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sábado, 19 de janeiro de 2019

Noite e solidão


Quero uma solidão, quero um silêncio,
uma noite de abismo e a alma inconsútil,
para esquecer que vivo - libertar-me

das paredes , de tudo o que aprisiona;
atravessar demoras, vencer tempos
pululantes de enredos e tropeços

quebrar limites, extinguir murmúrios,
deixar cair as frívolas colunas
de alegorias, vagamente erguidas.

Ser tua sombra, tua sombra apenas,
e estar vendo e sonhando à tua sombra
a existência do amor ressuscitado.
Falar contigo [só] pelo deserto.

Cecília Meireles

quarta-feira, 29 de junho de 2011

As cegonhas...

As cegonhas.
Trazem-me o adro,
duas casas,ou três, se forem brancas,
a torre onde pousavam

lentas, eu tinha então
a idade das amoras,
o sol sufocava sobre a boca,
lembras-te?, ou o peso doutra boca,
doutra razão, já não sei,
corria à pedrada
os cães de que tinhas medo,
e fugia de ti para afagar

em segredo
o baiozinho que então namorava.

Eugénio de Andrade, Branco no Branco

terça-feira, 22 de março de 2011

Em mais um Dia da Poesia



Ainda não consigo cantar a Primavera e ela já chegou à minha porta.
Mas tenho medo que se desfaça em ilusão...
Como o desejar a alguém Boa Noite! em plena madrugada.
Ou o adormecer da dor no meu coração...
Custa-me a acreditar nos sonhos que muito prometem, porque para mim, sempre apareceram como vãos. Cavei a vida com a força dos braços, fiz cara feia ao medo, à estultícia, à devassidão, procurando conservar a consciência nítida de valores ancestrais. A eles me apeguei.
Outros, porém, deixei pelo caminho como hipócritas e fora da razão.
Outros ainda criei e acarinhei.
Sempre acreditei, porém, que o amor, a compreensão, o respeito, a solidariedade, eram indispensáveis para melhorar o mundo.
E que toda a violência sem razão, a crueldade, o revanchismo, a inveja, a maledicência, eram inimigos do progresso, da verdade, da justiça. E ainda hoje me convencem.
Pequenos males que afligem a humanidade fazem-me pensar, tanto quanto as grandes catástrofes.
E de todas tiro conclusões.
Mesmo sem querer.
Porque tudo representa um manual de experiências que me fazem vibrar como cordas de um violino. Contudo, sinto que tocam frequentemente desafinadas, fora do tom. Ou que vibram num som arranhado.
Em tom plangente,como um soluço, um grito abafado.
Por tudo isto, e porque a minha memória de ti se prende mais com a emoção do que com a sensação...ainda não pude cantar a Primavera como tão bem sabes fazer. E mal consigo alinhavar estas linhas para te dizer como aprecio os teus versos que tão bem cantam o amor e a paixão, porque os meus elogios se esgotam frequentemente nessa admiração. Porque casam mal com a lembrança que de ti me ficou. Talvez. E em parte. Na essência tu estás lá como te conheci, Inteirinho.
Raramente eles me soam como vulgares ou mal acabados.
Por isso, Poeta, no Dia da Poesia, te saúdo com a minha ternura de mulher que te lê com carinho e emoção.
O que ainda não consegui fazer com a Primavera.
Não foi ela mas, sim, TU que bateste de há muito à porta do meu coração.
E que passaste tímido e silencioso sem a coragem de me olhar de frente.

Myriam Vasco, Dia da Poesia

quarta-feira, 6 de janeiro de 2010

O segredo é amar


Fosse mais bela a Vida e mais sincera...
Como eu lhe quero mesmo assim!
Tanto lhe dei de mim
que já é menos acre do que fora.

Ah!, bem me parece que o Amor melhora
quanto a graça de Deus não fez bonito.
Há lá coisa mais linda do que um grito
quando foi o Amor que o pôs cá fora!...

Deixa ser o meu gesto uma grinalda
nos teus cabelos, Vida!
Deixa que o meu olhar enflore teus olhos.

Adeus, adeus teus dedos ásperos!
Adeus teu rictus doloroso!
- Vida, quem é a minha namorada?

Sebastião da Gama