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terça-feira, 16 de agosto de 2011

Paz


Aqui foi a casa:
Alva a toalha e o pão,
O berço além.

Breve a canção:
Bater de asa
O sorriso de mãe.

Veloz a hora:
Agora,
Só o coaxar nocturno e certo
Das rãs,
Enche o campo deserto.

Thomaz Kim, Flora e Fauna

segunda-feira, 28 de dezembro de 2009

Menina do Natal


Durante anos, eu fui menina do Natal por amor às minhas crianças e também pela lembrança de ter sido menina sem natais de ternura para recordar. Não queria que as crianças da minha responsabilidade se recordassem de natais sem amor ou sem calor, sem prendas, sem presépio, sem árvore com mil bolinhas e muitas luzinhas que piscassem e sem muitos livros que as fizessem sentir vontade de sonhar. E era menina, mais menina do que elas, quando me quedava sozinha, sentada na alcatifa da sala, olhando a maravilha da árvore de que sentia desprender-se sempre uma suave magia que parecia consolar a ausência do abraço dum carinho há muito tempo perdido, ou nunca sentido, ou depois não consentido.
Já não sei hoje se continuei a ser menina do Natal, porque as minhas crianças foram crescendo e partiram para o mundo, ainda que regressem até junto de mim em cada nova data marcada para Natal. E sempre me preocupo em proporcionar-lhes a melhor festa de Natal que me é possível: escolho a ementa, os vinhos, as prendas, decoro a árvore e a casa, não esqueço o presépio e as luzinhas que piscam, preparo os quartos e aqueço a casa para que não sintam nunca os pés ou as mãos gelados e deixo-os circular sem os obrigar a marcarem presença junto de mim, como meus pais fizeram, criando-me a vontade de ficar sempre que possível longe, mesmo que tivesse de optar por ficar sozinha, mesmo que me visse obrigada a festejar na solidão todos os dias de Natal e todas as passagens de ano, todos os primeiros dias de ano novo e, por fim, todos os outros dias do novo ano porque esses eram depois meus e das minhas crianças, dos nossos pequenos prazeres e das nossas calmas alegrias, ouvindo os ventos fortes da Primavera, a chuva que caía sob os candeeiros das ruas nas noites de Inverno, o som do oceano imenso nos dias do glorioso sol de Verão, o chape-chape nocturno das ondas contra o molhe quando a luz do luar prateava de mistério um passeio pelo paredão à beira-mar... Todos esses momentos foram para mim magia de natal, daquele natal sem data marcada, mas que sempre acontecia.
... Porque menina do natal ... vou deixar de ser um dia.




segunda-feira, 20 de julho de 2009

Um drama dos mais pequenos (continuação)

A campainha retiniu por toda a casa. «É o teu irmão», disse a mãe para o marido que lia o jornal. E pouco depois chegou Afonso, alto, magro e um pouco calvo apesar dos joviais quarenta anos. Cumprimentou e estranhou: " E a nocas?». A mãe foi dizendo que estava para o quarto e Afonso mimou um gesto de surpresa. «Outra sova? Que fez ela agora?»
Calmamente, a mãe negou e informou que dormia.
«Dormir?...Fenomenal! Essa é nova! E a uma hora destas?!»
«Não sei que se passou, mas parece que tem alguma coisa a ver com a revista.»
Olhando o relógio, Afonso perguntou ao irmão que novidades havia, comentou-as num ar desprendido e decidiu, «Vou acordar aquela dorminhoca.» e atravessou o corredor em direcção ao quarto da sobrinha. Pai e mãe entrolharam-se e depois ele voltou ao seu jornal e ela à sua costura. No chão, o outro filho, garoto de quatro anos, brincava com os carrinhos. Ouvia-se o som roufenho e monocórdico do rádio e, da cozinha, ouvia-se a criada em luta sonora com os pratos do jantar.
Quando, poucos minutos depois, tio e sobrinha entravam, o locutor anunciava o programa de Miguel Trigueiros, conhecido poeta e declamador. E estabeleceu-se um silêncio quase devoto no pequeno círculo familiar e uma voz agradável de homem expandiu-se no ar, ora elevando-se num grito de dor e sofrimento, ora de alegria triunfante, ora baixando-a suavemente, num cicio, emoções e sentimentos expressos com maestria e sensibilidade requintadas.
Sentada, com os cotovelos sobre os joelhos, numa atitude de atenção extrema, a adolescente escutava aquela voz que ganhava eco no mais profundo do seu ser. Aquelas palavras que lhe pareciam mágicas semelhavam-se a estrelas que refulgissem no seu íntimo e pareciam acender-lhe cintilaçõs de sonho no olhar. Mas pouco depois o encanto cessou deixando suspensa no ar a musicalidade suavíssima que se desprendia do poema. De novo a voz do locutor se ergueu, tendo como fundo uma melodia suave que foi morrendo a poco e pouco até se tornar quase imperceptível. Falava de romantismo, de poesia bucólica criada por improvisados poetas de quinze e vinte anos, fase em que todos versejam, ainda que alguns não com muita propriedade, comentando que nessas estrofezinhas cândidas e pretensiosas vibravam, quais cordas suavemente esticadas, muitos ideais e sonhos. E em jeito de consideração final acrescentava:
«É uma bela idade em que todos têm alma de poeta, ainda que o não sejam.» Esta foi a frase que mais pareceu ecoar no silêncio da sala e penetrou dolorosamente não só o cérebro, mas também o coração, da adolescente.
E Afonso olhou-a, de soslaio, cativado pelo desgosto que adivinhava.
O resto da família, cada um entregue ao seu mundo, nem se deu conta do pequeno drama que latejara a seu lado.

