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terça-feira, 9 de julho de 2019

Valsa das rosas - Russian State Symphonic Orchestra



Não temos segurança absoluta,
                                              apenas esperança.

                                                                           Ernst Bloch

domingo, 14 de maio de 2017

Conquistar a distância...


 Ontem foi um dia em que regressei no tempo como catraia, sofrendo com o concurso da Eurovisão, um tempo em que dizer Europa era algo estranho, pois quase que nem acreditávamos pertencer-lhe... Contudo, recebíamos os estrangeiros com delicadeza e uma quase reverência porque pertenciam a um mundo a que nos sentíamos alheados não só ao nível político como cultural e, ainda hoje, há muito boa gente que acha que lá fora tudo é bom e, por cá, nada que preste.
Entre nós, quem frequentasse o estrangeiro ou era muito rico ou tinha atravessado a fronteira a salto para aí trabalhar em tarefas de quase escravatura,a  ganhar sem quase gastar para depois regressar à santa terrinha, dinheiro esse dificilmente auferido na pátria ao longo de uma vida de árduo esforço. Mas sabia-lhes bem passar alguns períodos de descanso mostrando aos familiares e amigos que por lá se vivia desafogadamente... embora lá se fosse tratado como cidadãos de segunda, ou de terceira categoria. 
Adormeci tarde pensando em tudo isto e no tempo em que possuir televisão era só para alguns e nos reuníamos então em casa de vizinhos e amigos mais afortunados para olhar o quadradinho milagroso e sofrer em coro quando o Eusébio falhava o golo pela selecção ou os nossos compositores e intérpretes na Eurovisão, por melhores e mais inspiradas canções que apresentassem, passavam desapercebidos e ignorados. E sofríamos a desilusão por não sermos tão bons quanto os outros, ou não possuirmos meios económicos capazes de ombrear com eles, convencidos como estávamos que muitas daquelas vitórias  eram conquistadas a troco dos muitos milhões envolvidos em encómios e muita publicidade. 
 Consolávamos-nos, no dia seguinte, trauteando sobretudo as canções vencedoras porque essas, sim, essas é que eram boas, apesar dos entendidos na matéria de cá e alguns de lá afirmarem o contrário. E anos e anos a fio, isto se repetiu até que se passou praticamente mais de uma década em que se pensou que o festival, pelo menos por cá, caíra no esquecimento. Como tal deixou de mobilizar as massas anónimas, na época as mais entusiastas do evento.
Mas, a pouco  pouco, emergiu uma geração que começou a valorizar o nosso património cultural, incluindo o musical:o reconhecimento do fado como património da humanidade abriu caminho para o do  cante alentejano e começou a encher de orgulho os corações portugueses, aqui e além fronteiras, com a consciência de que, afinal, nem somos tão comezinhos e analfabetos em muita e muita coisa como pensávamos . Os nossos créditos, tanto em ciência, como em tecnologia, começaram a ser reconhecidos mercê do afinco em mostrar que por cá também se sabe das coisas e se trabalha, apesar de não se possuírem os tais muitos milhões que, se os há, estão nas mãos só de uns tantos privilegiados descendentes ou ascendentes à classe do grande capital, amealhados sabe-se lá como, conseguidos à custa sabe-se lá de quê e quem. 
E se, em determinada época histórica, os possuímos, aos tais milhões, cedo os desbaratámos em campanhas políticas ruinosas. Apegámos-nos ao marasmo de uma existência pacata e sem ambições e lá fomos sobrevivendo ao longo de séculos. No século XXI descobrimos que somos europeus...
E finalmente, em 2016, ganhámos humildemente o Campeonato e consagrámos-nos  vencedores do Concurso da Eurovisão.

Tudo isto mercê do trabalho e do talento de dois irmãos unidos pelo amor à música e entre si.
Resta-me agradecer-lhes os momentos de ânsia ontem revividos  por mim e muitos outros portugueses espalhados por todo esse mundo europeu e não europeu, assim como a satisfação plena  por essa vitória há tanto almejada.

