contigo. Eu fazia assim.
Durante algum tempo, Isabel conservou-se pensativa. Pouco depois, murmurou:
- É mesmo, acho que vou seguir o teu conselho. Não lhe respondo.
Mas dir-se-ia que não estava muito convencida... Para ultrapassar o ligeiro silêncio entre elas, pouco depois Catarina quis saber pormenores:
- E sabes em que dia calha o baile, Isabel?
- Já no próximo domingo. Logo já vou a tua casa pedir a desejada autorização. Desejada e indispensável.
- Está bem. E obrigada pela tua lembrança. E também tenho que agradecer à tua tia Guilhermina.
E, dizendo isto, Catarina sorria, porque adorava dançar.
Nesse preciso momento, a campainha retiniu por todo o amplo edifício do Liceu e as duas jovens engrossaram o caudal de batas brancas por entre apertos, cotoveladas, gritos, correrias. Fortemente empurrada, Catarina protestava que era sempre o mesmo!...

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domingo, 1 de agosto de 2010

Vida liceal... - Parte IV




Parte IV - Uma carta de amor

Comodamente instaladas na sala de estar, onde fingiam estudar, Catarina e Isabel foram surpreendidas pela criada Lucinda que entrou com um envelope na mão.
- Para mim? - estranhou Isabel. - Quem manda isso?
- Não sei, menina.Tem uns rabiscos atrás que me parecem letra do seu pai.
- Do meu pai?!...Não pode!...
- Não sei, menina, não sei. Ora veja.
- Catarina esticou o pescoço, curiosa e com uma rápida olhadela, rematou: - Não, não é do teu pai. É a inconfundível letra da Lúcia, aquela nossa colega que está em Lisboa. A mim também escreveu ontem, esqueci de te dizer...Ou antes, ainda não te disse...
- Mas essa carta foi deitada cá em Viseu, meninas - observou a Lucinda, uma espécie de cão de guarda da Isabel, que acumulava as funções de aia, criada de fora e cozinheira e a quem as raparigas dificilmente enganavam. Olhava detidamente o sobrescrito nas mãos da jovem patroa, sem se aperceber da pisadela insistente que Catarina pregara no pé direito da amiga, que, de tão espantada,nem se lembrou de reagir.
- Claro, Lucinda, que foi cá deitada... Pois se ela me diz a mim que chegou cá anteontem!...Chegou, não pôde vir ter logo connosco porque seguiu de imediato para a terra da mãe e, como nos devia carta, escreveu e deitou-as no correio. Ideias estrambólicas dela, claro! Sempre foi assim aquela rapariga...Obrigada, Lucinda, pode ir.
Pouco convencida, a criada saíu. Mas a Isabel não caía de espanto em espanto , olhando a companheira.
- Não quererás dizer-me o que significa tudo isto?!
- Não, porque sei tanto como tu.Penso que se te referes ao papel que conservas na mão... é uma carta, como se lhe convencionou chamar.
- Não te ponhas com brincadeiras1 Que mania! E já agora: - também posso saber a que título te julgaste autorizada a dares-me uma valente pisadela?...
- Sabes o que te digo? Que te despaches a abrir a carta antes que a Lucinda se julgue obrigada a fazê-lo pelas suas próprias mãos e razões ocultas... Despacha-te.
Ainda com ar de poucos amigos, Isabel olhou a colega e depois a carta de que começou a rasgar o envelope com a ajuda de uma espátula e, quase de imediato, soltou um OH! do mais genuíno espanto. As faces morenas tinham-se tornado escarlates e nos olhos escuros brilhava contrariedade.Amarfanhou a missiva nas mãos com a exclamão: "Idiota! Mas que parvalhão!"
