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terça-feira, 9 de julho de 2019

Valsa das rosas - Russian State Symphonic Orchestra



Não temos segurança absoluta,
                                              apenas esperança.

                                                                           Ernst Bloch

terça-feira, 22 de janeiro de 2019

Vestida para um baile...


Vestiu-se para um baile que não há.
Sentou-se com as suas últimas jóias.
E olha para o lado, imóvel.

*
Está vendo os salões que se acabaram,
embala-se em valsas que não dançou,
levemente sorri para um homem.
O homem que não existiu.

*
Se alguém lhe disser que sonha,
levantará com desdém o arco das sobrancelhas,
pois jamais se viveu com tanta plenitude.


Mas para falar da sua vida
tem de baixar as quase infantis pestanas,
e esperar que se apaguem duas infinitas lágrimas.

Cecília Meireles

segunda-feira, 24 de dezembro de 2018

Assim fosse eu...


É brando o dia, brando o vento.
É brando o sol e brando o céu.
Assim fosse meu pensamento!
Assim fosse eu, assim fosse eu!


Mas entre mim e as brandas glórias
Deste céu limpo e este ar sem mim
Intervêm sonhos e memórias...
Ser eu assim, ser eu assim!


Ah, o mundo é quanto nós trazemos.
Existe tudo porque existo.
Há porque vemos.
E tudo é isto, tudo é isto!

Fernando Pessoa, in Cancioneiro[15.08.1933]




segunda-feira, 27 de maio de 2013

«Hiato»...


Em lábios muito jovens
a turbulência das folhas
luta ainda com a raiz da água

Em lábios muito jovens arder é tão lento

Eugénio de Andrade, Véspera da água

domingo, 12 de dezembro de 2010

Cenas da Vida Liceal - Parte V




Matinée dançante [cont.]