Obrigados a ambos!

E, citando o imortal e profético Pessoa, murmurar em prece:
[...]
«E que outra vez conquistemos a Distância -
- Do mar ou outra, mas que seja nossa!»

in Mensagem, XII - II PARTE,1921/22

.

quinta-feira, 13 de fevereiro de 2014

Ecos de reflexão...


Temos sempre alguma razão para nos sentirmos felizes.

A. Henricar

domingo, 17 de janeiro de 2010

A Primeira Hora



O ano desfolhou-se, dia a dia,
como uma flor cortada, um girassol
e dia a dia a sua voz calou-se
como velha, cansada, melodia
de velho rouxinol.

Ontem, à meia-noite, a minha rua
abriu de par em par as portas, as janelas
e deitou fora o lixo, as coisas velhas:
cacos, farrapos, latas e panelas.

Era a Primeira Hora
do ano que chegava.
... E eu?...pensei...que posso deitar fora?
Que poderemos todos deitar fora?

Ai, Senhor, tanta coisa!
Nem cacos, nem farrapos
nem latas velhas, nem trapos,
mas tanta dor,
Senhor,
mal empregada!
Tantos gestos errados,
as pequenas traições,
os pequenos pecados.
As calúnias subtis,
as flores venenosas
da alma envenenada
e a cicatriz da culpa inconfessada
e as palavras que ferem como gumes
de afiadas adagas.

Ressentimentos, azedumes
que te fazem sangrar as Cinco Chagas.
As larvas dos ciúmes
e as cobras rastejantes
dos pensamentos impuros.
Egoísmos sem fim
e os altos muros
das torres de marfim.
Descrença,
indiferença,
despeitos recalcados,
amassados com ódio, com rancor
e o amargo sabor
da solidão.

Ah, Senhor, nesta hora de perdão,
nesta Primeira Hora,
quantas coisas podemos deitar fora!

Fernanda de Castro, in "39 poemas"