Sentada do outro lado da mesa de estudo, Catarina olhava-a, algo divertida.
- Parece que há um ele no caso... o que se reveste logo de um certo clima...
Mas a amiga não achou piada ao comentário e, irritada, atirou com o papel amaçado na sua direcção.
- Lê! Fazes o favor de leres essas parvoíces e diz-me depois se tenho ou não razão! Não posso com esse palerma!!!
Catarina não perdeu o sorriso enquanto desdobrava o papel amachucado, sorriso que se acentuou enquanto o lia em voz baixa: "Isabel Maria:É decerto ousada demais a minha atitude ao escrever-lhe, mas desculpe-a por sincera. Sei que tem de mim uma opinião pouco lisongeira, já o percebi,mas rogo-lhe que varra da sua memória para sempre a minha imagem de quando me viu pela primeira vez. Era meu intento ter-lhe de há muito pedido desculpa o que faço hoje, e por este meio, pois só depois me atreverei a fazer-lhe um segundo pedido.
Supondo então que a sua alma generosa me tenha perdoado já, atrevo-me a expressar-lhe a profunda simpatia que me inpirou desde o primeiro momento que a vi. Não venho fazer uma banal declaração cheia de frases retóricas e floreadas,como mo impede a natural sinceridade do meu coração.Além do que poderia eu dizer-lhe se todas essas frases não fossem senão pálidas imagens dessa realidade que a Isabel Maria conhece tão bem como eu? Não venho dizer-lhe que é bela, ou dirigir-lhe outros galanteios, mas oferecer-lhe o meu coração, a minha devoção por si, que, espero, aceite.
Este seu admirador: Jorge Manuel Alves e Sousa"
Ao acabar a leitura, Catarina não reteve uma alegre gargalhada.
- Muito bem! Para quem não quer usar metáforas e não se servir de galanteios?!...nem está mal!... E que vais tu responder?...
Isabel sobressaltou-se. Era óbvio que não considerara ainda tal hipótese.
- Responder-lhe? Eu?!... Acho que vou fazer de contas que não é nada comigo! A menos que queiras que lhe responda e lhe pespegue uma descompostura valente como ele nunca levou na vida!...
- Antes de mais nada, menina,aconselho-te a que me passes a carta, guardes o envelope e me dês papel e lápis. Ou, melhor, caneta e tinta, mas despacha-te, antes que a Lucinda se lembre de aparecer por aí de novo, para coscuvilhar...
- Toma. Mas para quê tudo isso?...
Isabel parecia atordoada ao fornecer à amiga uma caneta e um pequeno tinteiro que subtraíra da gaveta de uma escrivaninha. Entretanto, Catarina dobrara cuidadosamente a folha escrita, punha o envelope sobre a mesa e com uma calma que não lhe era muito habitual, foi expondo: - Primeiro: o papel é...especial. Preciso, portanto, de uma folha de papel de carta ... deste. Tens? Muito bem. Agora esperas um nadinha, - até podes entreter-te com o romance que estavas há pouco a ler com tanto interesse - e vê se metes esse outro papel recebido num bolso da bata, ou esconde-o o melhor que possas. E não me faças essa cara de espanto! Sobretudo não me distraias e fica calada...
E, após as recomendações, dobrou-se sobre o papel aplicadamente, desenhando nele uns caracteres espalhafatosos, muito diferentes da sua habitual caligrafia. De vez em quando parava e reflectia para de novo continuar com mais entusiasmo, se possível, até que, ao fim de uns longos minutos, deu a tarefa por acabada, muito satisfeita de si.
