terça-feira, 15 de junho de 2010

Vida Liceal ...em anos 50




Cap.III -Os ensaios para as comemorações de Almeida Garrett


- Ora valha-nos Deus! - gemia a Clara, com a cara mais aflita que podia arranjar - Como é que nós havemos de dizer ao Dr, Simões que a Catarina está doente? Olhem que isto...

- Então, menina, que lhe arranje uma substituta. E que não seja nenhuma de nós, credo!... E o pior é se teima em me dar "Os Olhos Negros", lá por o meu poema ser dos mais pequenos...

- Ó menina! Só te digo que a Catarina não podia ter adoecido em pior altura.

- O que vale é que depois de amanhã já deve estar fina e fresca. Isto de anginas é assim.
- Está bem, está!... Mas só quero que me digas como havemos de aturar o Simões. Ó meu Deus, o que havia de nos acontecer!...

Enquanto esperavam pelo professor Luís Simões Gomes, e pelos rapazes que colaborariam no ensaio para a festa da comemoração de Garrett, as raparigas iam-se lamentando da doença da colega.

- A Catarina já recitava aquilo bem. - opinou a Lola.

- Humm...mas para o paladar do Simões... - duvidou a Bela.

- Recitava como qualquer de nós, não estejas a desfazer, Bela! - admoestou a Clara.

Bela ia retorquir quando se ouviu barulho do outro lado do corredor e, em tropel, correndo uns após os outros, os rapazes surgiram. Cumprimentaram-se e o Zé Luís iniciou logo os seus eternos comentários e observações.

- Então a nossa amiga Catarina não veio hoje aturar o Simões? Resolveu fazer gazeta? Certas meninas são de um descaramento inaudito!...Só queria que me dissessem o que anda aquela santinha a fazer...porque nós, infelizes mortais, temos mesmo é de aturar o nosso comum inimigo dos feriados e recreios!...

- A catarina, a esta hora, desejaria antes aqui do que no lugar onde se encontra.- observou a Clara.

- Oh! Porquê? Estará por acaso na prisão? - alarmou-se comicamente o rapaz.

- Sim, talvez... Está presa à cama com anginas e 40º de febre.

- Oh! Coitada! - soaram exclamações consternadas do grupo dos rapazes.

E o Carlos Smões, que conversava com a Isabel, inquiriu: - O que foi?

- Não ouviste? - esclareceu o Jorge Manuel - A Catarina está doente, com 40 º de febre.

- Mas que tem ela? - quis saber o rapaz.

- 40º de febre - repisou o Zé Luís.

- Bolas! Quero saber que espécie de doença tem?... - impacientou-se o outro.

- Anginas, segundo a informação. Porque perguntas? Temes o contágio? - troçou o Henrique.

- Olhem que o caso é triste demais para merecer comentários jocosos - observou Isabel. Os rapazes calaram-se, um pouco interditos, e só Carlos precisou: - Pois...mas os meus colegas acham que não...

Logo depois o Zé Luís voltou à carga, agora dirigindo-se a Isabel: Vocês são mesmo muito amigas.

- Quem?...A Kaety e eu? !

- Kaety? Que Kaety?! - espantou-se o rapaz.. Isabel Maria, meio interdita, corou. Clara, atenta à conversa, riu divertida, explicando: - Nós tratamos a Catarina por Kaety, não sabia? É mais o menos o diminutivo dela em inglês, visto que ela também é assim meio alourada...

Zé Luís também riu.

- É giro.. Vou também passar a tratá-la por Miss Kaety.

- Está doido! Deus o livre! Zangava-se comigo por lhe ter dito isto!

Do lado, trocista, o Jorge Manuel não se conteve de curiosidade.

- Mas ela é assim tão terrível?

- Ainda assim, é bem menos terrível que o senhor! - Bela mostrava-se irritada e foi um coro de gargalhadas que acolheu a sua réplica. Disfarçadamente, Jorge Manuel segredou-lhe: - E a mim... acha-me assim tão terrível?... E antes que a atordoada pequena lhe pudesse dar uma resposta, riu com gosto, juntando-se aos colegas, enquanto Isabel, vermelha como um pimentão, tomava uns ares superiores de rainha ofendida nos seus brios e se encostava à parede como quem se queria pôr de parte na conversa.

Como sempre, o Dr, Simões surgiu ao fundo do corredor no seu passo esgalgado, a pasta de cabedal castanho suspensa da mão direita e a bata branca desabotoada e sempre acanhada sobre o casaco apertado, ou, ainda mais quando a usava sobre o sobretudo cinzento um tanto coçado, saudando e desculpando-se do atraso com as fórmulas costumadas, tudo isto antes de chamar, um por um, os rapazes para o ensaio como habitualmente.

Nesse dia, porém, havia uma pequena diferença: - o dr. Simões informou que os trajes para a representação das duas cenas de "Frei Luís de Sousa" haviam chegado e que se tornava necessário que os alunos os experimentassem para ver as modificações a fazer. Assim, o dr. Simões só notou a falta de Kaety quando a Isabel recitava "As minhas asas".
- Olhem lá! A Catarina Maria não veio hoje?

E foi o Zé Luís que se encarregou de responder: - Está com 40º, sr. dr.

- Com quê?...

- Sim, com 40º de febre. Anginas, segundo informação fidedigna.

- Ah! Está doente? Com anginas? Que maçada! E a representação é já...de hoje a seis dias .
E o dr. Simões mostrava-se consternado.

- Bem, sr. dr., ela amanhã, ou depois, já se deve levantar. Com as anginas...costuma acontecer assim.

- Mas é aborrecido. Bem , Maria Isabel, continua lá. E se acaso a doença da vossa colega se prolongar, um de vós terá de substituí-la.

- Mau... - fez o Zé Luís.

- Forte estopada! - resmungou por entre os dentes Jorge Manuel. E as raparigas trocaram entre si olhares compungidos.