quinta-feira, 20 de agosto de 2009

Folhas de um diário




Anos 50 - Folhas do diário de uma rapariguinha, por volta do ano de 1956

I -Hoje havia uma desusada animação em casa da Mimi Garcez. No salão conversava-se e dançava-se, jogava-se gamão, fazia-se paciências com cartas, as senhoras entregavam-se à canasta, outras à renda ou ao tricot e aproveitavam para pôr em dia a vida de vizinhos, conhecidos e mesmo de amigas mais ou menos comuns. Foi quarta-feira, dia habitual de juntar os jovens para se divertirem e eu , convidada pela Maria Aleu, que é um doce de rapariga, também fui. Gosto mesmo muito dela e sei que ela gosta de mim. Mas nós, os jovens, preferimos quase sempre as sombras do frondoso jardim e aí discutimos com calor e gracejamos sobre os mais variados assuntos, gozando da relativa liberdade que nos dão as mamãs, papás e tias solteiras ou viúvas mais entretidos pelo espaçoso salão. Na copa sombria, duas criadas de dentro, fardadas irrepreensivelmente de escuro, com os aventalinhos brancos pregueados em nylon, afadigavam-se a cobrir a comprida e maciça mesa de castanho com sandwiches, bolos, doces, salada de frutas, refrescos, cup, vinhos generosos, whisky e champanhe e uma série de heterogéneos produtos de doçaria regional e, encimando tudo isto, um enorme bolo ornamentado com as tradicionais velinhas natalícias e tudo isto porque a Mimi completava os seus vinte e um anos radiosos e convidou os amigos e alguns amigos dos amigos para com todos festejar a data da tão apetecida maioridade.
Ao entrar no salão, tinha reencontrado e reconhecido imensa gente. Num dos grupos espalhados ao acaso, ouvi alguém perguntar à Maria Aleu:«Olha lá! A Rita ainda não recuperou o bom humor? Ainda não apareceu e estranho a demora.» Quem dizia isto era o Luís, o primo da Mimi. E enquanto a minha amiga encolhia os ombros, manifestando ignorância, prosseguiu: «Devo dizer-vos que aquela rapariga anda muito estranha! Se vissem a cara esquisita que tinha um dia destes quando eu vinha de acompanhar...» Calou-se bruscamene e lançou ao Diogo, que estava a escutá-lo muito atento, um olhar muito perscrutador. Vi que o Diogo notou, mas nada disse. O nosso grupo das meninas, que também tinham ficado muito curiosas, não se conteve com a brusca interrupção. Exclamações e perguntas ouviram-se de vários lados: «Então, Luís! Acabe! »
«Acaba!Quando foi isso? Quem foi que acompanhaste?»
«Não sejas misterioso! Conta lá, que isso interessa-nos!»
Mas Luís mudara de ideias. Sacudindo a cabeça, foi bastante firme na recusa.«Não, meninas! Nada disto deve ser assim tão importante, apesar de ter visto a Rita realmente incomodada. Mas logo depois a vi a dançar e sem nuvens negras a ensombrar-lhe o espírito, porque parecia até muito animada.»
«Ora bem! Algum desgosto de amor!», observou levianamente Pedro Santiago.
«Acho a Rita por demais moderna para ter sido essa a causa, contrapôs o Luís. Mas deve estar por aí a chegar e pergunta-se-lhe.»
Com outras várias considerações sobre o assunto, ainda ficámos por ali até que, com a Maria Aleu, a Tanchinha e o Diogo, já cansados com a atmosfera saturada de odores e o ruído das desencontradas conversas do salão, decidimos sair para o jardim e juntarmo-nos ao grupo que assistia a um combate renhido de badminton entre os primos e primas mais jovens da Mimi e da Maria. Por ali, também se aproveitava para comentar o último filme do Avenida. E foi com o pano de fundo de várias e desencontradas opiniões, que vi o Diogo chegar-se para perto do Luís, enquanto nos internávamos lentamente nas alamedas areadas do jardim, e nos distanciávamos um pouco dos alaridos dos animados jogadores e dos sons breves e compassados das batidas do volante de penas brancas contra as raquetas cortando a atmosfera branda do anoitecer. «Ora bem, meu menino, ouvi dizer ao Diogo. Acho que agora chegou o momento de me explicares a razão daquele olhar perfurador que me lançaste. Porque parece-me ter percebido uma relação entre o ar angustiado da Rita que lhe viste e a minha pessoa... É isso?»
«Bem, talvez.Mas também é natural que eu e tu estejamos enganados. Mas, vejamos: será que podes explicar-me a razão porque abandonaste tão cedo a reunião passada?...»
Por momentos silencioso, e já muito curiosa, mas caladinha para não perder pitada da conversa entre aqueles dois, enquanto fingia concordar com a opinião abalizada da cinéfila Amélia sobre a interpretação da Audrey Hepburn, ouvi o Diogo concordar.«Creio que sim, desde que me narres fielmente o que aconteceu com a Rita depois que saí.»
«E prometes-me segredo a ...seja a quem for?»
«Tens a minha palavra.»



