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quinta-feira, 4 de julho de 2019

"Amargo estilo novo"


Tudo é fácil quando se está a brincar com a flor entre os dedos,
quando se olham nos olhos as crianças,
quando se visita no leito o amor convalescente.
É bom ser flor, criança ou ser doente.
Tudo são terras donde brotam esperanças,
pétalas, tranças,
a porta do hospital aberta à nossa frente.

Desde que nasci que todos me enganam, 
em casa, na rua, na escola, no emprego, na igreja, no quartel, 
com fogos de artifício e fatias de pão besuntadas com mel.
E o mais grave é que não me enganam com erros nem com falsidades 
mas com profundas, autênticas verdades.

E é tudo tão simples quando se rola a flor entre os dedos! 
Os estadistas não sabem,
mas nós, os das flores, para quem os caminhos do sonho não guardam segredos, 
sabemos isso e todas as coisas mais que nos livros não cabem.

António Gedeão, in Poesias Completas


quarta-feira, 8 de maio de 2013

Flor a florir ao peito...


Canta - busca na vida o que é perfeito.
Olha o Sol e não queiras outro guia.
Sonha com a noite e absorve, aspira o dia,
Tal como uma flor que te florisse ao peito.

Da terra maternal faze o teu leito.
respira a terra e bebe o luar. Confia.
Faze de cada pena uma alegria
E um bem de cada mal insatisfeito.

Colhe todas as flores do teu jardim.
Todos os frutos do pomar e, enfim.
Colhe todos os sonhos do Universo.

Procura eternizar cada momento,
Fecha os olhos a todo o sofrimento
E terás feito a carne do teu verso.

Fernanda de Castro

segunda-feira, 15 de abril de 2013

Promessa


És tu a Primavera que eu esperava,
A vida multiplicada e brilhante,
Em que é pleno e perfeito cada instante.

Sophia de Mello, Obra Poética I

sexta-feira, 6 de abril de 2012

Ressurreição...

Depois de tudo, temos ainda um dia de despertar aqui
ao som terrível de trombetas e clarins?
Perdoai-me, Senhor, mas consola-me
pensar que o sinal da nossa ressurreição
será dado simplesmente pelo cantar do galo.
Ficaremos ainda uns momentos na cama.
A primeira a levantar-se
será a mãe. Senti-la-emos
acender o lume em silêncio,
pôr a água a ferver sem ruído,
retirar do armário suavemente o moinho de café.
De novo estaremos em casa.

Vladimir Holan

segunda-feira, 21 de novembro de 2011

A alegria de amar...


«As estrelas são belas por causa de uma flor
que não se vê...
Quando olhares o céu, de noite,
porque habitarei uma delas,
porque numa delas estarei sorrindo.
será então como se todas as estrelas
sorrissem para ti!
E tu verás estrelas que sabem sorrir!»

Saint-Exupéry

O que nos devolve a segurança e a alegria e torna a vida mais bela e cheia de sentido, neste deserto de limitações e incertezas, é a certeza de que existe alguém que nos ama, mesmo que fisicamente esteja longe de nós.
No mapa do meu coração, haverá uma cidade diferente das outras cidades, porque nela habita alguém: alguém que eu amo.
Os meus ouvidos distinguirão um nome, entre todos os nomes, que soa como ares de festa. Uma rua, uma casa, um número...que nunca serão como os outros! E ninguém talvez saberá disso: só o meu coração. Isso basta!
A certeza do amor será a minha força,
a segurança e a alegria dos meus passos.
Amigo, se não quiseres que a cidade te devore; se quiseres sobreviver à verdadeira «lavagem cerebral» que os Meios de Comunicação estão a fazer para te tornar um número: impensante, inactivo, indiferente, então PARTILHA A TUA VIDA COM ALGUÉM. Em profundidade. Sem medo. Sem reservas.

Ama gratuitamente, somente por amor.
E terás um  segredo de vida
diferente de todos os outros.

Um segredo que te fará reviver,
mesmo que os outros te esmaguem.

Um segredo que te fará livre,
mesmo que os outros te aprisionem.

O teu mundo estará sempre povoado.

E o desespero da solidão
nunca o conhecerás!

Carlos A. Scmitt

quinta-feira, 6 de outubro de 2011

Da Memória


Branco, branco e orvalhado,
o tempo das crianças e dos álamos.

