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terça-feira, 21 de maio de 2019

...A Primavera esquece nos barrancos...



Jan Baptist Bosschaert  - Still Life of Flowers

Há um Poeta em mim que Deus me disse...
A Primavera esquece nos barrancos
As grinaldas que trouxe nos arrancos
Da sua efémera e espectral ledice... 

Pelo prado orvalhado a meninice
Faz soar a alegria os seus tamancos...
Pobre de anseios teu ficar nos bancos 
Olhando a hora como quem sorrisse ...


Florir do dia a capitéis de Luz...
Violinos do silêncio enternecidos...
Tédio onde o só ter tédio nos seduz...

Minha alma beija o quadro que pintou...
Sento-me ao pé dos séculos perdidos
E cismo o seu perfil de inércia e voo...

Fernando Pessoa, in Cancioneiro - poema II de Passos da Cruz

quinta-feira, 14 de março de 2019

"Vontade de dormir"...


Fios de oiro puxam por mim
A soerguer-me na poeira --
Cada um para o seu fim,
Cada um para o seu norte...
... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ...
-- Ai que saudades da morte...
... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ...
Quero dormir... ancorar... 
... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ...
Arranquem-me esta grandeza! 
-- Para que me sonha a beleza, 
Se a não posso transmigrar?

in  Poesias de Mário de Sá- Carneiro


terça-feira, 12 de fevereiro de 2019

Distante Melodia...


Num sonho de Ìris morto a ouro e brasa,
Vem-me lembranças doutro Tempo azul
Que me oscilava entre véus de tule -
Um tempo esguio e leve, um tempo-Asa. 
(...)
(...)
Lembranças fluídas... Cinza de brocado... 
Irrealidade anil que em mim ondeia...  
- Ao meu redor eu sou Rei exilado, 
Vagabundo dum sonho de sereia... 

Paris, 30 de Junho de 1914


Mário de Sá Carneiro, in no lado esquerdo da alma

quinta-feira, 24 de janeiro de 2019

Busca da verdade...


A montanha por achar
Há de ter, quando a encontrar,
Um templo aberto na pedra
Da encosta onde nada medra.

O santuário que tiver,
Quando o encontrar, há-de ser 
Na montanha procurada
E na gruta ali achada.

A verdade, se ela existe,
Ver-se-á que só consiste
Na procura da verdade,
Porque a vida é só metade.

Fernando Pessoa, in Inéditos

segunda-feira, 7 de janeiro de 2019

Rigor...




A criança que ri na rua,
A música que vem no acaso,
A tela absurda, a estátua nua,
A bondade que não tem prazo - 

Tudo isso excede este rigor
Que o raciocínio dá a tudo,
E tem qualquer coisa de amor,
Ainda que o amor seja mudo.

Fernando Pessoa, Poesias Coligidas/Inéditas - !919-1935

domingo, 6 de janeiro de 2019

A fábula das três almas



«Subindo para o céu, seguiam três almas virgens. A lua abraçava-as em um raio de luar e as estrelas acendiam-se para recebê-las.
Travaram conversa.
_ Eu fui princesa - disse uma. - Sobre o meu mausoléu há uma palma de ouro e um serafim de mármore branco. Tenho saudades do meu palácio.
- Eu fui monja - disse a outra. - Sobre o meu túmulo caem os ramos das religiosas e as flores das devotas. Meu corpo está no claustro com Deus, como eu, que subo para o paraíso. Tenho saudades das harmonias místicas do órgão nos dias de festa.
E a terceira disse:
- Eu fui pastora. Meu corpo está no cemitério da aldeia. O meu noivo guarda-o e, como não é tempo de flores,  chora todas as noites sobre o meu túmulo lágrimas sinceras. Tenho saudades do meu noivo.


E uma estrela, ouvindo a conversa das almas, perguntou a outra:
- Qual é a mais feliz das três?
Suspirando, a estrela respondeu:
- A noiva, porque foi amada.»

** Toda a fábula tem, pelo menos, uma intenção.
Hoje, dia consagrado aos Reis Magos, também eles pertencendo ao mundo da fábula e à busca incessante de caminhos, encontrámos esta lenda plena de poesia e alguma, senão muita, verdade.
Encontrar uma luz no caminho de cada um de nós é algo que inspira, que dá força para lutar contra as dificuldades de uma existência difícultada por abrolhos... E isso é bom.

sábado, 5 de janeiro de 2019

Mês Puro



Sol pleno de janeiro; transparência gelada, desnudante.
De repente todas as nuvens se dissipam. No matagal das colinas 
obscurecido ainda pelas grandes chuvas sobe
o fumo azul dos pastores. E lá ao fundo as cadeias de montanhas
de um azul exclusivo - o azul supremo. Nesta paisagem
vasta e límpida - diz ele - não há lugar para outra cor,
 excepto o vermelho ínfimo do galo que estrangularam
sobre a pedra das fundações. Foram as suas palavras.
Assim se referia
ao movimento de dois dedos que descobriam
um ombro nu, uma ferida, uma fonte ou um sonho.

[Yannis Ritsos- poeta grego;1909-1990]


Tradução de Eugénio de Andrade, in Trocar de rosa

domingo, 30 de dezembro de 2018

Esforço...



