segunda-feira, 20 de julho de 2009

Um drama dos mais pequenos (continuação)

A campainha retiniu por toda a casa. «É o teu irmão», disse a mãe para o marido que lia o jornal. E pouco depois chegou Afonso, alto, magro e um pouco calvo apesar dos joviais quarenta anos. Cumprimentou e estranhou: " E a nocas?». A mãe foi dizendo que estava para o quarto e Afonso mimou um gesto de surpresa. «Outra sova? Que fez ela agora?»
Calmamente, a mãe negou e informou que dormia.
«Dormir?...Fenomenal! Essa é nova! E a uma hora destas?!»
«Não sei que se passou, mas parece que tem alguma coisa a ver com a revista.»
Olhando o relógio, Afonso perguntou ao irmão que novidades havia, comentou-as num ar desprendido e decidiu, «Vou acordar aquela dorminhoca.» e atravessou o corredor em direcção ao quarto da sobrinha. Pai e mãe entrolharam-se e depois ele voltou ao seu jornal e ela à sua costura. No chão, o outro filho, garoto de quatro anos, brincava com os carrinhos. Ouvia-se o som roufenho e monocórdico do rádio e, da cozinha, ouvia-se a criada em luta sonora com os pratos do jantar.
Quando, poucos minutos depois, tio e sobrinha entravam, o locutor anunciava o programa de Miguel Trigueiros, conhecido poeta e declamador. E estabeleceu-se um silêncio quase devoto no pequeno círculo familiar e uma voz agradável de homem expandiu-se no ar, ora elevando-se num grito de dor e sofrimento, ora de alegria triunfante, ora baixando-a suavemente, num cicio, emoções e sentimentos expressos com maestria e sensibilidade requintadas.
Sentada, com os cotovelos sobre os joelhos, numa atitude de atenção extrema, a adolescente escutava aquela voz que ganhava eco no mais profundo do seu ser. Aquelas palavras que lhe pareciam mágicas semelhavam-se a estrelas que refulgissem no seu íntimo e pareciam acender-lhe cintilaçõs de sonho no olhar. Mas pouco depois o encanto cessou deixando suspensa no ar a musicalidade suavíssima que se desprendia do poema. De novo a voz do locutor se ergueu, tendo como fundo uma melodia suave que foi morrendo a poco e pouco até se tornar quase imperceptível. Falava de romantismo, de poesia bucólica criada por improvisados poetas de quinze e vinte anos, fase em que todos versejam, ainda que alguns não com muita propriedade, comentando que nessas estrofezinhas cândidas e pretensiosas vibravam, quais cordas suavemente esticadas, muitos ideais e sonhos. E em jeito de consideração final acrescentava:
«É uma bela idade em que todos têm alma de poeta, ainda que o não sejam.» Esta foi a frase que mais pareceu ecoar no silêncio da sala e penetrou dolorosamente não só o cérebro, mas também o coração, da adolescente.
E Afonso olhou-a, de soslaio, cativado pelo desgosto que adivinhava.
O resto da família, cada um entregue ao seu mundo, nem se deu conta do pequeno drama que latejara a seu lado.

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[03/11/1955]