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sábado, 17 de outubro de 2015

Casa arrumada - Carlos Drumond de Andrade


Casa arrumada é assim:
Um lugar organizado, limpo, com espaço livre para circulação e uma boa entrada de luz.
Mas essa casa, para mim, tem que ser casa e não um centro cirúrgico, um cenário de novela.
Tem gente que gasta muito tempo limpando, esterilizando, ajeitando os móveis, afofando as almofadas.
Não, eu prefiro viver numa casa onde eu bato o olho e percebo logo: - Aqui tem vida.
Casa com vida, pra mim, é aquela em que os livros saem das prateleiras e os enfeites brincam de trocar de lugar.
Casa com vida, pra mim, tem banheiro com vapor perfumado no meio da tarde, tem gaveta de entulho, daquelas que a gente guarda barbante, passaporte e vela de aniversário, tudo junto.
Casa com vida é aquela em que a gente entra e se sente benvinda.
A que está sempre pronta prós amigos, filhos...
Netos, prós vizinhos...
E nos quartos, se possível, tem lençóis revirados por gente que brinca ou namora a qualquer hora do dia.
Casa com vida é aquela em que a gente arruma pra ficar com a cara da gente.

Arrume a sua casa todos os dias...
Mas arrume de um jeito que lhe sobre tempo pra viver nela...
E reconhecer nela o seu lugar.
                                                               
                                                                             Carlos Drumond de Andrade (n.: 1902- f.: 1987)

segunda-feira, 14 de abril de 2014

Carne envilecida...


Esta carne envilecida e santa,
a gerar os prados e a nuvem e a chuva,
lavada pelo sol e pelo vento...

Esta carne envilecida e santa,
apodrecendo em todas as latitudes,
presente na angústia da noite devastada...

Esta carne envilecida e santa,
forçada a negar a verdade pressentida,
ecoando os versos dos poetas desconhecidos...

Esta carne envilecida e santa,
abrindo-se em flor aos quatro cavaleiros,
é o homem e a vida breve.

Tomaz Kim (1915-1967)

terça-feira, 18 de fevereiro de 2014

Libertando...


Soltando borboletas...
ou aprisionando o momento?...

Ambos - momento e borboleta -
- voaram sem barulho...docemente.

Não mates a borboleta,
 mesmo se não for azul ou escarlate.
Mata o momento
antes que te mate.

Sophie

segunda-feira, 22 de junho de 2009

Canção da partida

CANÇÃO DA PARTIDA

Ao meu coração um peso de ferro
Eu hei-de prender na volta do mar.
Ao meu coração um peso de ferro...
Lançá-lo ao mar.

Quem vai embarcar, que vai degredado,
As penas do amor não queira levar...
Marujos, erguei o cofre pesado,
Lançai-o ao mar.

E hei-de mercar um fecho de prata.
O meu coração é um cofre selado.
A sete chaves: tem dentro uma carta...
__A última, de antes do teu noivado.

A sete chaves -- a carta encantada!
E um lenço bordado...Esse hei-de o levar,
Que é para o molhar na água salgada
No dia em que enfim deixar de chorar.


Camilo Pessanha, Clepsidra