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quinta-feira, 24 de janeiro de 2019

Busca da verdade...


A montanha por achar
Há de ter, quando a encontrar,
Um templo aberto na pedra
Da encosta onde nada medra.

O santuário que tiver,
Quando o encontrar, há-de ser 
Na montanha procurada
E na gruta ali achada.

A verdade, se ela existe,
Ver-se-á que só consiste
Na procura da verdade,
Porque a vida é só metade.

Fernando Pessoa, in Inéditos

sábado, 31 de março de 2018

Ainda é tempo de frio...

Quando está frio no tempo do frio, para mim é como se estivesse agradável,
Porque para o meu ser adequado à existência das cousas
O natural é o agradável só por ser natural.

*
Aceito as dificuldades da vida porque são o destino,
Como aceito o frio excessivo no alto do Inverno - 
Calmamente, sem me queixar, como quem meramente aceita,
E encontra uma alegria no facto de aceitar -
No facto sublimemente científico e difícil de aceitar o natural inevitável.
*
Que são para mim as doenças que tenho e o mal que me acontece
Senão o Inverno da minha pessoa e da minha vida?
O Inverno irregular, cujas leis de aparecimento desconheço,
Mas que existe para mim em virtude da mesma fatalidade sublime,
Da mesma inevitável exterioridade a mim,
Que o calor da terra no alto do Verão
E o frio da terra no cimo do Inverno.
*
*
Aceito por personalidade.
Nasci sujeito como os outros a erros e a defeitos,
Mas nunca ao erro de querer compreender demais,
Nunca ao erro de querer compreender só com a inteligência,
Nunca ao defeito de exigir do Mundo
Que fosse qualquer cousa que não fosse o Mundo.
 
Fernando Pessoa, in Poemas Completos de Alberto Caeiro 


sábado, 17 de outubro de 2015

Casa arrumada - Carlos Drumond de Andrade


Casa arrumada é assim:
Um lugar organizado, limpo, com espaço livre para circulação e uma boa entrada de luz.
Mas essa casa, para mim, tem que ser casa e não um centro cirúrgico, um cenário de novela.
Tem gente que gasta muito tempo limpando, esterilizando, ajeitando os móveis, afofando as almofadas.
Não, eu prefiro viver numa casa onde eu bato o olho e percebo logo: - Aqui tem vida.
Casa com vida, pra mim, é aquela em que os livros saem das prateleiras e os enfeites brincam de trocar de lugar.
Casa com vida, pra mim, tem banheiro com vapor perfumado no meio da tarde, tem gaveta de entulho, daquelas que a gente guarda barbante, passaporte e vela de aniversário, tudo junto.
Casa com vida é aquela em que a gente entra e se sente benvinda.
A que está sempre pronta prós amigos, filhos...
Netos, prós vizinhos...
E nos quartos, se possível, tem lençóis revirados por gente que brinca ou namora a qualquer hora do dia.
Casa com vida é aquela em que a gente arruma pra ficar com a cara da gente.

Arrume a sua casa todos os dias...
Mas arrume de um jeito que lhe sobre tempo pra viver nela...
E reconhecer nela o seu lugar.
                                                               
                                                                             Carlos Drumond de Andrade (n.: 1902- f.: 1987)

domingo, 6 de abril de 2014

Ser ou não ser feliz... que importa?...



"Alguém, vendo-me um dia sorrindo e bem disposto, tendo notado que essa era a minha habitual maneira de ser, disse-me com certa melancolia na voz:

- O senhor deve ser muito feliz na vida!...

E eu respondi-lhe:

-Não. Não sou muito feliz: Não sou sequer feliz. Há lá, porventura, alguém que o seja? Simplesmente sou muito menos infeliz que alguma gente: a que nasce triste e mal humorada. A vida não me poupa  e o meu quinhão de aborrecimentos não é menor que o dos outros. Porém, em vez de o contar ou comentar de lágrimas na voz e rancor na boca, relato-o ou analiso-o com o sorriso nos lábios e a serenidade no coração."

André Brun, in Prolóquio a Os Meus Domingos(1925)

sexta-feira, 14 de fevereiro de 2014

Amar a criança...

«A criança não pode escolher por si, nem tem experiência, nem espírito crítico para se defender de uma má leitura.»

«O primeiro critério que devemos seguir na escolha de um livro infantil é a qualidade(...). O livro infantil deve ser sensível e apurado para apurar e afinar a sensibilidade da criança(...). Deve ser um livro inteligente para desenvolver e esclarecer a inteligência e apurar o pensamento. Deve alimentar a imaginação, poi o homem não se cria só através da necessidade, mas também através do desejo. E o livro infantil deve acordar a consciência, deve acordá-la agudamente, inequivocamente, para que a criança desenvolva o sentido da responsabilidade, da liberdade e da escolha. Um bom livro não é necessariamente um livro didáctico, mas é sempre necessariamente um livro educador.»

Sophia de Mello Breyner Andresen - excertos  de entrevista ao Diário de Lisboa (1964)

sábado, 25 de janeiro de 2014

Ser honesto...


Essencial é: ser sempre honesto consigo mesmo.
 E evitar proclamar diante de terceiros honestidade, pois esta não é privilégio, mas obrigação moral e social.

Ao começar por ser-se honesto consigo, forçosamente o seremos com outros.
 Honestidade só para fora é hipocrisia, falsidade, mentira. Em suma: desonestidade.
Verdadeiramente honesto é todo aquele para quem a honestidade é valor intrínseco de vida e não apenas aparência.
Por que há pessoas honestas que o são de verdade e só é de lamentar quem só o queira parecer,
a começar pelos políticos encartados ou pelos comerciantes extremamente bem sucedidos. Entre outros e apenas como exemplo.
Quanto mais se dilui a responsabilidade directa do indivíduo numa qualquer massa anónima de múltiplos interesses, mais este valor  - o da honestidade - se perde.
E o tecido social ressente-se da perda desse valor que vale mais que o ouro puro e é cada vez mais difícil de encontrar.

segunda-feira, 29 de abril de 2013

Carácter e sofrimento...


«[...] nada menos verdadeiro do que dizer-se que o sofrimento enobrece o carácter; a felicidade, muitas vezes, produz esse efeito; a desgraça torna o ser humano mesquinho e vingativo.»

Somerset Maugham, in  um gosto e seis vinténs