Vi que Luís considerava a resposta, enquanto abria a cigarreira para puxar de um cigarro. Depois soltou uma primeira bafurada. «Conta lá então o motivo porque saiste outro dia tão precipitadamente e tão cedo lá de casa.»
«Bem..foi simples. Tinha discutido com a Rita e estava muito zangado.»
«E ela não te chamou para se desculpar?»
«Não. Na altura não fez o mais leve gesto para isso.»
Inquisidor, Luís continuou:« E entre tu e ela não havia nada mais além de camaradagem?»
«Nada, que soubéssemos. Ela até andava um tanto fria comigo.»
« É. Sei disso, ouvi murmurar o Luís, enquanto fixava pensativo as volutas de fumo do cigarro que lhe ardia preguiçoso entre os dedos longos. E , lentamente, recomeçou:«O que tenho para te dizer é simples e é muito pouco. Quase nada, mesmo, mas, ainda assim... Quando vinha de te acompanhar á saída, estava a subir o último lance de escadas, quando ela me apareceu a perguntar quem tinha saído. E pareceu-me aflita. Inquieto, só me lembrei de tentar saber se se sentia mal. Respondeu-me que não tinha nada, mas insistia em saber quem tinha acabado de sair. Estava agitada, um pouco pálida e acabei por lhe dizer que tinhas sido tu. Pareceu ficar de repente ainda mais desgostosa e respondeu-me que não era nada, que afinal não era contigo... Voltou-me as costas e reentrou no salão. E qual não é o meu espanto quando a vi de seguida a dançar com já nem sei quem. E pareceu-me muito estranho vê-la toda a noite muito feliz, esfusiante de encanto e alegria, não parando ninguém com ela. Pôs toda a gente a mexer-se, nessa noite. Mas nos dias seguintes já não a vi assim, mas pouco comunicativa, quase sorumbática. Percebia-se que a muito custo acompanhava as nossas brincadeiras. Atirámos-lhe remoques e não nunca mais correspondeu com aquela alegria do costume, brindando-nos com um ou outro sorriso triste. Então, quase sem querer, relacionei esse sorriso meio amarelo com o teu afastamento e com a tua fuga desse dia. E ontem, quando fomos à sessão da tarde no Avenida, confirmou-se-me essa ideia quando a vi de novo muito alegre, afável e gentil como dantes era. E como tu também estavas de volta...» Luís calou -se. Pareceu-me, também a mim, um pouco cansado e desgostoso. Em contrapartida, vi o Diogo felicíssimo da vida! Continuei muito atenta, virada um pouco de lado, sempre que se parava para contornar uma sebe, ou um canteiro, e de novo o Luís, agora de um modo distante, retomou o fio das suas reflexões em voz alta para o companheiro: « Com tudo isto não quero atribuir à Rita sentimentos ... enfim, creio que me compreendes,pá. Mas como a acho uma rapariga excelente e como a tua fuga me pareceu ser a de um enamorado furioso...resolvi contar-te... isto. Talvez aproveite a ambos.» Não escondendo por então o seu contentamento, ouvi o Diogo responder, quase reconhecido, cortando o silêncio breve que o grupo entretanto fizera:«És um bom amigo, Luís, e nem sabes a enorme alegria que me deste!E agora vou-me. Pressinto que ela já chegou e quero recebê-la. Adeus, pá!...»
Todos nós, os daquele grupo meio disperso que conversava, vimos o Diogo desaparecer atrás de um frondoso carvalho, num passo elástico de desportista. Quase ao fundo do jardim, ligeiramente adiantado em relação a nós, ficou um Luís meio absorto . Pareceu-me ler-lhe, porém, no olhar uma enorme mágoa. E, de repente, dei comigo a ter muita pena dele e a pensar : "Louco! Como pareces triste ao ver o teu amigo partir cheio de felicidade! Como a vida pode ser tão cruel!"
O Luís vai ser um futuro advogado, inteligente, sensível, brilhante e muito amigo do seu amigo. Todos consideramos este jovem de aspecto calmo um bom rapaz e mães e senhoras solteiras um bom partido. Mas de quantas renúncias silenciosas, de quantos grandes e pequenos heroísmos, pode ser feita a alma de um jovem quando sabe que está apaixonado? Sim, porque eu já pressentira o interesse permanente que Luís prodigalizava a Rita desde há muito. Não sabia bem era em que pé andavam as coisas entre eles, porque Rita parecia-me gostar de todos nós, independentemente do sexo ou da idade, e de nenhum dos nossos companheiros de estudo e de folguedos.
Passado um tempo, alguém nos chamou finalmente para o lanche ajantarado de festa. Entretanto, a conversa sobre a estreia do filme já devia ter acabado e eu nem me dera conta.
