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quinta-feira, 23 de maio de 2019

Conta-me contos...

[23-05-1916]
Não sei, ama, onde era,
Nunca o saberei...
Sei que era primavera
E o jardim do rei...
(Filha, quem o soubera!...)

Que azul tão azul tinha
Ali o azul do céu!
Se eu não era a rainha, 
Porque era tudo meu?
(Filha, quem o adivinha?)


E o jardim tinha flores 
De que não me sei lembrar... 
Flores de tantas cores.... 
Penso e fico a chorar...
(Filha, os sonhos são dores...)


Qualquer dia viria
Qualquer coisa a fazer
Toda aquela alegria
Mais alegria nascer
( Filha, o resto é morrer...)


Conta-me contos, ama... 
Todos os contos são
Esse dia, e jardim e a dama 
Que eu fui nessa solidão...

Fernando Pessoa, in Cancioneiro

quarta-feira, 27 de fevereiro de 2019

I - Tu não és...



[...]
Tu não és mulher.(...)É quando falo de ti que as palavras te chamam fêmea, e as expressões te contornam de mulher. Porque tenho de te falar com ternura e amoroso sonho, as palavras encontram voz para isso apenas em te tratar como feminina.
Mas tu, na tua vaga essência não és nada. não tens realidade, nem mesmo uma realidade / só / tua. Propriamente, não te vejo, nem mesmo te sinto.´És como que um sentimento que fosse o teu próprio objecto e pertencesse todo ao íntimo de si-próprio. És sempre a paisagem que eu estive quase para (poder) ver, perdido num eterno Agora para além da curva do caminho. O teu perfil é não seres nada, e o contorno do teu corpo irreal desata em pérolas separadas o colar da ideia de contorno. Já passaste, e já foste, e já te amei - o sentir-te presente é sentir isto.
Ocupas o intervalo dos meus pensamentos e os interstícios das minhas sensações. Por isso eu não te penso nem te sinto, mas os meus pensamentos são / opiais/ de te sentir, e os meus sentimentos góticos (?) de evocar-te.
[...]
Bernardo Soares( heter.  de F. Pessoa), in Livro do Desassossego

quinta-feira, 3 de janeiro de 2019

O Sonhar...


Deve haver um lugar onde um braço
e outro braço sejam mais que dois braços,
um ardor de folhas mordidas pela chuva,
a manhã perto nem que seja de rastos.

Eugénio de Andrade, in O Peso da Sombra


sábado, 29 de dezembro de 2018

A vida que é sonho...


Treme em luz a água.
Mal vejo. Parece
Que uma alheia mágoa
Na minha alma desce - 

Mágoa erma de alguém
De algum outro mundo
Onde a dor é um bem
E o amor é profundo,

E só punge ver,
Ao longe, iludida,
A vida a morrer
O sonho da vida.

Fernando Pessoa, in Cancioneiro

sábado, 1 de dezembro de 2018

Antevendo uma morte anunciada...


[19-11-1935] 

Há doenças piores do que as doenças,
Há dores que não doem, nem na alma
Mas que são dolorosas mais que as outras.
Há angústias sonhada mais reais
Que as que a vida nos traz, há sensações
Sentidas só com imaginá-las
Que são mais nossas do que a própria vida.
Há tanta coisa que, sem existir,
Existe, existe demoradamente,
E demoradamente é nossa e nós...
Por sobre o verde turvo do amplo rio
Os circunflexos brancos das gaivotas...
Por sobre a alma o adejar inútil
Do que não foi, nem pôde ser, e é tudo.

Dá-me mais vinho, porque a vida é nada.

Fernando Pessoa, in Cancioneiro

N.B: Talvez um dos últimos poemas datados de Pessoa ortónimo. Daí a poucos dias - 30 de Novembro - veio a falecer, queixando-se à irmã que não via  e pedindo os óculos.

sábado, 24 de maio de 2014

Jardins de beleza e cor

Foi decerto Primavera
a que me visitou em cores  e suavidade,
que me aliciou e me levou ao sonho...
Confesso...
que me fez sonhar contigo
num breve encontro no umbral do tempo,
na nesga de sombra das túlipas erectas
projectadas no chão húmido e negro
pela junção havida 
 no profundo âmago da terra
 com  a água das chuvas.


