Mostrar mensagens com a etiqueta mágoa. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta mágoa. Mostrar todas as mensagens
quarta-feira, 27 de março de 2019
quinta-feira, 31 de janeiro de 2019
Palavras e silêncio...
O silêncio é a minha maior tentação.
(...)
As palavras, esse vício ocidental,
estão gastas. envelhecidas, envilecidas.
Fatigam, exasperam.
E mentem, separam, ferem.
Também apaziguam, é certo, mas é tão raro!
Por cada palavra que chega até nós,
ainda quente das entranhas do ser,
quanta baba nos escorre em cima
a fingir de música suprema!
A plenitude do silêncio
só os orientais a conhecem!
Lao Tsé ensinou
que quem sabe não fala
e quem fala não sabe.(...)
Eugénio de Andrade, in Poesia e Prosa: Rosto Precário
*** Formatação da responsabilidade de Msilva.
sábado, 29 de dezembro de 2018
segunda-feira, 14 de abril de 2014
Embora tenhas o olhar enxuto...
Embora tenhas o olhar enxuto
Tu algum dia deves ter chorado...
Por mais azedo e mau que seja o fruto
Há sempre alguma flor no seu passado.
Eu sou a cinza, amor, tu és a chama
Sinto que em nós a noite se insinua,
Essa noite que tem, para quem ama,
Amar melhor, persuasões de lua...
E a luz do teu olhar, no meu apago-a
Pra que não vejas para além de mim...
E à tua imagem, no meu peito, afago-a
Como um perfume esparso num jardim...
Domingos Monteiro (1903) - Evasão
Domingos Monteiro (1903) - Evasão
quinta-feira, 9 de maio de 2013
quarta-feira, 17 de agosto de 2011
Para nunca mais
Seria tão bom, tão bom encontrá-los,
mas quando recuou a noite de alcatrão
e na débil claridade se empoleiraram os galos
prosseguimos viagem sem um aperto de mão.
Partimos, saturados, diluídos
no espaço e levando nas bagagens
o balancete dos minutos perdidos
e o absurdo mecanismo das viagens.
Itinerário em que as palavras recusam
o vidro frágil da ponte
dos amigos que se cruzam´
e se esvaem no horizonte.
Sidónio Muralha, Os Olhos das Crianças
sábado, 18 de junho de 2011
Melodia
À beira da corrente
Se vem sentar quem sente
Subir do coração a onda da amargura.
A lua, no céu claro,
Não faz nenhum reparo,
E a mágoa que nos dói não mancha a noite pura...
Como entre si falando,
As águas vão passando,
Cantando, se é cantar o seu chorar a rir;
E a plácida elegia,
Tão música e poesia,
Só diz o que quiser ouvir quem vem ouvir...
...
José Réguio, Mas Deus é Grande
sábado, 14 de maio de 2011
Tortura

Tirar dentro do peito a Emoção,
A lúcida Verdade, o Sentimento...
- E ser, depois de vir do coração,
Um punhado de cinza esparso ao vento...
Sonhar um verso de alto pensamento,
E puro como um ritmo de oração...
- E ser, depois de vir do coração,
O pó, o nada, o sonho de um momento...
São assim ocos, rudes, os meus versos:
Rimas perdidas, vendavais dispersos,
Com que iludo os outros, com que minto.
Quem me dera encontrar o verso puro,
O verso altivo e forte, estranho e duro,
Que dissesse, a chorar, isto que sinto!
Florbela Espanca, Sonetos
sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011
Lágrimas
sábado, 9 de janeiro de 2010
Envelhecer
Achas-me velha? Seja. Há quase um ano
'inda me achavas nova. Estou mudada?
Sucede a noite ao dia, à madrugada...
Quanta certeza nasce dum engano!
Concorda, meu amor. És desumano.
Tenho sofrido tanto! Estou cansada.
Cada ruga é uma lágrima chorada:
Cada cabelo branco, um desengano.
Envelhecer por ti é o meu sofrer.
Tu nunca me soubeste compreender
e nada o meu amor já te merece!
Que outros me achassem velha....
... era ventura!
Mas fosses tu a doce criatura,
- a única - que nunca mo dissesses1
Virgínia Vitorino, Namorados
quinta-feira, 31 de dezembro de 2009
segunda-feira, 7 de dezembro de 2009
Perseguir
Persigo o teu rasto, a tua imagem,
o muito e o pouco que de ti conheço
sem nunca ter certeza se és mesmo tu
ou a ideia que de ti fiz e faço.
Incessantemente te sigo nesse espaço
tentando acalmar o amor que te consagro
sedenta desse algo estranho e muito teu
que resta na esteira de teus passos.
Nunca senti os típicos cansaços
de perseguir apenas a ilusão
porque, afinal, ao sol de cada dia
foram criados profundos laços
de um encantamento
pleno de ternura e alegria.
Bem hajas, amor, pela primavera
que provocou em mim essa quimera
de viver a ilusão de não estar só.
Sophia Guiomar, 2009
terça-feira, 10 de novembro de 2009
Rosa desditosa