Eugénio de Andrade, Coração do Dia


quarta-feira, 5 de outubro de 2011

Coração recente


Eras tu? Era o dia
acabado de nascer?

Que rosa abria? Rosa 
ou ardor? Não seria

só desejo de ser
um travo de alegria?


Um fulgor? Um fluir?
Eras tu? Era o dia?

Eugénio de Andrade, Mar de Setembro

segunda-feira, 3 de outubro de 2011

De Perfil


De todas essas pedras, de todas,
uma só, onde passa o vento,
escolho para meu uso e alegria.

Eugénio de Andrade, Mar de Setembro

sábado, 2 de julho de 2011

Girassóis


Adormecer sobre a profusão de girassóis, pensando nos flancos menos expostos de outro corpo. 
Várias foram as negligências do olhar, bem pouco curioso para outra coisa que não fosse a nudez da terra, às vezes muito jovem, outras fatigada. O desejo, só o desejo impede a perversão da alegria. E destas sílabas.

Eugénio de Andrade,  Memórias de Outro Rio



domingo, 24 de abril de 2011

Carinho...




Carinho brincado... entre ovos da Páscoa...

E é muito feio desconfiar, ouviu?...

FELIZ PÁSCOA!

domingo, 12 de dezembro de 2010

Cenas da Vida Liceal - Parte V




Matinée dançante [cont.]

De certo modo, as apreciações de Catarina sobre Francisco eram descabidas. Francisco era um moço desempenado, simpático no trato, mas que sofria de uma certa dose de fatuidade, patente perante pessoas que o conhecessem superficialmente e o observassem com olhos mais severos que benevolentes e Catarina até estava neste caso e daí a antipatia que nutria por ele. Isabel não se cansava de lhe observar que Francisco, em família, era muito mais simples e afável do que com estranhos. E nem nunca fora menos delicado para Catarina, mas esta achava pouca afabilidade nessa delicadeza, assim como um verniz com que a jovem embirrava quase que por instinto.E nem se podia dizer que não fosse charmoso, com cabelos negros, lisos e brilhantes e uns olhos verdes num rosto um pouco pálido. No todo, era um rapaz cuja compleição física e modo de se apresentar muito agradava às meninas e às senhoras da sociedade que frequentava, que viam nele um possível bom partido se possuíssem filhas para casar.
Depois de cumprimentar polidamente as duas amigas, a convite da tia Francisco sentou-se um pouco a conversar sobre a excelência do grupo orquestral que animava aquela tarde dançante. E quando este iniciou um novo número, Francisco sentiu-se obrigado a convidar a prima para dançar. Irónica, Isabel observou-lhe que talvez devesse começar pelas convidadas, e que muito admirava a falta a esse acto da mais estrita delicadeza... ligeiramente atrapalhado, o jovem encolheu os ombros com um infeliz "Tanto faz!..." antes de se inclinar perante Catarina.pedindo-lhe uma vaga desculpa da involuntária delicadeza. Sentindo-se colocada numa situação um pouco desagradável, Catarina reagiu com uma veemência de que logo se arrependeu: - Não ligue ao que a sua prima diz! Ela conhece-me e sabe muito bem que não ligo a certas etiquetas1 Só quis entrar consigo!...
E como o rapaz insistisse, acabou por alegar cansaço e vontade de acabar o chá antes que este esfriasse.
Ao passar com o primo em direcção à pista, Isabel não se coibiu de soltar um murmúrio ao ouvido da amiga: - Ouve...Prega-lhe a partida., ao qual a rapariga fez um imperceptível sinal de assentimento. E quando a seguir, Carlos foi por ela, Catarina não opôs obstáculos e foi também dançar.
Francisco ironizou para Isabel ao vê-los: - Então a tua colega já não está cansada?
Com alguma severidade, a prima retorquiu: - Fez-te o que merecias. Agora vê lá se és indelicado ao ponto de lhe dizeres alguma coisa.
- Eu? Nem penses...
- Pagou-te indelicadeza com indelicadeza.
- Aquela menina, quando a vejo na rua,dá.me a impressão que passa a vida a fazer troça. - O rosto de Francisco tinha vincada na testa alta uma ruga de alguma contrariedade.
Com uma entoação difícil de definir, sorrindo, Isabel soltou um: - Sim?!...
- De que te ris?
- De mim, de ti, de nós... Não interessa!Acabou. Vamos atè à mesa. parece que os músicos vão fazer intervalo.
Catarina e Carlos pareciam muito divertidos. E a rapariga contou que numa incursão até à zona dos pequeninos, se sentira fortemente agarrada pela cintura e se vira em riscos de cair.Quando se voltara, furiosa com a situação, vira que era a Mimi. Quando tentava inquirir da miúda o porquê do inopinado abraço, eis que chegara o Luisinho, o filho do dr. Simões, que lhe pega na mão e a arrasta atrás dele gritando-lhe: - Anda daí! Vamos dançar1 não sejas pateta!" E a Mimi lá fora, arrastada pelo opressor,de braço no ar, fazendo vãos esforços para se libertar e acenando um vago adeus com a mãozita erguida. E Carlos e Catarina tinham rido muito com a cena entre os miúdos. "Felizmente que a Mimi não fora arrastada pelos cabelos..." . comentava ainda.
Claro que o dr. Simões de que se falava era nem mais nem menos que o professor de Português das pequenas, o que as fez descer à realidade das aulas do dia seguinte.
- E se nós contássemos isto num "caso da semana" ao dr. Simões? . troçou Isabel.
Catarina, atenta aos acordes da orquestra, interrompeu-a: - Escuta, Isabel1 São os "Beijos de fogo"!
- É mesmo! Lembras-te o que nós dançámos esta música em Pinhel. há dois anos? E mesmo no ano passado...
- Eu gosto.
- Eu também. - concordou Isabel. Carlos, que ficara por ali, convidou-a para dançar o novo número e Isabel concordou, e afastou-se com um simpático "Até já!" a Catarina e Francisco, ainda de pé, junto da mesa.
por essa altura, dona Guilhermina, que se entretinha ora a conversar, ora a dançar com pessoas amigas, aproximou-se.
- Então os meninos não dançam? Onde está Isabel?
- Saiu mesmo agora. Anda a dançar com o Carlos.

