sábado, 14 de maio de 2011

Tortura




Tirar dentro do peito a Emoção,
A lúcida Verdade, o Sentimento...
- E ser, depois de vir do coração,
Um punhado de cinza esparso ao vento...

Sonhar um verso de alto pensamento,
E puro como um ritmo de oração...
- E ser, depois de vir do coração,
O pó, o nada, o sonho de um momento...

São assim ocos, rudes, os meus versos:
Rimas perdidas, vendavais dispersos,
Com que iludo os outros, com que minto.

Quem me dera encontrar o verso puro,
O verso altivo e forte, estranho e duro,
Que dissesse, a chorar, isto que sinto!


Florbela Espanca, Sonetos