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quinta-feira, 13 de junho de 2019

O homem do chapéu de coco...



Poema da flor proibida


 Por detrás de cada flor
há um homem de chapéu de coco e sobrolho carregado.

Podia estar à frente ou estar ao lado, 
mas não, está colocado
exactamente por detrás da flor.
Também não está escondido nem dissimulado, 
está dignamente especado 
por detrás da flor.


Abro as narinas para respirar
o perfume da flor,
não de repente
(é claro) mas devagar,
a pouco e pouco,
com os olhos postos no chapéu de coco.


Ele ama-me. Defende-me com os seus carinhos,
protege-me com o seu amor.
Ele sabe que a flor pode ter espinhos,
ou tem mesmo,
ou já teve,
ou pode vir a ter,  
e fica triste se me vê sofrer.


Transmito um pensamento à flor 
sem mover a cabeça e sem a olhar. 
De repente,
como um cão cínico arreganho o dente 
e engulo-a sem mastigar.

António Gedeão, in Poesias Completas



quarta-feira, 5 de junho de 2019

O balouço, de Fragonard

O baloiço - Fragonard

Como balouça pelos ares no espaço 
entre arvoredo que tremula e saias 
que lânguidas esvoaçam indiscretas!
Que pernas se entrevêem, e que mais
não vê o que indiscreto se reclina 
no gozo de escondido se mostrar!
 Que olhar e que sapato pelos ares, 
na luz difusa como névoa ardente
do palpitar de entranhas na folhagem! 
Como um jardim se emprenha de volúpia, 
torcendo-se nos ramos e nos gestos,
nos dedos que se afilam, e nas sombras!
 Que roupas se demoram e constrangem 
o sexo e os seios que avolumam presos,
e adivinhados na malícia tensa! 
Que estátuas e que muros se balouçam 
nessa vertigem de que as cordas são 
tão córnea a graça de um feliz marido! 

La fête galante - pintura rocócó

Como balouça, como adeja, como 
é galanteio o gesto com que, obsceno, 
o amante se deleita olhando apenas!
Como ele a despe e como ela resiste 
no olhar que pousa enviesado e arguto
sabendo quantas rendas a rasgar! 
Como do mundo nada importa mais!

Jorge de Sena, in Poemas Escolhidos (1963)


terça-feira, 15 de janeiro de 2019

Não foi por mal...


Naufrágio

Não era por mal...
A onda que vinha 
não vinha por mal.

Mas veio, mas veio...
E logo a barquinha
partiu pelo meio.


Nem homens, nem velas.
- : Quanto a bordo ia,
com fé abalara,
morreu já sem ela.

Mas se a onda veio,
não veio por mal:
era irmã daquela
que chegou à praia,
que embala barquinhos
de meninos pobres.

Os meninos brincam.
Navegam em barcos
feitos de cortiça,
feitos de jornal.
Quase à mesma hora,
longe, os pais naufragam
 sem nenhuma ajuda.

Mas não é por mal...

Sebastião da Gama, in Cabo da Boa esperança

sábado, 10 de novembro de 2018

Dia de Todos os Santos...

E foi assim que aconteceu... Com muita chuva. Com muito frio.
O fantasma de mim não compareceu... se finou.

sábado, 12 de abril de 2014

Erótica...

A noite descia,
Como um cortinado,
Sobre a erva fria
Do campo orvalhado

E eu ( fauno em vertigem,
A rondar em torno
Do teu corpo virgem,
Sonolento e morno),


Pensava no lasso 
Tombar do desejo;
Em breve, o cansaço
Do teu último beijo...

E no modo como
Sentir menos fácil
O maduro pomo
Do teu corpo grácil.

Ou, sem lhe tocar
 - De tanto o querer! - 
Ficar a olhar ,
Até o esquecer,

Ou como, por entre
Reflexos do lago,
Roçar-lhe no ventre
Luarento afago;

Perpassando os meus,
Nos teus lábios húmidos,
Meu peito nos teus
Brancos 
                     seios
                                                   túmidos...