terça-feira, 24 de agosto de 2010

Vida liceal... - Parte V




Um baile


Nesse dia, a Isabel esperava, muito excitada, no recreio, porque morria em desejos de comunicar à amiga Catarina o quer que fosse que a animava a um tal ponto. Mas, pensava consigo, que aquela rapariga era assim mesmo: como sempre, atrasada! E, até ao momento em que Catarina chegou junto dela, não se cansou de enumerar, em pensamento, todos os defeitos que lhe encontrava. Porém, assim que a viu, não se conteve:
- Kaety! Sabes? Vamos ao baile!
- Baile?! Qual baile?
- Ó menina! Há um baile no Grémio e a minha tia convidou-nos a ir com ela!
- Um baile de cerimónia?!?
- Ora! Não sejas pateta! Querias um baile de cerimónia, não?! Com a nossa idade...
- Precisamente porque achei a ideia descabida é que a formulei. Não deu para perceber? Porque estou meia atarantada...Chego e logo me dizes: Vamos ao baile!E sabes se me deixam ir?
- Vou pedir aos teus pais, que remédio!
- Bem. Isso é outra coisa. E o teu pai deixa-te ir, por sua vez?
- Com a minha tia, deixa. E como tu vais...
- Certo, muito certo, mas passemos a outro assunto: já descompuseste o Jorge?
- Nem me fales nesse palerma!Pelo amor de Deus! Pensava precisamente pedir-te um conselho sobre o que hei-de fazer.
- Olha, menina, se o caso fosse comigo fazia o seguinte: - fingia que não tinha recebido nada e não lhe dava resposta nenhuma. Até porque ele nem ta pede. Quere-a, sabemos que sim, mas não pede porque pensa- sei lá! - que vais render-te aos seus encantos. Continua a não lhe ligar e procura não corar na frente dele.
Isabel, à medida que a amiga falava, tornava-se um lacre:sobre o lado esquerdo havia uma mancha mais escarlate que se acentuava no seu rosto moreno. Catarina, que observava a amiga enrubescer, rematou, encolhendo os ombros:
- É contigo. Eu fazia assim.
Durante algum tempo, Isabel conservou-se pensativa. Pouco depois, murmurou:
- É mesmo, acho que vou seguir o teu conselho. Não lhe respondo.
Mas dir-se-ia que não estava muito convencida... Para ultrapassar o ligeiro silêncio entre elas, pouco depois Catarina quis saber pormenores:
- E sabes em que dia calha o baile, Isabel?
- Já no próximo domingo. Logo já vou a tua casa pedir a desejada autorização. Desejada e indispensável.
- Está bem. E obrigada pela tua lembrança. E também tenho que agradecer à tua tia Guilhermina.
E, dizendo isto, Catarina sorria, porque adorava dançar.
Nesse preciso momento, a campainha retiniu por todo o amplo edifício do Liceu e as duas jovens engrossaram o caudal de batas brancas por entre apertos, cotoveladas, gritos, correrias. Fortemente empurrada, Catarina protestava que era sempre o mesmo!...

