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quinta-feira, 13 de junho de 2019

O homem do chapéu de coco...



Poema da flor proibida


 Por detrás de cada flor
há um homem de chapéu de coco e sobrolho carregado.

Podia estar à frente ou estar ao lado, 
mas não, está colocado
exactamente por detrás da flor.
Também não está escondido nem dissimulado, 
está dignamente especado 
por detrás da flor.


Abro as narinas para respirar
o perfume da flor,
não de repente
(é claro) mas devagar,
a pouco e pouco,
com os olhos postos no chapéu de coco.


Ele ama-me. Defende-me com os seus carinhos,
protege-me com o seu amor.
Ele sabe que a flor pode ter espinhos,
ou tem mesmo,
ou já teve,
ou pode vir a ter,  
e fica triste se me vê sofrer.


Transmito um pensamento à flor 
sem mover a cabeça e sem a olhar. 
De repente,
como um cão cínico arreganho o dente 
e engulo-a sem mastigar.

António Gedeão, in Poesias Completas



sábado, 3 de agosto de 2013

Canção para álbum de moça


Bom-dia: eu dizia à moça
que de longe me sorria.
Bom-dia mas da distância
ela nem me respondia.
Em vão a fala dos olhos
e dos braços repetia
bom-dia à moça que estava,
de noite como de dia,
bem longe de meu poder
e de meu pobre bom-dia.
Bom-dia sempre: se acaso
a resposta vier fria
ou tarde vier, contudo
esperarei o bom-dia.
E sobre casas compactas, sobre o vale e a serrania,
irei repetindo manso
a qualquer hora: bom dia.
O tempo é talvez ingrato
e funda a melancolia
para que se justifique
o meu absurdo bom-dia.
Nem a moça põe reparo,
não sente, não desconfia
o que há de carinho preso
no cerne deste bom-dia.
Bom-dia: repito à tarde,
à meia-noite: bom-dia.
E de madrugada vou
pintando a cor de meu dia,
que a moça possa encontrá-lo
azul e rosa: bom-dia.
De triste, túrbido, inquieto,
noite que se denuncia
e vai errante, sem fogos,
na mais louca nostalgia.
Ah, se um dia respondesses
ao meu bom-dia: bom-dia!
Como a noite se mudara
no mais cristalino dia.

Carlos Drummond de Andrade (1902-1987), Obra Poética 

quarta-feira, 9 de novembro de 2011

Nuvem...


Não queiras pôr a nuvem numa caixa transparente 
ensinar-lhe as leis quotidianas
com quanto amor domesticá-la

Ela não fala
essa linguagem
Não tem lei nem morada
Uma secreta voz constantemente a chama

Amá-la é conservá-la aí nessa paragem
de instável segurança  E se quiseres guardá-la
na doce paz comum tão diferente
da paz inquieta e sempre outra em que cintila
já não é a nuvem que tu amas

e mal sujeita ao clima estranho que a mutila
desfaz-se em água e some-se na terra transformada
em lama

