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segunda-feira, 19 de agosto de 2019

Caminho III

 Faz-nos bem, muito bem, esta demora;
Enrijou a coragem fatigada...
Eis os nossos bordões da caminhada,
Vai já rompendo o sol: vamos embora.


Este vinho, mais virgem do que a aurora,
Tão virgem não o temos na jornada...
Enchamos as cabaças:  pela estrada,
Daqui inda este néctar avigora!...

Cada um por seu lado!... Eu vou sozinho.
Eu quero arrostar só todo o caminho.
Eu posso resistir à grande calma!...

Deixai-me chorar mais e beber mais.
Perseguir doidamente os meus ideais.
E ter fé e sonhar - encher a alma.

 Camilo Pessanha, in Clepsidra



terça-feira, 26 de abril de 2016

Mário de Sá Carneiro

François Moreau - A esfinge vencedora

Estátua Falsa:                                                                                                   

    Paris,5 de Maio de 1913
               
      Só de oiro  falso os meus olhos se douram;
                     Sou esfinge sem mistério no poente.
                     A tristeza das coisas que não foram
                     Na minh' alma desceu veladamente.
Na minha dor quebram-se espadas de ânsia,
Gomos de luz em treva se misturam.
As sombras que eu dimano não perduram,
Como Ontem, para mim, Hoje é distância.
Já não estremeço em face do segredo;
Nada me aloira já, nada me aterra:
A vida corre sobre mim em guerra, 
E nem sequer um arrepio de medo!
Sou estrela ébria que perdeu os céus,
Sereia louca que deixou o mar;
Sou templo prestes a ruir sem deus,
Estátua falsa ainda erguida ao ar...

                                                                      Mário de Sá Carneiro                                                                                                                                  






" Perdi a morte e a vida,
E, louco, não enlouqueço...
A hora foge vivida
Eu sigo-a, mas permaneço..."

Paris, Maio, 1913
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sábado, 5 de abril de 2014

O poema

A tarde cai,
silenciosa,
morosa...


Na alma do poeta,
o poema,

estranha rosa
rubra e preta,


abre...
Afinal,
escrever um poema
é fixar uma pena,
sentindo estoirar 
o calabre
do coração,
nostálgico do éden...


- Vá, poeta,
deixa o coração sangrar!

Para quê negar
a esmola que te pedem?

Saul Dias,(1902), Obra Poética



sexta-feira, 20 de setembro de 2013

Rimas e melodia...


Não me importo com as rimas. Raras vezes
Há duas árvores iguais, uma ao lado da outra.
Penso e escrevo como as flores têm cor 
Mas com menos perfeição no seu modo de exprimir-me
Porque me falta a simplicidade divina
De ser todo só o meu exterior.

Olho e comovo-me,
Comovo-me como a água corre quando o chão é inclinado,
E a minha poesia é natural como levantar-se o vento.

Fernando pessoa - Poemas de Alberto Caeiro

sexta-feira, 19 de julho de 2013

Considerandos...


A pintura e a poesia se assemelham:
em ambas gostarás mais de umas cousas
se estiveres de perto; outras de longe.
Esta quer pouca luz, aquela, às claras,
apetece ser vista, não receando
a perspicácia de olhos julgadores.
Uma - causa deleite uma vez vista;
outra - vista dez vezes sempre agrada.

Quinto Horácio Flaco, Arte Poética (tradução de Cândido Lusitano)

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2013

O Poeta e o Mundo...


Podem pedir-me, em vão,
Poemas sociais,
Amor de irmão pra irmão
E outras coisas mais:

Falo de mim - só falo
Daquilo que conheço.
O resto... calo
E esqueço.

A. Manuel Couto Viana

sábado, 24 de novembro de 2012

"Arte Poética"...