De certo modo, as apreciações de Catarina sobre Francisco eram descabidas. Francisco era um moço desempenado, simpático no trato, mas que sofria de uma certa dose de fatuidade, patente perante pessoas que o conhecessem superficialmente e o observassem com olhos mais severos que benevolentes e Catarina até estava neste caso e daí a antipatia que nutria por ele. Isabel não se cansava de lhe observar que Francisco, em família, era muito mais simples e afável do que com estranhos. E nem nunca fora menos delicado para Catarina, mas esta achava pouca afabilidade nessa delicadeza, assim como um verniz com que a jovem embirrava quase que por instinto.E nem se podia dizer que não fosse charmoso, com cabelos negros, lisos e brilhantes e uns olhos verdes num rosto um pouco pálido. No todo, era um rapaz cuja compleição física e modo de se apresentar muito agradava às meninas e às senhoras da sociedade que frequentava, que viam nele um possível bom partido se possuíssem filhas para casar.
Depois de cumprimentar polidamente as duas amigas, a convite da tia Francisco sentou-se um pouco a conversar sobre a excelência do grupo orquestral que animava aquela tarde dançante. E quando este iniciou um novo número, Francisco sentiu-se obrigado a convidar a prima para dançar. Irónica, Isabel observou-lhe que talvez devesse começar pelas convidadas, e que muito admirava a falta a esse acto da mais estrita delicadeza... ligeiramente atrapalhado, o jovem encolheu os ombros com um infeliz "Tanto faz!..." antes de se inclinar perante Catarina.pedindo-lhe uma vaga desculpa da involuntária delicadeza. Sentindo-se colocada numa situação um pouco desagradável, Catarina reagiu com uma veemência de que logo se arrependeu: - Não ligue ao que a sua prima diz! Ela conhece-me e sabe muito bem que não ligo a certas etiquetas1 Só quis entrar consigo!...
E como o rapaz insistisse, acabou por alegar cansaço e vontade de acabar o chá antes que este esfriasse.
Ao passar com o primo em direcção à pista, Isabel não se coibiu de soltar um murmúrio ao ouvido da amiga: - Ouve...Prega-lhe a partida., ao qual a rapariga fez um imperceptível sinal de assentimento. E quando a seguir, Carlos foi por ela, Catarina não opôs obstáculos e foi também dançar.
Francisco ironizou para Isabel ao vê-los: - Então a tua colega já não está cansada?
Com alguma severidade, a prima retorquiu: - Fez-te o que merecias. Agora vê lá se és indelicado ao ponto de lhe dizeres alguma coisa.
- Eu? Nem penses...
- Pagou-te indelicadeza com indelicadeza.
- Aquela menina, quando a vejo na rua,dá.me a impressão que passa a vida a fazer troça. - O rosto de Francisco tinha vincada na testa alta uma ruga de alguma contrariedade.
Com uma entoação difícil de definir, sorrindo, Isabel soltou um: - Sim?!...
- De que te ris?
- De mim, de ti, de nós... Não interessa!Acabou. Vamos atè à mesa. parece que os músicos vão fazer intervalo.
Catarina e Carlos pareciam muito divertidos. E a rapariga contou que numa incursão até à zona dos pequeninos, se sentira fortemente agarrada pela cintura e se vira em riscos de cair.Quando se voltara, furiosa com a situação, vira que era a Mimi. Quando tentava inquirir da miúda o porquê do inopinado abraço, eis que chegara o Luisinho, o filho do dr. Simões, que lhe pega na mão e a arrasta atrás dele gritando-lhe: - Anda daí! Vamos dançar1 não sejas pateta!" E a Mimi lá fora, arrastada pelo opressor,de braço no ar, fazendo vãos esforços para se libertar e acenando um vago adeus com a mãozita erguida. E Carlos e Catarina tinham rido muito com a cena entre os miúdos. "Felizmente que a Mimi não fora arrastada pelos cabelos..." . comentava ainda.
