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terça-feira, 28 de abril de 2020

...do desassossego...


 
 "Sinto o tempo com uma dor enorme. É sempre com uma comoção exagerada que abandono qualquer coisa.  [...] - sim, mas as coisas pequenas da vida, quando as abandono e penso, com toda a sensibilidade dos meus nervos, que nunca mais as verei e as terei, pelo menos naquele preciso e exacto momento, doem-me metafisicamente. Abre-se-me um abismo na alma e um sopro frio da boca de Deus roça-me pela face lívida.
 O tempo! O passado! Aí algures, uma voz, um canto, um perfume ocasional levantou em minha alma o pano de boca das minhas recordações.... Aquilo que fui e nunca mais serei! Aquilo que tive e não tornarei a ter! Os mortos! Os mortos que me amaram na minha infância.
Quando os evoco, toda a alma me esfria e eu sinto-me desterrado de corações, sozinho na noite de mim próprio, chorando como um mendigo o silêncio fechado de todas as portas."

Fernando Pessoa, in «O livro do desassossego»

segunda-feira, 24 de dezembro de 2018

Assim fosse eu...


É brando o dia, brando o vento.
É brando o sol e brando o céu.
Assim fosse meu pensamento!
Assim fosse eu, assim fosse eu!


Mas entre mim e as brandas glórias
Deste céu limpo e este ar sem mim
Intervêm sonhos e memórias...
Ser eu assim, ser eu assim!


Ah, o mundo é quanto nós trazemos.
Existe tudo porque existo.
Há porque vemos.
E tudo é isto, tudo é isto!

Fernando Pessoa, in Cancioneiro[15.08.1933]




sexta-feira, 24 de janeiro de 2014

Nas ruas de Verona...


As coisas não se vêem por metade
Ou passas e as fitas de repente
pousando um longo olhar de eternidade
que logo vai aos fumos da memória,
ou vives com elas lentamente
gastando-te com elas, nelas vendo-
-te como em espelho que te sobrevive.


Mas o passar como quem visse tudo
e ali ficasse não ficando a vida
faz que as coisas se cubram de um cristal
opaco e se diluindo em corpo falso:
aquele que é quanto então mereces.

Jorge de Sena

domingo, 12 de dezembro de 2010

Cenas da Vida Liceal - Parte V




Matinée dançante [cont.]