Mário Dionísio, Memória Dum Pintor Desconhecido




domingo, 1 de agosto de 2010

Vida liceal... - Parte IV




Parte IV - Uma carta de amor

Comodamente instaladas na sala de estar, onde fingiam estudar, Catarina e Isabel foram surpreendidas pela criada Lucinda que entrou com um envelope na mão.
- Para mim? - estranhou Isabel. - Quem manda isso?
- Não sei, menina.Tem uns rabiscos atrás que me parecem letra do seu pai.
- Do meu pai?!...Não pode!...
- Não sei, menina, não sei. Ora veja.
- Catarina esticou o pescoço, curiosa e com uma rápida olhadela, rematou: - Não, não é do teu pai. É a inconfundível letra da Lúcia, aquela nossa colega que está em Lisboa. A mim também escreveu ontem, esqueci de te dizer...Ou antes, ainda não te disse...
- Mas essa carta foi deitada cá em Viseu, meninas - observou a Lucinda, uma espécie de cão de guarda da Isabel, que acumulava as funções de aia, criada de fora e cozinheira e a quem as raparigas dificilmente enganavam. Olhava detidamente o sobrescrito nas mãos da jovem patroa, sem se aperceber da pisadela insistente que Catarina pregara no pé direito da amiga, que, de tão espantada,nem se lembrou de reagir.
- Claro, Lucinda, que foi cá deitada... Pois se ela me diz a mim que chegou cá anteontem!...Chegou, não pôde vir ter logo connosco porque seguiu de imediato para a terra da mãe e, como nos devia carta, escreveu e deitou-as no correio. Ideias estrambólicas dela, claro! Sempre foi assim aquela rapariga...Obrigada, Lucinda, pode ir.
Pouco convencida, a criada saíu. Mas a Isabel não caía de espanto em espanto , olhando a companheira.
- Não quererás dizer-me o que significa tudo isto?!
- Não, porque sei tanto como tu.Penso que se te referes ao papel que conservas na mão... é uma carta, como se lhe convencionou chamar.
- Não te ponhas com brincadeiras1 Que mania! E já agora: - também posso saber a que título te julgaste autorizada a dares-me uma valente pisadela?...
- Sabes o que te digo? Que te despaches a abrir a carta antes que a Lucinda se julgue obrigada a fazê-lo pelas suas próprias mãos e razões ocultas... Despacha-te.
Ainda com ar de poucos amigos, Isabel olhou a colega e depois a carta de que começou a rasgar o envelope com a ajuda de uma espátula e, quase de imediato, soltou um OH! do mais genuíno espanto. As faces morenas tinham-se tornado escarlates e nos olhos escuros brilhava contrariedade.Amarfanhou a missiva nas mãos com a exclamão: "Idiota! Mas que parvalhão!"
Sentada do outro lado da mesa de estudo, Catarina olhava-a, algo divertida.
- Parece que há um ele no caso... o que se reveste logo de um certo clima...
Mas a amiga não achou piada ao comentário e, irritada, atirou com o papel amaçado na sua direcção.
- Lê! Fazes o favor de leres essas parvoíces e diz-me depois se tenho ou não razão! Não posso com esse palerma!!!
Catarina não perdeu o sorriso enquanto desdobrava o papel amachucado, sorriso que se acentuou enquanto o lia em voz baixa: "Isabel Maria:É decerto ousada demais a minha atitude ao escrever-lhe, mas desculpe-a por sincera. Sei que tem de mim uma opinião pouco lisongeira, já o percebi,mas rogo-lhe que varra da sua memória para sempre a minha imagem de quando me viu pela primeira vez. Era meu intento ter-lhe de há muito pedido desculpa o que faço hoje, e por este meio, pois só depois me atreverei a fazer-lhe um segundo pedido.
Supondo então que a sua alma generosa me tenha perdoado já, atrevo-me a expressar-lhe a profunda simpatia que me inpirou desde o primeiro momento que a vi. Não venho fazer uma banal declaração cheia de frases retóricas e floreadas,como mo impede a natural sinceridade do meu coração.Além do que poderia eu dizer-lhe se todas essas frases não fossem senão pálidas imagens dessa realidade que a Isabel Maria conhece tão bem como eu? Não venho dizer-lhe que é bela, ou dirigir-lhe outros galanteios, mas oferecer-lhe o meu coração, a minha devoção por si, que, espero, aceite.
Este seu admirador: Jorge Manuel Alves e Sousa"
Ao acabar a leitura, Catarina não reteve uma alegre gargalhada.
- Muito bem! Para quem não quer usar metáforas e não se servir de galanteios?!...nem está mal!... E que vais tu responder?...
Isabel sobressaltou-se. Era óbvio que não considerara ainda tal hipótese.
- Responder-lhe? Eu?!... Acho que vou fazer de contas que não é nada comigo! A menos que queiras que lhe responda e lhe pespegue uma descompostura valente como ele nunca levou na vida!...