                                                                                         Carlos Queirós(1907-1949)

quarta-feira, 19 de dezembro de 2012

"Brinquedo"...


Foi um sonho que eu tive:
Era uma grande estrela de papel,
Um cordel
E um menino de bibe.

O menino tinha lançado a estrela
Com ar de quem semeia uma ilusão;
E a estrela ia subindo, azul e amarela,
Presa pelo cordel à sua mão.

Mas tão alto subiu
Que deixou de ser estrela de papel.
E o menino, ao vê-la assim, sorriu
E cortou-lhe o cordel.

Miguel Torga

domingo, 16 de outubro de 2011

Sigamos o cherne...


Sigamos o cherne, minha Amiga!
Desçamos ao fundo do desejo
Atrás de muito mais que a fantasia
E aceitemos, até, do cherne um beijo,
Se já não com amor, com alegria...
Em cada um de nós circula o cherne,
Quase sempre mentido e olvidado.
Em água silenciosa de passado
Circula o cherne: traído
Peixe recalcado...

Alexandre O'Neill
(Depois de ver o filme «O Mundo do Silêncio» de Jacques-Yves Cousteau)


domingo, 24 de abril de 2011

Carinho...




Carinho brincado... entre ovos da Páscoa...

E é muito feio desconfiar, ouviu?...

FELIZ PÁSCOA!

sexta-feira, 22 de abril de 2011

Alegria



Como sempre me senti...
quando riste e troçaste do que era importante para mim...

Aprendi a ser criança e a sorrir.

E a língua de fora...
...era porque até gostava...
de te ouvir rir...
dessa tua alegria.

Com ela convivia.
Com ela também sorria...

E fui feliz.


***DAQUI... dos ermos bravios e frios, TE desejo uma santa Páscoa...
se passares, ou me leres,
vagueando nos caminhos da noite
ou sob o sol de Abril.***

sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

Pressão



Conhecia-se.
Sempre lidara mal com a pressão, tanto com a atmosférica, como a psicológica. Sobretudo com esta.
Muitos gritos, muitos ralhos, muita música e barulho, muita confusão, sempre tinham tido o efeito de a gelar por dentro. E sentir desejos de afastamento, de fuga.
Habituara-se a escutar o silêncio.
Não tinha receio da trovoada, nem de ruídos naturais, desde que lhes conhecesse a proveniência. Mas o desequilíbrio individual, ou generalizado, característico de situações de crise ou de festa, horrorizavam-na de tal modo que o stress era inevitável e breve redundava em doença que, algumas vezes, precisava mesmo da intervenção de um clínico.
Era pior quando não podia lutar contra e tinha que aceitar. Aí ficava de mãos manietadas perante os acontecimentos, quaisquer que fossem.
Recordava-se de que sempre fora assim.
Teria pouco mais de quatro anos, quando fora metida numa sala de aulas de um colégio da cidade para educação de meninas. Recordava o bibe de xadrezinho preto e branco que a mãe lhe fizera e que tinha a obrigação de não sujar, assim como do laçarote branco que lhe era colocado logo de manhã no alto da cabeça. assim como recordava a professora, sempre embrulhada num xaile de lã e sentada atrás de enorme secretária donde se recordava de nunca a ter visto levantar: estava sentada quando se entrava na sala e lá ficava quando se saía. E também do seu ar triste e friorento. Porém, era exigente quanto às tarefas que mandava executar às alunas de idades variadas que segredavam umas com as outras enquanto desenhavam letras e algarismos.Ou faziam cópias. Ou resolviam contas e tiravam a prova dos nove.
A pressão sobre ela, provinda da professora e das colegas, colocara-se-lhe aquando do aprendizado dos números. Os seus deditos não conseguiam desembaraçar-se das esquinas do cinco... Não havia maneira de acertar com aquela curva e a professora já falava em castigos, como a privação do recreio, que acontecia durante um quarto de hora a meio da manhã, ou a meio da tarde.
Lembrava-se de estar já farta de se esforçar em vão e das palavras pouco simpáticas da Dona Idalina acerca daquele arrevezado algarismo cujas voltas não conseguia desenhar com a perfeição requerida: o mais agradável à vista que conseguira lembrava um enforcado com a gravata ao vento.
Mas ficava triste. Ralhos em casa, ralhos no colégio, davam-lhe vontade de fugir, de se libertar de qualquer jeito.
Pediu nessa manhã para ir à casinha e, dada a sua pouca idade, uma criada conduziu-a às casas de banho do rés-do-chão, altas, estreitas e escuras. A pequenita levantou a pequena aldraba de ferro pintada de cinzento duma das portas e sentou-se na borda da pia. E deixou-se ficar, finalmente em paz, finalmente sossegada.
Nessa manhã, perante a sua recusa em abrir a porta do cubículo escuro onde voluntariamente se encerrara, a confusão foi generalizada por causa de uma garota fechada numa casa de banho, com adultos e crianças a tentarem tirá-la de lá. Mas tudo para aquela criança fora mais suportável do que os comentários monótonos e depreciativos da professora, ou o escárnio das colegas, todas mais velhas do que ela.
Informados, os pais tinham-se zangado muito com a atitude que ninguém conseguira explicar e que a maioria tomara à conta de travessura. E nem se lembrava se tinha sido bem sovada pela mãe em casa como era habitual. Como quando se lembrava de fugir para casa das coleguinhas sem avisar, ou fugia para o jardim próximo para ver os peixinhos vermelhos nadarem no lago redondo com repuxo no meio, e fazia andar meio mundo à sua procura.
Não. Dessa vez nem sentira em casa uma pressão maior da que a que era habitual. Só se recordava dos seus cincos parecerem uns pontos de interrogação ao contrário. E isso doía sem o perceber. E nem percebia porque razão a professora insistia com a directora que não lhe tinha batido, nem a tratara mal...
..................................................................................
Recentemente, porém, a pressão fora de outro género e tentara enfrentá-la até já não poder mais. Mas o esforço, via agora, tinha sido contraproducente e arrastara-a ao desespero.
E esse desespero vivia agora dentro dela e obrigava-a a fugir à banalidade e ao lugar comum. E a desejar um pouco mais de altura no seu dia a dia.
Mas um passado recente e muito sofrido tanto na alegria quanto na dor não se pode apagar. Nunca se pode apagar.
Mas disso só ela sabia.

domingo, 12 de dezembro de 2010

Cenas da Vida Liceal - Parte V




Matinée dançante [cont.]