A poesia do abstracto?...
Talvez.
Mas um pouco de calor,
A exaltação de cada momento,
É melhor.
Quando sopra o vento
Há um corpo na lufada;
Quando o fogo alteou
A primeira fogueira,
Apagando-se fica alguma coisa queimada.
É melhor!
Uma ideia,
Só como sangue de problema;
No mais, não,
Não me interessa.
Uma ideia vale como promessa,
E prometer é arquear
A grande flecha.
O flanco das coisas só sangrando me comove,
E uma pergunta é dolorida
Quando abre brecha.
Abstracto!
O abstracto é sempre redução,
Secura.
Perde;
E diante de mim o mar que se levanta é verde:
Molha e amplia...
Por isso, não:
Nem o abstracto nem o concreto
São propriamente poesia.
A poesia é outra coisa.
Poesia e abstracto, não.

Vitorino Nemésio, O Bicho Harmonioso

terça-feira, 5 de julho de 2011

Jacques Prévert


Para fazer o retrato de um pássaro...

Pinta primeiro uma gaiola
com a porta aberta
pinta a seguir
qualquer coisa bonita
qualquer coisa simples
qualquer coisa bela
qualquer coisa útil
para o pássaro
agora encosta a tela a uma árvore
num jardim
num bosque
ou até numa floresta
esconde-te atrás da árvore
sem dizeres nada
sem te mexeres...
Às vezes o pássaro não demora
mas pode também levar anos
antes que se decida
Não deves desanimar
espera
espera anos se for preciso
a rapidez ou a lentidão da chegada
do pássaro não tem qualquer relação
com o acabamento do quadro
Quando o pássaro chegar
se chegar
mergulha no mais fundo silêncio
espera que o pássaro entre na gaiola
e quando tiver entrado
fecha a porta devagarinho com o pincel
depois
apaga uma a uma todas as grades
com cuidado não vás tocar alguma das penas
Faz a seguir o retrato da árvore
escolhendo o mais belo dos ramos
para o pássaro
pinta também o verde da folhagem a frescura do vento
a poeira do sol
e o ruído dos bichos entre as ervas no calor do verão
e agora espera que o pássaro se decida a cantar
se o pássaro não cantar
é mau sinal
é sinal que o quadro não presta
mas se cantar é bom sinal
sinal de que podes assinar
então arranca com muito cuidado
uma das penas do pássaro
e escreve o teu nome num canto do quadro.

Eugénio de Andrade, Trocar de Rosa


terça-feira, 13 de julho de 2010

Encantamento



Belo e forte é o meu amado.

O melhor entre dez mil.

Na sua cabeça de ouro fino

os cabelos são cachos

negros como negras asas.


E os olhos são pombas

banhando-se nas vertentes;

pombas salpicadas de brilho

junto das águas correntes.


Seu rosto é um jardim de ervas

que exalam perfumes;

e os lábios, quais lírios

destilando mirra pura.

As mãos são algemas de ouro

revestido com pedras de Tarsis;

seu busto, um bloco de marfim

recoberto de safiras,

e as pernas, colunas de alabastro

erguidas sobre ouro fino.


Todo ele é magnífico,

como os cedros do Líbano.

O dizer na sua boca é suave

e tudo nele é desejável.


Assim é o meu amigo,

o meu amado.




Fragmento de:

Cântico dos Cânticos de Salomão

quarta-feira, 3 de março de 2010

Em louvor do poeta anónimo




Tinha a idade de uma flor
Em seu enleio embebida
E a viola era o seu modo
Amante de estar na vida.

No amor nascera o rio
Que o coração lhe inundava.
Nascera o rio no amor
Mas o fim não lhe enxergava.

De cada vez que tocava
No infinito se perdia
Do corpo dessa viola
Que mais amor lhe pedia.

Ficou entre nós o tempo
Em que fica uma andorinha.
Deu-nos essa primavera
Porque deu tudo o que tinha.

Foi-lhe o corpo atrás da alma
Que lhe pedia mais amor.
O seu nome ninguém sabe.
Dizem que era Trovador.

Natália Correia, Inéditos

sexta-feira, 15 de janeiro de 2010

À luz das velas




Levantou-se lá fora tanto vento!
Que dizes? Vou fechar estas janelas?
Faz-me impressão que trema a luz das velas
e assim é mais completo o isolamento.