- Antes de mais nada, menina,aconselho-te a que me passes a carta, guardes o envelope e me dês papel e lápis. Ou, melhor, caneta e tinta, mas despacha-te, antes que a Lucinda se lembre de aparecer por aí de novo, para coscuvilhar...
- Toma. Mas para quê tudo isso?...
Isabel parecia atordoada ao fornecer à amiga uma caneta e um pequeno tinteiro que subtraíra da gaveta de uma escrivaninha. Entretanto, Catarina dobrara cuidadosamente a folha escrita, punha o envelope sobre a mesa e com uma calma que não lhe era muito habitual, foi expondo: - Primeiro: o papel é...especial. Preciso, portanto, de uma folha de papel de carta ... deste. Tens? Muito bem. Agora esperas um nadinha, - até podes entreter-te com o romance que estavas há pouco a ler com tanto interesse - e vê se metes esse outro papel recebido num bolso da bata, ou esconde-o o melhor que possas. E não me faças essa cara de espanto! Sobretudo não me distraias e fica calada...
E, após as recomendações, dobrou-se sobre o papel aplicadamente, desenhando nele uns caracteres espalhafatosos, muito diferentes da sua habitual caligrafia. De vez em quando parava e reflectia para de novo continuar com mais entusiasmo, se possível, até que, ao fim de uns longos minutos, deu a tarefa por acabada, muito satisfeita de si.
- Escuta esta prosa, Belinha. Vais ficar banzada!...
E leu: " Minha querida Bela! Cheguei hoje de Lisboa e tenho de ir já para a terra da minha mãe, em Vila Nova de Tázem. E como não posso visitar logo as minhas boas amigas, resolvi escrever às mais queridas e daí a amostra da minha bela prosa...sempre inconfundível.A pressa é imensa e daí esta caligrafia, mas vai mesmo assim. Trago milhões de coisas para te contar, mas, por agora, só isto: que me lembro de ti e que ainda me não esqueci dos nossos belos tempos de aulas, das brincadeiras, das conversas sérias e de toda a alegria compartilhada. Assim como de quando tirávamos notas baixas nos exercícios, ou nos esticávamos nas chamadas e procurávamos consolar-nos umas às outras pois todas estávamos sujeitas aos mesmos martírios!... Este ano, no 5º ano, temos de estudar mais. Estuda, querida Bela, mas não te esqueças nunca desta tua muito amiga - Lúcia Rebelo. P.S.: Não repares na prosa.Da minha vida em Lisboa depois te falo em pormenor, mas é mais aborrecida.Não estranhes a letra do sobrescrito, mas pedi, com a pressa, ao meu irmão para me ajudar. Por uma vez, até que foi bonzinho e fez-me as direcções enquanto te escrevia. Espero que não se engane em nenhuma. A tua muito amiga, que te envia imensos e amorosos beijos e abraços:Lúcia"
Isabel parecia meio desnorteada: - Que significa isso, Kaety? Endoideceste?!
- Estou em meu perfeito juízo, querida. Repara bem: esta carta da Lúcia vinha dentro deste sobrescrito, valeu?
- Mau...Eu não entendo é nada!...
- Repara bem: esta outra carta vai comigo.E medita, queridinha, na minha curta conversa com a Lucinda e lê a carta que a nossa comum amiga Lúcia te mandou e vai pensando também na descompostura que terás de pregar a um certo sujeito, como dizes... Enfim. São horas de almoço e a minha mãe não deve estar lá muito satisfeita com o meu atraso. Às duas menos dez passo por cá e vamos as duas para o Liceu. Até logo, querida!
E, fechando a porta atrás de si, Catarina despediu-se com um sorriso agarotado no rosto sardento e rosado, deixando Isabel com a carta da amiga Lúcia na mão. Mas, acto contínuo, esta saiu para o corredor no seu encalço e Catarina sentiu-se abraçada por trás e ouviu um sussurro: - Obrigada! És uma boa amiga, Kaety!
Catarina sorriu: - Não sei se sou... Sobretudo, não gosto de ver ninguém metido em sarilhos escusados...Adeus. Adeus. Deixa-me ir, senão esfolam-me viva!
Saída a porta da casa da amiga, numa corrida, Catarina entrou rapidamente na sua, que ficava ao fundo, do outro lado da mesma rua, depois de um salamaleque jocoso à amiga, que a olhava do patamar. Mas no espírito de Isabel ficara e pairava a dúvida: Que fazer? Responder... ou não dizer nada? Ainda tinha de debater o problema com Kaety., que era muito brincalhona, às vezes insuportável, mas compreensiva e boa e saberia dar-lhe uma opinião. Claro que se respondesse seria para o descompor. Mas tinha ainda de pensar maduramente na descompostura. Já se sentia menos irritada e agora sabia precisar de tempo. E tudo aquilo já não lhe parecia agora uma tão grave tragédia... Bem, tinha mesmo de falar sobre tudo aquilo com a amiga - decidiu enquanto fechava a porta devagar..

