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quinta-feira, 13 de junho de 2019

O homem do chapéu de coco...



Poema da flor proibida


 Por detrás de cada flor
há um homem de chapéu de coco e sobrolho carregado.

Podia estar à frente ou estar ao lado, 
mas não, está colocado
exactamente por detrás da flor.
Também não está escondido nem dissimulado, 
está dignamente especado 
por detrás da flor.


Abro as narinas para respirar
o perfume da flor,
não de repente
(é claro) mas devagar,
a pouco e pouco,
com os olhos postos no chapéu de coco.


Ele ama-me. Defende-me com os seus carinhos,
protege-me com o seu amor.
Ele sabe que a flor pode ter espinhos,
ou tem mesmo,
ou já teve,
ou pode vir a ter,  
e fica triste se me vê sofrer.


Transmito um pensamento à flor 
sem mover a cabeça e sem a olhar. 
De repente,
como um cão cínico arreganho o dente 
e engulo-a sem mastigar.

António Gedeão, in Poesias Completas



quarta-feira, 5 de junho de 2019

O balouço, de Fragonard

O baloiço - Fragonard

Como balouça pelos ares no espaço 
entre arvoredo que tremula e saias 
que lânguidas esvoaçam indiscretas!
Que pernas se entrevêem, e que mais
não vê o que indiscreto se reclina 
no gozo de escondido se mostrar!
 Que olhar e que sapato pelos ares, 
na luz difusa como névoa ardente
do palpitar de entranhas na folhagem! 
Como um jardim se emprenha de volúpia, 
torcendo-se nos ramos e nos gestos,
nos dedos que se afilam, e nas sombras!
 Que roupas se demoram e constrangem 
o sexo e os seios que avolumam presos,
e adivinhados na malícia tensa! 
Que estátuas e que muros se balouçam 
nessa vertigem de que as cordas são 
tão córnea a graça de um feliz marido! 

La fête galante - pintura rocócó

Como balouça, como adeja, como 
é galanteio o gesto com que, obsceno, 
o amante se deleita olhando apenas!
Como ele a despe e como ela resiste 
no olhar que pousa enviesado e arguto
sabendo quantas rendas a rasgar! 
Como do mundo nada importa mais!

Jorge de Sena, in Poemas Escolhidos (1963)


sexta-feira, 16 de setembro de 2011

Protesto

São como flores fanadas os fúteis alfarrábios.
estagnados e doentios como a água adormecida,
do senhor dom artista que não quis colar os lãbios
contra os seios da vida.

O homem que vende livros na velha padiola
expõe o romance da sua vida nessa espécie de montra
e grita contra os romances onde a vida estiola
em maciezas de lontra.

E em todos os cantos e recantos da rua
gritam contra os versos mornos, versos mansos, versos falsos,
as mulheres bem vestidas que ganham a vida nuas
e os garotos descalços.

Sidónio Muralha, Companheira dos Homens