De certo modo, as apreciações de Catarina sobre Francisco eram descabidas. Francisco era um moço desempenado, simpático no trato, mas que sofria de uma certa dose de fatuidade, patente perante pessoas que o conhecessem superficialmente e o observassem com olhos mais severos que benevolentes e Catarina até estava neste caso e daí a antipatia que nutria por ele. Isabel não se cansava de lhe observar que Francisco, em família, era muito mais simples e afável do que com estranhos. E nem nunca fora menos delicado para Catarina, mas esta achava pouca afabilidade nessa delicadeza, assim como um verniz com que a jovem embirrava quase que por instinto.E nem se podia dizer que não fosse charmoso, com cabelos negros, lisos e brilhantes e uns olhos verdes num rosto um pouco pálido. No todo, era um rapaz cuja compleição física e modo de se apresentar muito agradava às meninas e às senhoras da sociedade que frequentava, que viam nele um possível bom partido se possuíssem filhas para casar.
Depois de cumprimentar polidamente as duas amigas, a convite da tia Francisco sentou-se um pouco a conversar sobre a excelência do grupo orquestral que animava aquela tarde dançante. E quando este iniciou um novo número, Francisco sentiu-se obrigado a convidar a prima para dançar. Irónica, Isabel observou-lhe que talvez devesse começar pelas convidadas, e que muito admirava a falta a esse acto da mais estrita delicadeza... ligeiramente atrapalhado, o jovem encolheu os ombros com um infeliz "Tanto faz!..." antes de se inclinar perante Catarina.pedindo-lhe uma vaga desculpa da involuntária delicadeza. Sentindo-se colocada numa situação um pouco desagradável, Catarina reagiu com uma veemência de que logo se arrependeu: - Não ligue ao que a sua prima diz! Ela conhece-me e sabe muito bem que não ligo a certas etiquetas1 Só quis entrar consigo!...
E como o rapaz insistisse, acabou por alegar cansaço e vontade de acabar o chá antes que este esfriasse.
Ao passar com o primo em direcção à pista, Isabel não se coibiu de soltar um murmúrio ao ouvido da amiga: - Ouve...Prega-lhe a partida., ao qual a rapariga fez um imperceptível sinal de assentimento. E quando a seguir, Carlos foi por ela, Catarina não opôs obstáculos e foi também dançar.
Francisco ironizou para Isabel ao vê-los: - Então a tua colega já não está cansada?
Com alguma severidade, a prima retorquiu: - Fez-te o que merecias. Agora vê lá se és indelicado ao ponto de lhe dizeres alguma coisa.
- Eu? Nem penses...
- Pagou-te indelicadeza com indelicadeza.
- Aquela menina, quando a vejo na rua,dá.me a impressão que passa a vida a fazer troça. - O rosto de Francisco tinha vincada na testa alta uma ruga de alguma contrariedade.
Com uma entoação difícil de definir, sorrindo, Isabel soltou um: - Sim?!...
- De que te ris?
- De mim, de ti, de nós... Não interessa!Acabou. Vamos atè à mesa. parece que os músicos vão fazer intervalo.
Catarina e Carlos pareciam muito divertidos. E a rapariga contou que numa incursão até à zona dos pequeninos, se sentira fortemente agarrada pela cintura e se vira em riscos de cair.Quando se voltara, furiosa com a situação, vira que era a Mimi. Quando tentava inquirir da miúda o porquê do inopinado abraço, eis que chegara o Luisinho, o filho do dr. Simões, que lhe pega na mão e a arrasta atrás dele gritando-lhe: - Anda daí! Vamos dançar1 não sejas pateta!" E a Mimi lá fora, arrastada pelo opressor,de braço no ar, fazendo vãos esforços para se libertar e acenando um vago adeus com a mãozita erguida. E Carlos e Catarina tinham rido muito com a cena entre os miúdos. "Felizmente que a Mimi não fora arrastada pelos cabelos..." . comentava ainda.
Claro que o dr. Simões de que se falava era nem mais nem menos que o professor de Português das pequenas, o que as fez descer à realidade das aulas do dia seguinte.
- E se nós contássemos isto num "caso da semana" ao dr. Simões? . troçou Isabel.
Catarina, atenta aos acordes da orquestra, interrompeu-a: - Escuta, Isabel1 São os "Beijos de fogo"!
- É mesmo! Lembras-te o que nós dançámos esta música em Pinhel. há dois anos? E mesmo no ano passado...
- Eu gosto.
- Eu também. - concordou Isabel. Carlos, que ficara por ali, convidou-a para dançar o novo número e Isabel concordou, e afastou-se com um simpático "Até já!" a Catarina e Francisco, ainda de pé, junto da mesa.
por essa altura, dona Guilhermina, que se entretinha ora a conversar, ora a dançar com pessoas amigas, aproximou-se.
- Então os meninos não dançam? Onde está Isabel?
- Saiu mesmo agora. Anda a dançar com o Carlos.

sábado, 19 de junho de 2010

Continuação de VIDA LICEAL...em anos 50




- Bem, meninos - continuava daí a pouco a voz altissonante do dr. Simões - vocês vão experimentar os trajes, as barbas e os bigodes que estão aí encaixotados e vieram hoje do Porto. Podem ir lá abaixo aos camarins da Ginástica vestir-se. Depois de arranjados, venham para cima, que ensaiam já vestidos para fixarmos posições em cena.

Não tardou que, perante o gáudio de todos os presentes, surgissem do caixote capas, um chapéu de abas largas, túnicas, um vestido de dama do século XVII, uma touca com pérolas de fantasia e enfeites de ouropel, uma cabeleira grisalha de frade,com larga e redonda tonsura, umas barbas longas e bigodes igualmente brancos, longos e descaídos para a personagem do Romeiro, uma alva e comprida cabeleira para o mesmo e outras maravilhas.