segunda-feira, 11 de janeiro de 2010

Nosso livro



Livro do meu amor, do teu amor,
Livro do nosso amor, do nosso peito...
Abre-lhe as folhas devagar, com jeito,
Como se fossem pétalas de flor.

Olha que eu outro já não sei compor
Mais santamente triste, mais perfeito.
Não esfolhes os lírios com que é feito
Que outros não tenho em meu jardim de dor!

Livro de mais ninguèm! Só meu. Só teu.
Num sorriso dizes tu e digo eu:
Versos só nossos, mas que lindos sois!

Ah! Meu amor! Mas quanta, quanta gente
Dirá, fechando o livro docemente:
Versos só nossos, só de nós os dois!...

Florbela Espanca





segunda-feira, 7 de dezembro de 2009

Perseguir


Persigo o teu rasto, a tua imagem,
o muito e o pouco que de ti conheço
sem nunca ter certeza se és mesmo tu
ou a ideia que de ti fiz e faço.
Incessantemente te sigo nesse espaço
tentando acalmar o amor que te consagro
sedenta desse algo estranho e muito teu
que resta na esteira de teus passos.
Nunca senti os típicos cansaços
de perseguir apenas a ilusão
porque, afinal, ao sol de cada dia
foram criados profundos laços
de um encantamento
pleno de ternura e alegria.
Bem hajas, amor, pela primavera
que provocou em mim essa quimera
de viver a ilusão de não estar só.