Claro que o dr. Simões de que se falava era nem mais nem menos que o professor de Português das pequenas, o que as fez descer à realidade das aulas do dia seguinte.
- E se nós contássemos isto num "caso da semana" ao dr. Simões? . troçou Isabel.
Catarina, atenta aos acordes da orquestra, interrompeu-a: - Escuta, Isabel1 São os "Beijos de fogo"!
- É mesmo! Lembras-te o que nós dançámos esta música em Pinhel. há dois anos? E mesmo no ano passado...
- Eu gosto.
- Eu também. - concordou Isabel. Carlos, que ficara por ali, convidou-a para dançar o novo número e Isabel concordou, e afastou-se com um simpático "Até já!" a Catarina e Francisco, ainda de pé, junto da mesa.
por essa altura, dona Guilhermina, que se entretinha ora a conversar, ora a dançar com pessoas amigas, aproximou-se.
- Então os meninos não dançam? Onde está Isabel?
- Saiu mesmo agora. Anda a dançar com o Carlos.

terça-feira, 24 de agosto de 2010

Vida liceal... - Parte V




Um baile


Nesse dia, a Isabel esperava, muito excitada, no recreio, porque morria em desejos de comunicar à amiga Catarina o quer que fosse que a animava a um tal ponto. Mas, pensava consigo, que aquela rapariga era assim mesmo: como sempre, atrasada! E, até ao momento em que Catarina chegou junto dela, não se cansou de enumerar, em pensamento, todos os defeitos que lhe encontrava. Porém, assim que a viu, não se conteve:
- Kaety! Sabes? Vamos ao baile!
- Baile?! Qual baile?
- Ó menina! Há um baile no Grémio e a minha tia convidou-nos a ir com ela!
- Um baile de cerimónia?!?
- Ora! Não sejas pateta! Querias um baile de cerimónia, não?! Com a nossa idade...
- Precisamente porque achei a ideia descabida é que a formulei. Não deu para perceber? Porque estou meia atarantada...Chego e logo me dizes: Vamos ao baile!E sabes se me deixam ir?
- Vou pedir aos teus pais, que remédio!
- Bem. Isso é outra coisa. E o teu pai deixa-te ir, por sua vez?
- Com a minha tia, deixa. E como tu vais...
- Certo, muito certo, mas passemos a outro assunto: já descompuseste o Jorge?
- Nem me fales nesse palerma!Pelo amor de Deus! Pensava precisamente pedir-te um conselho sobre o que hei-de fazer.
- Olha, menina, se o caso fosse comigo fazia o seguinte: - fingia que não tinha recebido nada e não lhe dava resposta nenhuma. Até porque ele nem ta pede. Quere-a, sabemos que sim, mas não pede porque pensa- sei lá! - que vais render-te aos seus encantos. Continua a não lhe ligar e procura não corar na frente dele.
Isabel, à medida que a amiga falava, tornava-se um lacre:sobre o lado esquerdo havia uma mancha mais escarlate que se acentuava no seu rosto moreno. Catarina, que observava a amiga enrubescer, rematou, encolhendo os ombros:
- É contigo. Eu fazia assim.
Durante algum tempo, Isabel conservou-se pensativa. Pouco depois, murmurou:
- É mesmo, acho que vou seguir o teu conselho. Não lhe respondo.
Mas dir-se-ia que não estava muito convencida... Para ultrapassar o ligeiro silêncio entre elas, pouco depois Catarina quis saber pormenores:
- E sabes em que dia calha o baile, Isabel?
- Já no próximo domingo. Logo já vou a tua casa pedir a desejada autorização. Desejada e indispensável.
- Está bem. E obrigada pela tua lembrança. E também tenho que agradecer à tua tia Guilhermina.
E, dizendo isto, Catarina sorria, porque adorava dançar.
Nesse preciso momento, a campainha retiniu por todo o amplo edifício do Liceu e as duas jovens engrossaram o caudal de batas brancas por entre apertos, cotoveladas, gritos, correrias. Fortemente empurrada, Catarina protestava que era sempre o mesmo!...

