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sábado, 5 de janeiro de 2019

Mês Puro



Sol pleno de janeiro; transparência gelada, desnudante.
De repente todas as nuvens se dissipam. No matagal das colinas 
obscurecido ainda pelas grandes chuvas sobe
o fumo azul dos pastores. E lá ao fundo as cadeias de montanhas
de um azul exclusivo - o azul supremo. Nesta paisagem
vasta e límpida - diz ele - não há lugar para outra cor,
 excepto o vermelho ínfimo do galo que estrangularam
sobre a pedra das fundações. Foram as suas palavras.
Assim se referia
ao movimento de dois dedos que descobriam
um ombro nu, uma ferida, uma fonte ou um sonho.

[Yannis Ritsos- poeta grego;1909-1990]


Tradução de Eugénio de Andrade, in Trocar de rosa

terça-feira, 18 de março de 2014

Itinerário...


Seguia-se as pedras
até encontrar dois pinheiros muito altos;
isolados
- rente a eles, esbranquiçava-se o céu.

Era curioso que surgiam de súbito,
apesar da sinceridade da planície.

... Ainda se volta por lá,
quando a areia é muita.

Jorge de Sena (1942


quinta-feira, 19 de setembro de 2013

Na cidade...


Na cidade, quem olha para o céu?
É preciso que passe o avião...
Quem me dera o silêncio, a solidão,
Onde pudesse, alguma vez, ser eu!

Na cidade nasci; nela nasceu
A minha dispersiva inquietação;
E o meu tumultuoso coração
Tem o pulsar caótico do seu.

Ah!Quem me dera, em vez de gasolina,
O cheiro da terra húmida, a resina
A flores do campo, a leite, a maresia!

Em vez da fria luz que me alumia,
O luar, sobre o mar, em tremulina...
- Divina mão compondo uma poesia.

Carlos Queirós - Desaparecido e Outros Poemas (1950)

segunda-feira, 31 de dezembro de 2012

"Quem como eu..."


Quem como eu em silêncio tece
Bailados, jardins e harmonias?
Quem como eu se perde e se dispersa
Nas coisas e nos dias?


Como flor incerta entre os teus dedos
Há harmonias de um bailar sem fim,
E tens o silêncio indizível de um jardim
Invadido de luar e de segredos.

Sophia de Mello Breyner Andresen, Obra Poética I