quinta-feira, 20 de agosto de 2009

Folhas de um diário




Anos 50 - Folhas do diário de uma rapariguinha, por volta do ano de 1956

I -Hoje havia uma desusada animação em casa da Mimi Garcez. No salão conversava-se e dançava-se, jogava-se gamão, fazia-se paciências com cartas, as senhoras entregavam-se à canasta, outras à renda ou ao tricot e aproveitavam para pôr em dia a vida de vizinhos, conhecidos e mesmo de amigas mais ou menos comuns. Foi quarta-feira, dia habitual de juntar os jovens para se divertirem e eu , convidada pela Maria Aleu, que é um doce de rapariga, também fui. Gosto mesmo muito dela e sei que ela gosta de mim. Mas nós, os jovens, preferimos quase sempre as sombras do frondoso jardim e aí discutimos com calor e gracejamos sobre os mais variados assuntos, gozando da relativa liberdade que nos dão as mamãs, papás e tias solteiras ou viúvas mais entretidos pelo espaçoso salão. Na copa sombria, duas criadas de dentro, fardadas irrepreensivelmente de escuro, com os aventalinhos brancos pregueados em nylon, afadigavam-se a cobrir a comprida e maciça mesa de castanho com sandwiches, bolos, doces, salada de frutas, refrescos, cup, vinhos generosos, whisky e champanhe e uma série de heterogéneos produtos de doçaria regional e, encimando tudo isto, um enorme bolo ornamentado com as tradicionais velinhas natalícias e tudo isto porque a Mimi completava os seus vinte e um anos radiosos e convidou os amigos e alguns amigos dos amigos para com todos festejar a data da tão apetecida maioridade.
Ao entrar no salão, tinha reencontrado e reconhecido imensa gente. Num dos grupos espalhados ao acaso, ouvi alguém perguntar à Maria Aleu:«Olha lá! A Rita ainda não recuperou o bom humor? Ainda não apareceu e estranho a demora.» Quem dizia isto era o Luís, o primo da Mimi. E enquanto a minha amiga encolhia os ombros, manifestando ignorância, prosseguiu: «Devo dizer-vos que aquela rapariga anda muito estranha! Se vissem a cara esquisita que tinha um dia destes quando eu vinha de acompanhar...» Calou-se bruscamene e lançou ao Diogo, que estava a escutá-lo muito atento, um olhar muito perscrutador. Vi que o Diogo notou, mas nada disse. O nosso grupo das meninas, que também tinham ficado muito curiosas, não se conteve com a brusca interrupção. Exclamações e perguntas ouviram-se de vários lados: «Então, Luís! Acabe! »
«Acaba!Quando foi isso? Quem foi que acompanhaste?»
«Não sejas misterioso! Conta lá, que isso interessa-nos!»
Mas Luís mudara de ideias. Sacudindo a cabeça, foi bastante firme na recusa.«Não, meninas! Nada disto deve ser assim tão importante, apesar de ter visto a Rita realmente incomodada. Mas logo depois a vi a dançar e sem nuvens negras a ensombrar-lhe o espírito, porque parecia até muito animada.»
«Ora bem! Algum desgosto de amor!», observou levianamente Pedro Santiago.
«Acho a Rita por demais moderna para ter sido essa a causa, contrapôs o Luís. Mas deve estar por aí a chegar e pergunta-se-lhe.»
Com outras várias considerações sobre o assunto, ainda ficámos por ali até que, com a Maria Aleu, a Tanchinha e o Diogo, já cansados com a atmosfera saturada de odores e o ruído das desencontradas conversas do salão, decidimos sair para o jardim e juntarmo-nos ao grupo que assistia a um combate renhido de badminton entre os primos e primas mais jovens da Mimi e da Maria. Por ali, também se aproveitava para comentar o último filme do Avenida. E foi com o pano de fundo de várias e desencontradas opiniões, que vi o Diogo chegar-se para perto do Luís, enquanto nos internávamos lentamente nas alamedas areadas do jardim, e nos distanciávamos um pouco dos alaridos dos animados jogadores e dos sons breves e compassados das batidas do volante de penas brancas contra as raquetas cortando a atmosfera branda do anoitecer. «Ora bem, meu menino, ouvi dizer ao Diogo. Acho que agora chegou o momento de me explicares a razão daquele olhar perfurador que me lançaste. Porque parece-me ter percebido uma relação entre o ar angustiado da Rita que lhe viste e a minha pessoa... É isso?»
«Bem, talvez.Mas também é natural que eu e tu estejamos enganados. Mas, vejamos: será que podes explicar-me a razão porque abandonaste tão cedo a reunião passada?...»
Por momentos silencioso, e já muito curiosa, mas caladinha para não perder pitada da conversa entre aqueles dois, enquanto fingia concordar com a opinião abalizada da cinéfila Amélia sobre a interpretação da Audrey Hepburn, ouvi o Diogo concordar.«Creio que sim, desde que me narres fielmente o que aconteceu com a Rita depois que saí.»
«E prometes-me segredo a ...seja a quem for?»
«Tens a minha palavra.»