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segunda-feira, 8 de março de 2010

A flor e a borboleta



Tu voas, borboleta! e que eu não possa
Voar, amor!
Diversa como é nisto a sorte nossa!
Dizia a flor.

No vale, ambas irmãs, nascidas fomos;
És como eu sou;
E amamo-nos, e flores ambas somos,
Mas eu não voo!

A ti levanta-te o ar; prende-me a terra
A mim; e eu
Como hei-de perfumar-te em vale e serra,
E lá no céu?

Mais longe inda tu vás, por outras flores
Girar talvez,
Enquanto a minha sombra, meus amores,
Gira a meus pés!

E vens-me ver depois, mas vais-te embora,
Sabendo assim
Que em lágrimas me encontra sempre a aurora!
Pobre de mim!

Acabem-se estas mágoas, meu tesouro
E meu amor!
Cria raiz ou dá-me as asas de ouro,
Celeste flor!

Vítor Hugo, numa versão de João de Deus

quinta-feira, 20 de agosto de 2009

Folhas de um diário




Anos 50 - Folhas do diário de uma rapariguinha, por volta do ano de 1956

I -Hoje havia uma desusada animação em casa da Mimi Garcez. No salão conversava-se e dançava-se, jogava-se gamão, fazia-se paciências com cartas, as senhoras entregavam-se à canasta, outras à renda ou ao tricot e aproveitavam para pôr em dia a vida de vizinhos, conhecidos e mesmo de amigas mais ou menos comuns. Foi quarta-feira, dia habitual de juntar os jovens para se divertirem e eu , convidada pela Maria Aleu, que é um doce de rapariga, também fui. Gosto mesmo muito dela e sei que ela gosta de mim. Mas nós, os jovens, preferimos quase sempre as sombras do frondoso jardim e aí discutimos com calor e gracejamos sobre os mais variados assuntos, gozando da relativa liberdade que nos dão as mamãs, papás e tias solteiras ou viúvas mais entretidos pelo espaçoso salão. Na copa sombria, duas criadas de dentro, fardadas irrepreensivelmente de escuro, com os aventalinhos brancos pregueados em nylon, afadigavam-se a cobrir a comprida e maciça mesa de castanho com sandwiches, bolos, doces, salada de frutas, refrescos, cup, vinhos generosos, whisky e champanhe e uma série de heterogéneos produtos de doçaria regional e, encimando tudo isto, um enorme bolo ornamentado com as tradicionais velinhas natalícias e tudo isto porque a Mimi completava os seus vinte e um anos radiosos e convidou os amigos e alguns amigos dos amigos para com todos festejar a data da tão apetecida maioridade.
Ao entrar no salão, tinha reencontrado e reconhecido imensa gente. Num dos grupos espalhados ao acaso, ouvi alguém perguntar à Maria Aleu:«Olha lá! A Rita ainda não recuperou o bom humor? Ainda não apareceu e estranho a demora.» Quem dizia isto era o Luís, o primo da Mimi. E enquanto a minha amiga encolhia os ombros, manifestando ignorância, prosseguiu: «Devo dizer-vos que aquela rapariga anda muito estranha! Se vissem a cara esquisita que tinha um dia destes quando eu vinha de acompanhar...» Calou-se bruscamene e lançou ao Diogo, que estava a escutá-lo muito atento, um olhar muito perscrutador. Vi que o Diogo notou, mas nada disse. O nosso grupo das meninas, que também tinham ficado muito curiosas, não se conteve com a brusca interrupção. Exclamações e perguntas ouviram-se de vários lados: «Então, Luís! Acabe! »
«Acaba!Quando foi isso? Quem foi que acompanhaste?»
«Não sejas misterioso! Conta lá, que isso interessa-nos!»
Mas Luís mudara de ideias. Sacudindo a cabeça, foi bastante firme na recusa.«Não, meninas! Nada disto deve ser assim tão importante, apesar de ter visto a Rita realmente incomodada. Mas logo depois a vi a dançar e sem nuvens negras a ensombrar-lhe o espírito, porque parecia até muito animada.»
«Ora bem! Algum desgosto de amor!», observou levianamente Pedro Santiago.
«Acho a Rita por demais moderna para ter sido essa a causa, contrapôs o Luís. Mas deve estar por aí a chegar e pergunta-se-lhe.»
Com outras várias considerações sobre o assunto, ainda ficámos por ali até que, com a Maria Aleu, a Tanchinha e o Diogo, já cansados com a atmosfera saturada de odores e o ruído das desencontradas conversas do salão, decidimos sair para o jardim e juntarmo-nos ao grupo que assistia a um combate renhido de badminton entre os primos e primas mais jovens da Mimi e da Maria. Por ali, também se aproveitava para comentar o último filme do Avenida. E foi com o pano de fundo de várias e desencontradas opiniões, que vi o Diogo chegar-se para perto do Luís, enquanto nos internávamos lentamente nas alamedas areadas do jardim, e nos distanciávamos um pouco dos alaridos dos animados jogadores e dos sons breves e compassados das batidas do volante de penas brancas contra as raquetas cortando a atmosfera branda do anoitecer. «Ora bem, meu menino, ouvi dizer ao Diogo. Acho que agora chegou o momento de me explicares a razão daquele olhar perfurador que me lançaste. Porque parece-me ter percebido uma relação entre o ar angustiado da Rita que lhe viste e a minha pessoa... É isso?»
«Bem, talvez.Mas também é natural que eu e tu estejamos enganados. Mas, vejamos: será que podes explicar-me a razão porque abandonaste tão cedo a reunião passada?...»
Por momentos silencioso, e já muito curiosa, mas caladinha para não perder pitada da conversa entre aqueles dois, enquanto fingia concordar com a opinião abalizada da cinéfila Amélia sobre a interpretação da Audrey Hepburn, ouvi o Diogo concordar.«Creio que sim, desde que me narres fielmente o que aconteceu com a Rita depois que saí.»
«E prometes-me segredo a ...seja a quem for?»
«Tens a minha palavra.»