De acordo com as instruções, os jovens que interpretavam as cenas da peça garrettiana desceram à cave do ginásio do liceu onde se encontravam os balneários e, pouco mais de um quarto de hora depois, surgiram nas figuras mais ridículas que se possa imaginar...

Henrique trazia , colocada às três pancadas, a cabeleira de frade que não lhe entrava totalmente na cabeça e vestia uma túnica branca de cabeção redondo e ainda uma espécie de casula preta por cima. Porém, a túnica estava curta e, como ele era bastante alto, descobria-lhe as calças logo abaixo dos joelhos. Por cima de tudo isto, envergava ainda uma capucha escura que lhe caía fradescamente pelas costas e, à laia de remate, ainda uma ampla capa castanha que veio depois a descobrir-se fazer parte do traje de Carlos Simões. Por sua vez, este ostentava a barba e os bigodes brancos e a longa cabeleira de romeiro que lhe deixava à mostra as suíças longas e o começo do seu próprio cabelo muito preto e ondulado. Envergava uma túnica larguíssima de um grosso pano castanho, trazia um chapeirão desabado numa mão e, com a outra,retorcia os grandes bigodes brancos, queixando-se:
-Sr, doutor: falta-me o bordão...

Atrás dele, o Zé Luís e o Jorge riam perdidamente.

O dr. Simões não pôde deixar de rir também.

- Pois... Isto está muito mal, está.Tu, Henrique, tens de fazer com que a cabeleira te entre na cabeça. Ora deixa cá ver...Hum...não entra. Estamos mal, rapaz.

- Ó sr.dr., - lamentou-se Henrique, muito sério, apalpando a cabeça - Isto faz-me aqui um alto danado...

E, de facto, todos repararam, intrigados, que havia um alto na cabeça do pobre coitado...

Então o Zé Luís arrancou-lhe a cabeleira e logo exibiu, muito divertido, um bigode grisalho retirado das profundezas da mesma. Soaram novas e irreprimíveis gargalhadas e, desta vez, a cabeleira passou a assentar melhor na cabeça do Henrique.

- O bigode não te fica bem - observou o dr. Simões, apreciando o efeito no rosto do rapaz. E concluiu: - Ficas mais frade sem bigode.

Sempre trocista, o Zé Luís, do lado, não se conteve:
- E mesmo esse bigode parece uma vassoura...

Também se chegou logo à conclusão que a bainha da túnica de Henrique tinha que ser descida e de que Carlos precisaria de enfarinhar as suíças no dia da récita, assim como as sobrancelhas, porque estas davam demasiado na vista em contraste com o bigode, barbas e cabeleira de um branco amarelado. E necessitava de um bordão de peregrino, também...
Foi a vez de uma das raparigas se prontificar a arranjar-lho.
Já com Lola tudo estava ajustado. O vestido parecia ter sido feito por medida e só seriam necessárias umas tranças postiças para encher o toucado.Lola explicou que, por um acaso feliz, conservara as suas tranças louras de criança dentro duma caixa pelo que o professor concluiu que estava assim tudo mais que acertado.

O ensaio continuou então sem incidentes de maior até ao final do episódio lancinante da saída de cena de Dona Madalena de Vilhena em que Carlos Simões se viu interpelado ansiosamente por Henrique, no papel de Frei Jorge. Ao grito de: "Romeiro! Romeiro! Quem és tu?!", o rapaz respondeu , muito pacífico, meio distraído, torcendo pachorrentamente as longas guias do bigode branco: "Ninguém...."

Uma gargalhada geral acolheu esta fala de um fim de acto isento da tragicidade requerida e o dr. Simões ordenou a repetição imediata daquela cena e só depois deixou os jovens sair em paz.

Na verdade, nunca aqueles ensaios foram - e assim continuaram - isentos da melhor disposição.

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- Ó Kaety! Nem calculas como foi divertido! Os rapazes estavam malucos de todo e nós fartámo-nos de rir!