De certo modo, as apreciações de Catarina sobre Francisco eram descabidas. Francisco era um moço desempenado, simpático no trato, mas que sofria de uma certa dose de fatuidade, patente perante pessoas que o conhecessem superficialmente e o observassem com olhos mais severos que benevolentes e Catarina até estava neste caso e daí a antipatia que nutria por ele. Isabel não se cansava de lhe observar que Francisco, em família, era muito mais simples e afável do que com estranhos. E nem nunca fora menos delicado para Catarina, mas esta achava pouca afabilidade nessa delicadeza, assim como um verniz com que a jovem embirrava quase que por instinto.E nem se podia dizer que não fosse charmoso, com cabelos negros, lisos e brilhantes e uns olhos verdes num rosto um pouco pálido. No todo, era um rapaz cuja compleição física e modo de se apresentar muito agradava às meninas e às senhoras da sociedade que frequentava, que viam nele um possível bom partido se possuíssem filhas para casar.
Depois de cumprimentar polidamente as duas amigas, a convite da tia Francisco sentou-se um pouco a conversar sobre a excelência do grupo orquestral que animava aquela tarde dançante. E quando este iniciou um novo número, Francisco sentiu-se obrigado a convidar a prima para dançar. Irónica, Isabel observou-lhe que talvez devesse começar pelas convidadas, e que muito admirava a falta a esse acto da mais estrita delicadeza... ligeiramente atrapalhado, o jovem encolheu os ombros com um infeliz "Tanto faz!..." antes de se inclinar perante Catarina.pedindo-lhe uma vaga desculpa da involuntária delicadeza. Sentindo-se colocada numa situação um pouco desagradável, Catarina reagiu com uma veemência de que logo se arrependeu: - Não ligue ao que a sua prima diz! Ela conhece-me e sabe muito bem que não ligo a certas etiquetas1 Só quis entrar consigo!...
E como o rapaz insistisse, acabou por alegar cansaço e vontade de acabar o chá antes que este esfriasse.
Ao passar com o primo em direcção à pista, Isabel não se coibiu de soltar um murmúrio ao ouvido da amiga: - Ouve...Prega-lhe a partida., ao qual a rapariga fez um imperceptível sinal de assentimento. E quando a seguir, Carlos foi por ela, Catarina não opôs obstáculos e foi também dançar.
Francisco ironizou para Isabel ao vê-los: - Então a tua colega já não está cansada?
Com alguma severidade, a prima retorquiu: - Fez-te o que merecias. Agora vê lá se és indelicado ao ponto de lhe dizeres alguma coisa.
- Eu? Nem penses...
- Pagou-te indelicadeza com indelicadeza.
- Aquela menina, quando a vejo na rua,dá.me a impressão que passa a vida a fazer troça. - O rosto de Francisco tinha vincada na testa alta uma ruga de alguma contrariedade.
Com uma entoação difícil de definir, sorrindo, Isabel soltou um: - Sim?!...
- De que te ris?
- De mim, de ti, de nós... Não interessa!Acabou. Vamos atè à mesa. parece que os músicos vão fazer intervalo.
Catarina e Carlos pareciam muito divertidos. E a rapariga contou que numa incursão até à zona dos pequeninos, se sentira fortemente agarrada pela cintura e se vira em riscos de cair.Quando se voltara, furiosa com a situação, vira que era a Mimi. Quando tentava inquirir da miúda o porquê do inopinado abraço, eis que chegara o Luisinho, o filho do dr. Simões, que lhe pega na mão e a arrasta atrás dele gritando-lhe: - Anda daí! Vamos dançar1 não sejas pateta!" E a Mimi lá fora, arrastada pelo opressor,de braço no ar, fazendo vãos esforços para se libertar e acenando um vago adeus com a mãozita erguida. E Carlos e Catarina tinham rido muito com a cena entre os miúdos. "Felizmente que a Mimi não fora arrastada pelos cabelos..." . comentava ainda.
Claro que o dr. Simões de que se falava era nem mais nem menos que o professor de Português das pequenas, o que as fez descer à realidade das aulas do dia seguinte.
- E se nós contássemos isto num "caso da semana" ao dr. Simões? . troçou Isabel.
Catarina, atenta aos acordes da orquestra, interrompeu-a: - Escuta, Isabel1 São os "Beijos de fogo"!
- É mesmo! Lembras-te o que nós dançámos esta música em Pinhel. há dois anos? E mesmo no ano passado...
- Eu gosto.
- Eu também. - concordou Isabel. Carlos, que ficara por ali, convidou-a para dançar o novo número e Isabel concordou, e afastou-se com um simpático "Até já!" a Catarina e Francisco, ainda de pé, junto da mesa.
por essa altura, dona Guilhermina, que se entretinha ora a conversar, ora a dançar com pessoas amigas, aproximou-se.
- Então os meninos não dançam? Onde está Isabel?
- Saiu mesmo agora. Anda a dançar com o Carlos.