Ao entrarmos no salão, dei logo de caras com a recém-chegada Rita que ainda cumprimentava afavelmente as senhoras presentes que pareciam encantadas com toda a sua gentileza e frescura envolta num simples e vaporoso vestido azul-céu que parecia condizer em tudo com os seus olhos radiantes, ainda que vagamente inquietos. A Maria dizia-lhe que já estava a ficar preocupada com a demora e a Mimi que "festa sem ela não era festa"... E a Rita sorria contente para as amigas, quando vi que mudou ligeiramente de expressão ao encarar com o Diogo, encostado ao peitoril de uma das duas janelas que davam para o jardim e que tabém sorria. E, pouco depois, enquanto alguns pares já rodopiavma ao som de uma valsa, vi-o chegar junto dela e segredar-lhe qualquer coisa ao ouvido e não duvidei que o cavaleiro branco dos sonhos daquela donzela de nome Rita tinha finalmente chegado.
Fiquei cheinha de curiosidade. Que iria agora acontecer?... Então, por entre as reviravoltas da valsa que eu dançava com Pedro, ouvi a Rita perguntar ao rapaz que, entretanto, se lhe juntara: «Então e o que me queria de tão importante, Diogo?»
«Bem...Pedir-lhe as suas mãos!»
«As minhas mãos?!» E Rita ria.
«Claro! Quero as duas... não pretendo casar com uma jovem senhora maneta.» A voz soava-lhe maliciosa. «O que diria então a sociedade?!»
Apesar de um pouco perturbada, a rapariga riu ainda mais, reparando nas sobrancelhas comicamente encrespadas do rapaz. Eu ouvi-lhe a gargalhada e como, entretanto, a valsa tinha terminado, com o Pedro ao meu lado, julgando que lhe ouvia uma anedota, dirigi-me para perto do par, pressentindo algo de novo no desenrolar daquela festa.Confesso que ardia da mais pura curiosidade.
«Oh! Diogo! Isso é uma declaração? Nunca pensei que...» Apesar de radiante, a Rita parecia confusa e emendou: «Não pensei em ouvir de si... algo de tão original. Se não fosse você julgaria que alguém estava a brincar comigo.»
Vi o Diogo pegar nas mãos da Rita, até então caídas ao longo do seu corpo esbelto. «Então não pensa isso de mim? Que estou a brincar?»
E a Rita perdeu o seu olhar luminoso no do interlocutor. «Não. Acho-o por demais leal.»
«Está aceite então a minha candidatura às suas lindas mãos? Posso beijá-las?» E o Diogo, perante o olhar divertido de alguns dos amigos, entre os quais eu, a Maria Aleu, o Luís e o Pedro, levou, num gesto encantador e galante, aos lábios aquelas mãozinhas que conservava apertadas entre as suas, e, de seguida, aspirou-lhes o odor, parecendo maliciosamente enlevado. Embaraçada, consciente de que estavam a ser observada, a Rita forcejou por libertar as mãos. «Você é de força!» Vimo-la quase zangada, enquanto, a pouco e pouc,o um sorriso encantador desmentia o tom de voz :«E para castigo só vai ter resposta depois do lanche.» E o Diogo, a fingir-se desolado:«Oh!Não seja má!»
«É o que lhe digo!»
«Está bem!», aquiesceu o rapaz. E numa reviravolta que nos pôs todos a rir:« Vamos dançar?»
Quando o baile recomeçou em força depois de servido o lanche-jantar, o Luís, o amigo de todos, o bom rapaz, leu nos olhos radiantes de Rita como esta se sentia feliz. Via-se qu ainda sofria. Eu acerquei-me. «Então, Luís, que contemplas?...» Penalizada, vi-o esboçar um vago sorriso, murcho, triste. «Contemplo a felicidade, minha querida amiga. Ainda não a viste?»
«Jovem visionário! Onde a verás tu?», brinquei.
«Talvez no céu», suspirou o rapaz. Encolheu os ombros, inclinou-se um pouco numa espécie de vénia e foi convidar a Emilinha para dançar um "cha-cha-cha".
Emocionada, segui, por momentos com os olhos o Diogo e o seu par que, alheios aos que os rodeavam, riam e falavam incessantemente, loucamente, numa maré de enlevo. Senti, de repente, um pouco de inveja daqueles dois .Será que algum dia?... Era mais avisado não pensar nisso. Tal como a Rita também eu me gabava de ser uma rapariga muito moderna e nada romântica.
Ao registar estas minhas observações da festa da maioridade da Mimi Garcez, ainda dou comigo a pensar se não será bom e mesmo aconselhável ser-se um bocadinho louco de vez em quando, porque a vida, no seu evoluir apressado e permanente, vai-nos mostrando sempre a forma de sermos equilbrados, muito ajuizados...
... Porém também acho que o encanto dela nasce inegavelmente de um pouco de loucura.