Aí te encontrei.
No sonho.
Rolei sobre mim, encaixada na recordação do abraço.

Sonhei...sim, sonhei 
por sentir doce e prazeirosa a Primavera
como outrora.


Marylove-Abril4102

terça-feira, 20 de agosto de 2013

Gesto...


Ó tocadora de harpa, se eu beijasse
Teu gesto, sem beijar as tuas mãos!
E. beijando-o, descesse pelos desvãos
Do sonho, até que enfim o encontrasse, 

Tornado Puro Gesto, gesto-face
Da medalha sinistra - reis cristãos
Ajoelhando, inimigos e irmãos,
Quando processional o andor passasse!...

Teu gesto que arrepanha e se extasia...
O teu gesto completo, a lua fria
Subindo, e em baixo, negros, os juncais...

Caverna em estalactites o teu gesto...
Não poder eu prendê-lo, fazer mais
Que vê-lo e que perdê-lo!... E o sonho é o resto...

Fernando Pessoa, Poesias Completas

domingo, 28 de abril de 2013

Ruínas...


...Apesar das ruínas e da morte,
Onde sempre acabou cada ilusão,
A força dos meus sonhos é tão forte,
Que de tudo renasce a exaltação
E nunca as minhas mãos ficam vazias.

Sophia de Mello B. Andresen


sábado, 22 de setembro de 2012

Rendição...


Vem, camarada, vem
Render-me neste sonho de beleza!
Vem olhar de outro modo a natureza
E cantá-la também!

Ergue o teu coração como ninguém;
Fala de outro luar, doutra pureza;
Tens outra humanidade, outra certeza:
Leva a chama da vida mais além!

Até onde podia, caminhei.
Vi a lama da terra que pisei,
E cobri-a de versos e de espanto.

Mas, se o facho é maior na tua mão,
Vem, camarada irmão,
Erguer sobre os meus versos o teu canto.

Miguel Torga,  Libertação, 1944

sábado, 21 de julho de 2012

Dobre...


Peguei no meu coração
E pu-lo na minha mão.

Olhei-o como quem olha
Grãos de areia ou uma folha.

Olhei-o pávido e absorto
Como quem sabe estar morto;

Com a alma só comovida
Do sonho e pouco da vida.

Fernando Pessoa, Cancioneiro

quarta-feira, 26 de outubro de 2011

Estrelas...


Não é uma desgraça não alcançar as estrelas,
mas é uma desgraça não ter estrelas
para alcançar.

Benjamin Mays (1894 - 1984)

segunda-feira, 26 de setembro de 2011

CORPO


As tuas mãos são ânforas vazias
que o mistério da noite não conteve.
São búzios...No seu murmúrio breve
perpassa a sombra que nos une aos dias.

Nós escutamos...Então quase sem seres
tu nos abrigas como um longo manto
que, levemente, cai em nós enquanto
te recordamos sem nos pertenceres.

E como a esperança que nos envolvera
assim ficaste, vaga, pelas claras
manhãs de sonho que te fez ausente.

Ali tu foste a paz que em nós descera,
e, depois, partes tão serenamente
como o silêncio pousa nas searas...

Fernando Guimarães, A Face Junto ao Vento

terça-feira, 2 de agosto de 2011

Ode para o futuro


Falareis de nós como de um sonho.
Crepúsculo dourado. Frases calmas.
Gestos vagarosos. música suave.
Pensamento arguto. Subtis sorrisos.
Paisagens deslizando na distãncia.
Éramos livres. Falávamos, sabíamos,
e amávamos serena e docemente.

Uma angústia delida, melancólica,
sobre ela sonhareis.