- Escuta esta prosa, Belinha. Vais ficar banzada!...
E leu: " Minha querida Bela! Cheguei hoje de Lisboa e tenho de ir já para a terra da minha mãe, em Vila Nova de Tázem. E como não posso visitar logo as minhas boas amigas, resolvi escrever às mais queridas e daí a amostra da minha bela prosa...sempre inconfundível.A pressa é imensa e daí esta caligrafia, mas vai mesmo assim. Trago milhões de coisas para te contar, mas, por agora, só isto: que me lembro de ti e que ainda me não esqueci dos nossos belos tempos de aulas, das brincadeiras, das conversas sérias e de toda a alegria compartilhada. Assim como de quando tirávamos notas baixas nos exercícios, ou nos esticávamos nas chamadas e procurávamos consolar-nos umas às outras pois todas estávamos sujeitas aos mesmos martírios!... Este ano, no 5º ano, temos de estudar mais. Estuda, querida Bela, mas não te esqueças nunca desta tua muito amiga - Lúcia Rebelo. P.S.: Não repares na prosa.Da minha vida em Lisboa depois te falo em pormenor, mas é mais aborrecida.Não estranhes a letra do sobrescrito, mas pedi, com a pressa, ao meu irmão para me ajudar. Por uma vez, até que foi bonzinho e fez-me as direcções enquanto te escrevia. Espero que não se engane em nenhuma. A tua muito amiga, que te envia imensos e amorosos beijos e abraços:Lúcia"
Isabel parecia meio desnorteada: - Que significa isso, Kaety? Endoideceste?!
- Estou em meu perfeito juízo, querida. Repara bem: esta carta da Lúcia vinha dentro deste sobrescrito, valeu?
- Mau...Eu não entendo é nada!...
- Repara bem: esta outra carta vai comigo.E medita, queridinha, na minha curta conversa com a Lucinda e lê a carta que a nossa comum amiga Lúcia te mandou e vai pensando também na descompostura que terás de pregar a um certo sujeito, como dizes... Enfim. São horas de almoço e a minha mãe não deve estar lá muito satisfeita com o meu atraso. Às duas menos dez passo por cá e vamos as duas para o Liceu. Até logo, querida!
E, fechando a porta atrás de si, Catarina despediu-se com um sorriso agarotado no rosto sardento e rosado, deixando Isabel com a carta da amiga Lúcia na mão. Mas, acto contínuo, esta saiu para o corredor no seu encalço e Catarina sentiu-se abraçada por trás e ouviu um sussurro: - Obrigada! És uma boa amiga, Kaety!
Catarina sorriu: - Não sei se sou... Sobretudo, não gosto de ver ninguém metido em sarilhos escusados...Adeus. Adeus. Deixa-me ir, senão esfolam-me viva!
Saída a porta da casa da amiga, numa corrida, Catarina entrou rapidamente na sua, que ficava ao fundo, do outro lado da mesma rua, depois de um salamaleque jocoso à amiga, que a olhava do patamar. Mas no espírito de Isabel ficara e pairava a dúvida: Que fazer? Responder... ou não dizer nada? Ainda tinha de debater o problema com Kaety., que era muito brincalhona, às vezes insuportável, mas compreensiva e boa e saberia dar-lhe uma opinião. Claro que se respondesse seria para o descompor. Mas tinha ainda de pensar maduramente na descompostura. Já se sentia menos irritada e agora sabia precisar de tempo. E tudo aquilo já não lhe parecia agora uma tão grave tragédia... Bem, tinha mesmo de falar sobre tudo aquilo com a amiga - decidiu enquanto fechava a porta devagar..