Este era o comentário da Clara para uma Catarina um pouco pálida e com uns círculos azulados sublinhando-lhe os olhos claros. E continuou perante o pouco entusiasmo da amiga:
- Hoje vais ao ensaio, não vais?

- Olha que não sei! Se não me doer a cabeça, vou. O que menos me importa, neste momento, é o ensaio.

Catarina conservava no regaço um livro volumoso de capa vermelha que ostentava em enormes parangonas douradas o título: Compêndio de Geografia e sobre o qual logo se debruçou a estudar.

- Mas olha que nós divertimo-nos mesmo muito - tagarelava a Clara - O dr. Simões é um homem que está sempre bem disposto e com quem nos sentimos à vontade e rimo-nos à farta.

Contra o habitual, Catarina sentia-se, nesse dia, com fraca disposição para aconversa e continuou de cabeça pendida sobre o livro, esperando que a amiga se calasse.. E como, passados alguns minutos, visse que tal não era possível, resolveu levantar-se do banco em granito do recreio coberto onde se encontrava sentada.
- Vou procurar a Isabel. Já venho.

-Queres que vá contigo?

- Não, não é preciso. Obrigada..

E afastou-se, com o grosso volume vermelho debaixo do braço, onde se destacava pelo contraste com a manga da bata muito branca.

Sentia-se estranha.Ela, que até se preocupava pouco com o estudo, passara a estudar com afinco. Deixara de se entusiasmar com tudo o que antes de adoecer mais a interessava. Numa palavra, e no parecer das colegas que lhe eram próximas, continuava enferma de alma. Havia até quem insinuasse que se tinha apaixonado, o que era natural numa rapariga de quinze anos tão cheia de vida como era Kaety - comentavam elas.
Só que não sabiam qual seria o objecto dessa paixão, porque Kaety tinha muito pouco de leviana.

E, nessa altura, não era mesmo de amor que a Catarina sofria.

terça-feira, 15 de junho de 2010

Vida Liceal ...em anos 50




Cap.III -Os ensaios para as comemorações de Almeida Garrett


- Ora valha-nos Deus! - gemia a Clara, com a cara mais aflita que podia arranjar - Como é que nós havemos de dizer ao Dr, Simões que a Catarina está doente? Olhem que isto...

- Então, menina, que lhe arranje uma substituta. E que não seja nenhuma de nós, credo!... E o pior é se teima em me dar "Os Olhos Negros", lá por o meu poema ser dos mais pequenos...

- Ó menina! Só te digo que a Catarina não podia ter adoecido em pior altura.

- O que vale é que depois de amanhã já deve estar fina e fresca. Isto de anginas é assim.
- Está bem, está!... Mas só quero que me digas como havemos de aturar o Simões. Ó meu Deus, o que havia de nos acontecer!...

Enquanto esperavam pelo professor Luís Simões Gomes, e pelos rapazes que colaborariam no ensaio para a festa da comemoração de Garrett, as raparigas iam-se lamentando da doença da colega.

- A Catarina já recitava aquilo bem. - opinou a Lola.

- Humm...mas para o paladar do Simões... - duvidou a Bela.

- Recitava como qualquer de nós, não estejas a desfazer, Bela! - admoestou a Clara.

Bela ia retorquir quando se ouviu barulho do outro lado do corredor e, em tropel, correndo uns após os outros, os rapazes surgiram. Cumprimentaram-se e o Zé Luís iniciou logo os seus eternos comentários e observações.

- Então a nossa amiga Catarina não veio hoje aturar o Simões? Resolveu fazer gazeta? Certas meninas são de um descaramento inaudito!...Só queria que me dissessem o que anda aquela santinha a fazer...porque nós, infelizes mortais, temos mesmo é de aturar o nosso comum inimigo dos feriados e recreios!...

- A catarina, a esta hora, desejaria antes aqui do que no lugar onde se encontra.- observou a Clara.

- Oh! Porquê? Estará por acaso na prisão? - alarmou-se comicamente o rapaz.

- Sim, talvez... Está presa à cama com anginas e 40º de febre.