E as tempestades, as desordens, os gritos,
violência, escárnio, confusão odienta,
primaveras morrendo ignoradas
nas encostas vizinhas, as prisões,
as mortes, o amoe vendido,
as lágrimas e as lutas,
o desespero da vida que nos roubam
 - apenas uma angústia melancólica,
sobre a qual sonhareis a idade de oiro.

E, em segredo, saudosos, enlevados,
falareis de nós - de nós! - como de um sonho.

Jorge de Sena

domingo, 3 de abril de 2011



Vês?...
Fizeste escorrer água nestas mãos
e recusaste as ternas carícias
que vinham até ti em sonhos sãos...
e que quedaram desalentadas e vazias,
proibidas de tocar tuas delícias
corroídas pela dor e exaustão.

E neste espaço que para mim criaste
fica para sempre a marca ensandecida
daquele sonho para sempre adiado
de uma triste alma imersa em solidão.

terça-feira, 22 de março de 2011

Em mais um Dia da Poesia



Ainda não consigo cantar a Primavera e ela já chegou à minha porta.
Mas tenho medo que se desfaça em ilusão...
Como o desejar a alguém Boa Noite! em plena madrugada.
Ou o adormecer da dor no meu coração...
Custa-me a acreditar nos sonhos que muito prometem, porque para mim, sempre apareceram como vãos. Cavei a vida com a força dos braços, fiz cara feia ao medo, à estultícia, à devassidão, procurando conservar a consciência nítida de valores ancestrais. A eles me apeguei.
Outros, porém, deixei pelo caminho como hipócritas e fora da razão.
Outros ainda criei e acarinhei.
Sempre acreditei, porém, que o amor, a compreensão, o respeito, a solidariedade, eram indispensáveis para melhorar o mundo.
E que toda a violência sem razão, a crueldade, o revanchismo, a inveja, a maledicência, eram inimigos do progresso, da verdade, da justiça. E ainda hoje me convencem.
Pequenos males que afligem a humanidade fazem-me pensar, tanto quanto as grandes catástrofes.
E de todas tiro conclusões.
Mesmo sem querer.
Porque tudo representa um manual de experiências que me fazem vibrar como cordas de um violino. Contudo, sinto que tocam frequentemente desafinadas, fora do tom. Ou que vibram num som arranhado.
Em tom plangente,como um soluço, um grito abafado.
Por tudo isto, e porque a minha memória de ti se prende mais com a emoção do que com a sensação...ainda não pude cantar a Primavera como tão bem sabes fazer. E mal consigo alinhavar estas linhas para te dizer como aprecio os teus versos que tão bem cantam o amor e a paixão, porque os meus elogios se esgotam frequentemente nessa admiração. Porque casam mal com a lembrança que de ti me ficou. Talvez. E em parte. Na essência tu estás lá como te conheci, Inteirinho.
Raramente eles me soam como vulgares ou mal acabados.
Por isso, Poeta, no Dia da Poesia, te saúdo com a minha ternura de mulher que te lê com carinho e emoção.
O que ainda não consegui fazer com a Primavera.
Não foi ela mas, sim, TU que bateste de há muito à porta do meu coração.
E que passaste tímido e silencioso sem a coragem de me olhar de frente.