26-02-1956




quarta-feira, 24 de junho de 2009

Festa de São João - família em festa



1939: Era o tempo cinzento da não esperança
Aquele em que se viram.
- Era a guerra.
E o casamento
Desgastou os espinhos
Das roseiras do caminho.
............................................
Meio século volvido
Mostram a Deus e ao mundo,
Com orgulho profundo,
O seu branco carinho.
M. H. [1989]


Estávamos a 24 de Jullho de 1989 e meus pais festejavam 50 anos de casamento. Tinham ambos 21 anos quando casaram e esperado, mesmo, que um deles completasse a maioridade da época para casarem sem a autorização dos pais. A mãe dela, viúva e com uma filha entrevada a cargo, não queria o casamento e maltratava esta filha para não casar. Ele, com os pais, que não chegara a conhecer, ausentes no Brasil e já por então separados, tinha vontade de constituir uma família a que pudesse chamar sua. A festa tivera meia dúzia de amigos de ambos os lados e fora já realizada na modesta casinha dos noivos. Ele, para a convencer, comprara os móveis indispensáveis para a vida em comum com os magros ordenados de ajudante de farmácia e de enfermeiro.Ela levava as poucas peças de enxoval, confeccionadas à revelia da mãe viúva e a ajuda de algumas amigas. Até o modesto copo de água fora oferecido pela madrinha de casamento. E chovera torrencialmente quando se dirigiram primeiro ao Registo Civil e depois à Catedral para casarem. Um chofer de praça amigo do pai ofereceu o carro e um fotógrafo da cidade insistiu em tirar a fotografia que ainda hoje marca presença na mais alta parede da casa de família.
Faziam 70 anos de casados se fossem vivos - hoje, dia de São João. Mas já não são. E durante os anos da sua juventude o dia só era diferenciado porque visitavam familiares de meu pai que residiam num pequeno lugar nos então arredores da cidade com fortes tradições sanjoaninas. O dia era um dia normal de trabalho e, na véspera à noite, ou no dia de São João, lá iam ao arraial visitar esses familiares e conhecidos, assistir à queima do pinheiro, conversar a vida, comer o frango cerejado que a mãe preparava com carqueja do mato e comprar, e provar ,um ou outro doce de gemas, ou as tradicionais cavacas, vendidas por mulheres da terra, ou dos lugares limítrofes, a quem se exigia um aspecto limpo e que não roubassem no preço. Não saltavam as fogueiras, embora fossem muito novos. Minha mãe, que perdera o pai com 14 anos, aos 16 ia ficando sem uma perna, porque lhe infectara uma frieira no pé esquerdo. Como isto acontecesse depois de um baile a que tinha comparecido acompanhada por um irmão mais velho - o tio Augusto- jurara não voltar a dançar se a perna sarasse. A avó Capitolina pôs-lhe pachos de ruda, sarou e livrou-se da amputação. Cumpriu a promessa durante toda a vida, mas levou a que meu pai deixasse também de dançar, até porque a mãe era muito desconfiada, temperamental e ciumenta.
Mas o pai tinha desgosto. De temperamento muito alegre, amando a vida acima de tudo, vingava-se a cantar e a comer já que nada mais podia fazer nas festas. Não era homem de contar anedotas, mas pelava-se por uma boa história. E cantava lindamente. Em solteiro fizera parte do Orfeão da cidade onde viviam e fora bombeiro voluntário na qualidade de enfermeiro. Mas a esposa temera pela sua integridade física e não quisera arriscar-se a perder o marido, bonito homem, loiro e de belos olhos azuis safira, para qualquer marafona. E o pai fizera-lhe, ainda que com desgosto, a vontade.