Sophia Guiomar, 2009




quinta-feira, 20 de agosto de 2009

Folhas de um diário




Anos 50 - Folhas do diário de uma rapariguinha, por volta do ano de 1956

I -Hoje havia uma desusada animação em casa da Mimi Garcez. No salão conversava-se e dançava-se, jogava-se gamão, fazia-se paciências com cartas, as senhoras entregavam-se à canasta, outras à renda ou ao tricot e aproveitavam para pôr em dia a vida de vizinhos, conhecidos e mesmo de amigas mais ou menos comuns. Foi quarta-feira, dia habitual de juntar os jovens para se divertirem e eu , convidada pela Maria Aleu, que é um doce de rapariga, também fui. Gosto mesmo muito dela e sei que ela gosta de mim. Mas nós, os jovens, preferimos quase sempre as sombras do frondoso jardim e aí discutimos com calor e gracejamos sobre os mais variados assuntos, gozando da relativa liberdade que nos dão as mamãs, papás e tias solteiras ou viúvas mais entretidos pelo espaçoso salão. Na copa sombria, duas criadas de dentro, fardadas irrepreensivelmente de escuro, com os aventalinhos brancos pregueados em nylon, afadigavam-se a cobrir a comprida e maciça mesa de castanho com sandwiches, bolos, doces, salada de frutas, refrescos, cup, vinhos generosos, whisky e champanhe e uma série de heterogéneos produtos de doçaria regional e, encimando tudo isto, um enorme bolo ornamentado com as tradicionais velinhas natalícias e tudo isto porque a Mimi completava os seus vinte e um anos radiosos e convidou os amigos e alguns amigos dos amigos para com todos festejar a data da tão apetecida maioridade.
Ao entrar no salão, tinha reencontrado e reconhecido imensa gente. Num dos grupos espalhados ao acaso, ouvi alguém perguntar à Maria Aleu:«Olha lá! A Rita ainda não recuperou o bom humor? Ainda não apareceu e estranho a demora.» Quem dizia isto era o Luís, o primo da Mimi. E enquanto a minha amiga encolhia os ombros, manifestando ignorância, prosseguiu: «Devo dizer-vos que aquela rapariga anda muito estranha! Se vissem a cara esquisita que tinha um dia destes quando eu vinha de acompanhar...» Calou-se bruscamene e lançou ao Diogo, que estava a escutá-lo muito atento, um olhar muito perscrutador. Vi que o Diogo notou, mas nada disse. O nosso grupo das meninas, que também tinham ficado muito curiosas, não se conteve com a brusca interrupção. Exclamações e perguntas ouviram-se de vários lados: «Então, Luís! Acabe! »
«Acaba!Quando foi isso? Quem foi que acompanhaste?»
«Não sejas misterioso! Conta lá, que isso interessa-nos!»
Mas Luís mudara de ideias. Sacudindo a cabeça, foi bastante firme na recusa.«Não, meninas! Nada disto deve ser assim tão importante, apesar de ter visto a Rita realmente incomodada. Mas logo depois a vi a dançar e sem nuvens negras a ensombrar-lhe o espírito, porque parecia até muito animada.»
«Ora bem! Algum desgosto de amor!», observou levianamente Pedro Santiago.
«Acho a Rita por demais moderna para ter sido essa a causa, contrapôs o Luís. Mas deve estar por aí a chegar e pergunta-se-lhe.»
Com outras várias considerações sobre o assunto, ainda ficámos por ali até que, com a Maria Aleu, a Tanchinha e o Diogo, já cansados com a atmosfera saturada de odores e o ruído das desencontradas conversas do salão, decidimos sair para o jardim e juntarmo-nos ao grupo que assistia a um combate renhido de badminton entre os primos e primas mais jovens da Mimi e da Maria. Por ali, também se aproveitava para comentar o último filme do Avenida. E foi com o pano de fundo de várias e desencontradas opiniões, que vi o Diogo chegar-se para perto do Luís, enquanto nos internávamos lentamente nas alamedas areadas do jardim, e nos distanciávamos um pouco dos alaridos dos animados jogadores e dos sons breves e compassados das batidas do volante de penas brancas contra as raquetas cortando a atmosfera branda do anoitecer. «Ora bem, meu menino, ouvi dizer ao Diogo. Acho que agora chegou o momento de me explicares a razão daquele olhar perfurador que me lançaste. Porque parece-me ter percebido uma relação entre o ar angustiado da Rita que lhe viste e a minha pessoa... É isso?»
«Bem, talvez.Mas também é natural que eu e tu estejamos enganados. Mas, vejamos: será que podes explicar-me a razão porque abandonaste tão cedo a reunião passada?...»
Por momentos silencioso, e já muito curiosa, mas caladinha para não perder pitada da conversa entre aqueles dois, enquanto fingia concordar com a opinião abalizada da cinéfila Amélia sobre a interpretação da Audrey Hepburn, ouvi o Diogo concordar.«Creio que sim, desde que me narres fielmente o que aconteceu com a Rita depois que saí.»
«E prometes-me segredo a ...seja a quem for?»
«Tens a minha palavra.»



