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quinta-feira, 13 de junho de 2019

O homem do chapéu de coco...



Poema da flor proibida


 Por detrás de cada flor
há um homem de chapéu de coco e sobrolho carregado.

Podia estar à frente ou estar ao lado, 
mas não, está colocado
exactamente por detrás da flor.
Também não está escondido nem dissimulado, 
está dignamente especado 
por detrás da flor.


Abro as narinas para respirar
o perfume da flor,
não de repente
(é claro) mas devagar,
a pouco e pouco,
com os olhos postos no chapéu de coco.


Ele ama-me. Defende-me com os seus carinhos,
protege-me com o seu amor.
Ele sabe que a flor pode ter espinhos,
ou tem mesmo,
ou já teve,
ou pode vir a ter,  
e fica triste se me vê sofrer.


Transmito um pensamento à flor 
sem mover a cabeça e sem a olhar. 
De repente,
como um cão cínico arreganho o dente 
e engulo-a sem mastigar.

António Gedeão, in Poesias Completas



terça-feira, 26 de março de 2019

Mar


Este cheiro do Mar é um convite...


Pobres Vascos da Gama, que deitavam  
a sorte ao Mar , em cima de uma prancha, 
somente porque as Índias convidavam! 

Sebastião da Gama, in Cabo da Boa Esperança

*** Imagens colhidas na net.

sexta-feira, 16 de maio de 2014

No jardim...

Se andava no jardim,
Que cheiro de jasmim!
Tão branca do luar!


Eu tenho-a junto a mim.
Vencida, é minha, enfim,
Após tanto a sonhar...

Porque entristeço assim?...
Não era ela, mas sim
(O que eu quis abraçar)

A hora do jardim...
O aroma do jasmim...
A onda do luar...

Camilo Pessanha  [1867-1926]

sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

Eros Thanatos


" Escuto um rumor: é só silêncio."


1. Ó pureza apaixonadamente minha;
terra toda nas minhas mãos acesa.
2. O que sei de ti foi só o vento
a passar nos mastros do verão.
3. Um corpo apenas, barco ou rosa,
rumoroso de abelhas ou de espuma.
4. Entre lábios e lábios não sabia
se cantava ou nevava ou ardia.
5. Amo como as espadas brilham
no ardor indizível do dia.
6. Seria a morte esta carícia
onde o desejo era só brisa?

Eugénio de Andrade, Ostinato Rigore

sábado, 8 de outubro de 2011

Sobre a razão


Num país que não conhece
sequer o sabor da própria nudez

erramos na noite sobre os membros
o peso obscurecido do desejo -

tão alta é a nossa razão
que somos nós a boca mais fresca do sol

Eugénio de Andrade, Véspera da Água

terça-feira, 12 de julho de 2011

Quase epitáfio


O outro sabia.
Tinha uma certeza.
Sou eterno, dizia.

Eu não tenho nada.
Amei o desejo
com o corpo todo.

Ah, tapai-me depressa.
A terra me basta.
Ou o lodo.

Eugénio de Andrade, Homenagens e Outros Epitáfios

sexta-feira, 29 de abril de 2011

Corpo em brasa



Era um corpo em brasa
Apenas vontade do amor
E deixar-se amar...
Apenas desejo, instinto,
Natureza em falta...
Nada que tivesse a ver
Com tocar uma alma
Com ternura
E encetar
Numa aventura
Uma relação de intimidade
Correspondida
Verdadeira, leal,
Sem problemas de ansiedade...

No início fora assim.

Depois,
Pela força da ternura...
Um milagre aconteceu:
Aquela alma
Outra alma conheceu...
Encontrou prazer, loucura,
Compreensão, paixão e doçura...
Mas sofreu.

quarta-feira, 13 de janeiro de 2010

Mocidade



No divino impudor da mocidade,
Nesse êxtase pagão que vence a sorte,
Num frémito vibrante de ansiedade,
Dou-te o meu corpo prometido à morte!

A sombra entre a mentira e a verdade...
A nuvem que arrastou o vento norte...
- Meu corpo! Trago nele um vinho forte;
Meus beijos de volúpia e de maldade!

Trago dálias vermelhas no regaço...
São os dedos do sol quando te abraço,
Cravados no teu peito como lanças!

E do meu corpo os leves arabescos
Vão-te envolvendo em círculos dantescos
Felinamente em voluptuosas danças...

Florbela Espanca, Charneca em flor