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sexta-feira, 12 de abril de 2019

«Vidro côncavo»...



 


Tenho sofrido poesia
        como quem anda no mar. 
Um enjoo.
Uma agonia.
Sabor a sal.
Maresia.
 Vidro côncavo
a boiar.
Dói esta corda vibrante.
A corda que o barco prende
à fria argola do cais.
Se vem onda que a levante
vem logo outra que a distende.
Não tem descanso jamais. 

António Gedeão, in Poesias Completas 


*** Imagens colhidas na net.

sábado, 24 de novembro de 2018

Fatal o Inverno na vida...

[...]
Que são para mim as doenças que tenho  e o mal que me acontece
Senão o Inverno da minha pessoa e da minha vida?
O Inverno irregular, cujas leis de aparecimento desconheço,
Mas que existe para mim em virtude da mesma fatalidade sublime,
Da mesma inevitável exterioridade a mim,
Que o calor da terra no alto do Verão
E o frio da terra no cimo do Inverno.


Aceito por personalidade.
Nasci sujeito como os outros a erros e a defeitos,
Mas nunca ao erro de querer compreender demais,
Nunca ao erro de querer compreender só com a inteligência,
Nunca ao defeito  de exigir ao Mundo 
Que fosse qualquer cousa que não fosse o Mundo.

Fernando Pessoa, 1917 (in Poemas Completos de Alberto Caeiro)

quarta-feira, 31 de janeiro de 2018

Liberdade...



 É quando abro as janelas que me prendo,



é quando fecho as portas que me liberto...

Quanto mais estou sozinha mais completa me sinto...

[Comunidade Clarice Lispector]

quarta-feira, 10 de janeiro de 2018

Aroma...e vida

não sei se a vida é curta
ou longa demais para nós.
mas sei que nada do que vivermos tem sentido
se não tocarmos o coração 
das pessoas.

muitas vezes basta ser:
colo que acolhe;
braço que envolve;
palavra que conforta;
silêncio que respeita;
alegria que contagia;
lágrima que acaricia;
desejo que sacia;
amor que promove.

e isso não é coisa do outro mundo - 
- é o que dá sentido à vida.
é o que faz com que ela não seja
nem curta,  nem longa demais.
mas que seja intensa,
verdadeira e pura
enquanto durar.

Cora Coralina

Obs: - Para alguém se dar em pleno e a tempo inteiro até pode ser colo,braço, palavra, silêncio, alegria, lágrima, desejo... numa palavra, ou duas, *puro amor*. Só é difícil é ser tudo isso ao mesmo tempo e todo o tempo... 

domingo, 2 de julho de 2017

"De sua natureza murcham rosas..."




                                                                                            [20-11-1928]
Nem da erva humilde se o Destino esquece.
Saiba a lei o que vive.
De sua natureza murcham rosas
E prazeres se acabam.
Quem nos conhece, amigo, tais quais fomos?
Nem nós os conhecemos


Fernando Pessoa/-Obra Poética -Ficções do Interlúdio- Odes de Ricardo Reis








sábado, 11 de fevereiro de 2017

Círculos de violência - o silêncio




hoje a fria razão veio ao meu encontro
e vi profunda tristeza em seu olhar
aconcheguei-a contra mim suavemente
beijei-lhe com doçura a fronte pura
mantive o silêncio e pronto o sorriso
num desejo profundo de a acalentar

depois vacilei para encontrar o rumo
que nada tivesse com o verbo amar
e a intenção diluiu-se em fumo
- algo insistia em o fazer lembrar.

um soluço ficou preso na garganta
escondido o rosto a  disfarçar

... era lâmina que cortava a carne
 rasgava a alma
 num holocausto feroz de tradição milenar

sábado, 17 de outubro de 2015

Casa arrumada - Carlos Drumond de Andrade


Casa arrumada é assim:
Um lugar organizado, limpo, com espaço livre para circulação e uma boa entrada de luz.
Mas essa casa, para mim, tem que ser casa e não um centro cirúrgico, um cenário de novela.
Tem gente que gasta muito tempo limpando, esterilizando, ajeitando os móveis, afofando as almofadas.
Não, eu prefiro viver numa casa onde eu bato o olho e percebo logo: - Aqui tem vida.
Casa com vida, pra mim, é aquela em que os livros saem das prateleiras e os enfeites brincam de trocar de lugar.
Casa com vida, pra mim, tem banheiro com vapor perfumado no meio da tarde, tem gaveta de entulho, daquelas que a gente guarda barbante, passaporte e vela de aniversário, tudo junto.
Casa com vida é aquela em que a gente entra e se sente benvinda.
A que está sempre pronta prós amigos, filhos...
Netos, prós vizinhos...
E nos quartos, se possível, tem lençóis revirados por gente que brinca ou namora a qualquer hora do dia.
Casa com vida é aquela em que a gente arruma pra ficar com a cara da gente.