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[03/11/1955]

domingo, 19 de julho de 2009

Um drama - dos mais pequenos (continuação)

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A mãe, desconfiando da ausência, abriu a porta devagar e olhou admirada o vulto da filha sobre a cama. Pensou se não estaria doente porque não eram horas decentes para se dormir e aquela criatura nunca dormia. Cautelosa, aproximou-se mais, espreitou-lhe o rosto e viu lágrimas. Não lhe batera nesse dia, não a repreendera... Suspeitou de um desgosto e recordou que a notara impaciente porque o homenzinho dos jornais nunca mais chegava. Tinha-a ouvido protestar que o pobre homem levava tempo demais a fazer o troco aos fregueses, de óculos ridiculamente acavalados no nariz, sacola de pano cinzento presa ao ombro, desculpando-se que o combóio era ronceiro, nunca mais chegava... Via-se que estava impaciente para que ele acabasse a conversa e desandasse. Lembrava-se a mãe de ouvir-lhe recriminações porque a revista nunca mais chegava e, já de posse dela, fugira para o quarto... E estranhou de novo os vestígios das lágrimas e o sono àquela hora desapropriada. Antes de sair reparou na revista amarfanhada a um canto. E acabou por concluir que não devia ser nada de cuidado.
Num repente de boa vontade - não a acordou.

(Continua)

quarta-feira, 24 de junho de 2009

Festa de São João - família em festa



1939: Era o tempo cinzento da não esperança
Aquele em que se viram.
- Era a guerra.
E o casamento
Desgastou os espinhos
Das roseiras do caminho.
............................................
Meio século volvido
Mostram a Deus e ao mundo,
Com orgulho profundo,
O seu branco carinho.
M. H. [1989]