terça-feira, 24 de agosto de 2010

Vida liceal... - Parte V




Um baile


Nesse dia, a Isabel esperava, muito excitada, no recreio, porque morria em desejos de comunicar à amiga Catarina o quer que fosse que a animava a um tal ponto. Mas, pensava consigo, que aquela rapariga era assim mesmo: como sempre, atrasada! E, até ao momento em que Catarina chegou junto dela, não se cansou de enumerar, em pensamento, todos os defeitos que lhe encontrava. Porém, assim que a viu, não se conteve:
- Kaety! Sabes? Vamos ao baile!
- Baile?! Qual baile?
- Ó menina! Há um baile no Grémio e a minha tia convidou-nos a ir com ela!
- Um baile de cerimónia?!?
- Ora! Não sejas pateta! Querias um baile de cerimónia, não?! Com a nossa idade...
- Precisamente porque achei a ideia descabida é que a formulei. Não deu para perceber? Porque estou meia atarantada...Chego e logo me dizes: Vamos ao baile!E sabes se me deixam ir?
- Vou pedir aos teus pais, que remédio!
- Bem. Isso é outra coisa. E o teu pai deixa-te ir, por sua vez?
- Com a minha tia, deixa. E como tu vais...
- Certo, muito certo, mas passemos a outro assunto: já descompuseste o Jorge?
- Nem me fales nesse palerma!Pelo amor de Deus! Pensava precisamente pedir-te um conselho sobre o que hei-de fazer.
- Olha, menina, se o caso fosse comigo fazia o seguinte: - fingia que não tinha recebido nada e não lhe dava resposta nenhuma. Até porque ele nem ta pede. Quere-a, sabemos que sim, mas não pede porque pensa- sei lá! - que vais render-te aos seus encantos. Continua a não lhe ligar e procura não corar na frente dele.
Isabel, à medida que a amiga falava, tornava-se um lacre:sobre o lado esquerdo havia uma mancha mais escarlate que se acentuava no seu rosto moreno. Catarina, que observava a amiga enrubescer, rematou, encolhendo os ombros:
- É contigo. Eu fazia assim.
Durante algum tempo, Isabel conservou-se pensativa. Pouco depois, murmurou:
- É mesmo, acho que vou seguir o teu conselho. Não lhe respondo.
Mas dir-se-ia que não estava muito convencida... Para ultrapassar o ligeiro silêncio entre elas, pouco depois Catarina quis saber pormenores:
- E sabes em que dia calha o baile, Isabel?
- Já no próximo domingo. Logo já vou a tua casa pedir a desejada autorização. Desejada e indispensável.
- Está bem. E obrigada pela tua lembrança. E também tenho que agradecer à tua tia Guilhermina.
E, dizendo isto, Catarina sorria, porque adorava dançar.
Nesse preciso momento, a campainha retiniu por todo o amplo edifício do Liceu e as duas jovens engrossaram o caudal de batas brancas por entre apertos, cotoveladas, gritos, correrias. Fortemente empurrada, Catarina protestava que era sempre o mesmo!...

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sábado, 19 de junho de 2010

Continuação de VIDA LICEAL...em anos 50




- Bem, meninos - continuava daí a pouco a voz altissonante do dr. Simões - vocês vão experimentar os trajes, as barbas e os bigodes que estão aí encaixotados e vieram hoje do Porto. Podem ir lá abaixo aos camarins da Ginástica vestir-se. Depois de arranjados, venham para cima, que ensaiam já vestidos para fixarmos posições em cena.

Não tardou que, perante o gáudio de todos os presentes, surgissem do caixote capas, um chapéu de abas largas, túnicas, um vestido de dama do século XVII, uma touca com pérolas de fantasia e enfeites de ouropel, uma cabeleira grisalha de frade,com larga e redonda tonsura, umas barbas longas e bigodes igualmente brancos, longos e descaídos para a personagem do Romeiro, uma alva e comprida cabeleira para o mesmo e outras maravilhas.

De acordo com as instruções, os jovens que interpretavam as cenas da peça garrettiana desceram à cave do ginásio do liceu onde se encontravam os balneários e, pouco mais de um quarto de hora depois, surgiram nas figuras mais ridículas que se possa imaginar...