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sexta-feira, 13 de agosto de 2010

Acreditar




É importante acreditarmos no sonho,

acreditarmos em nós próprios... só assim a vida se tornará

uma dádiva preciosa na qual tudo é possível.


É altura de acreditar que racionalidade e espiritualidade em nada se opõem.

Não sei se já deste conta como é difícil discutir com alguém que está obcecado em ter razão.



José Freitas Dinis, Vitaminas Espirituais

sábado, 19 de junho de 2010

Continuação de VIDA LICEAL...em anos 50




- Bem, meninos - continuava daí a pouco a voz altissonante do dr. Simões - vocês vão experimentar os trajes, as barbas e os bigodes que estão aí encaixotados e vieram hoje do Porto. Podem ir lá abaixo aos camarins da Ginástica vestir-se. Depois de arranjados, venham para cima, que ensaiam já vestidos para fixarmos posições em cena.

Não tardou que, perante o gáudio de todos os presentes, surgissem do caixote capas, um chapéu de abas largas, túnicas, um vestido de dama do século XVII, uma touca com pérolas de fantasia e enfeites de ouropel, uma cabeleira grisalha de frade,com larga e redonda tonsura, umas barbas longas e bigodes igualmente brancos, longos e descaídos para a personagem do Romeiro, uma alva e comprida cabeleira para o mesmo e outras maravilhas.

De acordo com as instruções, os jovens que interpretavam as cenas da peça garrettiana desceram à cave do ginásio do liceu onde se encontravam os balneários e, pouco mais de um quarto de hora depois, surgiram nas figuras mais ridículas que se possa imaginar...

Henrique trazia , colocada às três pancadas, a cabeleira de frade que não lhe entrava totalmente na cabeça e vestia uma túnica branca de cabeção redondo e ainda uma espécie de casula preta por cima. Porém, a túnica estava curta e, como ele era bastante alto, descobria-lhe as calças logo abaixo dos joelhos. Por cima de tudo isto, envergava ainda uma capucha escura que lhe caía fradescamente pelas costas e, à laia de remate, ainda uma ampla capa castanha que veio depois a descobrir-se fazer parte do traje de Carlos Simões. Por sua vez, este ostentava a barba e os bigodes brancos e a longa cabeleira de romeiro que lhe deixava à mostra as suíças longas e o começo do seu próprio cabelo muito preto e ondulado. Envergava uma túnica larguíssima de um grosso pano castanho, trazia um chapeirão desabado numa mão e, com a outra,retorcia os grandes bigodes brancos, queixando-se:
-Sr, doutor: falta-me o bordão...

Atrás dele, o Zé Luís e o Jorge riam perdidamente.

O dr. Simões não pôde deixar de rir também.

- Pois... Isto está muito mal, está.Tu, Henrique, tens de fazer com que a cabeleira te entre na cabeça. Ora deixa cá ver...Hum...não entra. Estamos mal, rapaz.

- Ó sr.dr., - lamentou-se Henrique, muito sério, apalpando a cabeça - Isto faz-me aqui um alto danado...

E, de facto, todos repararam, intrigados, que havia um alto na cabeça do pobre coitado...

Então o Zé Luís arrancou-lhe a cabeleira e logo exibiu, muito divertido, um bigode grisalho retirado das profundezas da mesma. Soaram novas e irreprimíveis gargalhadas e, desta vez, a cabeleira passou a assentar melhor na cabeça do Henrique.

- O bigode não te fica bem - observou o dr. Simões, apreciando o efeito no rosto do rapaz. E concluiu: - Ficas mais frade sem bigode.