Vi que Luís considerava a resposta, enquanto abria a cigarreira para puxar de um cigarro. Depois soltou uma primeira bafurada. «Conta lá então o motivo porque saiste outro dia tão precipitadamente e tão cedo lá de casa.»
«Bem..foi simples. Tinha discutido com a Rita e estava muito zangado.»
«E ela não te chamou para se desculpar?»
«Não. Na altura não fez o mais leve gesto para isso.»
Inquisidor, Luís continuou:« E entre tu e ela não havia nada mais além de camaradagem?»
«Nada, que soubéssemos. Ela até andava um tanto fria comigo.»
« É. Sei disso, ouvi murmurar o Luís, enquanto fixava pensativo as volutas de fumo do cigarro que lhe ardia preguiçoso entre os dedos longos. E , lentamente, recomeçou:«O que tenho para te dizer é simples e é muito pouco. Quase nada, mesmo, mas, ainda assim... Quando vinha de te acompanhar á saída, estava a subir o último lance de escadas, quando ela me apareceu a perguntar quem tinha saído. E pareceu-me aflita. Inquieto, só me lembrei de tentar saber se se sentia mal. Respondeu-me que não tinha nada, mas insistia em saber quem tinha acabado de sair. Estava agitada, um pouco pálida e acabei por lhe dizer que tinhas sido tu. Pareceu ficar de repente ainda mais desgostosa e respondeu-me que não era nada, que afinal não era contigo... Voltou-me as costas e reentrou no salão. E qual não é o meu espanto quando a vi de seguida a dançar com já nem sei quem. E pareceu-me muito estranho vê-la toda a noite muito feliz, esfusiante de encanto e alegria, não parando ninguém com ela. Pôs toda a gente a mexer-se, nessa noite. Mas nos dias seguintes já não a vi assim, mas pouco comunicativa, quase sorumbática. Percebia-se que a muito custo acompanhava as nossas brincadeiras. Atirámos-lhe remoques e não nunca mais correspondeu com aquela alegria do costume, brindando-nos com um ou outro sorriso triste. Então, quase sem querer, relacionei esse sorriso meio amarelo com o teu afastamento e com a tua fuga desse dia. E ontem, quando fomos à sessão da tarde no Avenida, confirmou-se-me essa ideia quando a vi de novo muito alegre, afável e gentil como dantes era. E como tu também estavas de volta...» Luís calou -se. Pareceu-me, também a mim, um pouco cansado e desgostoso. Em contrapartida, vi o Diogo felicíssimo da vida! Continuei muito atenta, virada um pouco de lado, sempre que se parava para contornar uma sebe, ou um canteiro, e de novo o Luís, agora de um modo distante, retomou o fio das suas reflexões em voz alta para o companheiro: « Com tudo isto não quero atribuir à Rita sentimentos ... enfim, creio que me compreendes,pá. Mas como a acho uma rapariga excelente e como a tua fuga me pareceu ser a de um enamorado furioso...resolvi contar-te... isto. Talvez aproveite a ambos.» Não escondendo por então o seu contentamento, ouvi o Diogo responder, quase reconhecido, cortando o silêncio breve que o grupo entretanto fizera:«És um bom amigo, Luís, e nem sabes a enorme alegria que me deste!E agora vou-me. Pressinto que ela já chegou e quero recebê-la. Adeus, pá!...»
Todos nós, os daquele grupo meio disperso que conversava, vimos o Diogo desaparecer atrás de um frondoso carvalho, num passo elástico de desportista. Quase ao fundo do jardim, ligeiramente adiantado em relação a nós, ficou um Luís meio absorto . Pareceu-me ler-lhe, porém, no olhar uma enorme mágoa. E, de repente, dei comigo a ter muita pena dele e a pensar : "Louco! Como pareces triste ao ver o teu amigo partir cheio de felicidade! Como a vida pode ser tão cruel!"
O Luís vai ser um futuro advogado, inteligente, sensível, brilhante e muito amigo do seu amigo. Todos consideramos este jovem de aspecto calmo um bom rapaz e mães e senhoras solteiras um bom partido. Mas de quantas renúncias silenciosas, de quantos grandes e pequenos heroísmos, pode ser feita a alma de um jovem quando sabe que está apaixonado? Sim, porque eu já pressentira o interesse permanente que Luís prodigalizava a Rita desde há muito. Não sabia bem era em que pé andavam as coisas entre eles, porque Rita parecia-me gostar de todos nós, independentemente do sexo ou da idade, e de nenhum dos nossos companheiros de estudo e de folguedos.
Passado um tempo, alguém nos chamou finalmente para o lanche ajantarado de festa. Entretanto, a conversa sobre a estreia do filme já devia ter acabado e eu nem me dera conta.
