segunda-feira, 8 de março de 2010

A flor e a borboleta



Tu voas, borboleta! e que eu não possa
Voar, amor!
Diversa como é nisto a sorte nossa!
Dizia a flor.

No vale, ambas irmãs, nascidas fomos;
És como eu sou;
E amamo-nos, e flores ambas somos,
Mas eu não voo!

A ti levanta-te o ar; prende-me a terra
A mim; e eu
Como hei-de perfumar-te em vale e serra,
E lá no céu?

Mais longe inda tu vás, por outras flores
Girar talvez,
Enquanto a minha sombra, meus amores,
Gira a meus pés!

E vens-me ver depois, mas vais-te embora,
Sabendo assim
Que em lágrimas me encontra sempre a aurora!
Pobre de mim!

Acabem-se estas mágoas, meu tesouro
E meu amor!
Cria raiz ou dá-me as asas de ouro,
Celeste flor!

Vítor Hugo, numa versão de João de Deus