Sempre trocista, o Zé Luís, do lado, não se conteve:
- E mesmo esse bigode parece uma vassoura...

Também se chegou logo à conclusão que a bainha da túnica de Henrique tinha que ser descida e de que Carlos precisaria de enfarinhar as suíças no dia da récita, assim como as sobrancelhas, porque estas davam demasiado na vista em contraste com o bigode, barbas e cabeleira de um branco amarelado. E necessitava de um bordão de peregrino, também...
Foi a vez de uma das raparigas se prontificar a arranjar-lho.
Já com Lola tudo estava ajustado. O vestido parecia ter sido feito por medida e só seriam necessárias umas tranças postiças para encher o toucado.Lola explicou que, por um acaso feliz, conservara as suas tranças louras de criança dentro duma caixa pelo que o professor concluiu que estava assim tudo mais que acertado.

O ensaio continuou então sem incidentes de maior até ao final do episódio lancinante da saída de cena de Dona Madalena de Vilhena em que Carlos Simões se viu interpelado ansiosamente por Henrique, no papel de Frei Jorge. Ao grito de: "Romeiro! Romeiro! Quem és tu?!", o rapaz respondeu , muito pacífico, meio distraído, torcendo pachorrentamente as longas guias do bigode branco: "Ninguém...."

Uma gargalhada geral acolheu esta fala de um fim de acto isento da tragicidade requerida e o dr. Simões ordenou a repetição imediata daquela cena e só depois deixou os jovens sair em paz.

Na verdade, nunca aqueles ensaios foram - e assim continuaram - isentos da melhor disposição.

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- Ó Kaety! Nem calculas como foi divertido! Os rapazes estavam malucos de todo e nós fartámo-nos de rir!

Este era o comentário da Clara para uma Catarina um pouco pálida e com uns círculos azulados sublinhando-lhe os olhos claros. E continuou perante o pouco entusiasmo da amiga:
- Hoje vais ao ensaio, não vais?

- Olha que não sei! Se não me doer a cabeça, vou. O que menos me importa, neste momento, é o ensaio.

Catarina conservava no regaço um livro volumoso de capa vermelha que ostentava em enormes parangonas douradas o título: Compêndio de Geografia e sobre o qual logo se debruçou a estudar.

- Mas olha que nós divertimo-nos mesmo muito - tagarelava a Clara - O dr. Simões é um homem que está sempre bem disposto e com quem nos sentimos à vontade e rimo-nos à farta.

Contra o habitual, Catarina sentia-se, nesse dia, com fraca disposição para aconversa e continuou de cabeça pendida sobre o livro, esperando que a amiga se calasse.. E como, passados alguns minutos, visse que tal não era possível, resolveu levantar-se do banco em granito do recreio coberto onde se encontrava sentada.
- Vou procurar a Isabel. Já venho.

-Queres que vá contigo?

- Não, não é preciso. Obrigada..

E afastou-se, com o grosso volume vermelho debaixo do braço, onde se destacava pelo contraste com a manga da bata muito branca.

Sentia-se estranha.Ela, que até se preocupava pouco com o estudo, passara a estudar com afinco. Deixara de se entusiasmar com tudo o que antes de adoecer mais a interessava. Numa palavra, e no parecer das colegas que lhe eram próximas, continuava enferma de alma. Havia até quem insinuasse que se tinha apaixonado, o que era natural numa rapariga de quinze anos tão cheia de vida como era Kaety - comentavam elas.
Só que não sabiam qual seria o objecto dessa paixão, porque Kaety tinha muito pouco de leviana.

E, nessa altura, não era mesmo de amor que a Catarina sofria.

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

Ave de fogo



Era um fogo doce de alegria
A visitar um coração cansado
Eram perfumes de flor
Loucuras de amor
A sarar um ego macerado
Nu e indefeso ao sol do meio dia.

As penas suaves
Cor do arco-íris
Nítidas e ardentes
Beleza de poesia a libertar
Da sem razão um imenso mar
De injustiças e horror
Esperanças desejos latentes
Da míséria servil
Quiseram num estertor
Mostrar a beleza dum voar.

E na tarde morna de luz e anil
Voejou cansou o ar de beijos mil
Inocente livre de abraçar.

...Nessa louca alegria
A noite chegou devagarinho
A brisa acariciou de leve
O passarinho
E a esperança morreu
Cansada e breve.

Sophia Guiomar