A montanha por achar
Há-de ter, quando a encontrar,
Um templo aberto na pedra
Da encosta onde nada medra.

O santuário que tiver,
Quando o encontrar, há-de ser
Na montanha procurada
E na gruta ali achada.


A verdade, se ela existe,
Ver-se-á que só consiste
Na procura da verdade,
Porque a vida é só metade.

Fernando Pessoa, [1934], in Inéditos

sexta-feira, 8 de setembro de 2017

Um soneto de Pessoa...



Quando olho para mim não me percebo.
Tenho tanta a mania de sentir
Que me extravio às vezes a sair
Das próprias sensações que eu recebo.


 O ar que respiro, este licor que bebo,
Pertencem ao meu medo de existir,
E eu nunca sei como hei-de concluir
As sensações que a meu pesar concebo.




Nem nunca propriamente reparei,
Se na verdade sinto o que sinto. Eu 
Serei tal qual pareço em mim? Serei

Tal qual me julgo verdadeiramente?


Mesmo ante as sensações sou um pouco ateu,
Nem sei bem se sou eu quem em mim sente. 


Fernando Pessoa, in Ficções do Interlúdio

sábado, 12 de julho de 2014

Nocturno II


Cria-se da angústia uma cadeira para assistir à noite.

E a noite que é como alguém que desce,
cheio de confiança,
os degraus de uma escada própria interminável
 - os degraus serão sempre os mesmos,
nunca haverá outros degraus no fundo.

Jorge de Sena (1942)

quinta-feira, 27 de março de 2014

Elogio da Distância...


Sou distância de mim sobre os outeiros.
Distância, um cisne entre lagoas idas,
Um afago de mãos desconhecidas.
Mãos crispadas cerrando reposteiros.

Distância, nos meus olhos, é um seio
Que amamentou outras Paisagens mortas,
É o eterno ser no meu receio,
É o fechar contínuo de áureas portas.

Diante de mim essa distância existe,
Eternamente longe e sempre triste,
Doida toada que em penumbras fito.

É um descer de bronzes no meu medo,
É uma curva de Ânsia no arvoredo,
Um gotejar de cinza no infinito.


Alfredo Guisado (1891)

terça-feira, 28 de janeiro de 2014

Soneto


Pára-me de repente o pensamento
Como que de repente refreado
Na doida correria em que levado
Ia em busca da paz, do esquecimento...


Pára surpreso, escrutador, atento,
Como pára um cavalo alucinado
Ante um abismo súbito rasgado...
Pára e fica e demora-se um momento.


Pára e fica na doida correria...
Pára à beira do abismo e se demora
E mergulha na noite escura e fria


Um olhar de aço que essa noite explora...
Mas a espora da Dor seu flanco estria
E ele galga e prossegue sob a espora.

Ângelo de Lima [1872-1922]/- Poesias Completas

segunda-feira, 27 de maio de 2013

«Hiato»...


Em lábios muito jovens
a turbulência das folhas
luta ainda com a raiz da água

Em lábios muito jovens arder é tão lento

Eugénio de Andrade, Véspera da água

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2013

Pastelaria...


Afinal o que importa não é a literatura
nem a crítica de arte nem a câmara escura

Afinal o que importa não é bem o negócio
nem ter o dinheiro ao lado de ter horas de ócio

Afinal o que importa não é ser novo e galante
 - ele há tanta maneira de compor uma estante

Afinal o que importa é não ter medo::
fechar os olhos frente ao precipício
e cair verticalmente no vício

Não é verdade rapaz? E amanhã há bola
antes de haver cinema madame blanche e parola

Que afinal o que importa não é haver gente com fome
porque assim como assim ainda há muita gente que come

Que afinal o que importa é não ter medo
de chamar o gerente e dizer muito alto ao pé de muita gente:

Gerente! Este leite está azedo!

Que afinal o que importa é pôr ao alto a gola do peludo
à saída da pastelaria e, lá fora, - ah!, lá fora! - rir de tudo

No riso admirável de quem sabe e gosta
ter lavados e muitos dentes brancos à mostra

Mário Cesaryni de Vasconcelos, in Nobilíssima Visão

sábado, 24 de novembro de 2012

"Arte Poética"...



A poesia do abstracto?...
Talvez.
Mas um pouco de calor,
A exaltação de cada momento,
É melhor.
Quando sopra o vento
Há um corpo na lufada;
Quando o fogo alteou
A primeira fogueira,
Apagando-se fica alguma coisa queimada.
É melhor!
Uma ideia,
Só como sangue de problema;
No mais, não,
Não me interessa.
Uma ideia vale como promessa,
E prometer é arquear
A grande flecha.
O flanco das coisas só sangrando me comove,
E uma pergunta é dolorida
Quando abre brecha.
Abstracto!
O abstracto é sempre redução,
Secura.
Perde;
E diante de mim o mar que se levanta é verde:
Molha e amplia...
Por isso, não:
Nem o abstracto nem o concreto
São propriamente poesia.
A poesia é outra coisa.
Poesia e abstracto, não.

Vitorino Nemésio, O Bicho Harmonioso