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sábado, 17 de agosto de 2019

Caminho - II

pink-peonies - ramil gapapasov

Encontraste-me um dia no caminho
Em procura de quê, nem eu o sei.
- Bom dia, companheiro - te saudei,
Que a jornada é maior indo sozinho.

É longe, é muito longe, há muito espinho!
Paraste a repousar, eu descansei...
Na venda em que poisaste, onde poisei,
Bebemos cada um do mesmo vinho.

É no monte escabroso solitário. 
Corta os pés como a rocha dum calvário, 
 E queima como a areia!... Foi no entanto

Aguarela de ilipa Ventura- Rosto inédito

Que chorámos a dor de cada um... 
E o vinho que choraste era comum:
Tivemos que beber do mesmo pranto.

Camilo Pessanha, in Clepsidra

terça-feira, 26 de março de 2019

Mar


Este cheiro do Mar é um convite...


Pobres Vascos da Gama, que deitavam  
a sorte ao Mar , em cima de uma prancha, 
somente porque as Índias convidavam! 

Sebastião da Gama, in Cabo da Boa Esperança

*** Imagens colhidas na net.

quarta-feira, 27 de fevereiro de 2019

«Nada do mundo»...


Nada do mundo me é segredo ainda:
tudo já sei, já espero, ou o que acontece
apenas do imprevisto se ilumina
de quanto aqui se repetiu diverso
mas tanto não que a estupidez humana 
a mesma não pareça que conheço.

Perdi toda a inocência, todo o espanto,
e todo o encanto de que a vida ferve
o pouco juvenil de horror e anseio
e de prazer também, com que chegamos,
vazios e sem nada, ao passo extremo
que só de inútil tempo se prolonga.

Bogna Patrycjia Altman

Quanto melhor seria ter servido 
alguma ideia, um deus, qualquer senhor,
bem falsos ou mundanos , e traíveis
nesse fingir de crença ou lealdade 
com que a miséria humana se imagina
mais rica e nobre do que o nada oculto!

[...]

Jorge de Sena, in 40 anos de servidão

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2019

Do escrúpulo...

[...]

O escrúpulo é a morte da acção. Pensar na sensibilidade alheia é estar certo de não agir. Não há acção, por pequena que seja - e quanto mais importante mais isso é certo - que não fira outra alma, que não magoe alguém, que não contenha elementos de que, se tivermos coração, nos não tenhamos de arrepender. Muitas vezes tenho pensado que a filosofia real do eremita estará antes no esquivar-se  a ser hostil, pelo simples facto de viver, do que em qualquer pensamento directamente relacionado com o isolar-se.
[...]
Fernando Pessoa, in Barão de Teive, A Educação do Estóico

quinta-feira, 24 de janeiro de 2019

Busca da verdade...


A montanha por achar
Há de ter, quando a encontrar,
Um templo aberto na pedra
Da encosta onde nada medra.

O santuário que tiver,
Quando o encontrar, há-de ser 
Na montanha procurada
E na gruta ali achada.

A verdade, se ela existe,
Ver-se-á que só consiste
Na procura da verdade,
Porque a vida é só metade.

Fernando Pessoa, in Inéditos

domingo, 11 de novembro de 2018

tempo há...


tempo há onde se vê correr um rio
nítido, ágil, 
 na direcção do mar;
que nos arrasta lenta,
mansamente,
na voragem,
e sentimos
ser a imagem
de barco altaneiro
a flutuar
**
tempos depois,
porém,
deixam de ver-se as margens
- não importam,
nem distraem -hélas!
e já pouco ou nada encantam...
**
mas são momentos...
**
as águas seguem no seu vagar suave
- às vezes convulso -
mas lá seguem...
**
nenhum de nós, porém, soube  pará-las
e, por muito que se esforce,
não aprende...
**
deixá-las lá seguir,
deixá-las:
águas do rio, lágrimas choradas,
suor de vidas maceradas,
deixá-las lá seguir 
o seu triste destino 
**
consigo levam
- lavam-
vagas de paixão, revolta, esforço,
encantamento,
e resquícios fúlgidos
da terna e translúcida grilheta
 em vida tecida
do imenso carinho
que um estranho acaso uniu.


segunda-feira, 23 de julho de 2018

Gastar a vida...


