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quarta-feira, 5 de junho de 2019

O balouço, de Fragonard

O baloiço - Fragonard

Como balouça pelos ares no espaço 
entre arvoredo que tremula e saias 
que lânguidas esvoaçam indiscretas!
Que pernas se entrevêem, e que mais
não vê o que indiscreto se reclina 
no gozo de escondido se mostrar!
 Que olhar e que sapato pelos ares, 
na luz difusa como névoa ardente
do palpitar de entranhas na folhagem! 
Como um jardim se emprenha de volúpia, 
torcendo-se nos ramos e nos gestos,
nos dedos que se afilam, e nas sombras!
 Que roupas se demoram e constrangem 
o sexo e os seios que avolumam presos,
e adivinhados na malícia tensa! 
Que estátuas e que muros se balouçam 
nessa vertigem de que as cordas são 
tão córnea a graça de um feliz marido! 

La fête galante - pintura rocócó

Como balouça, como adeja, como 
é galanteio o gesto com que, obsceno, 
o amante se deleita olhando apenas!
Como ele a despe e como ela resiste 
no olhar que pousa enviesado e arguto
sabendo quantas rendas a rasgar! 
Como do mundo nada importa mais!

Jorge de Sena, in Poemas Escolhidos (1963)


domingo, 13 de janeiro de 2019

O rouxinol e a Noite...

Cantilena



Cortaram as asas 
ao rouxinol.
Rouxinol sem asas
não pode voar.


Quebraram-te o bico,
rouxinol!
Rouxinol sem bico 
não pode cantar.


Que ao menos a Noite 
ninguém, rouxinol!,
ta queira roubar.
Rouxinol sem Noite 
não pode viver,

Sebastião da Gama, in Cabo da Boa Esperança

sábado, 22 de setembro de 2012

Como fazer...



O que quer que faças, fá-lo de todo o coração, com toda a alma.

Bernard Baruch (1870-1965)

segunda-feira, 14 de novembro de 2011

Desejar...


Podemos ter tudo o que desejamos,
se o desejarmos desesperadamente.
Temos de o desejar com uma exuberância
que nos atravesse a pele
e se una à energia que criou o mundo.
Sheila Graham

sexta-feira, 30 de setembro de 2011

Pequena Metáfora da Aranha e da Mosca


Invisíveis fios de oiro à luz do sol sem vento
a solitária aranha preparou.
Como que dorme, agora. Aguarda o alimento:
um pequenino insecto desatento,
um impensado voo.

A mosca vem. Zumbe no ar. Esvoaça,
desprevenida, rápida, contente.
A solitária aranha sente a caça;
comprime-se no canto. E a mosca passa
mesmo ao lado da morte, velozmente.

Regressa. logo após. Mergulha. Evita
uma vez mais a morte certa. A teia
treme. A aranha freme. A morte grita.
A mosca - essa - permanece alheia.


Ziguezagueia, impávida. Descreve
três círculos concêntricos no espaço.

António Luís Moita, Sal

segunda-feira, 8 de março de 2010

A flor e a borboleta



Tu voas, borboleta! e que eu não possa
Voar, amor!
Diversa como é nisto a sorte nossa!
Dizia a flor.

No vale, ambas irmãs, nascidas fomos;
És como eu sou;
E amamo-nos, e flores ambas somos,
Mas eu não voo!

A ti levanta-te o ar; prende-me a terra
A mim; e eu
Como hei-de perfumar-te em vale e serra,
E lá no céu?

Mais longe inda tu vás, por outras flores
Girar talvez,
Enquanto a minha sombra, meus amores,
Gira a meus pés!

E vens-me ver depois, mas vais-te embora,
Sabendo assim
Que em lágrimas me encontra sempre a aurora!
Pobre de mim!

Acabem-se estas mágoas, meu tesouro
E meu amor!
Cria raiz ou dá-me as asas de ouro,
Celeste flor!

Vítor Hugo, numa versão de João de Deus

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

Ave de fogo



Era um fogo doce de alegria
A visitar um coração cansado
Eram perfumes de flor
Loucuras de amor
A sarar um ego macerado
Nu e indefeso ao sol do meio dia.

As penas suaves
Cor do arco-íris
Nítidas e ardentes
Beleza de poesia a libertar
Da sem razão um imenso mar
De injustiças e horror
Esperanças desejos latentes
Da míséria servil
Quiseram num estertor
Mostrar a beleza dum voar.

E na tarde morna de luz e anil
Voejou cansou o ar de beijos mil
Inocente livre de abraçar.

...Nessa louca alegria
A noite chegou devagarinho
A brisa acariciou de leve
O passarinho
E a esperança morreu
Cansada e breve.

Sophia Guiomar