domingo, 1 de agosto de 2010

Vida liceal... - Parte IV




Parte IV - Uma carta de amor

Comodamente instaladas na sala de estar, onde fingiam estudar, Catarina e Isabel foram surpreendidas pela criada Lucinda que entrou com um envelope na mão.
- Para mim? - estranhou Isabel. - Quem manda isso?
- Não sei, menina.Tem uns rabiscos atrás que me parecem letra do seu pai.
- Do meu pai?!...Não pode!...
- Não sei, menina, não sei. Ora veja.
- Catarina esticou o pescoço, curiosa e com uma rápida olhadela, rematou: - Não, não é do teu pai. É a inconfundível letra da Lúcia, aquela nossa colega que está em Lisboa. A mim também escreveu ontem, esqueci de te dizer...Ou antes, ainda não te disse...
- Mas essa carta foi deitada cá em Viseu, meninas - observou a Lucinda, uma espécie de cão de guarda da Isabel, que acumulava as funções de aia, criada de fora e cozinheira e a quem as raparigas dificilmente enganavam. Olhava detidamente o sobrescrito nas mãos da jovem patroa, sem se aperceber da pisadela insistente que Catarina pregara no pé direito da amiga, que, de tão espantada,nem se lembrou de reagir.
- Claro, Lucinda, que foi cá deitada... Pois se ela me diz a mim que chegou cá anteontem!...Chegou, não pôde vir ter logo connosco porque seguiu de imediato para a terra da mãe e, como nos devia carta, escreveu e deitou-as no correio. Ideias estrambólicas dela, claro! Sempre foi assim aquela rapariga...Obrigada, Lucinda, pode ir.
Pouco convencida, a criada saíu. Mas a Isabel não caía de espanto em espanto , olhando a companheira.
- Não quererás dizer-me o que significa tudo isto?!
- Não, porque sei tanto como tu.Penso que se te referes ao papel que conservas na mão... é uma carta, como se lhe convencionou chamar.
- Não te ponhas com brincadeiras1 Que mania! E já agora: - também posso saber a que título te julgaste autorizada a dares-me uma valente pisadela?...
- Sabes o que te digo? Que te despaches a abrir a carta antes que a Lucinda se julgue obrigada a fazê-lo pelas suas próprias mãos e razões ocultas... Despacha-te.
Ainda com ar de poucos amigos, Isabel olhou a colega e depois a carta de que começou a rasgar o envelope com a ajuda de uma espátula e, quase de imediato, soltou um OH! do mais genuíno espanto. As faces morenas tinham-se tornado escarlates e nos olhos escuros brilhava contrariedade.Amarfanhou a missiva nas mãos com a exclamão: "Idiota! Mas que parvalhão!"
Sentada do outro lado da mesa de estudo, Catarina olhava-a, algo divertida.
- Parece que há um ele no caso... o que se reveste logo de um certo clima...
Mas a amiga não achou piada ao comentário e, irritada, atirou com o papel amaçado na sua direcção.
- Lê! Fazes o favor de leres essas parvoíces e diz-me depois se tenho ou não razão! Não posso com esse palerma!!!
Catarina não perdeu o sorriso enquanto desdobrava o papel amachucado, sorriso que se acentuou enquanto o lia em voz baixa: "Isabel Maria:É decerto ousada demais a minha atitude ao escrever-lhe, mas desculpe-a por sincera. Sei que tem de mim uma opinião pouco lisongeira, já o percebi,mas rogo-lhe que varra da sua memória para sempre a minha imagem de quando me viu pela primeira vez. Era meu intento ter-lhe de há muito pedido desculpa o que faço hoje, e por este meio, pois só depois me atreverei a fazer-lhe um segundo pedido.
Supondo então que a sua alma generosa me tenha perdoado já, atrevo-me a expressar-lhe a profunda simpatia que me inpirou desde o primeiro momento que a vi. Não venho fazer uma banal declaração cheia de frases retóricas e floreadas,como mo impede a natural sinceridade do meu coração.Além do que poderia eu dizer-lhe se todas essas frases não fossem senão pálidas imagens dessa realidade que a Isabel Maria conhece tão bem como eu? Não venho dizer-lhe que é bela, ou dirigir-lhe outros galanteios, mas oferecer-lhe o meu coração, a minha devoção por si, que, espero, aceite.
Este seu admirador: Jorge Manuel Alves e Sousa"
Ao acabar a leitura, Catarina não reteve uma alegre gargalhada.
- Muito bem! Para quem não quer usar metáforas e não se servir de galanteios?!...nem está mal!... E que vais tu responder?...
Isabel sobressaltou-se. Era óbvio que não considerara ainda tal hipótese.
- Responder-lhe? Eu?!... Acho que vou fazer de contas que não é nada comigo! A menos que queiras que lhe responda e lhe pespegue uma descompostura valente como ele nunca levou na vida!...