Gastou-se o amor e a ira
fugidos no tempo
de precoce abandono.
e no esquecimento.
nem a crueldade pura do sol
nem a transparência livre da água
catarsificou o sentimento...
tudo rodou, rodopiou ao vento.

Correu, girou, calou...

Foi assim... gastou-se no momento
... e passou.


Maria - (25/03/1993)


domingo, 14 de janeiro de 2018

O tempo...




O tempo não é uma medida.
Um ano não conta, dez anos não representam nada.
Ser artista não significa contar - é crescer como a árvore que não apressa a sua seiva e resiste, serena, aos grandes ventos da primavera, sem temer que o verão possa vir. O verão há-de vir. Mas só vem  para aqueles que sabem esperar, tão sossegados como se tivessem na frente a eternidade.

Rainer Maria Rilke

domingo, 2 de julho de 2017

"De sua natureza murcham rosas..."




                                                                                            [20-11-1928]
Nem da erva humilde se o Destino esquece.
Saiba a lei o que vive.
De sua natureza murcham rosas
E prazeres se acabam.
Quem nos conhece, amigo, tais quais fomos?
Nem nós os conhecemos


Fernando Pessoa/-Obra Poética -Ficções do Interlúdio- Odes de Ricardo Reis








domingo, 14 de maio de 2017

Conquistar a distância...


 Ontem foi um dia em que regressei no tempo como catraia, sofrendo com o concurso da Eurovisão, um tempo em que dizer Europa era algo estranho, pois quase que nem acreditávamos pertencer-lhe... Contudo, recebíamos os estrangeiros com delicadeza e uma quase reverência porque pertenciam a um mundo a que nos sentíamos alheados não só ao nível político como cultural e, ainda hoje, há muito boa gente que acha que lá fora tudo é bom e, por cá, nada que preste.
Entre nós, quem frequentasse o estrangeiro ou era muito rico ou tinha atravessado a fronteira a salto para aí trabalhar em tarefas de quase escravatura,a  ganhar sem quase gastar para depois regressar à santa terrinha, dinheiro esse dificilmente auferido na pátria ao longo de uma vida de árduo esforço. Mas sabia-lhes bem passar alguns períodos de descanso mostrando aos familiares e amigos que por lá se vivia desafogadamente... embora lá se fosse tratado como cidadãos de segunda, ou de terceira categoria. 
Adormeci tarde pensando em tudo isto e no tempo em que possuir televisão era só para alguns e nos reuníamos então em casa de vizinhos e amigos mais afortunados para olhar o quadradinho milagroso e sofrer em coro quando o Eusébio falhava o golo pela selecção ou os nossos compositores e intérpretes na Eurovisão, por melhores e mais inspiradas canções que apresentassem, passavam desapercebidos e ignorados. E sofríamos a desilusão por não sermos tão bons quanto os outros, ou não possuirmos meios económicos capazes de ombrear com eles, convencidos como estávamos que muitas daquelas vitórias  eram conquistadas a troco dos muitos milhões envolvidos em encómios e muita publicidade. 
 Consolávamos-nos, no dia seguinte, trauteando sobretudo as canções vencedoras porque essas, sim, essas é que eram boas, apesar dos entendidos na matéria de cá e alguns de lá afirmarem o contrário. E anos e anos a fio, isto se repetiu até que se passou praticamente mais de uma década em que se pensou que o festival, pelo menos por cá, caíra no esquecimento. Como tal deixou de mobilizar as massas anónimas, na época as mais entusiastas do evento.
Mas, a pouco  pouco, emergiu uma geração que começou a valorizar o nosso património cultural, incluindo o musical:o reconhecimento do fado como património da humanidade abriu caminho para o do  cante alentejano e começou a encher de orgulho os corações portugueses, aqui e além fronteiras, com a consciência de que, afinal, nem somos tão comezinhos e analfabetos em muita e muita coisa como pensávamos . Os nossos créditos, tanto em ciência, como em tecnologia, começaram a ser reconhecidos mercê do afinco em mostrar que por cá também se sabe das coisas e se trabalha, apesar de não se possuírem os tais muitos milhões que, se os há, estão nas mãos só de uns tantos privilegiados descendentes ou ascendentes à classe do grande capital, amealhados sabe-se lá como, conseguidos à custa sabe-se lá de quê e quem. 
E se, em determinada época histórica, os possuímos, aos tais milhões, cedo os desbaratámos em campanhas políticas ruinosas. Apegámos-nos ao marasmo de uma existência pacata e sem ambições e lá fomos sobrevivendo ao longo de séculos. No século XXI descobrimos que somos europeus...
E finalmente, em 2016, ganhámos humildemente o Campeonato e consagrámos-nos  vencedores do Concurso da Eurovisão.