Passamos o serão. Às vezes tento
abafar as palavras e vencê-las.
Então falo de tudo - céu, estrelas,
tento ocultar o estranho encantamento.

Ele entende estas coisas e define-as...
"Não achas lindo o ramo das glicínias
antes sobre esta mesa? Eu vou mudá-lo."

Silêncio... Toda a vida está no olhar.
Morre o perfume... a luz... - Falar! falar!
- O que eu te digo, amor, quando me calo!

Virgínia Vitorino, Namorados

quinta-feira, 22 de outubro de 2009

Sobre a neve


Sobre mim teu desdém pesado jaz
Como um manto de neve... Quem dissera
Porque tomba em plena Primavera
Toda essa neve que o Inverno traz!

Cercavas-me 'inda há pouco de lilás
E de rosas silvestres... quando eu era
Aquela que o destino prometera
Aos teus rútilos sonhos de rapaz!

Dos beijos que me deste não te importas,
Asas paradas de andorinhas mortas...
Folhas de Outono em correria louca...

Mas 'inda um dia, em mim ébrio de cor,
Há-de nascer um roseiral em flor
Ao sol da primavera doutra boca!

Florbela Espanca, Sonetos




quarta-feira, 7 de outubro de 2009

Natália Correia - 1955

Louise Jopling, 1896 - Azul e Branco

Auto-retrato

Espáduas brancas palpitantes:
asas no exílio de um corpo.
Os braços calhas cintilantes
para o comboio da alma.
E os olhos emigrantes
no navio da pálpebra
encalhado em renúncia ou cobardia.
Por vezes fêmea. Por vezes monja.
Conforme a noite. Conforme o dia.
Molusco. Esponja
embebida num filtro de magia.
Aranha de ouro
presa na teia dos seus ardis.
E aos pés um coração de louça
quebrado em jogos infantis.

Natália Correia, Poemas [1955]





domingo, 27 de setembro de 2009

Devaneio


Devaneio

Vivo perto de ti, mesmo sonhando,
Numa febre de amor que me devora
E vibra, no meu peito a toda a hora,
Teus lábios repelindo e desejando.

Pois quando nos deixamos, suspirando,
Venho de novo, pela noite fora,
Falar contigo, como falo agora,
Num sensualismo carinhoso e brando.

Pauto este amor, quase divino,
Que vive ligado a ti e ao teu destino,
E, mesmo em sonhos, te procuro e vejo.

Embora tu não queiras e eu não queira
Havemos de passar a vida inteira
Beijando as bocas num infinito beijo!

Florbela Espanca, Sonetos


terça-feira, 8 de setembro de 2009

Capricho


Capricho

E veio um violino. E tocou
Um Capricho qualquer. Talvez o teu...
- Paganini na noite que passou

Foi esse teu Capricho que nasceu.

E pela noite dentro lá tocou
Um Capricho qualquer - talvez o teu -
O violino que veio e que chorou
E fez chorar estrelas pelo céu.

Depois... depois as notas se calaram
E as janelas quietas se fecharam

Com donzelas que o tempo adormeceu.

Mas em mim ficou sempre um violino
A tocar pela noite o meu destino
Num Capricho qualquer! Talvez o teu.

Jorge Vila


segunda-feira, 27 de julho de 2009

Dorme,coração

Dorme,coração...

Há no firmamento
Um frio lunar.
Um vento nevoento
Vem de ver o mar.

Quase maresia
A hora interroga,
E uma angústia fria
Indistinta voga.

Não sei o que faça,
Não sei o que penso,
O frio não passa
E o tédio é imenso

Não tenho sentido.
Alma ou intenção...
Estou no meu olvido...
Dorme, coração...

Fernando Pessoa
[11-03-1917]

sábado, 25 de julho de 2009

Obsessão


Obsessão

Que forças obscuras detiveram
Os indecisos passos, na aurora
Duma vida sem culpa?

Que vozes ignotas, que segredos
Toldaram o olhar que reflectia
O fulgor da manhã?