terça-feira, 15 de junho de 2010

Vida Liceal ...em anos 50




Cap.III -Os ensaios para as comemorações de Almeida Garrett


- Ora valha-nos Deus! - gemia a Clara, com a cara mais aflita que podia arranjar - Como é que nós havemos de dizer ao Dr, Simões que a Catarina está doente? Olhem que isto...

- Então, menina, que lhe arranje uma substituta. E que não seja nenhuma de nós, credo!... E o pior é se teima em me dar "Os Olhos Negros", lá por o meu poema ser dos mais pequenos...

- Ó menina! Só te digo que a Catarina não podia ter adoecido em pior altura.

- O que vale é que depois de amanhã já deve estar fina e fresca. Isto de anginas é assim.
- Está bem, está!... Mas só quero que me digas como havemos de aturar o Simões. Ó meu Deus, o que havia de nos acontecer!...

Enquanto esperavam pelo professor Luís Simões Gomes, e pelos rapazes que colaborariam no ensaio para a festa da comemoração de Garrett, as raparigas iam-se lamentando da doença da colega.

- A Catarina já recitava aquilo bem. - opinou a Lola.

- Humm...mas para o paladar do Simões... - duvidou a Bela.

- Recitava como qualquer de nós, não estejas a desfazer, Bela! - admoestou a Clara.

Bela ia retorquir quando se ouviu barulho do outro lado do corredor e, em tropel, correndo uns após os outros, os rapazes surgiram. Cumprimentaram-se e o Zé Luís iniciou logo os seus eternos comentários e observações.

- Então a nossa amiga Catarina não veio hoje aturar o Simões? Resolveu fazer gazeta? Certas meninas são de um descaramento inaudito!...Só queria que me dissessem o que anda aquela santinha a fazer...porque nós, infelizes mortais, temos mesmo é de aturar o nosso comum inimigo dos feriados e recreios!...

- A catarina, a esta hora, desejaria antes aqui do que no lugar onde se encontra.- observou a Clara.

- Oh! Porquê? Estará por acaso na prisão? - alarmou-se comicamente o rapaz.

- Sim, talvez... Está presa à cama com anginas e 40º de febre.

- Oh! Coitada! - soaram exclamações consternadas do grupo dos rapazes.

E o Carlos Smões, que conversava com a Isabel, inquiriu: - O que foi?

- Não ouviste? - esclareceu o Jorge Manuel - A Catarina está doente, com 40 º de febre.

- Mas que tem ela? - quis saber o rapaz.

- 40º de febre - repisou o Zé Luís.

- Bolas! Quero saber que espécie de doença tem?... - impacientou-se o outro.

- Anginas, segundo a informação. Porque perguntas? Temes o contágio? - troçou o Henrique.

- Olhem que o caso é triste demais para merecer comentários jocosos - observou Isabel. Os rapazes calaram-se, um pouco interditos, e só Carlos precisou: - Pois...mas os meus colegas acham que não...

Logo depois o Zé Luís voltou à carga, agora dirigindo-se a Isabel: Vocês são mesmo muito amigas.

- Quem?...A Kaety e eu? !

- Kaety? Que Kaety?! - espantou-se o rapaz.. Isabel Maria, meio interdita, corou. Clara, atenta à conversa, riu divertida, explicando: - Nós tratamos a Catarina por Kaety, não sabia? É mais o menos o diminutivo dela em inglês, visto que ela também é assim meio alourada...

Zé Luís também riu.

- É giro.. Vou também passar a tratá-la por Miss Kaety.

- Está doido! Deus o livre! Zangava-se comigo por lhe ter dito isto!

Do lado, trocista, o Jorge Manuel não se conteve de curiosidade.

- Mas ela é assim tão terrível?

- Ainda assim, é bem menos terrível que o senhor! - Bela mostrava-se irritada e foi um coro de gargalhadas que acolheu a sua réplica. Disfarçadamente, Jorge Manuel segredou-lhe: - E a mim... acha-me assim tão terrível?... E antes que a atordoada pequena lhe pudesse dar uma resposta, riu com gosto, juntando-se aos colegas, enquanto Isabel, vermelha como um pimentão, tomava uns ares superiores de rainha ofendida nos seus brios e se encostava à parede como quem se queria pôr de parte na conversa.

Como sempre, o Dr, Simões surgiu ao fundo do corredor no seu passo esgalgado, a pasta de cabedal castanho suspensa da mão direita e a bata branca desabotoada e sempre acanhada sobre o casaco apertado, ou, ainda mais quando a usava sobre o sobretudo cinzento um tanto coçado, saudando e desculpando-se do atraso com as fórmulas costumadas, tudo isto antes de chamar, um por um, os rapazes para o ensaio como habitualmente.

Nesse dia, porém, havia uma pequena diferença: - o dr. Simões informou que os trajes para a representação das duas cenas de "Frei Luís de Sousa" haviam chegado e que se tornava necessário que os alunos os experimentassem para ver as modificações a fazer. Assim, o dr. Simões só notou a falta de Kaety quando a Isabel recitava "As minhas asas".
- Olhem lá! A Catarina Maria não veio hoje?

E foi o Zé Luís que se encarregou de responder: - Está com 40º, sr. dr.

- Com quê?...