Myriam Vasco, Dia da Poesia

domingo, 1 de agosto de 2010

Vida liceal... - Parte IV




Parte IV - Uma carta de amor

Comodamente instaladas na sala de estar, onde fingiam estudar, Catarina e Isabel foram surpreendidas pela criada Lucinda que entrou com um envelope na mão.
- Para mim? - estranhou Isabel. - Quem manda isso?
- Não sei, menina.Tem uns rabiscos atrás que me parecem letra do seu pai.
- Do meu pai?!...Não pode!...
- Não sei, menina, não sei. Ora veja.
- Catarina esticou o pescoço, curiosa e com uma rápida olhadela, rematou: - Não, não é do teu pai. É a inconfundível letra da Lúcia, aquela nossa colega que está em Lisboa. A mim também escreveu ontem, esqueci de te dizer...Ou antes, ainda não te disse...
- Mas essa carta foi deitada cá em Viseu, meninas - observou a Lucinda, uma espécie de cão de guarda da Isabel, que acumulava as funções de aia, criada de fora e cozinheira e a quem as raparigas dificilmente enganavam. Olhava detidamente o sobrescrito nas mãos da jovem patroa, sem se aperceber da pisadela insistente que Catarina pregara no pé direito da amiga, que, de tão espantada,nem se lembrou de reagir.
- Claro, Lucinda, que foi cá deitada... Pois se ela me diz a mim que chegou cá anteontem!...Chegou, não pôde vir ter logo connosco porque seguiu de imediato para a terra da mãe e, como nos devia carta, escreveu e deitou-as no correio. Ideias estrambólicas dela, claro! Sempre foi assim aquela rapariga...Obrigada, Lucinda, pode ir.
Pouco convencida, a criada saíu. Mas a Isabel não caía de espanto em espanto , olhando a companheira.
- Não quererás dizer-me o que significa tudo isto?!
- Não, porque sei tanto como tu.Penso que se te referes ao papel que conservas na mão... é uma carta, como se lhe convencionou chamar.
- Não te ponhas com brincadeiras1 Que mania! E já agora: - também posso saber a que título te julgaste autorizada a dares-me uma valente pisadela?...
- Sabes o que te digo? Que te despaches a abrir a carta antes que a Lucinda se julgue obrigada a fazê-lo pelas suas próprias mãos e razões ocultas... Despacha-te.
Ainda com ar de poucos amigos, Isabel olhou a colega e depois a carta de que começou a rasgar o envelope com a ajuda de uma espátula e, quase de imediato, soltou um OH! do mais genuíno espanto. As faces morenas tinham-se tornado escarlates e nos olhos escuros brilhava contrariedade.Amarfanhou a missiva nas mãos com a exclamão: "Idiota! Mas que parvalhão!"
Sentada do outro lado da mesa de estudo, Catarina olhava-a, algo divertida.
- Parece que há um ele no caso... o que se reveste logo de um certo clima...
Mas a amiga não achou piada ao comentário e, irritada, atirou com o papel amaçado na sua direcção.
- Lê! Fazes o favor de leres essas parvoíces e diz-me depois se tenho ou não razão! Não posso com esse palerma!!!
Catarina não perdeu o sorriso enquanto desdobrava o papel amachucado, sorriso que se acentuou enquanto o lia em voz baixa: "Isabel Maria:É decerto ousada demais a minha atitude ao escrever-lhe, mas desculpe-a por sincera. Sei que tem de mim uma opinião pouco lisongeira, já o percebi,mas rogo-lhe que varra da sua memória para sempre a minha imagem de quando me viu pela primeira vez. Era meu intento ter-lhe de há muito pedido desculpa o que faço hoje, e por este meio, pois só depois me atreverei a fazer-lhe um segundo pedido.
Supondo então que a sua alma generosa me tenha perdoado já, atrevo-me a expressar-lhe a profunda simpatia que me inpirou desde o primeiro momento que a vi. Não venho fazer uma banal declaração cheia de frases retóricas e floreadas,como mo impede a natural sinceridade do meu coração.Além do que poderia eu dizer-lhe se todas essas frases não fossem senão pálidas imagens dessa realidade que a Isabel Maria conhece tão bem como eu? Não venho dizer-lhe que é bela, ou dirigir-lhe outros galanteios, mas oferecer-lhe o meu coração, a minha devoção por si, que, espero, aceite.
Este seu admirador: Jorge Manuel Alves e Sousa"
Ao acabar a leitura, Catarina não reteve uma alegre gargalhada.
- Muito bem! Para quem não quer usar metáforas e não se servir de galanteios?!...nem está mal!... E que vais tu responder?...
Isabel sobressaltou-se. Era óbvio que não considerara ainda tal hipótese.
- Responder-lhe? Eu?!... Acho que vou fazer de contas que não é nada comigo! A menos que queiras que lhe responda e lhe pespegue uma descompostura valente como ele nunca levou na vida!...
