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quinta-feira, 11 de julho de 2019

**Ramblin' Rose** - Acker Bilk

                         

Um sorriso para Cibele

Aqui não há nada, Cibele*,
A não ser uma alameda estreita
com renques de flores à esquerda e à direita.

As flores são daquelas de que eu não gosto, Cibele.
Pretensiosas.
Zínias, dálias, crisântemos, margaridas e rosas.
As flores de que eu gosto são das que ninguém planta nem semeia,
daquelas que a gente passa e diz:« Olhe, faz-me o favor.
sabe-me dizer como se chama esta flor?»

Não gosto delas, não,
mas à falta de melhor, Cibele,
é nelas que cevo a minha solidão.

Todas as manhãs, quando aqui passo para as ver
acaricio-as à flor da pele
e balbucio as palavras que ficaram por dizer.

Assim se vai passando o tempo, Cibele.

António Gedeão, in Poesias Completas

Cibele* - deusa romana da natureza selvagem, da fertilidade, da criação.

quinta-feira, 23 de maio de 2019

Conta-me contos...

[23-05-1916]
Não sei, ama, onde era,
Nunca o saberei...
Sei que era primavera
E o jardim do rei...
(Filha, quem o soubera!...)

Que azul tão azul tinha
Ali o azul do céu!
Se eu não era a rainha, 
Porque era tudo meu?
(Filha, quem o adivinha?)


E o jardim tinha flores 
De que não me sei lembrar... 
Flores de tantas cores.... 
Penso e fico a chorar...
(Filha, os sonhos são dores...)


Qualquer dia viria
Qualquer coisa a fazer
Toda aquela alegria
Mais alegria nascer
( Filha, o resto é morrer...)


Conta-me contos, ama... 
Todos os contos são
Esse dia, e jardim e a dama 
Que eu fui nessa solidão...

Fernando Pessoa, in Cancioneiro

terça-feira, 21 de maio de 2019

...A Primavera esquece nos barrancos...



Jan Baptist Bosschaert  - Still Life of Flowers

Há um Poeta em mim que Deus me disse...
A Primavera esquece nos barrancos
As grinaldas que trouxe nos arrancos
Da sua efémera e espectral ledice... 

Pelo prado orvalhado a meninice
Faz soar a alegria os seus tamancos...
Pobre de anseios teu ficar nos bancos 
Olhando a hora como quem sorrisse ...


Florir do dia a capitéis de Luz...
Violinos do silêncio enternecidos...
Tédio onde o só ter tédio nos seduz...

Minha alma beija o quadro que pintou...
Sento-me ao pé dos séculos perdidos
E cismo o seu perfil de inércia e voo...

Fernando Pessoa, in Cancioneiro - poema II de Passos da Cruz

terça-feira, 18 de fevereiro de 2014

Libertando...


Soltando borboletas...
ou aprisionando o momento?...

Ambos - momento e borboleta -
- voaram sem barulho...docemente.

Não mates a borboleta,
 mesmo se não for azul ou escarlate.
Mata o momento
antes que te mate.

Sophie

quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

Fugas e evasões...

Malhoa, Os bêbedos

- Que fazes aí? - perguntou ao bêbado,
silenciosamente instalado diante de uma colecção
de garrafas vazias e uma colecção de garrafas cheias.
- Eu bebo - respondeu o bêbado, com ar lúgubre.
-Porque bebes? - perguntou o Principezinho.
- Para esquecer... esquecer que tenho
 vergonha - confessou o bêbado,
 baixando a cabeça...
 Saint.Exupéry
Em busca de outros «asteróides», evadiu-se o Principezinho, levado certamente por «um bando de pássaros selvagens que emigravam».
Às vezes fico a pensar que há um Principezinho dentro de mim... Também eu não gosto da constância.

Procuro evadir-me tantas vezes...
Evadir-me de mim mesmo, abandonando os compromissos assumidos, em busca de «outros asteróides», pois
o meu planeta familiar
o meu planeta escolar
o meu planeta de homem público
o meu planeta de pai de família
o meu planeta de mãe de família
está a tornar-se monótono e sem colorido.
E então a sociedade acena-me com os seus chamarizes luminosos e sedutores.

- Entra num bar e bebe!
Bebe para esquecer! 
Esquecer que ainda tens vergonha.
Que és honrado.
Que tens família...

- Estás cansado da vida.
Entra no embalo quente da música.
Vamos gozar!
Deixa de parte a tua vida séria!
Afinal, o que que os outros têm a ver com os teus compromissos?...

- Está-se mesmo a ver amigo!
Uma «puxada» facilita um pouco as coisas. E as tristezas da vida «evaporam-se»...
E o rapaz convence a rapariga de que «afinal, a gente precisa de ser livre e deixar de ser bitolado. A gente só faz amor para ver se existe adaptação sexual. De contrário, porquê casar?»...
E o empresário sai com a secretária para um programa no motel mais próximo.
E a esposa, cansada de tantas mentiras e esperas, procura também as compensações que as novelas fartamente lhe sugerem. Há muita facilidade nesse campo: as «filiais» e os «gaviões» não faltam...
E o mundo está cada vez mais doente.
Mais triste.
Mais vazio.

São fugas e evasões que não conduzem a nada, a não ser a uma profunda prostração.
Frustrações que muitas vezes levam a uma sempre mais ampla permissividade, gerando o círculo vicioso do esvaziamento dos que buscam
amor onde não existe amor,
felicidade onde existe alienação,
paz, onde apenas existe vazio.
E o essencial, o mais importante, o Único necessário,o indispensável para a realização humana,
quando e onde no-lo apontam
os meios de comunicação?
C. A. Schmitt