- Sim, com 40º de febre. Anginas, segundo informação fidedigna.

- Ah! Está doente? Com anginas? Que maçada! E a representação é já...de hoje a seis dias .
E o dr. Simões mostrava-se consternado.

- Bem, sr. dr., ela amanhã, ou depois, já se deve levantar. Com as anginas...costuma acontecer assim.

- Mas é aborrecido. Bem , Maria Isabel, continua lá. E se acaso a doença da vossa colega se prolongar, um de vós terá de substituí-la.

- Mau... - fez o Zé Luís.

- Forte estopada! - resmungou por entre os dentes Jorge Manuel. E as raparigas trocaram entre si olhares compungidos.

quarta-feira, 30 de setembro de 2009

Aniversário



Não são as rugas que nos fazem velhos
Nem o tempo que faz envelhecer.
A alma não se marca nos espelhos
Nem é feto de rugas o morrer.

Não se é velho enquanto por abrir
Rosas-desejos cada um tiver!
Enquanto houver promessas por cumprir
Ou nos lábios palavras por dizer.

Não é ser velho o ter passado os dias
Se pensarmos nos dias por passar.
Ser velho - é não ter mais alegrias
E nem sequer a esperança de as achar.

A alma não se marca nos espelhos
Nem é feito de rugas o morrer!
- Não são as rugas que nos fazem velhos,
Nem o tempo quem faz envelhecer!

Jorge Vila

quinta-feira, 20 de agosto de 2009

Folhas de um diário




Anos 50 - Folhas do diário de uma rapariguinha, por volta do ano de 1956

I -Hoje havia uma desusada animação em casa da Mimi Garcez. No salão conversava-se e dançava-se, jogava-se gamão, fazia-se paciências com cartas, as senhoras entregavam-se à canasta, outras à renda ou ao tricot e aproveitavam para pôr em dia a vida de vizinhos, conhecidos e mesmo de amigas mais ou menos comuns. Foi quarta-feira, dia habitual de juntar os jovens para se divertirem e eu , convidada pela Maria Aleu, que é um doce de rapariga, também fui. Gosto mesmo muito dela e sei que ela gosta de mim. Mas nós, os jovens, preferimos quase sempre as sombras do frondoso jardim e aí discutimos com calor e gracejamos sobre os mais variados assuntos, gozando da relativa liberdade que nos dão as mamãs, papás e tias solteiras ou viúvas mais entretidos pelo espaçoso salão. Na copa sombria, duas criadas de dentro, fardadas irrepreensivelmente de escuro, com os aventalinhos brancos pregueados em nylon, afadigavam-se a cobrir a comprida e maciça mesa de castanho com sandwiches, bolos, doces, salada de frutas, refrescos, cup, vinhos generosos, whisky e champanhe e uma série de heterogéneos produtos de doçaria regional e, encimando tudo isto, um enorme bolo ornamentado com as tradicionais velinhas natalícias e tudo isto porque a Mimi completava os seus vinte e um anos radiosos e convidou os amigos e alguns amigos dos amigos para com todos festejar a data da tão apetecida maioridade.