Henrique trazia , colocada às três pancadas, a cabeleira de frade que não lhe entrava totalmente na cabeça e vestia uma túnica branca de cabeção redondo e ainda uma espécie de casula preta por cima. Porém, a túnica estava curta e, como ele era bastante alto, descobria-lhe as calças logo abaixo dos joelhos. Por cima de tudo isto, envergava ainda uma capucha escura que lhe caía fradescamente pelas costas e, à laia de remate, ainda uma ampla capa castanha que veio depois a descobrir-se fazer parte do traje de Carlos Simões. Por sua vez, este ostentava a barba e os bigodes brancos e a longa cabeleira de romeiro que lhe deixava à mostra as suíças longas e o começo do seu próprio cabelo muito preto e ondulado. Envergava uma túnica larguíssima de um grosso pano castanho, trazia um chapeirão desabado numa mão e, com a outra,retorcia os grandes bigodes brancos, queixando-se:
-Sr, doutor: falta-me o bordão...

Atrás dele, o Zé Luís e o Jorge riam perdidamente.

O dr. Simões não pôde deixar de rir também.

- Pois... Isto está muito mal, está.Tu, Henrique, tens de fazer com que a cabeleira te entre na cabeça. Ora deixa cá ver...Hum...não entra. Estamos mal, rapaz.

- Ó sr.dr., - lamentou-se Henrique, muito sério, apalpando a cabeça - Isto faz-me aqui um alto danado...

E, de facto, todos repararam, intrigados, que havia um alto na cabeça do pobre coitado...

Então o Zé Luís arrancou-lhe a cabeleira e logo exibiu, muito divertido, um bigode grisalho retirado das profundezas da mesma. Soaram novas e irreprimíveis gargalhadas e, desta vez, a cabeleira passou a assentar melhor na cabeça do Henrique.

- O bigode não te fica bem - observou o dr. Simões, apreciando o efeito no rosto do rapaz. E concluiu: - Ficas mais frade sem bigode.

Sempre trocista, o Zé Luís, do lado, não se conteve:
- E mesmo esse bigode parece uma vassoura...

Também se chegou logo à conclusão que a bainha da túnica de Henrique tinha que ser descida e de que Carlos precisaria de enfarinhar as suíças no dia da récita, assim como as sobrancelhas, porque estas davam demasiado na vista em contraste com o bigode, barbas e cabeleira de um branco amarelado. E necessitava de um bordão de peregrino, também...
Foi a vez de uma das raparigas se prontificar a arranjar-lho.
Já com Lola tudo estava ajustado. O vestido parecia ter sido feito por medida e só seriam necessárias umas tranças postiças para encher o toucado.Lola explicou que, por um acaso feliz, conservara as suas tranças louras de criança dentro duma caixa pelo que o professor concluiu que estava assim tudo mais que acertado.

O ensaio continuou então sem incidentes de maior até ao final do episódio lancinante da saída de cena de Dona Madalena de Vilhena em que Carlos Simões se viu interpelado ansiosamente por Henrique, no papel de Frei Jorge. Ao grito de: "Romeiro! Romeiro! Quem és tu?!", o rapaz respondeu , muito pacífico, meio distraído, torcendo pachorrentamente as longas guias do bigode branco: "Ninguém...."

Uma gargalhada geral acolheu esta fala de um fim de acto isento da tragicidade requerida e o dr. Simões ordenou a repetição imediata daquela cena e só depois deixou os jovens sair em paz.

Na verdade, nunca aqueles ensaios foram - e assim continuaram - isentos da melhor disposição.

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- Ó Kaety! Nem calculas como foi divertido! Os rapazes estavam malucos de todo e nós fartámo-nos de rir!

Este era o comentário da Clara para uma Catarina um pouco pálida e com uns círculos azulados sublinhando-lhe os olhos claros. E continuou perante o pouco entusiasmo da amiga:
- Hoje vais ao ensaio, não vais?

- Olha que não sei! Se não me doer a cabeça, vou. O que menos me importa, neste momento, é o ensaio.

Catarina conservava no regaço um livro volumoso de capa vermelha que ostentava em enormes parangonas douradas o título: Compêndio de Geografia e sobre o qual logo se debruçou a estudar.

- Mas olha que nós divertimo-nos mesmo muito - tagarelava a Clara - O dr. Simões é um homem que está sempre bem disposto e com quem nos sentimos à vontade e rimo-nos à farta.