Tudo isto mercê do trabalho e do talento de dois irmãos unidos pelo amor à música e entre si.
Resta-me agradecer-lhes os momentos de ânsia ontem revividos  por mim e muitos outros portugueses espalhados por todo esse mundo europeu e não europeu, assim como a satisfação plena  por essa vitória há tanto almejada.

Obrigados a ambos!

E, citando o imortal e profético Pessoa, murmurar em prece:
[...]
«E que outra vez conquistemos a Distância -
- Do mar ou outra, mas que seja nossa!»

in Mensagem, XII - II PARTE,1921/22

.

sábado, 12 de julho de 2014

Nocturno II


Cria-se da angústia uma cadeira para assistir à noite.

E a noite que é como alguém que desce,
cheio de confiança,
os degraus de uma escada própria interminável
 - os degraus serão sempre os mesmos,
nunca haverá outros degraus no fundo.

Jorge de Sena (1942)

Grito calado...



Passado esse longo mês de agonia atarefada, deu-se conta que negligenciara muita coisa, e entre elas o correio, quando deparou com duas cartas por abrir: uma plena de ternura e outra de fétido desprezo
Em nenhuma quis acreditar: ou porque se não reconhecia em nenhuma delas ou porque nem sabia se lhe seriam dirigidas de facto, embora tudo levasse a crer que sim, que o eram, depois de as analisar.
Não chorou. Antes ponderou que nunca tentara iludir ninguém, portanto não deveria também ter desiludido, assim como não pretendera destruir ou destruir-se. Sofrera e amaldiçoaria os dias frios e cinzentos, o trabalho acumulado, a falta de saúde, os serões ensonados... as mil e umas locubrações quotidianas, que não o tinham feito esquecer de nenhuma das suas recordações mais queridas, mas o tinham afastado de tarefas que tornavam mais difícil um eventual contacto com outras vidas que se tinham tornado realidades 
cada vez mais virtuais...  longínquas, despersonalizadas, quase mesmo irracionais.
Procurou não perder o sono ou o equilíbrio emocional e resolveu abrir arquivos de emoções sentidas e tentar de novo falar de si.
Ao falar de si talvez mostrasse como uma preocupação premente se pode calar em nós gritando em surdina.

Manuel Maria

quinta-feira, 3 de abril de 2014

Receita para fazer um herói...


Tome-se um homem,
Feito de nada, como nós,
E em tamanho natural.
Embeba-se-lhe a carne,
Lentamente,
Duma certeza aguda, irracional,
Intensa como o ódio ou como a fome.
Depois, perto do fim,
Agite-se um pendão,
E toque-se um clarim.

Serve-se morto.

Reinaldo Pereira  (19 22-1959)

quarta-feira, 2 de abril de 2014

A vida... [Riqueza]


Por parques e praças,
Ruas e travessas,
Tu, meu olhar, caças
A vida. E tropeças.


Uma gargalhada
Vem dum par contente.
Guarda-a bem guardada,
Mas caminha em frente.