Que secreta mão pousou no ombro,
Frágil, da perdida infância
E suspendeu o riso que floria
Nos lábios sem mentira?

Jamais o saberemos. Experientes
Dos humanos caminhos da tristeza,
Nunca mais nossos olhos conheceram
A luz que visionaram algum dia!

Luís Amaro (In «Artes e Letras» - Diário de Notícias, 1-05-19579


segunda-feira, 20 de julho de 2009

Um drama dos mais pequenos (continuação)

A campainha retiniu por toda a casa. «É o teu irmão», disse a mãe para o marido que lia o jornal. E pouco depois chegou Afonso, alto, magro e um pouco calvo apesar dos joviais quarenta anos. Cumprimentou e estranhou: " E a nocas?». A mãe foi dizendo que estava para o quarto e Afonso mimou um gesto de surpresa. «Outra sova? Que fez ela agora?»
Calmamente, a mãe negou e informou que dormia.
«Dormir?...Fenomenal! Essa é nova! E a uma hora destas?!»
«Não sei que se passou, mas parece que tem alguma coisa a ver com a revista.»
Olhando o relógio, Afonso perguntou ao irmão que novidades havia, comentou-as num ar desprendido e decidiu, «Vou acordar aquela dorminhoca.» e atravessou o corredor em direcção ao quarto da sobrinha. Pai e mãe entrolharam-se e depois ele voltou ao seu jornal e ela à sua costura. No chão, o outro filho, garoto de quatro anos, brincava com os carrinhos. Ouvia-se o som roufenho e monocórdico do rádio e, da cozinha, ouvia-se a criada em luta sonora com os pratos do jantar.
Quando, poucos minutos depois, tio e sobrinha entravam, o locutor anunciava o programa de Miguel Trigueiros, conhecido poeta e declamador. E estabeleceu-se um silêncio quase devoto no pequeno círculo familiar e uma voz agradável de homem expandiu-se no ar, ora elevando-se num grito de dor e sofrimento, ora de alegria triunfante, ora baixando-a suavemente, num cicio, emoções e sentimentos expressos com maestria e sensibilidade requintadas.
Sentada, com os cotovelos sobre os joelhos, numa atitude de atenção extrema, a adolescente escutava aquela voz que ganhava eco no mais profundo do seu ser. Aquelas palavras que lhe pareciam mágicas semelhavam-se a estrelas que refulgissem no seu íntimo e pareciam acender-lhe cintilaçõs de sonho no olhar. Mas pouco depois o encanto cessou deixando suspensa no ar a musicalidade suavíssima que se desprendia do poema. De novo a voz do locutor se ergueu, tendo como fundo uma melodia suave que foi morrendo a poco e pouco até se tornar quase imperceptível. Falava de romantismo, de poesia bucólica criada por improvisados poetas de quinze e vinte anos, fase em que todos versejam, ainda que alguns não com muita propriedade, comentando que nessas estrofezinhas cândidas e pretensiosas vibravam, quais cordas suavemente esticadas, muitos ideais e sonhos. E em jeito de consideração final acrescentava:
«É uma bela idade em que todos têm alma de poeta, ainda que o não sejam.» Esta foi a frase que mais pareceu ecoar no silêncio da sala e penetrou dolorosamente não só o cérebro, mas também o coração, da adolescente.
E Afonso olhou-a, de soslaio, cativado pelo desgosto que adivinhava.
O resto da família, cada um entregue ao seu mundo, nem se deu conta do pequeno drama que latejara a seu lado.

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[03/11/1955]

quinta-feira, 25 de junho de 2009

O segredo da Busca


O segredo da Busca é que não se acha.
Eternos mundos infinitamente,
Uns dentro de outros, sem cessar decorrem
Inúteis; Sóis, Deuses, Deus dos Deuses
Neles intercalados e perdidos
Nem a nós encontramos no infinito.
Tudo é sempre diverso e sempre adiante
De [Deus] e Deuses: essa, a luz incerta
Da suprema verdade.

Fernando Pessoa, Obra Poética - Poemas Dramáticos - Primeiro Fausto - Primeiro Tema