Vi que Luís considerava a resposta, enquanto abria a cigarreira para puxar de um cigarro. Depois soltou uma primeira bafurada. «Conta lá então o motivo porque saiste outro dia tão precipitadamente e tão cedo lá de casa.»
«Bem..foi simples. Tinha discutido com a Rita e estava muito zangado.»
«E ela não te chamou para se desculpar?»
«Não. Na altura não fez o mais leve gesto para isso.»
Inquisidor, Luís continuou:« E entre tu e ela não havia nada mais além de camaradagem?»
«Nada, que soubéssemos. Ela até andava um tanto fria comigo.»
« É. Sei disso, ouvi murmurar o Luís, enquanto fixava pensativo as volutas de fumo do cigarro que lhe ardia preguiçoso entre os dedos longos. E , lentamente, recomeçou:«O que tenho para te dizer é simples e é muito pouco. Quase nada, mesmo, mas, ainda assim... Quando vinha de te acompanhar á saída, estava a subir o último lance de escadas, quando ela me apareceu a perguntar quem tinha saído. E pareceu-me aflita. Inquieto, só me lembrei de tentar saber se se sentia mal. Respondeu-me que não tinha nada, mas insistia em saber quem tinha acabado de sair. Estava agitada, um pouco pálida e acabei por lhe dizer que tinhas sido tu. Pareceu ficar de repente ainda mais desgostosa e respondeu-me que não era nada, que afinal não era contigo... Voltou-me as costas e reentrou no salão. E qual não é o meu espanto quando a vi de seguida a dançar com já nem sei quem. E pareceu-me muito estranho vê-la toda a noite muito feliz, esfusiante de encanto e alegria, não parando ninguém com ela. Pôs toda a gente a mexer-se, nessa noite. Mas nos dias seguintes já não a vi assim, mas pouco comunicativa, quase sorumbática. Percebia-se que a muito custo acompanhava as nossas brincadeiras. Atirámos-lhe remoques e não nunca mais correspondeu com aquela alegria do costume, brindando-nos com um ou outro sorriso triste. Então, quase sem querer, relacionei esse sorriso meio amarelo com o teu afastamento e com a tua fuga desse dia. E ontem, quando fomos à sessão da tarde no Avenida, confirmou-se-me essa ideia quando a vi de novo muito alegre, afável e gentil como dantes era. E como tu também estavas de volta...» Luís calou -se. Pareceu-me, também a mim, um pouco cansado e desgostoso. Em contrapartida, vi o Diogo felicíssimo da vida! Continuei muito atenta, virada um pouco de lado, sempre que se parava para contornar uma sebe, ou um canteiro, e de novo o Luís, agora de um modo distante, retomou o fio das suas reflexões em voz alta para o companheiro: « Com tudo isto não quero atribuir à Rita sentimentos ... enfim, creio que me compreendes,pá. Mas como a acho uma rapariga excelente e como a tua fuga me pareceu ser a de um enamorado furioso...resolvi contar-te... isto. Talvez aproveite a ambos.» Não escondendo por então o seu contentamento, ouvi o Diogo responder, quase reconhecido, cortando o silêncio breve que o grupo entretanto fizera:«És um bom amigo, Luís, e nem sabes a enorme alegria que me deste!E agora vou-me. Pressinto que ela já chegou e quero recebê-la. Adeus, pá!...»
Todos nós, os daquele grupo meio disperso que conversava, vimos o Diogo desaparecer atrás de um frondoso carvalho, num passo elástico de desportista. Quase ao fundo do jardim, ligeiramente adiantado em relação a nós, ficou um Luís meio absorto . Pareceu-me ler-lhe, porém, no olhar uma enorme mágoa. E, de repente, dei comigo a ter muita pena dele e a pensar : "Louco! Como pareces triste ao ver o teu amigo partir cheio de felicidade! Como a vida pode ser tão cruel!"
O Luís vai ser um futuro advogado, inteligente, sensível, brilhante e muito amigo do seu amigo. Todos consideramos este jovem de aspecto calmo um bom rapaz e mães e senhoras solteiras um bom partido. Mas de quantas renúncias silenciosas, de quantos grandes e pequenos heroísmos, pode ser feita a alma de um jovem quando sabe que está apaixonado? Sim, porque eu já pressentira o interesse permanente que Luís prodigalizava a Rita desde há muito. Não sabia bem era em que pé andavam as coisas entre eles, porque Rita parecia-me gostar de todos nós, independentemente do sexo ou da idade, e de nenhum dos nossos companheiros de estudo e de folguedos.
Passado um tempo, alguém nos chamou finalmente para o lanche ajantarado de festa. Entretanto, a conversa sobre a estreia do filme já devia ter acabado e eu nem me dera conta.