A mãe contava sempre que o seu estado de espírito no dia do casamento estava de acordo com o tempo que fazia: frio e de muita chuva e lembrava-se de ter chorado copiosamente por nem a minha avó, nem nenhum dos meus tios terem comparecido no casamento e deixado até de lhe falar durante longos anos. A avó Capitolina veio depois a falecer em nossa casa, já eu tinha completado oito anos. Depois veio a tia Cacilda, a irmã entrevada, e, mais tarde, o tio Afonso, que cumprira tropa na Madeira e a quem tinha sido implantada uma testa de platina após um grave acidente de viação. Morreu em nossa casa, meia dúzia de anos depois, com uma nefrite aguda, extremamente deprimido e muito inchado. Do tio mais amigo e compreensivo tinha-se tornado, com a progressão da doença, num dos meus maiores pesadelos diários. Porém a mãe cuidou sempre muito bem dos membros daquela família que a desprezara e o pai sempre a ajudou e nunca a dissuadiu de fazê-lo. Nesse aspecto, também a mãe sempre lhe fazia justiça e ficara reconhecida.
O festejar o aniversário de casamento passou a acontecer já depois de terem netos e para darem a estes a felicidade de soprarem as inúmeras velinhas do bolo que passei a mandar confeccionar por não saber que oferecer-lhes. Depois passou a ser uma tradição familiar o nosso encontro familiar nesse dia.
Até que aconteceu fazerem 50 anos. Pelo seu punho, meu pai deixou escrito: " Fiz 50 anos de casado em dia de S. João. Perdoai-me, Santo António, meu gesto algo ousado..." O pai chamava-se António e não sei que gesto ousado terá sido esse, porque as reticências são dele.E mais adiante, no mesmo documento - convite que eu mandara imprimir para convocar os amigos - ainda acrescentou na sua caligrafia cheia de arabescos, mas harmoniosa e tão característica:
" À minha volta reuni amigos, filhos e netos./ Meu Deus, por ti vou/ Por cursos e estrada rectos."
O pai não era poeta, mas amava muito as flores, as crianças, os animais, o mar, os rios, as montanhas, a sua casa, a sua família, adorava guiar o seu automóvel, e, no fim da vida, o seu bem estar e aferrolhar dinheiro. A mãe, ainda que por demais poupada, criticava-o severamente, admoestando-o de que, quando fosse desta para melhor, não levaria nada. Mas ele fazia ouvidos de mercador e guardava tudo: coleccionava desde carteiras de fósforos a moedas, e tinha muito prazer em consultar as contas bancárias. Mas nesse já longínquo dia 24 de Junho de 1989 pagou um lauto almoço num dos melhores restaurantes da cidade para cerca de quarenta pessoas e isto depois de ter ido renovar os votos de casamento na igreja perante o padre, família e amigos e de ter enfiado no dedo da companheira de todos aqueles anos mais um elo de ouro branco, em tudo idêntico, menos no diâmetro, daquele que esta fez escorregar no seu, com a data gravada no interior para que constasse.
Nesse dia, porém, não choveu, pai e mãe estavam extremamente felizes, os amigos e familiares muito contentes e bem comidos e bebidos .
E fez um tremendo calor.
Mas a mãe esteve toda a vida convencida do que diz o rifão:
"Boda que não é molhada não é abençoada".
A deles achavam ambos que o tinha sido.