Arrume a sua casa todos os dias...
Mas arrume de um jeito que lhe sobre tempo pra viver nela...
E reconhecer nela o seu lugar.
                                                               
                                                                             Carlos Drumond de Andrade (n.: 1902- f.: 1987)

sábado, 12 de julho de 2014

Grito calado...



Passado esse longo mês de agonia atarefada, deu-se conta que negligenciara muita coisa, e entre elas o correio, quando deparou com duas cartas por abrir: uma plena de ternura e outra de fétido desprezo
Em nenhuma quis acreditar: ou porque se não reconhecia em nenhuma delas ou porque nem sabia se lhe seriam dirigidas de facto, embora tudo levasse a crer que sim, que o eram, depois de as analisar.
Não chorou. Antes ponderou que nunca tentara iludir ninguém, portanto não deveria também ter desiludido, assim como não pretendera destruir ou destruir-se. Sofrera e amaldiçoaria os dias frios e cinzentos, o trabalho acumulado, a falta de saúde, os serões ensonados... as mil e umas locubrações quotidianas, que não o tinham feito esquecer de nenhuma das suas recordações mais queridas, mas o tinham afastado de tarefas que tornavam mais difícil um eventual contacto com outras vidas que se tinham tornado realidades 
cada vez mais virtuais...  longínquas, despersonalizadas, quase mesmo irracionais.
Procurou não perder o sono ou o equilíbrio emocional e resolveu abrir arquivos de emoções sentidas e tentar de novo falar de si.
Ao falar de si talvez mostrasse como uma preocupação premente se pode calar em nós gritando em surdina.

Manuel Maria

segunda-feira, 5 de maio de 2014

Olvido...



Desce por fim sobre o meu coração
O olvido. Irrevocável. Absoluto.
Envolve-o grave como véu de luto.
Podes, corpo, ir dormir no teu caixão.

A fronte já sem rugas, distendidas
As feições, na imortal serenidade,
Dorme enfim sem desejo e sem saudade
Das coisas não logradas ou perdidas.

O barro que em quimera modelaste
Quebrou-se-te nas mãos. Viça uma flor...
Pões-lhe o dedo, ei-la murcha sobre a haste...

Ias andar, sempre fugia o chão,
Até que desvairavas, do terror.
Corria-te um suor, de inquietação...

Camilo Pessanha,  Clepsidra

quinta-feira, 10 de abril de 2014

Raça portuguesa... - por volta de 1925



"Somos incontestavelmente  uma raça de gente bem educada. Uma comissão especialmente  escolhida  passearia incógnita  durante uma semana em Lisboa e tomaria nota de todos os actos de cortesia â portuguesa que visse praticar.



Leria os jornais  e veria em que termos  de requintada gentileza certos cavalheiros sem licença de porte de pena apreciam os seus concidadões. Para ria às portas dos cafés elegantes e ouviria conversar os janotas, tomando nota dos termos técnicos com que habitualmente se esmaltam as conversações. Subiria aos carros eléctricos e registaria alguns diálogos e atitudes. Não faltaria às primeiras representações nos teatros a fim de saborear devidamente a compostura de certos espectadores. Alguns dos membros  da comissão rapariam o bigode e cortariam o cabelo à garçonne para se vestirem de mulher e poderem aprender de ouvido quanto o belo sexo é respeitado pelos portadores de matacões. Entrariam outros  em cafés e restaurantes e observariam a conduta dos fregueses bem como dos criados.Iriam às repartições públicas e veriam como, desde o servente até aos directores gerais, se põem em prática para com o público os bons conselhos do nosso sempre chorado primo João Félix Pereira.


No fim, reunidos todos os comissionados e cada qual dizendo da sua justiça, é possível que não se chegasse a resultados práticos dada a dificuldade de se apurar qual é o alfacinha mais bem educado."

André Brun, A Festa da Raça

E hoje?... Ainda existe esta raça?

sábado, 25 de janeiro de 2014

Ser honesto...


Essencial é: ser sempre honesto consigo mesmo.
 E evitar proclamar diante de terceiros honestidade, pois esta não é privilégio, mas obrigação moral e social.

Ao começar por ser-se honesto consigo, forçosamente o seremos com outros.
 Honestidade só para fora é hipocrisia, falsidade, mentira. Em suma: desonestidade.
Verdadeiramente honesto é todo aquele para quem a honestidade é valor intrínseco de vida e não apenas aparência.
Por que há pessoas honestas que o são de verdade e só é de lamentar quem só o queira parecer,
a começar pelos políticos encartados ou pelos comerciantes extremamente bem sucedidos. Entre outros e apenas como exemplo.
Quanto mais se dilui a responsabilidade directa do indivíduo numa qualquer massa anónima de múltiplos interesses, mais este valor  - o da honestidade - se perde.
E o tecido social ressente-se da perda desse valor que vale mais que o ouro puro e é cada vez mais difícil de encontrar.

domingo, 10 de novembro de 2013

A caminho de Delfos...