- Oh! Coitada! - soaram exclamações consternadas do grupo dos rapazes.

E o Carlos Smões, que conversava com a Isabel, inquiriu: - O que foi?

- Não ouviste? - esclareceu o Jorge Manuel - A Catarina está doente, com 40 º de febre.

- Mas que tem ela? - quis saber o rapaz.

- 40º de febre - repisou o Zé Luís.

- Bolas! Quero saber que espécie de doença tem?... - impacientou-se o outro.

- Anginas, segundo a informação. Porque perguntas? Temes o contágio? - troçou o Henrique.

- Olhem que o caso é triste demais para merecer comentários jocosos - observou Isabel. Os rapazes calaram-se, um pouco interditos, e só Carlos precisou: - Pois...mas os meus colegas acham que não...

Logo depois o Zé Luís voltou à carga, agora dirigindo-se a Isabel: Vocês são mesmo muito amigas.

- Quem?...A Kaety e eu? !

- Kaety? Que Kaety?! - espantou-se o rapaz.. Isabel Maria, meio interdita, corou. Clara, atenta à conversa, riu divertida, explicando: - Nós tratamos a Catarina por Kaety, não sabia? É mais o menos o diminutivo dela em inglês, visto que ela também é assim meio alourada...

Zé Luís também riu.

- É giro.. Vou também passar a tratá-la por Miss Kaety.

- Está doido! Deus o livre! Zangava-se comigo por lhe ter dito isto!

Do lado, trocista, o Jorge Manuel não se conteve de curiosidade.

- Mas ela é assim tão terrível?

- Ainda assim, é bem menos terrível que o senhor! - Bela mostrava-se irritada e foi um coro de gargalhadas que acolheu a sua réplica. Disfarçadamente, Jorge Manuel segredou-lhe: - E a mim... acha-me assim tão terrível?... E antes que a atordoada pequena lhe pudesse dar uma resposta, riu com gosto, juntando-se aos colegas, enquanto Isabel, vermelha como um pimentão, tomava uns ares superiores de rainha ofendida nos seus brios e se encostava à parede como quem se queria pôr de parte na conversa.

Como sempre, o Dr, Simões surgiu ao fundo do corredor no seu passo esgalgado, a pasta de cabedal castanho suspensa da mão direita e a bata branca desabotoada e sempre acanhada sobre o casaco apertado, ou, ainda mais quando a usava sobre o sobretudo cinzento um tanto coçado, saudando e desculpando-se do atraso com as fórmulas costumadas, tudo isto antes de chamar, um por um, os rapazes para o ensaio como habitualmente.

Nesse dia, porém, havia uma pequena diferença: - o dr. Simões informou que os trajes para a representação das duas cenas de "Frei Luís de Sousa" haviam chegado e que se tornava necessário que os alunos os experimentassem para ver as modificações a fazer. Assim, o dr. Simões só notou a falta de Kaety quando a Isabel recitava "As minhas asas".
- Olhem lá! A Catarina Maria não veio hoje?

E foi o Zé Luís que se encarregou de responder: - Está com 40º, sr. dr.

- Com quê?...

- Sim, com 40º de febre. Anginas, segundo informação fidedigna.

- Ah! Está doente? Com anginas? Que maçada! E a representação é já...de hoje a seis dias .
E o dr. Simões mostrava-se consternado.

- Bem, sr. dr., ela amanhã, ou depois, já se deve levantar. Com as anginas...costuma acontecer assim.

- Mas é aborrecido. Bem , Maria Isabel, continua lá. E se acaso a doença da vossa colega se prolongar, um de vós terá de substituí-la.

- Mau... - fez o Zé Luís.

- Forte estopada! - resmungou por entre os dentes Jorge Manuel. E as raparigas trocaram entre si olhares compungidos.

quinta-feira, 7 de janeiro de 2010

Beijinhos


Beijinhos?...
Que custam
beijinhos?!
São docinhos
Ceguinhos
Carinhos
Cheinhos
de vontade de
abraçar!...