Vi que Luís considerava a resposta, enquanto abria a cigarreira para puxar de um cigarro. Depois soltou uma primeira bafurada. «Conta lá então o motivo porque saiste outro dia tão precipitadamente e tão cedo lá de casa.»
«Bem..foi simples. Tinha discutido com a Rita e estava muito zangado.»
«E ela não te chamou para se desculpar?»
«Não. Na altura não fez o mais leve gesto para isso.»
Inquisidor, Luís continuou:« E entre tu e ela não havia nada mais além de camaradagem?»
«Nada, que soubéssemos. Ela até andava um tanto fria comigo.»
« É. Sei disso, ouvi murmurar o Luís, enquanto fixava pensativo as volutas de fumo do cigarro que lhe ardia preguiçoso entre os dedos longos. E , lentamente, recomeçou:«O que tenho para te dizer é simples e é muito pouco. Quase nada, mesmo, mas, ainda assim... Quando vinha de te acompanhar á saída, estava a subir o último lance de escadas, quando ela me apareceu a perguntar quem tinha saído. E pareceu-me aflita. Inquieto, só me lembrei de tentar saber se se sentia mal. Respondeu-me que não tinha nada, mas insistia em saber quem tinha acabado de sair. Estava agitada, um pouco pálida e acabei por lhe dizer que tinhas sido tu. Pareceu ficar de repente ainda mais desgostosa e respondeu-me que não era nada, que afinal não era contigo... Voltou-me as costas e reentrou no salão. E qual não é o meu espanto quando a vi de seguida a dançar com já nem sei quem. E pareceu-me muito estranho vê-la toda a noite muito feliz, esfusiante de encanto e alegria, não parando ninguém com ela. Pôs toda a gente a mexer-se, nessa noite. Mas nos dias seguintes já não a vi assim, mas pouco comunicativa, quase sorumbática. Percebia-se que a muito custo acompanhava as nossas brincadeiras. Atirámos-lhe remoques e não nunca mais correspondeu com aquela alegria do costume, brindando-nos com um ou outro sorriso triste. Então, quase sem querer, relacionei esse sorriso meio amarelo com o teu afastamento e com a tua fuga desse dia. E ontem, quando fomos à sessão da tarde no Avenida, confirmou-se-me essa ideia quando a vi de novo muito alegre, afável e gentil como dantes era. E como tu também estavas de volta...» Luís calou -se. Pareceu-me, também a mim, um pouco cansado e desgostoso. Em contrapartida, vi o Diogo felicíssimo da vida! Continuei muito atenta, virada um pouco de lado, sempre que se parava para contornar uma sebe, ou um canteiro, e de novo o Luís, agora de um modo distante, retomou o fio das suas reflexões em voz alta para o companheiro: « Com tudo isto não quero atribuir à Rita sentimentos ... enfim, creio que me compreendes,pá. Mas como a acho uma rapariga excelente e como a tua fuga me pareceu ser a de um enamorado furioso...resolvi contar-te... isto. Talvez aproveite a ambos.» Não escondendo por então o seu contentamento, ouvi o Diogo responder, quase reconhecido, cortando o silêncio breve que o grupo entretanto fizera:«És um bom amigo, Luís, e nem sabes a enorme alegria que me deste!E agora vou-me. Pressinto que ela já chegou e quero recebê-la. Adeus, pá!...»
Todos nós, os daquele grupo meio disperso que conversava, vimos o Diogo desaparecer atrás de um frondoso carvalho, num passo elástico de desportista. Quase ao fundo do jardim, ligeiramente adiantado em relação a nós, ficou um Luís meio absorto . Pareceu-me ler-lhe, porém, no olhar uma enorme mágoa. E, de repente, dei comigo a ter muita pena dele e a pensar : "Louco! Como pareces triste ao ver o teu amigo partir cheio de felicidade! Como a vida pode ser tão cruel!"
O Luís vai ser um futuro advogado, inteligente, sensível, brilhante e muito amigo do seu amigo. Todos consideramos este jovem de aspecto calmo um bom rapaz e mães e senhoras solteiras um bom partido. Mas de quantas renúncias silenciosas, de quantos grandes e pequenos heroísmos, pode ser feita a alma de um jovem quando sabe que está apaixonado? Sim, porque eu já pressentira o interesse permanente que Luís prodigalizava a Rita desde há muito. Não sabia bem era em que pé andavam as coisas entre eles, porque Rita parecia-me gostar de todos nós, independentemente do sexo ou da idade, e de nenhum dos nossos companheiros de estudo e de folguedos.
Passado um tempo, alguém nos chamou finalmente para o lanche ajantarado de festa. Entretanto, a conversa sobre a estreia do filme já devia ter acabado e eu nem me dera conta.