Grécia antiga: pista dos corredores


Pitonisa - Delfos


Delfos: ruínas 

"(...) Caminhei para Delphos
Porque acreditei que o mundo era sagrado
E tinha um centro. (...)"

Sophia de Mello Breyner Andresen

(Obra Poética III, p. 112)

quarta-feira, 2 de outubro de 2013

Imprevisto corrigido


Se minto? Quantas vezes! 
Mas em palavras. Não 
não nos meus olhos castanhos portugueses,
nestas linhas atávicas da mão...
Se minto?... Minto, pois! 
Mas nas orais palavras que vos digo.
 Não nas que entoo a sós comigo,
E em que enfim deixo de ser dois. 
Não nas que entrego a músicas, miragens. 
Alegorias, fábulas, mentiras.
Cadências, símbolos, imagens, 
Ecos da minha e mil milhões de liras. 
Se minto?... Minto! É regra de viver.
Mas não quando, poeta, me desnudo, 
E a mim me visto de inocência, e a tudo.
Venha quem saiba ver!
Venha quem saiba ler!

José Régio

terça-feira, 20 de agosto de 2013

As Coordenadas Líricas...


Deixou-me o paralelo um quase nada
e tudo escureceu:
era luz disfarçada em madrugada
a luz que me envolveu.

A geométrica forma de meus passos
procura um mar redondo.
Levo comigo, dentro dos meus braços,
oculto, todo o meu mundo.

Sozinha já não vou. Apenas fujo
às negras emboscadas.
Em cada esfera desenho o meu refúgio 
 - as minhas coordenadas.

Fernanda Botelho, As Coordenadas Líricas

sábado, 26 de janeiro de 2013

O Avestruz Lírico...


Avestruz:
O sarcasmo de duas asas breves
(Ânsia frustrada de espaço e luz,
De coisas frágeis, líricas, leves);

Patas afeitas ao chão;
Voar? Até onde o pescoço dá.
Bicho sem classificação:
Nem cá, nem lá.

Isto sou. ( Dói-me a ironia
 - Pudor nem eu sei de quê.)
Daí a absurda fantasia
De me esconder na poesia,
Por crer que ninguém a lê.

António Manuel Couto Viana, in O Avestruz Lírico

segunda-feira, 30 de abril de 2012

A cor das cerejas...


[...]

Não sei se o que me basta
me basta   É preciso ir até ao fundo
Pela minha relação comigo passam todos os outros: eu
não abaterei nunca uma árvore com um verso
não farei nunca um pão com uma metáfora
não retirarei carvão da minha escrita
não pescarei nenhum atum com a caneta
Sei a cor das cerejas é verdade
e faço um poema louco cheio de cerejeiras
no cimo das quais posso colocar um bando de melros
e matar os melros todos com dois tiros
ou com um simples risco sobre o verso
onde eu os tinha pousado

[...]

Joaquim Pessoa, in Noite Branca

segunda-feira, 28 de novembro de 2011

Conhecer e amar...


«Em cada homem há reservas de generosidade e heroísmo,
mas por falta de oportunidades,
por falta de terreno favorável,
de religião exigente,
os homens voltarão a dormir sem ter acreditado na própria grandeza.»
Saint-Exupéry,
 em" Terra dos Homens"

A partir de um conhecimento sempre mais profundo de mim mesmo, terei melhores condições de comunhão com os outros.

Sou alguém, aberto para a vida e o futuro.
Sou alguém, cheio de potencialidades, mas adormecidas e pouco valorizadas.
No entanto, elas existem.Estão ao alcance das minhas mãos. É preciso apenas descobri-las e dinamizá-las.

Conhecendo-me com maior profundidade, terei encontrado a chave para a solução dos meus problemas e dos problemas dos outros.
Interacção, cultivo grupal, entreajuda... tudo adquirirá novas dimensões a partir do cultivo pessoal, do amar as minhas capacidades vitais.

Experimenta gostar, de verdade, dos inúmeros dons que a vida te deu!
Experimenta gostar de ti mesmo, do teu modo de ser, amando com simplicidade de coração, tudo oque de positivo e negativo existe em ti.
Poderás fazer maravilhas, se acreditares suficientemente nas possibilidades de realização que a vida te oferece.
Conhecerás a felicidade e a paz.
Conhecerás uma vida mais calma e serena.
Conhecerás a alegria de te autoconduzires pelos verdadeiros caminhos da liberdade.

C. A. Schmitt