Ao entrar no salão, tinha reencontrado e reconhecido imensa gente. Num dos grupos espalhados ao acaso, ouvi alguém perguntar à Maria Aleu:«Olha lá! A Rita ainda não recuperou o bom humor? Ainda não apareceu e estranho a demora.» Quem dizia isto era o Luís, o primo da Mimi. E enquanto a minha amiga encolhia os ombros, manifestando ignorância, prosseguiu: «Devo dizer-vos que aquela rapariga anda muito estranha! Se vissem a cara esquisita que tinha um dia destes quando eu vinha de acompanhar...» Calou-se bruscamene e lançou ao Diogo, que estava a escutá-lo muito atento, um olhar muito perscrutador. Vi que o Diogo notou, mas nada disse. O nosso grupo das meninas, que também tinham ficado muito curiosas, não se conteve com a brusca interrupção. Exclamações e perguntas ouviram-se de vários lados: «Então, Luís! Acabe! »
«Acaba!Quando foi isso? Quem foi que acompanhaste?»
«Não sejas misterioso! Conta lá, que isso interessa-nos!»
Mas Luís mudara de ideias. Sacudindo a cabeça, foi bastante firme na recusa.«Não, meninas! Nada disto deve ser assim tão importante, apesar de ter visto a Rita realmente incomodada. Mas logo depois a vi a dançar e sem nuvens negras a ensombrar-lhe o espírito, porque parecia até muito animada.»
«Ora bem! Algum desgosto de amor!», observou levianamente Pedro Santiago.
«Acho a Rita por demais moderna para ter sido essa a causa, contrapôs o Luís. Mas deve estar por aí a chegar e pergunta-se-lhe.»
Com outras várias considerações sobre o assunto, ainda ficámos por ali até que, com a Maria Aleu, a Tanchinha e o Diogo, já cansados com a atmosfera saturada de odores e o ruído das desencontradas conversas do salão, decidimos sair para o jardim e juntarmo-nos ao grupo que assistia a um combate renhido de badminton entre os primos e primas mais jovens da Mimi e da Maria. Por ali, também se aproveitava para comentar o último filme do Avenida. E foi com o pano de fundo de várias e desencontradas opiniões, que vi o Diogo chegar-se para perto do Luís, enquanto nos internávamos lentamente nas alamedas areadas do jardim, e nos distanciávamos um pouco dos alaridos dos animados jogadores e dos sons breves e compassados das batidas do volante de penas brancas contra as raquetas cortando a atmosfera branda do anoitecer. «Ora bem, meu menino, ouvi dizer ao Diogo. Acho que agora chegou o momento de me explicares a razão daquele olhar perfurador que me lançaste. Porque parece-me ter percebido uma relação entre o ar angustiado da Rita que lhe viste e a minha pessoa... É isso?»
«Bem, talvez.Mas também é natural que eu e tu estejamos enganados. Mas, vejamos: será que podes explicar-me a razão porque abandonaste tão cedo a reunião passada?...»
Por momentos silencioso, e já muito curiosa, mas caladinha para não perder pitada da conversa entre aqueles dois, enquanto fingia concordar com a opinião abalizada da cinéfila Amélia sobre a interpretação da Audrey Hepburn, ouvi o Diogo concordar.«Creio que sim, desde que me narres fielmente o que aconteceu com a Rita depois que saí.»
«E prometes-me segredo a ...seja a quem for?»
«Tens a minha palavra.»



