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sábado, 5 de janeiro de 2019

Mês Puro



Sol pleno de janeiro; transparência gelada, desnudante.
De repente todas as nuvens se dissipam. No matagal das colinas 
obscurecido ainda pelas grandes chuvas sobe
o fumo azul dos pastores. E lá ao fundo as cadeias de montanhas
de um azul exclusivo - o azul supremo. Nesta paisagem
vasta e límpida - diz ele - não há lugar para outra cor,
 excepto o vermelho ínfimo do galo que estrangularam
sobre a pedra das fundações. Foram as suas palavras.
Assim se referia
ao movimento de dois dedos que descobriam
um ombro nu, uma ferida, uma fonte ou um sonho.

[Yannis Ritsos- poeta grego;1909-1990]


Tradução de Eugénio de Andrade, in Trocar de rosa

quinta-feira, 3 de janeiro de 2019

Quando a geada cai...


 Nas noites de inverno, quando a geada cai
Nem sequer se ouve o ladrar de um cão;
Por baixo do céu enorme e luminoso 
  A lua, hirta como um pedaço de metal,
Brilha, gélida e imóvel.
Sucede, porém , por vezes, ouvir-se
Um cão que, não se sabe porquê,
 Uiva longe, muito ao longe, 
Lá no fundo, sob a lua indiferente, 
Como se o som  subisse  do fundo do inferno
Quando a geada cai, nas noites de inverno.

[Tradução livre do poema de Maurice Carême, Quand la nuit gèle]


sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

Inverno...


Inverno, doce inverno das manhãs
Translúcidas, tardias e distantes
Propício ao sentimento das irmãs
E ao mistério da carne das amantes

Quem és, que transfiguras as maçãs
Em iluminações dessemelhantes
E enlouqueces as rosas temporãs
Rosa-dos-ventos, rosa dos instantes?

Porque ruflaste as tremulantes asas,
Alma do céu? o amor das coisas várias
Fez.te migrar - inverno sobre casas!

Anjo tutelar das luminárias
Preservador de santas e de estrelas...
Que importa a noite lúgubre escondê-las?

Vinicius de Moraes, Livro dos Sonetos


quarta-feira, 4 de maio de 2011

Melopeia



Acordei
Ao som de uma melopeia mansa
Espreitei...
Incessante, densa
Intensa
A chuva cortava
O silêncio da manhã...
Chorava

Já tinha saudade
Deste som macio
E frio...
Desejei que não parasse
E lavasse
Arrastasse
As névoas
Da minha alma.

13.02.011

quarta-feira, 20 de abril de 2011

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010

Dia baço




Um dia baço, mas não frio...
Um dia como
Se não tivesse paciência pra ser dia,
E só num assomo,
Num ímpeto vazio,
De dever, mas com ironia,
Se desse luz a um dia enfim

Igual a mim,
Ou então
Ao meu coração,
Um coração vazio,
Não de emoção
Mas de buscar, enfim -
Um coração baço mas não frio.

Fernando Pessoa - 18-03-1935