- Antes de mais nada, menina,aconselho-te a que me passes a carta, guardes o envelope e me dês papel e lápis. Ou, melhor, caneta e tinta, mas despacha-te, antes que a Lucinda se lembre de aparecer por aí de novo, para coscuvilhar...
- Toma. Mas para quê tudo isso?...
Isabel parecia atordoada ao fornecer à amiga uma caneta e um pequeno tinteiro que subtraíra da gaveta de uma escrivaninha. Entretanto, Catarina dobrara cuidadosamente a folha escrita, punha o envelope sobre a mesa e com uma calma que não lhe era muito habitual, foi expondo: - Primeiro: o papel é...especial. Preciso, portanto, de uma folha de papel de carta ... deste. Tens? Muito bem. Agora esperas um nadinha, - até podes entreter-te com o romance que estavas há pouco a ler com tanto interesse - e vê se metes esse outro papel recebido num bolso da bata, ou esconde-o o melhor que possas. E não me faças essa cara de espanto! Sobretudo não me distraias e fica calada...
E, após as recomendações, dobrou-se sobre o papel aplicadamente, desenhando nele uns caracteres espalhafatosos, muito diferentes da sua habitual caligrafia. De vez em quando parava e reflectia para de novo continuar com mais entusiasmo, se possível, até que, ao fim de uns longos minutos, deu a tarefa por acabada, muito satisfeita de si.
- Escuta esta prosa, Belinha. Vais ficar banzada!...
E leu: " Minha querida Bela! Cheguei hoje de Lisboa e tenho de ir já para a terra da minha mãe, em Vila Nova de Tázem. E como não posso visitar logo as minhas boas amigas, resolvi escrever às mais queridas e daí a amostra da minha bela prosa...sempre inconfundível.A pressa é imensa e daí esta caligrafia, mas vai mesmo assim. Trago milhões de coisas para te contar, mas, por agora, só isto: que me lembro de ti e que ainda me não esqueci dos nossos belos tempos de aulas, das brincadeiras, das conversas sérias e de toda a alegria compartilhada. Assim como de quando tirávamos notas baixas nos exercícios, ou nos esticávamos nas chamadas e procurávamos consolar-nos umas às outras pois todas estávamos sujeitas aos mesmos martírios!... Este ano, no 5º ano, temos de estudar mais. Estuda, querida Bela, mas não te esqueças nunca desta tua muito amiga - Lúcia Rebelo. P.S.: Não repares na prosa.Da minha vida em Lisboa depois te falo em pormenor, mas é mais aborrecida.Não estranhes a letra do sobrescrito, mas pedi, com a pressa, ao meu irmão para me ajudar. Por uma vez, até que foi bonzinho e fez-me as direcções enquanto te escrevia. Espero que não se engane em nenhuma. A tua muito amiga, que te envia imensos e amorosos beijos e abraços:Lúcia"
Isabel parecia meio desnorteada: - Que significa isso, Kaety? Endoideceste?!
- Estou em meu perfeito juízo, querida. Repara bem: esta carta da Lúcia vinha dentro deste sobrescrito, valeu?
- Mau...Eu não entendo é nada!...
- Repara bem: esta outra carta vai comigo.E medita, queridinha, na minha curta conversa com a Lucinda e lê a carta que a nossa comum amiga Lúcia te mandou e vai pensando também na descompostura que terás de pregar a um certo sujeito, como dizes... Enfim. São horas de almoço e a minha mãe não deve estar lá muito satisfeita com o meu atraso. Às duas menos dez passo por cá e vamos as duas para o Liceu. Até logo, querida!
E, fechando a porta atrás de si, Catarina despediu-se com um sorriso agarotado no rosto sardento e rosado, deixando Isabel com a carta da amiga Lúcia na mão. Mas, acto contínuo, esta saiu para o corredor no seu encalço e Catarina sentiu-se abraçada por trás e ouviu um sussurro: - Obrigada! És uma boa amiga, Kaety!
Catarina sorriu: - Não sei se sou... Sobretudo, não gosto de ver ninguém metido em sarilhos escusados...Adeus. Adeus. Deixa-me ir, senão esfolam-me viva!
Saída a porta da casa da amiga, numa corrida, Catarina entrou rapidamente na sua, que ficava ao fundo, do outro lado da mesma rua, depois de um salamaleque jocoso à amiga, que a olhava do patamar. Mas no espírito de Isabel ficara e pairava a dúvida: Que fazer? Responder... ou não dizer nada? Ainda tinha de debater o problema com Kaety., que era muito brincalhona, às vezes insuportável, mas compreensiva e boa e saberia dar-lhe uma opinião. Claro que se respondesse seria para o descompor. Mas tinha ainda de pensar maduramente na descompostura. Já se sentia menos irritada e agora sabia precisar de tempo. E tudo aquilo já não lhe parecia agora uma tão grave tragédia... Bem, tinha mesmo de falar sobre tudo aquilo com a amiga - decidiu enquanto fechava a porta devagar..