Vi que Luís considerava a resposta, enquanto abria a cigarreira para puxar de um cigarro. Depois soltou uma primeira bafurada. «Conta lá então o motivo porque saiste outro dia tão precipitadamente e tão cedo lá de casa.»
«Bem..foi simples. Tinha discutido com a Rita e estava muito zangado.»
«E ela não te chamou para se desculpar?»
«Não. Na altura não fez o mais leve gesto para isso.»
Inquisidor, Luís continuou:« E entre tu e ela não havia nada mais além de camaradagem?»
«Nada, que soubéssemos. Ela até andava um tanto fria comigo.»
« É. Sei disso, ouvi murmurar o Luís, enquanto fixava pensativo as volutas de fumo do cigarro que lhe ardia preguiçoso entre os dedos longos. E , lentamente, recomeçou:«O que tenho para te dizer é simples e é muito pouco. Quase nada, mesmo, mas, ainda assim... Quando vinha de te acompanhar á saída, estava a subir o último lance de escadas, quando ela me apareceu a perguntar quem tinha saído. E pareceu-me aflita. Inquieto, só me lembrei de tentar saber se se sentia mal. Respondeu-me que não tinha nada, mas insistia em saber quem tinha acabado de sair. Estava agitada, um pouco pálida e acabei por lhe dizer que tinhas sido tu. Pareceu ficar de repente ainda mais desgostosa e respondeu-me que não era nada, que afinal não era contigo... Voltou-me as costas e reentrou no salão. E qual não é o meu espanto quando a vi de seguida a dançar com já nem sei quem. E pareceu-me muito estranho vê-la toda a noite muito feliz, esfusiante de encanto e alegria, não parando ninguém com ela. Pôs toda a gente a mexer-se, nessa noite. Mas nos dias seguintes já não a vi assim, mas pouco comunicativa, quase sorumbática. Percebia-se que a muito custo acompanhava as nossas brincadeiras. Atirámos-lhe remoques e não nunca mais correspondeu com aquela alegria do costume, brindando-nos com um ou outro sorriso triste. Então, quase sem querer, relacionei esse sorriso meio amarelo com o teu afastamento e com a tua fuga desse dia. E ontem, quando fomos à sessão da tarde no Avenida, confirmou-se-me essa ideia quando a vi de novo muito alegre, afável e gentil como dantes era. E como tu também estavas de volta...» Luís calou -se. Pareceu-me, também a mim, um pouco cansado e desgostoso. Em contrapartida, vi o Diogo felicíssimo da vida! Continuei muito atenta, virada um pouco de lado, sempre que se parava para contornar uma sebe, ou um canteiro, e de novo o Luís, agora de um modo distante, retomou o fio das suas reflexões em voz alta para o companheiro: « Com tudo isto não quero atribuir à Rita sentimentos ... enfim, creio que me compreendes,pá. Mas como a acho uma rapariga excelente e como a tua fuga me pareceu ser a de um enamorado furioso...resolvi contar-te... isto. Talvez aproveite a ambos.» Não escondendo por então o seu contentamento, ouvi o Diogo responder, quase reconhecido, cortando o silêncio breve que o grupo entretanto fizera:«És um bom amigo, Luís, e nem sabes a enorme alegria que me deste!E agora vou-me. Pressinto que ela já chegou e quero recebê-la. Adeus, pá!...»
Todos nós, os daquele grupo meio disperso que conversava, vimos o Diogo desaparecer atrás de um frondoso carvalho, num passo elástico de desportista. Quase ao fundo do jardim, ligeiramente adiantado em relação a nós, ficou um Luís meio absorto . Pareceu-me ler-lhe, porém, no olhar uma enorme mágoa. E, de repente, dei comigo a ter muita pena dele e a pensar : "Louco! Como pareces triste ao ver o teu amigo partir cheio de felicidade! Como a vida pode ser tão cruel!"
O Luís vai ser um futuro advogado, inteligente, sensível, brilhante e muito amigo do seu amigo. Todos consideramos este jovem de aspecto calmo um bom rapaz e mães e senhoras solteiras um bom partido. Mas de quantas renúncias silenciosas, de quantos grandes e pequenos heroísmos, pode ser feita a alma de um jovem quando sabe que está apaixonado? Sim, porque eu já pressentira o interesse permanente que Luís prodigalizava a Rita desde há muito. Não sabia bem era em que pé andavam as coisas entre eles, porque Rita parecia-me gostar de todos nós, independentemente do sexo ou da idade, e de nenhum dos nossos companheiros de estudo e de folguedos.
Passado um tempo, alguém nos chamou finalmente para o lanche ajantarado de festa. Entretanto, a conversa sobre a estreia do filme já devia ter acabado e eu nem me dera conta.