- Antes de mais nada, menina,aconselho-te a que me passes a carta, guardes o envelope e me dês papel e lápis. Ou, melhor, caneta e tinta, mas despacha-te, antes que a Lucinda se lembre de aparecer por aí de novo, para coscuvilhar...
- Toma. Mas para quê tudo isso?...
Isabel parecia atordoada ao fornecer à amiga uma caneta e um pequeno tinteiro que subtraíra da gaveta de uma escrivaninha. Entretanto, Catarina dobrara cuidadosamente a folha escrita, punha o envelope sobre a mesa e com uma calma que não lhe era muito habitual, foi expondo: - Primeiro: o papel é...especial. Preciso, portanto, de uma folha de papel de carta ... deste. Tens? Muito bem. Agora esperas um nadinha, - até podes entreter-te com o romance que estavas há pouco a ler com tanto interesse - e vê se metes esse outro papel recebido num bolso da bata, ou esconde-o o melhor que possas. E não me faças essa cara de espanto! Sobretudo não me distraias e fica calada...
E, após as recomendações, dobrou-se sobre o papel aplicadamente, desenhando nele uns caracteres espalhafatosos, muito diferentes da sua habitual caligrafia. De vez em quando parava e reflectia para de novo continuar com mais entusiasmo, se possível, até que, ao fim de uns longos minutos, deu a tarefa por acabada, muito satisfeita de si.
- Escuta esta prosa, Belinha. Vais ficar banzada!...
E leu: " Minha querida Bela! Cheguei hoje de Lisboa e tenho de ir já para a terra da minha mãe, em Vila Nova de Tázem. E como não posso visitar logo as minhas boas amigas, resolvi escrever às mais queridas e daí a amostra da minha bela prosa...sempre inconfundível.A pressa é imensa e daí esta caligrafia, mas vai mesmo assim. Trago milhões de coisas para te contar, mas, por agora, só isto: que me lembro de ti e que ainda me não esqueci dos nossos belos tempos de aulas, das brincadeiras, das conversas sérias e de toda a alegria compartilhada. Assim como de quando tirávamos notas baixas nos exercícios, ou nos esticávamos nas chamadas e procurávamos consolar-nos umas às outras pois todas estávamos sujeitas aos mesmos martírios!... Este ano, no 5º ano, temos de estudar mais. Estuda, querida Bela, mas não te esqueças nunca desta tua muito amiga - Lúcia Rebelo. P.S.: Não repares na prosa.Da minha vida em Lisboa depois te falo em pormenor, mas é mais aborrecida.Não estranhes a letra do sobrescrito, mas pedi, com a pressa, ao meu irmão para me ajudar. Por uma vez, até que foi bonzinho e fez-me as direcções enquanto te escrevia. Espero que não se engane em nenhuma. A tua muito amiga, que te envia imensos e amorosos beijos e abraços:Lúcia"
Isabel parecia meio desnorteada: - Que significa isso, Kaety? Endoideceste?!
- Estou em meu perfeito juízo, querida. Repara bem: esta carta da Lúcia vinha dentro deste sobrescrito, valeu?
- Mau...Eu não entendo é nada!...
- Repara bem: esta outra carta vai comigo.E medita, queridinha, na minha curta conversa com a Lucinda e lê a carta que a nossa comum amiga Lúcia te mandou e vai pensando também na descompostura que terás de pregar a um certo sujeito, como dizes... Enfim. São horas de almoço e a minha mãe não deve estar lá muito satisfeita com o meu atraso. Às duas menos dez passo por cá e vamos as duas para o Liceu. Até logo, querida!
E, fechando a porta atrás de si, Catarina despediu-se com um sorriso agarotado no rosto sardento e rosado, deixando Isabel com a carta da amiga Lúcia na mão. Mas, acto contínuo, esta saiu para o corredor no seu encalço e Catarina sentiu-se abraçada por trás e ouviu um sussurro: - Obrigada! És uma boa amiga, Kaety!
Catarina sorriu: - Não sei se sou... Sobretudo, não gosto de ver ninguém metido em sarilhos escusados...Adeus. Adeus. Deixa-me ir, senão esfolam-me viva!
Saída a porta da casa da amiga, numa corrida, Catarina entrou rapidamente na sua, que ficava ao fundo, do outro lado da mesma rua, depois de um salamaleque jocoso à amiga, que a olhava do patamar. Mas no espírito de Isabel ficara e pairava a dúvida: Que fazer? Responder... ou não dizer nada? Ainda tinha de debater o problema com Kaety., que era muito brincalhona, às vezes insuportável, mas compreensiva e boa e saberia dar-lhe uma opinião. Claro que se respondesse seria para o descompor. Mas tinha ainda de pensar maduramente na descompostura. Já se sentia menos irritada e agora sabia precisar de tempo. E tudo aquilo já não lhe parecia agora uma tão grave tragédia... Bem, tinha mesmo de falar sobre tudo aquilo com a amiga - decidiu enquanto fechava a porta devagar..

