terça-feira, 22 de março de 2011

Em mais um Dia da Poesia



Ainda não consigo cantar a Primavera e ela já chegou à minha porta.
Mas tenho medo que se desfaça em ilusão...
Como o desejar a alguém Boa Noite! em plena madrugada.
Ou o adormecer da dor no meu coração...
Custa-me a acreditar nos sonhos que muito prometem, porque para mim, sempre apareceram como vãos. Cavei a vida com a força dos braços, fiz cara feia ao medo, à estultícia, à devassidão, procurando conservar a consciência nítida de valores ancestrais. A eles me apeguei.
Outros, porém, deixei pelo caminho como hipócritas e fora da razão.
Outros ainda criei e acarinhei.
Sempre acreditei, porém, que o amor, a compreensão, o respeito, a solidariedade, eram indispensáveis para melhorar o mundo.
E que toda a violência sem razão, a crueldade, o revanchismo, a inveja, a maledicência, eram inimigos do progresso, da verdade, da justiça. E ainda hoje me convencem.
Pequenos males que afligem a humanidade fazem-me pensar, tanto quanto as grandes catástrofes.
E de todas tiro conclusões.
Mesmo sem querer.
Porque tudo representa um manual de experiências que me fazem vibrar como cordas de um violino. Contudo, sinto que tocam frequentemente desafinadas, fora do tom. Ou que vibram num som arranhado.
Em tom plangente,como um soluço, um grito abafado.
Por tudo isto, e porque a minha memória de ti se prende mais com a emoção do que com a sensação...ainda não pude cantar a Primavera como tão bem sabes fazer. E mal consigo alinhavar estas linhas para te dizer como aprecio os teus versos que tão bem cantam o amor e a paixão, porque os meus elogios se esgotam frequentemente nessa admiração. Porque casam mal com a lembrança que de ti me ficou. Talvez. E em parte. Na essência tu estás lá como te conheci, Inteirinho.
Raramente eles me soam como vulgares ou mal acabados.
Por isso, Poeta, no Dia da Poesia, te saúdo com a minha ternura de mulher que te lê com carinho e emoção.
O que ainda não consegui fazer com a Primavera.
Não foi ela mas, sim, TU que bateste de há muito à porta do meu coração.
E que passaste tímido e silencioso sem a coragem de me olhar de frente.

Myriam Vasco, Dia da Poesia