Ao entrarmos no salão, dei logo de caras com a recém-chegada Rita que ainda cumprimentava afavelmente as senhoras presentes que pareciam encantadas com toda a sua gentileza e frescura envolta num simples e vaporoso vestido azul-céu que parecia condizer em tudo com os seus olhos radiantes, ainda que vagamente inquietos. A Maria dizia-lhe que já estava a ficar preocupada com a demora e a Mimi que "festa sem ela não era festa"... E a Rita sorria contente para as amigas, quando vi que mudou ligeiramente de expressão ao encarar com o Diogo, encostado ao peitoril de uma das duas janelas que davam para o jardim e que tabém sorria. E, pouco depois, enquanto alguns pares já rodopiavma ao som de uma valsa, vi-o chegar junto dela e segredar-lhe qualquer coisa ao ouvido e não duvidei que o cavaleiro branco dos sonhos daquela donzela de nome Rita tinha finalmente chegado.
Fiquei cheinha de curiosidade. Que iria agora acontecer?... Então, por entre as reviravoltas da valsa que eu dançava com Pedro, ouvi a Rita perguntar ao rapaz que, entretanto, se lhe juntara: «Então e o que me queria de tão importante, Diogo?»
«Bem...Pedir-lhe as suas mãos!»
«As minhas mãos?!» E Rita ria.
«Claro! Quero as duas... não pretendo casar com uma jovem senhora maneta.» A voz soava-lhe maliciosa. «O que diria então a sociedade?!»
Apesar de um pouco perturbada, a rapariga riu ainda mais, reparando nas sobrancelhas comicamente encrespadas do rapaz. Eu ouvi-lhe a gargalhada e como, entretanto, a valsa tinha terminado, com o Pedro ao meu lado, julgando que lhe ouvia uma anedota, dirigi-me para perto do par, pressentindo algo de novo no desenrolar daquela festa.Confesso que ardia da mais pura curiosidade.
«Oh! Diogo! Isso é uma declaração? Nunca pensei que...» Apesar de radiante, a Rita parecia confusa e emendou: «Não pensei em ouvir de si... algo de tão original. Se não fosse você julgaria que alguém estava a brincar comigo.»
Vi o Diogo pegar nas mãos da Rita, até então caídas ao longo do seu corpo esbelto. «Então não pensa isso de mim? Que estou a brincar?»
E a Rita perdeu o seu olhar luminoso no do interlocutor. «Não. Acho-o por demais leal.»
«Está aceite então a minha candidatura às suas lindas mãos? Posso beijá-las?» E o Diogo, perante o olhar divertido de alguns dos amigos, entre os quais eu, a Maria Aleu, o Luís e o Pedro, levou, num gesto encantador e galante, aos lábios aquelas mãozinhas que conservava apertadas entre as suas, e, de seguida, aspirou-lhes o odor, parecendo maliciosamente enlevado. Embaraçada, consciente de que estavam a ser observada, a Rita forcejou por libertar as mãos. «Você é de força!» Vimo-la quase zangada, enquanto, a pouco e pouc,o um sorriso encantador desmentia o tom de voz :«E para castigo só vai ter resposta depois do lanche.» E o Diogo, a fingir-se desolado:«Oh!Não seja má!»
«É o que lhe digo!»
«Está bem!», aquiesceu o rapaz. E numa reviravolta que nos pôs todos a rir:« Vamos dançar?»
Quando o baile recomeçou em força depois de servido o lanche-jantar, o Luís, o amigo de todos, o bom rapaz, leu nos olhos radiantes de Rita como esta se sentia feliz. Via-se qu ainda sofria. Eu acerquei-me. «Então, Luís, que contemplas?...» Penalizada, vi-o esboçar um vago sorriso, murcho, triste. «Contemplo a felicidade, minha querida amiga. Ainda não a viste?»
«Jovem visionário! Onde a verás tu?», brinquei.
«Talvez no céu», suspirou o rapaz. Encolheu os ombros, inclinou-se um pouco numa espécie de vénia e foi convidar a Emilinha para dançar um "cha-cha-cha".
Emocionada, segui, por momentos com os olhos o Diogo e o seu par que, alheios aos que os rodeavam, riam e falavam incessantemente, loucamente, numa maré de enlevo. Senti, de repente, um pouco de inveja daqueles dois .Será que algum dia?... Era mais avisado não pensar nisso. Tal como a Rita também eu me gabava de ser uma rapariga muito moderna e nada romântica.
Ao registar estas minhas observações da festa da maioridade da Mimi Garcez, ainda dou comigo a pensar se não será bom e mesmo aconselhável ser-se um bocadinho louco de vez em quando, porque a vida, no seu evoluir apressado e permanente, vai-nos mostrando sempre a forma de sermos equilbrados, muito ajuizados...
... Porém também acho que o encanto dela nasce inegavelmente de um pouco de loucura.

26-02-1956