Ao entrarmos no salão, dei logo de caras com a recém-chegada Rita que ainda cumprimentava afavelmente as senhoras presentes que pareciam encantadas com toda a sua gentileza e frescura envolta num simples e vaporoso vestido azul-céu que parecia condizer em tudo com os seus olhos radiantes, ainda que vagamente inquietos. A Maria dizia-lhe que já estava a ficar preocupada com a demora e a Mimi que "festa sem ela não era festa"... E a Rita sorria contente para as amigas, quando vi que mudou ligeiramente de expressão ao encarar com o Diogo, encostado ao peitoril de uma das duas janelas que davam para o jardim e que tabém sorria. E, pouco depois, enquanto alguns pares já rodopiavma ao som de uma valsa, vi-o chegar junto dela e segredar-lhe qualquer coisa ao ouvido e não duvidei que o cavaleiro branco dos sonhos daquela donzela de nome Rita tinha finalmente chegado.
Fiquei cheinha de curiosidade. Que iria agora acontecer?... Então, por entre as reviravoltas da valsa que eu dançava com Pedro, ouvi a Rita perguntar ao rapaz que, entretanto, se lhe juntara: «Então e o que me queria de tão importante, Diogo?»
«Bem...Pedir-lhe as suas mãos!»
«As minhas mãos?!» E Rita ria.
«Claro! Quero as duas... não pretendo casar com uma jovem senhora maneta.» A voz soava-lhe maliciosa. «O que diria então a sociedade?!»
Apesar de um pouco perturbada, a rapariga riu ainda mais, reparando nas sobrancelhas comicamente encrespadas do rapaz. Eu ouvi-lhe a gargalhada e como, entretanto, a valsa tinha terminado, com o Pedro ao meu lado, julgando que lhe ouvia uma anedota, dirigi-me para perto do par, pressentindo algo de novo no desenrolar daquela festa.Confesso que ardia da mais pura curiosidade.
«Oh! Diogo! Isso é uma declaração? Nunca pensei que...» Apesar de radiante, a Rita parecia confusa e emendou: «Não pensei em ouvir de si... algo de tão original. Se não fosse você julgaria que alguém estava a brincar comigo.»
Vi o Diogo pegar nas mãos da Rita, até então caídas ao longo do seu corpo esbelto. «Então não pensa isso de mim? Que estou a brincar?»
E a Rita perdeu o seu olhar luminoso no do interlocutor. «Não. Acho-o por demais leal.»
«Está aceite então a minha candidatura às suas lindas mãos? Posso beijá-las?» E o Diogo, perante o olhar divertido de alguns dos amigos, entre os quais eu, a Maria Aleu, o Luís e o Pedro, levou, num gesto encantador e galante, aos lábios aquelas mãozinhas que conservava apertadas entre as suas, e, de seguida, aspirou-lhes o odor, parecendo maliciosamente enlevado. Embaraçada, consciente de que estavam a ser observada, a Rita forcejou por libertar as mãos. «Você é de força!» Vimo-la quase zangada, enquanto, a pouco e pouc,o um sorriso encantador desmentia o tom de voz :«E para castigo só vai ter resposta depois do lanche.» E o Diogo, a fingir-se desolado:«Oh!Não seja má!»
«É o que lhe digo!»
«Está bem!», aquiesceu o rapaz. E numa reviravolta que nos pôs todos a rir:« Vamos dançar?»
Quando o baile recomeçou em força depois de servido o lanche-jantar, o Luís, o amigo de todos, o bom rapaz, leu nos olhos radiantes de Rita como esta se sentia feliz. Via-se qu ainda sofria. Eu acerquei-me. «Então, Luís, que contemplas?...» Penalizada, vi-o esboçar um vago sorriso, murcho, triste. «Contemplo a felicidade, minha querida amiga. Ainda não a viste?»
«Jovem visionário! Onde a verás tu?», brinquei.
«Talvez no céu», suspirou o rapaz. Encolheu os ombros, inclinou-se um pouco numa espécie de vénia e foi convidar a Emilinha para dançar um "cha-cha-cha".
Emocionada, segui, por momentos com os olhos o Diogo e o seu par que, alheios aos que os rodeavam, riam e falavam incessantemente, loucamente, numa maré de enlevo. Senti, de repente, um pouco de inveja daqueles dois .Será que algum dia?... Era mais avisado não pensar nisso. Tal como a Rita também eu me gabava de ser uma rapariga muito moderna e nada romântica.
Ao registar estas minhas observações da festa da maioridade da Mimi Garcez, ainda dou comigo a pensar se não será bom e mesmo aconselhável ser-se um bocadinho louco de vez em quando, porque a vida, no seu evoluir apressado e permanente, vai-nos mostrando sempre a forma de sermos equilbrados, muito ajuizados...
... Porém também acho que o encanto dela nasce inegavelmente de um pouco de loucura.

26-02-1956