Ao entrarmos no salão, dei logo de caras com a recém-chegada Rita que ainda cumprimentava afavelmente as senhoras presentes que pareciam encantadas com toda a sua gentileza e frescura envolta num simples e vaporoso vestido azul-céu que parecia condizer em tudo com os seus olhos radiantes, ainda que vagamente inquietos. A Maria dizia-lhe que já estava a ficar preocupada com a demora e a Mimi que "festa sem ela não era festa"... E a Rita sorria contente para as amigas, quando vi que mudou ligeiramente de expressão ao encarar com o Diogo, encostado ao peitoril de uma das duas janelas que davam para o jardim e que tabém sorria. E, pouco depois, enquanto alguns pares já rodopiavma ao som de uma valsa, vi-o chegar junto dela e segredar-lhe qualquer coisa ao ouvido e não duvidei que o cavaleiro branco dos sonhos daquela donzela de nome Rita tinha finalmente chegado.
Fiquei cheinha de curiosidade. Que iria agora acontecer?... Então, por entre as reviravoltas da valsa que eu dançava com Pedro, ouvi a Rita perguntar ao rapaz que, entretanto, se lhe juntara: «Então e o que me queria de tão importante, Diogo?»
«Bem...Pedir-lhe as suas mãos!»
«As minhas mãos?!» E Rita ria.
«Claro! Quero as duas... não pretendo casar com uma jovem senhora maneta.» A voz soava-lhe maliciosa. «O que diria então a sociedade?!»
Apesar de um pouco perturbada, a rapariga riu ainda mais, reparando nas sobrancelhas comicamente encrespadas do rapaz. Eu ouvi-lhe a gargalhada e como, entretanto, a valsa tinha terminado, com o Pedro ao meu lado, julgando que lhe ouvia uma anedota, dirigi-me para perto do par, pressentindo algo de novo no desenrolar daquela festa.Confesso que ardia da mais pura curiosidade.
«Oh! Diogo! Isso é uma declaração? Nunca pensei que...» Apesar de radiante, a Rita parecia confusa e emendou: «Não pensei em ouvir de si... algo de tão original. Se não fosse você julgaria que alguém estava a brincar comigo.»
Vi o Diogo pegar nas mãos da Rita, até então caídas ao longo do seu corpo esbelto. «Então não pensa isso de mim? Que estou a brincar?»
E a Rita perdeu o seu olhar luminoso no do interlocutor. «Não. Acho-o por demais leal.»
«Está aceite então a minha candidatura às suas lindas mãos? Posso beijá-las?» E o Diogo, perante o olhar divertido de alguns dos amigos, entre os quais eu, a Maria Aleu, o Luís e o Pedro, levou, num gesto encantador e galante, aos lábios aquelas mãozinhas que conservava apertadas entre as suas, e, de seguida, aspirou-lhes o odor, parecendo maliciosamente enlevado. Embaraçada, consciente de que estavam a ser observada, a Rita forcejou por libertar as mãos. «Você é de força!» Vimo-la quase zangada, enquanto, a pouco e pouc,o um sorriso encantador desmentia o tom de voz :«E para castigo só vai ter resposta depois do lanche.» E o Diogo, a fingir-se desolado:«Oh!Não seja má!»
«É o que lhe digo!»
«Está bem!», aquiesceu o rapaz. E numa reviravolta que nos pôs todos a rir:« Vamos dançar?»
Quando o baile recomeçou em força depois de servido o lanche-jantar, o Luís, o amigo de todos, o bom rapaz, leu nos olhos radiantes de Rita como esta se sentia feliz. Via-se qu ainda sofria. Eu acerquei-me. «Então, Luís, que contemplas?...» Penalizada, vi-o esboçar um vago sorriso, murcho, triste. «Contemplo a felicidade, minha querida amiga. Ainda não a viste?»
«Jovem visionário! Onde a verás tu?», brinquei.
«Talvez no céu», suspirou o rapaz. Encolheu os ombros, inclinou-se um pouco numa espécie de vénia e foi convidar a Emilinha para dançar um "cha-cha-cha".
Emocionada, segui, por momentos com os olhos o Diogo e o seu par que, alheios aos que os rodeavam, riam e falavam incessantemente, loucamente, numa maré de enlevo. Senti, de repente, um pouco de inveja daqueles dois .Será que algum dia?... Era mais avisado não pensar nisso. Tal como a Rita também eu me gabava de ser uma rapariga muito moderna e nada romântica.
Ao registar estas minhas observações da festa da maioridade da Mimi Garcez, ainda dou comigo a pensar se não será bom e mesmo aconselhável ser-se um bocadinho louco de vez em quando, porque a vida, no seu evoluir apressado e permanente, vai-nos mostrando sempre a forma de sermos equilbrados, muito ajuizados...
... Porém também acho que o encanto dela nasce inegavelmente de um pouco de loucura.

26-02-1956