Sophia Guiomar, Poemetos [31-08 a 01-09/2009]




sexta-feira, 18 de dezembro de 2009

Gato bravo - bravio


Não sei se és real ou se te imaginei

Mas uma coisa eu sei - ficaste dentro de mim

Como a linda e macia fita de cetim

Esquecida e suave no fundo do baú

Como uma estranha e doce emoção...

Juntaste-te a tanta outra velharia

Restos de oferenda, de canção,

Com muitas pontas de melancolia.

Fazem elas, porém, parte de nós,

E são vaga e recôndita certeza

Testemunham que nem sempre estivemos sós

E se não nos enleiam, nem nos fazem sonhar,

Trazem consigo gritos de ausência

Quando verbos como encantar, amar, apaixonar

Foram já sinónimos de sofrer e de chorar...

E fazem da saudade a sua essência.




Sophia Guiomar [03-09-2009]







quinta-feira, 2 de julho de 2009

Artigo publicado na revista VISÃO online

A Devida Comédia
por Miguel Carvalho

Criancinhas

A criancinha quer Playstation. A gente dá.

A criancinha quer estrangular o gato. A gente deixa.

A criancinha berra porque não quer comer a sopa. A gente elimina-a da ementa e acaba tudo em festim de chocolate.

A criancinha quer bife e batatas fritas. Hamburgueres - muitos. Pizzas - umas tantas. Coca-colas - às litradas. A gente olha para o lado e ela incha.

A criancinha quer camisola adidas e ténis nike. A gente dá porque a criancinha tem tanto direito como os colegas da escola e é perigoso ser diferente.

A criancinha quer ficar a ver televisão até tarde. A gente senta-a ao nosso lado no sofá e passa-lhe o comando.

A criancinha desata num berreiro no restaurante. A gente faz de conta e o berreiro continua.

Entretanto, a criancinha cresce. Faz-se projecto de homem ou mulher.

Desperta.

É então que a criancinha, já mais crescida, começa a pedir mesada, semanada, diária. E gasta metade do orçamento familiar em saídas, roupa da moda, jantares e bares.

A criancinha já estuda. Às vezes passa de ano, outras nem por isso. Mas não se pode pressioná-la porque ela já tem uma vida stressante, de convívio em convívio e de noitada em noitada.

A criancinha cresce a ver Morangos com Açúcar, cheia de pinta e tal e torna-se mais exigente com os papás. Agora já não lhe basta que eles estejam por perto. Convém que se comecem a chegar à frente da mota, no popó e numas férias à maneira.

A criancinha, entregue aos seus desejos e sem referências, inicia o processo de independência meramente informal. A rebeldia é de trazer por casa. Responde torto aos papás, põe a avó em sentido, suja e não lava, come e não limpa, desarruma e não arruma, as tarefas domésticas são "uma seca".

Um dia, na escola, o professor dá-lhe um berro, tenta em cinco minutos pôr nos eixos a criancinha que os papás abandonaram à sua sorte, mimo e umbiguismo. A criancinha, já crescidinha, fica traumatizada. Sente-se vítima de violência verbal e etc. e tal.

Em casa, faz queixinhas, lamenta-se, chora. Os papás, arrepiados com a violência sobre as criancinhas de que a televisão fala e na dúvida entre a conta de um eventual psiquiatra e o derreter do ordenado em folias de hipermercado, correm para a escola e espetam duas bofetadas bem dadas no professor «que não tem nada que se armar em paizinho, pois quem sabe do meu filho sou eu».

A criancinha cresce. Cresce e cresce. Aos 30 anos ainda será criancinha, continuará a viver na casa dos papás, a levar a gorda fatia do salário deles. Provavelmente, não terá um emprego. «Mas ao menos não anda para aí a fazer porcarias».

Não é este um fiel retrato da realidade dos bairros sociais, das escolas em zonas problemáticas, das famílias no fio da navalha?

Pois não, bem sei. Estou apenas a antecipar-me. Um dia destes, vão ser os paizinhos a ir parar ao hospial com um pontapé e um murro das criancinhas no olho esquerdo. E então teremos muitos congressos e debates para nos entretermos. [19-06-2009]