- Tive centos e centos de irmãs mais belas,
Pois neste doce Abril fomos cardume,
Mas eu, p'la rara cor e p'lo perfume,
Sem vaidade, era a mais formosa delas.
Brancas, róseas, vermelhas e amarelas,
Umas feitas de neve, outras de lume,
Colhidas todas foram. Sem queixume,
Desejei-lhes benéficas estrelas.
A mim, ninguém me quis! E, folha a folha,
Já me desflora o zéfiro traiçoeiro,
A mim, virgem, que amar quisera ainda...
Anda ceguinho o Amor na sua escolha.
E abrindo os braços à que vê primeiro
Muitas vezes não vê a que é mais linda.
Eugénio de Castro
sábado, 10 de outubro de 2009
A Velhinha
Eu gosto, pelas ruas da cidade,
De ver uma velhinha corcovada,
Cheia de rugas, cheia de saudade,
Invejosa, mirando a mocidade
Que passa crente, alegre, descuidada.
Acho que tem beleza e poesia
Esse invejar saudoso do passado,
E, na cara da velha, que se ria,
Vê-se, coitada! só melancolia,
Saudades sepulcrais do seu noivado.
Pára sozinha, às vezes, numa esquina,
Olhando para o chão como espantada;
E a pobre e vã cabeça que se inclina
Busca na terra alguma luz divina,
Que se esvaiu desfeita e apagada.
Outras vezes, sorrindo de ironia,
Pára mirando uma mulher formosa
Que vai vivendo das visões que cria
E põe felicidade e poesia
Onde a velha só vê desgraça e prosa.
Na velhinha enrugada, a espaços, vejo
Que há nos olhos volúpia relembrada!
Corda quebrada a dar o último harpejo!
Ei-la! olha as primaveras com desejo
E caminha tremente e corcovada.
Carlos Fradique Mendes/Eça de Queirós,
in Revolução de Setembro [29 de Agosto de 1869]
sábado, 25 de julho de 2009
Tristeza

Cansaço
Estás triste, meu coração,
E tão cansado
Esse querer não te leva
A nenhum lado
E quem sou eu
Afinal
P'ra to dizer
Catarina Álvares, Ainda com Lágrimas, 05/2009
Indiferença
Obsessão

Obsessão
Que forças obscuras detiveram
Os indecisos passos, na aurora
Duma vida sem culpa?
Que vozes ignotas, que segredos
Toldaram o olhar que reflectia
O fulgor da manhã?
Que secreta mão pousou no ombro,
Frágil, da perdida infância
E suspendeu o riso que floria
Nos lábios sem mentira?
Jamais o saberemos. Experientes
Dos humanos caminhos da tristeza,
Nunca mais nossos olhos conheceram
A luz que visionaram algum dia!
Luís Amaro (In «Artes e Letras» - Diário de Notícias, 1-05-19579
Que forças obscuras detiveram
Os indecisos passos, na aurora
Duma vida sem culpa?
Que vozes ignotas, que segredos
Toldaram o olhar que reflectia
O fulgor da manhã?
Que secreta mão pousou no ombro,
Frágil, da perdida infância
E suspendeu o riso que floria
Nos lábios sem mentira?
Jamais o saberemos. Experientes
Dos humanos caminhos da tristeza,
Nunca mais nossos olhos conheceram
A luz que visionaram algum dia!
Luís Amaro (In «Artes e Letras» - Diário de Notícias, 1-05-19579
sábado, 18 de julho de 2009
Drama - dos pequenos (continuação)

Aquelas palavras magoavam-na. Doía qualquer coisa bem lá no fundo quando pousava de novo os olhos naquelas letras negras de imprensa que tanto a humilhavam. Desejava sumir-se pelo chão abaixo, transformar-se em mosquito que fosse capaz de ferrar a mão cruel que mandara imprimir aquelas palavras, mesmo que depois morresse como as abelhas, logo ali, por ter ferrado. Mas nada podia fazer para se vingar de quem lhe vibrara tão cruamente aquele golpe e apertou as mãos em desespero. Então as lágrimas começaram a rolar pelas faces, amargas, geladas. Só que não sentia que arrastassem consigo tanta amargura e precisava de fazer alguma coisa... como gritar, para tentar expulsar o peso que parecia sufocá-la.
Num repente, levantou-se e, num movimento de raiva, de impotência, amarfanhou a revista que lançou para um canto e atirou-se sobre a cama, agarrando desesperadamente a almofada onde tentou reprimir os soluços e os gritos que se lhe atravessavam na garganta contraída, num espasmo dificilmente contido.
De vez em quando fugia-lhe um queixume que logo era desesperadamente sufocado. E perdida a noção do tempo, quebrantada pelo próprio desespero, acabou por adormecer no estancar das últimas lágrimas.
(Continua)
sábado, 11 de julho de 2009
Visão

Visão
A J. M. Eça de Queirós
Eu vi o Amor - mas nos seus olhos baços
Nada sorria já: só fixo e lento
Morava agora ali um pensamento
De dor sem trégua e de íntimos cansaços.
Pairava, como espectro, nos espaços,
Todo envolto num nimbo pardacento...
Na atitude convulsa do tormento,
Torcia e retorcia os magros braços...
E arrancava das asas destroçadas
A uma e uma as penas maculadas,
Soltando a espaços um soluço fundo,
Soluço de ódio e raiva impenitentes...
E do fantasma as lágrimas ardentes
Caíam lentamente sobre o Mundo!
Antero de Quental, Sonetos
Subscrever:
Mensagens (Atom)













.jpg)