sábado, 8 de maio de 2010

Tristeza sem nome...




Iam de cabo em cabo nomeando
Baías promontórios enseadas;
Encostas e praias surgiam
Como sendo chamadas.

E as coisas mergulhadas no sem-nome
De sua própria ausência regressadas
Uma por uma ao seu nome respondiam
Como sendo criadas.


Sophia de Mello Breyner Andresen, Geografia

quinta-feira, 29 de abril de 2010

As rosas da ternura




São as rosas da ternura, dos múltiplos cansaços,
Florescendo à luz , estranhamente vivas,
Pendentes da melodia dos espaços,
Silentes na alegria e enternecidas.

Vão florir para ti ao som dos rouxinóis,
Vão sentir-se vaidosas de as olhares.
Luminescer ao calor, quais girassóis,
E recolher garras para as agarrares.

E no jardim do encanto onde cresceram
Um fogo ansioso tremeluz e arde
Daquele jeito com que te conheceram:
E são bênçãos de amor no cair da tarde.
.

No beijo etéreo e casto do luar
Vogam suspiros vagos de quebranto...
É amor o que exala cada flor.
É a alma esquecida do seu pranto.

Sophia Guiomar, Poemetos

segunda-feira, 8 de março de 2010

A flor e a borboleta



Tu voas, borboleta! e que eu não possa
Voar, amor!
Diversa como é nisto a sorte nossa!
Dizia a flor.

No vale, ambas irmãs, nascidas fomos;
És como eu sou;
E amamo-nos, e flores ambas somos,
Mas eu não voo!

A ti levanta-te o ar; prende-me a terra
A mim; e eu
Como hei-de perfumar-te em vale e serra,
E lá no céu?

Mais longe inda tu vás, por outras flores
Girar talvez,
Enquanto a minha sombra, meus amores,
Gira a meus pés!

E vens-me ver depois, mas vais-te embora,
Sabendo assim
Que em lágrimas me encontra sempre a aurora!
Pobre de mim!

Acabem-se estas mágoas, meu tesouro
E meu amor!
Cria raiz ou dá-me as asas de ouro,
Celeste flor!

Vítor Hugo, numa versão de João de Deus

quarta-feira, 3 de março de 2010

Em louvor do poeta anónimo




Tinha a idade de uma flor
Em seu enleio embebida
E a viola era o seu modo
Amante de estar na vida.

No amor nascera o rio
Que o coração lhe inundava.
Nascera o rio no amor
Mas o fim não lhe enxergava.

De cada vez que tocava
No infinito se perdia
Do corpo dessa viola
Que mais amor lhe pedia.

Ficou entre nós o tempo
Em que fica uma andorinha.
Deu-nos essa primavera
Porque deu tudo o que tinha.

Foi-lhe o corpo atrás da alma
Que lhe pedia mais amor.
O seu nome ninguém sabe.
Dizem que era Trovador.

Natália Correia, Inéditos