Contra o habitual, Catarina sentia-se, nesse dia, com fraca disposição para aconversa e continuou de cabeça pendida sobre o livro, esperando que a amiga se calasse.. E como, passados alguns minutos, visse que tal não era possível, resolveu levantar-se do banco em granito do recreio coberto onde se encontrava sentada.
- Vou procurar a Isabel. Já venho.

-Queres que vá contigo?

- Não, não é preciso. Obrigada..

E afastou-se, com o grosso volume vermelho debaixo do braço, onde se destacava pelo contraste com a manga da bata muito branca.

Sentia-se estranha.Ela, que até se preocupava pouco com o estudo, passara a estudar com afinco. Deixara de se entusiasmar com tudo o que antes de adoecer mais a interessava. Numa palavra, e no parecer das colegas que lhe eram próximas, continuava enferma de alma. Havia até quem insinuasse que se tinha apaixonado, o que era natural numa rapariga de quinze anos tão cheia de vida como era Kaety - comentavam elas.
Só que não sabiam qual seria o objecto dessa paixão, porque Kaety tinha muito pouco de leviana.

E, nessa altura, não era mesmo de amor que a Catarina sofria.

sábado, 10 de outubro de 2009

A Velhinha


Eu gosto, pelas ruas da cidade,
De ver uma velhinha corcovada,
Cheia de rugas, cheia de saudade,
Invejosa, mirando a mocidade
Que passa crente, alegre, descuidada.

Acho que tem beleza e poesia
Esse invejar saudoso do passado,
E, na cara da velha, que se ria,
Vê-se, coitada! só melancolia,
Saudades sepulcrais do seu noivado.

Pára sozinha, às vezes, numa esquina,
Olhando para o chão como espantada;
E a pobre e vã cabeça que se inclina
Busca na terra alguma luz divina,
Que se esvaiu desfeita e apagada.

Outras vezes, sorrindo de ironia,
Pára mirando uma mulher formosa
Que vai vivendo das visões que cria
E põe felicidade e poesia
Onde a velha só vê desgraça e prosa.

Na velhinha enrugada, a espaços, vejo
Que há nos olhos volúpia relembrada!
Corda quebrada a dar o último harpejo!
Ei-la! olha as primaveras com desejo
E caminha tremente e corcovada.

Carlos Fradique Mendes/Eça de Queirós,
in Revolução de Setembro [29 de Agosto de 1869]



sábado, 29 de agosto de 2009

Menino triste


Estás triste, coração,
E estás cansado
A revolta não te leva
A nenhum lado
E quem sou eu afinal,
P'ra to dizer...

Perante a indiferença da partida,
Pairou no ar, no vento,
Em despedida,
O soluço calado,
Magoado,
Talvez ainda verdade,
Fatigado,
Desse adeus
Condenado
[...tão presente].

A noite calada,
Macerada,
Só falou de ti.

E eu acariciei a noite
Lentamente;
Beijei-a com ternura,
Com a imensa doçura
Num coração, latente.

Num sussurro,
O minuto, o segundo,
Quedou selado
No cofre do presente.

... E se um dia a solidão
Não souber onde morar,
Vem, meu amor,
Vem então,
Vem-me buscar.

M.Silva -[21-05 /13-08-2009]




domingo, 23 de agosto de 2009

Paisagens...


Paisagens...

Paisagens quero-as comigo.
Paisagens, quadros que são...
Ondular louro do trigo,
Faróis dos sóis que sigo,
Céu mau, juncos, solidão...

Uma pela mão de Deus,
Outras pelas mãos das fadas,
Outras por acasos meus,
Outras por lembranças dadas...

Paisagens...Recordações.
Porque até o que se vê
Com primeiras impressões
Algures foi o que é,
No ciclo das sensações.

Paisagens...Enfim, o teor
Da que está aqui é a rua
Onde ao sol bom do torpor
Que na alma se me insinua
Não vejo nada melhor.

Fernando Pessoa, 08-03-1931 [Poesias Coligidas/ Inéditas 1919-1935]