Estávamos a 24 de Jullho de 1989 e meus pais festejavam 50 anos de casamento. Tinham ambos 21 anos quando casaram e esperado, mesmo, que um deles completasse a maioridade da época para casarem sem a autorização dos pais. A mãe dela, viúva e com uma filha entrevada a cargo, não queria o casamento e maltratava esta filha para não casar. Ele, com os pais, que não chegara a conhecer, ausentes no Brasil e já por então separados, tinha vontade de constituir uma família a que pudesse chamar sua. A festa tivera meia dúzia de amigos de ambos os lados e fora já realizada na modesta casinha dos noivos. Ele, para a convencer, comprara os móveis indispensáveis para a vida em comum com os magros ordenados de ajudante de farmácia e de enfermeiro.Ela levava as poucas peças de enxoval, confeccionadas à revelia da mãe viúva e a ajuda de algumas amigas. Até o modesto copo de água fora oferecido pela madrinha de casamento. E chovera torrencialmente quando se dirigiram primeiro ao Registo Civil e depois à Catedral para casarem. Um chofer de praça amigo do pai ofereceu o carro e um fotógrafo da cidade insistiu em tirar a fotografia que ainda hoje marca presença na mais alta parede da casa de família.
Faziam 70 anos de casados se fossem vivos - hoje, dia de São João. Mas já não são. E durante os anos da sua juventude o dia só era diferenciado porque visitavam familiares de meu pai que residiam num pequeno lugar nos então arredores da cidade com fortes tradições sanjoaninas. O dia era um dia normal de trabalho e, na véspera à noite, ou no dia de São João, lá iam ao arraial visitar esses familiares e conhecidos, assistir à queima do pinheiro, conversar a vida, comer o frango cerejado que a mãe preparava com carqueja do mato e comprar, e provar ,um ou outro doce de gemas, ou as tradicionais cavacas, vendidas por mulheres da terra, ou dos lugares limítrofes, a quem se exigia um aspecto limpo e que não roubassem no preço. Não saltavam as fogueiras, embora fossem muito novos. Minha mãe, que perdera o pai com 14 anos, aos 16 ia ficando sem uma perna, porque lhe infectara uma frieira no pé esquerdo. Como isto acontecesse depois de um baile a que tinha comparecido acompanhada por um irmão mais velho - o tio Augusto- jurara não voltar a dançar se a perna sarasse. A avó Capitolina pôs-lhe pachos de ruda, sarou e livrou-se da amputação. Cumpriu a promessa durante toda a vida, mas levou a que meu pai deixasse também de dançar, até porque a mãe era muito desconfiada, temperamental e ciumenta.
Mas o pai tinha desgosto. De temperamento muito alegre, amando a vida acima de tudo, vingava-se a cantar e a comer já que nada mais podia fazer nas festas. Não era homem de contar anedotas, mas pelava-se por uma boa história. E cantava lindamente. Em solteiro fizera parte do Orfeão da cidade onde viviam e fora bombeiro voluntário na qualidade de enfermeiro. Mas a esposa temera pela sua integridade física e não quisera arriscar-se a perder o marido, bonito homem, loiro e de belos olhos azuis safira, para qualquer marafona. E o pai fizera-lhe, ainda que com desgosto, a vontade.
A mãe contava sempre que o seu estado de espírito no dia do casamento estava de acordo com o tempo que fazia: frio e de muita chuva e lembrava-se de ter chorado copiosamente por nem a minha avó, nem nenhum dos meus tios terem comparecido no casamento e deixado até de lhe falar durante longos anos. A avó Capitolina veio depois a falecer em nossa casa, já eu tinha completado oito anos. Depois veio a tia Cacilda, a irmã entrevada, e, mais tarde, o tio Afonso, que cumprira tropa na Madeira e a quem tinha sido implantada uma testa de platina após um grave acidente de viação. Morreu em nossa casa, meia dúzia de anos depois, com uma nefrite aguda, extremamente deprimido e muito inchado. Do tio mais amigo e compreensivo tinha-se tornado, com a progressão da doença, num dos meus maiores pesadelos diários. Porém a mãe cuidou sempre muito bem dos membros daquela família que a desprezara e o pai sempre a ajudou e nunca a dissuadiu de fazê-lo. Nesse aspecto, também a mãe sempre lhe fazia justiça e ficara reconhecida.
O festejar o aniversário de casamento passou a acontecer já depois de terem netos e para darem a estes a felicidade de soprarem as inúmeras velinhas do bolo que passei a mandar confeccionar por não saber que oferecer-lhes. Depois passou a ser uma tradição familiar o nosso encontro familiar nesse dia.
Até que aconteceu fazerem 50 anos. Pelo seu punho, meu pai deixou escrito: " Fiz 50 anos de casado em dia de S. João. Perdoai-me, Santo António, meu gesto algo ousado..." O pai chamava-se António e não sei que gesto ousado terá sido esse, porque as reticências são dele.E mais adiante, no mesmo documento - convite que eu mandara imprimir para convocar os amigos - ainda acrescentou na sua caligrafia cheia de arabescos, mas harmoniosa e tão característica:
" À minha volta reuni amigos, filhos e netos./ Meu Deus, por ti vou/ Por cursos e estrada rectos."
O pai não era poeta, mas amava muito as flores, as crianças, os animais, o mar, os rios, as montanhas, a sua casa, a sua família, adorava guiar o seu automóvel, e, no fim da vida, o seu bem estar e aferrolhar dinheiro. A mãe, ainda que por demais poupada, criticava-o severamente, admoestando-o de que, quando fosse desta para melhor, não levaria nada. Mas ele fazia ouvidos de mercador e guardava tudo: coleccionava desde carteiras de fósforos a moedas, e tinha muito prazer em consultar as contas bancárias. Mas nesse já longínquo dia 24 de Junho de 1989 pagou um lauto almoço num dos melhores restaurantes da cidade para cerca de quarenta pessoas e isto depois de ter ido renovar os votos de casamento na igreja perante o padre, família e amigos e de ter enfiado no dedo da companheira de todos aqueles anos mais um elo de ouro branco, em tudo idêntico, menos no diâmetro, daquele que esta fez escorregar no seu, com a data gravada no interior para que constasse.
Nesse dia, porém, não choveu, pai e mãe estavam extremamente felizes, os amigos e familiares muito contentes e bem comidos e bebidos .
E fez um tremendo calor.
Mas a mãe esteve toda a vida convencida do que diz o rifão:
"Boda que não é molhada não é abençoada".
A deles achavam ambos que o tinha sido.