Surgem-te sorrisos
Dum e doutro lado.
Não faças juízos
Rápidos. Cuidado!





 Uma face grave
Nada te revela?
Talvez a dor cave,
Só mais tarde, nela.

Num choro, num grito,
Pressentes a dor?
E quedas, aflito.
Segue, por favor!


Segue, bem aberto 
Para cada canto!
Olha o desconcerto
Que parece tanto!
Corre, olhar, em roda!
O que te intimida?
A vida? Só toda
Pode amar-se, a vida.

Alberto de Serpa (1906), Rua

terça-feira, 18 de março de 2014

Itinerário...


Seguia-se as pedras
até encontrar dois pinheiros muito altos;
isolados
- rente a eles, esbranquiçava-se o céu.

Era curioso que surgiam de súbito,
apesar da sinceridade da planície.

... Ainda se volta por lá,
quando a areia é muita.

Jorge de Sena (1942


quarta-feira, 29 de janeiro de 2014

Percurso...


O tempo corre sem remédio 
diluído no manto do afecto belo e passageiro
 como a flor da primavera 
Corre para um futuro 
que se constrói pouco e pouco
Deixa atrás tudo o que não se modifica 
com seus mistérios, esperanças,
alguns medos,
espinhos e rosas.
A cada hora, a cada decisão, 
deixa escrita uma história
de momentos magníficos
alegres ou enamorados
ou amargos, tristes, desesperados
e vazios de amor.

O tempo não é inimigo:
é namorado. 

Anaïs - 2006.09.20

quarta-feira, 22 de janeiro de 2014

Identidade...


"A identidade é uma busca sempre aberta e a obssessiva defesa das origens pode ser  também, de quando em quando, uma escravidão regressiva como, em outras circunstâncias, a entrega cúmplice ao desenraizamento." - Claudio Magris

terça-feira, 31 de dezembro de 2013

Mundo renovado...


Com os nossos pensamentos e palavras, construímos o verdadeiro mundo em que vivemos.
Por isso, a nossa vida e a nossa felicidade dependem exclusivamente dos nossos pensamentos e das nossas palavras.
Vigie o momento presente para que o seu futuro seja feliz.
Plante sementes de optimismo e de amor para colher amanhã os frutos da alegria e da felicidade.

C. Torres Pastorino, Minutos de Sabedoria

sexta-feira, 15 de novembro de 2013

Claridade...ou sombra...


Ou se tem chuva e não se tem sol
ou se tem sol e não se tem chuva!

Ou se calça a luva e não se põe o anel,
ou se põe o anel e não se calça a luva!

Quem sobe nos ares não fica no chão,
quem fica no chão não sobe nos ares.

É uma grande pena que não se possa
estar ao mesmo tempo nos dois lugares!

Ou guardo o dinheiro e não compro o doce,
ou compro o doce e gasto o dinheiro.

Ou isto ou aquilo: ou isto ou aquilo...
e vivo escolhendo o dia inteiro!

Não sei se brinco, não sei se estudo,
se saio correndo ou fico tranquilo.

Mas não consegui entender ainda
qual é melhor: se é isto ou aquilo.

Cecília Meireles - Obra Poética (1958)

sábado, 11 de maio de 2013

Fraquezas...



«  - Se eu morresse amanhã,para que teria servido a minha vida? Para pouca coisa na verdade; nem para outrem, nem para mim próprio. Está bem? Não. Daí o descontentamento oculto que me agita e me consome quando a inércia deixa de me adormentar. O meu pecado é o medo: medo de sofrer,medo de ser enganado, medo de me enganar, medo do destino, medo de mágoas, medo do prazer, medo da vida, medo da morte. E a causa do medo? É a desconfiança. E a origem dessa desconfiança? O sentimento da minha fraqueza. Incapaz de vencer,de forçar, de compor as circunstâncias, esquivo-me a elas quando não são como as desejo. Ausência de coragem e de vontade; nenhuma força moral - eis o meu mal, sempre o mesmo e sempre em aumento.-»

 Amiel, in Diário Íntimo