Powered By Blogger

Translate

Mostrar mensagens com a etiqueta Pranto. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Pranto. Mostrar todas as mensagens

sábado, 17 de agosto de 2019

Caminho - II

pink-peonies - ramil gapapasov

Encontraste-me um dia no caminho
Em procura de quê, nem eu o sei.
- Bom dia, companheiro - te saudei,
Que a jornada é maior indo sozinho.

É longe, é muito longe, há muito espinho!
Paraste a repousar, eu descansei...
Na venda em que poisaste, onde poisei,
Bebemos cada um do mesmo vinho.

É no monte escabroso solitário. 
Corta os pés como a rocha dum calvário, 
 E queima como a areia!... Foi no entanto

Aguarela de ilipa Ventura- Rosto inédito

Que chorámos a dor de cada um... 
E o vinho que choraste era comum:
Tivemos que beber do mesmo pranto.

Camilo Pessanha, in Clepsidra

sábado, 8 de novembro de 2014

Rosa branca à chuva...


Imagem da web

Do meio da névoa, a manhã chorava sobre as rosas
num pranto doce, com meneios dançantes, ritmados.

Pobres rosas de Outono de corolas pendidas,
injustamente estremecidas pelo vento acre, sem calor...

A manhã, o dia e as rosas
 choravam por ti, por mim, por nós,
exaustos e sem cor.

Por todos nós, amor.

sábado, 5 de abril de 2014

O poema

A tarde cai,
silenciosa,
morosa...


Na alma do poeta,
o poema,

estranha rosa
rubra e preta,


abre...
Afinal,
escrever um poema
é fixar uma pena,
sentindo estoirar 
o calabre
do coração,
nostálgico do éden...


- Vá, poeta,
deixa o coração sangrar!

Para quê negar
a esmola que te pedem?

Saul Dias,(1902), Obra Poética



quinta-feira, 3 de janeiro de 2013

«Eis-me...»


Eis-me.
Tendo-me despido de todos os meus mantos
Tendo-me separado de adivinhos mágicos e deuses 
Para ficar sozinha ante o silêncio
Ante o silêncio e o esplendor da tua face

Mas tu és de todos os ausentes o ausente.
Nem o teu ombro me apoia nem a tua mão me toca
 O meu coração desce as escadas do tempo em que não moras
 E o teu encontro
São planícies e planícies de silêncio

Escura é a noite
Escura e transparente
Mas o teu rosto está para além do tempo opaco
E eu não habito os jardins do teu silêncio
Porque tu és de todos os ausentes o ausente

Sophia de Mello Breyner Andresen

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010

Amargura




Cinzento pardo da chuva
que chora cá dentro... Assim.
Lágrimas que diluem
mansinho.
Escaninho da dor,
a maior dor
de tanto se ter dado
e sentir-se sozinho.
Dor da dor que a chuva lava
devagarinho.

Sophia Guiomar, Poemetos [09-09-2005]

quarta-feira, 16 de dezembro de 2009

Poema de saudade



Nos meus olhos secou-se aquela fonte
Donde brotava dor e ânsia desmedida
E não sou mais a sereia encanecida
Que devorava os símbolos e a paisagem
Esperando reconhecer a tua imagem
No caos da forma e linha conhecida
Na bruma envolvida de horizonte
Ou no estagnar aquoso da descida

Também eu mudei não sei se bem
Mas mudei realmente a desprazer
Tentando olvidar as linhas do teu rosto
Que amei e execrei com tanto querer

Agora que o Outono caricioso chega
Vestindo belas galas de castanho
Vívido ainda arroxeado de encanto
Tento em vão segurar o pranto
Que a brisa arrepia ao entardecer
Num desfalecer mórbido de sono
Prenhe de ternura e de quebranto
Ainda pleno do encanto de viver

Firme contudo na força da verdade
Macerada e humilde escravizada e terna
Murmuro no dealbar morno do dia
Ou da noite enlutada a mesma litania
Adeus amor vadio. Adeus para sempre
Ficarei sem ti até à eternidade


Sophia Guiomar[02-09-2009]









quinta-feira, 29 de outubro de 2009

Intimidade


Vieste. Abri-te feliz a porta da minha intimidade
Para um amor que nasceu da música das palavras
No carinho que brotou por um desconhecido...

Só não sei porque partiste à pressa
Com medo do meu amor e de procurar-te
Talvez no gelado vento
Do meu sofrimento.

No ar pairou apenas o teu cheiro
E a cruel necessidade de varrer,
Ainda que com doçura,
Imensa ternura
E uma secreta mágoa,
O pó fininho
Impresso
No chão escuro...
Eco longínquo
E manso
Dos teus passos.

Sophia Guiomar, Av. 18-12-2008



quinta-feira, 8 de outubro de 2009

Mágoa


Mágoa

E toda a vida esperei
Busquei
Achei
Beijei
Chorei
Não reconheci
Tão pouco esqueci
E no amálgama do horizonte
Não encontrei fonte
Nem água
Que fizesse a ponte
Para além da mágoa

M. Silva [08-10-2009]



sábado, 25 de julho de 2009

Indiferença

Partida

Perante a indiferença da partida
Pairou no vento em despedida
O soluço calado
No beijo selado
Ainda
E talvez
Verdade
No adeus fatigado
Destroçado
Magoado
Nesse adeus
Adeus
Até à eternidade.

Catarina Álvares, Ainda com lágrimas, 21/05/2009



domingo, 19 de julho de 2009

Um drama - dos mais pequenos (continuação)

-------------------------------------------------------------------------------------------------
A mãe, desconfiando da ausência, abriu a porta devagar e olhou admirada o vulto da filha sobre a cama. Pensou se não estaria doente porque não eram horas decentes para se dormir e aquela criatura nunca dormia. Cautelosa, aproximou-se mais, espreitou-lhe o rosto e viu lágrimas. Não lhe batera nesse dia, não a repreendera... Suspeitou de um desgosto e recordou que a notara impaciente porque o homenzinho dos jornais nunca mais chegava. Tinha-a ouvido protestar que o pobre homem levava tempo demais a fazer o troco aos fregueses, de óculos ridiculamente acavalados no nariz, sacola de pano cinzento presa ao ombro, desculpando-se que o combóio era ronceiro, nunca mais chegava... Via-se que estava impaciente para que ele acabasse a conversa e desandasse. Lembrava-se a mãe de ouvir-lhe recriminações porque a revista nunca mais chegava e, já de posse dela, fugira para o quarto... E estranhou de novo os vestígios das lágrimas e o sono àquela hora desapropriada. Antes de sair reparou na revista amarfanhada a um canto. E acabou por concluir que não devia ser nada de cuidado.
Num repente de boa vontade - não a acordou.

(Continua)

segunda-feira, 22 de junho de 2009

Canção da partida

CANÇÃO DA PARTIDA

Ao meu coração um peso de ferro
Eu hei-de prender na volta do mar.
Ao meu coração um peso de ferro...
Lançá-lo ao mar.

Quem vai embarcar, que vai degredado,
As penas do amor não queira levar...
Marujos, erguei o cofre pesado,
Lançai-o ao mar.

E hei-de mercar um fecho de prata.
O meu coração é um cofre selado.
A sete chaves: tem dentro uma carta...
__A última, de antes do teu noivado.

A sete chaves -- a carta encantada!
E um lenço bordado...Esse hei-de o levar,
Que é para o molhar na água salgada
No dia em que enfim deixar de chorar.


Camilo Pessanha, Clepsidra