Ao entrarmos no salão, dei logo de caras com a recém-chegada Rita que ainda cumprimentava afavelmente as senhoras presentes que pareciam encantadas com toda a sua gentileza e frescura envolta num simples e vaporoso vestido azul-céu que parecia condizer em tudo com os seus olhos radiantes, ainda que vagamente inquietos. A Maria dizia-lhe que já estava a ficar preocupada com a demora e a Mimi que "festa sem ela não era festa"... E a Rita sorria contente para as amigas, quando vi que mudou ligeiramente de expressão ao encarar com o Diogo, encostado ao peitoril de uma das duas janelas que davam para o jardim e que tabém sorria. E, pouco depois, enquanto alguns pares já rodopiavma ao som de uma valsa, vi-o chegar junto dela e segredar-lhe qualquer coisa ao ouvido e não duvidei que o cavaleiro branco dos sonhos daquela donzela de nome Rita tinha finalmente chegado.
Fiquei cheinha de curiosidade. Que iria agora acontecer?... Então, por entre as reviravoltas da valsa que eu dançava com Pedro, ouvi a Rita perguntar ao rapaz que, entretanto, se lhe juntara: «Então e o que me queria de tão importante, Diogo?»
«Bem...Pedir-lhe as suas mãos!»
«As minhas mãos?!» E Rita ria.
«Claro! Quero as duas... não pretendo casar com uma jovem senhora maneta.» A voz soava-lhe maliciosa. «O que diria então a sociedade?!»
Apesar de um pouco perturbada, a rapariga riu ainda mais, reparando nas sobrancelhas comicamente encrespadas do rapaz. Eu ouvi-lhe a gargalhada e como, entretanto, a valsa tinha terminado, com o Pedro ao meu lado, julgando que lhe ouvia uma anedota, dirigi-me para perto do par, pressentindo algo de novo no desenrolar daquela festa.Confesso que ardia da mais pura curiosidade.
«Oh! Diogo! Isso é uma declaração? Nunca pensei que...» Apesar de radiante, a Rita parecia confusa e emendou: «Não pensei em ouvir de si... algo de tão original. Se não fosse você julgaria que alguém estava a brincar comigo.»
Vi o Diogo pegar nas mãos da Rita, até então caídas ao longo do seu corpo esbelto. «Então não pensa isso de mim? Que estou a brincar?»
E a Rita perdeu o seu olhar luminoso no do interlocutor. «Não. Acho-o por demais leal.»
«Está aceite então a minha candidatura às suas lindas mãos? Posso beijá-las?» E o Diogo, perante o olhar divertido de alguns dos amigos, entre os quais eu, a Maria Aleu, o Luís e o Pedro, levou, num gesto encantador e galante, aos lábios aquelas mãozinhas que conservava apertadas entre as suas, e, de seguida, aspirou-lhes o odor, parecendo maliciosamente enlevado. Embaraçada, consciente de que estavam a ser observada, a Rita forcejou por libertar as mãos. «Você é de força!» Vimo-la quase zangada, enquanto, a pouco e pouc,o um sorriso encantador desmentia o tom de voz :«E para castigo só vai ter resposta depois do lanche.» E o Diogo, a fingir-se desolado:«Oh!Não seja má!»
«É o que lhe digo!»
«Está bem!», aquiesceu o rapaz. E numa reviravolta que nos pôs todos a rir:« Vamos dançar?»
Quando o baile recomeçou em força depois de servido o lanche-jantar, o Luís, o amigo de todos, o bom rapaz, leu nos olhos radiantes de Rita como esta se sentia feliz. Via-se qu ainda sofria. Eu acerquei-me. «Então, Luís, que contemplas?...» Penalizada, vi-o esboçar um vago sorriso, murcho, triste. «Contemplo a felicidade, minha querida amiga. Ainda não a viste?»
«Jovem visionário! Onde a verás tu?», brinquei.
«Talvez no céu», suspirou o rapaz. Encolheu os ombros, inclinou-se um pouco numa espécie de vénia e foi convidar a Emilinha para dançar um "cha-cha-cha".
Emocionada, segui, por momentos com os olhos o Diogo e o seu par que, alheios aos que os rodeavam, riam e falavam incessantemente, loucamente, numa maré de enlevo. Senti, de repente, um pouco de inveja daqueles dois .Será que algum dia?... Era mais avisado não pensar nisso. Tal como a Rita também eu me gabava de ser uma rapariga muito moderna e nada romântica.
Ao registar estas minhas observações da festa da maioridade da Mimi Garcez, ainda dou comigo a pensar se não será bom e mesmo aconselhável ser-se um bocadinho louco de vez em quando, porque a vida, no seu evoluir apressado e permanente, vai-nos mostrando sempre a forma de sermos equilbrados, muito ajuizados...
... Porém também acho que o encanto dela nasce inegavelmente de um pouco de loucura.

26-02-1956