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quinta-feira, 3 de janeiro de 2019

O Sonhar...


Deve haver um lugar onde um braço
e outro braço sejam mais que dois braços,
um ardor de folhas mordidas pela chuva,
a manhã perto nem que seja de rastos.

Eugénio de Andrade, in O Peso da Sombra


domingo, 29 de outubro de 2017

Das cinzas da nossa memória...

Das cinzas da nossa memória...

há momentos que só poetas 

conseguem fazer reviver...

ou  os artistas 
que manipulam cores, tons, 
imagens que amaram, 
aconchegando-as no âmago de sentidos
sempre despertos
 para o perene enamoramento do mundo 
em que apareceram e evoluíram.



Oh, a frescura intensa da manhã,
Batendo, lado a lado, toda a estrada! 
- Inda há pouco apanhei uma braçada
De alfazema florida, ingénua e sã.

Abre no céu a fúlgida romã 
Que em beijos de oiro se desfaz, cansada,
Oh, como eu sinto, agora remoçada,
A minha fé tranquila de cristã...

Nos silvados despontam as amoras,
Começa, ao longe, a vibração das noras.
Todo o campo se alegra e se ilumina!

Passam pardais a grazinar em bando,
Um rebanho, um pastor, de quando em quando,
- E cheira a mato, a frutos, a resina...

Virgínia Vitorino






quinta-feira, 21 de novembro de 2013

Ao cair da folha...


[09.10.2006]

São pétalas caídas das rosas
da roseira dos dias
com odor doentio e doce
dor de dias passados
em monotonia cinzenta
lenta e perfumada
diluída na doçura do outono
quando o sol não brilha
nem aquece
e toda a cor da alegria
esmorece
num halo de escassa luz
em redor.

Mª Avilez

quarta-feira, 20 de novembro de 2013

Manhã de todos...


Manhã de todos---
Ah! mas inútil manhã

Vai costureirinha presa de uma flor,
que quiseras deter-te no jardim.
São horas.
Deixa, operário que sabes soletrar,
o jornal para a noite, quando voltes
de ter perdido esta manhã de todos.
Bem bom! Bem bom!, 
Mas vai, são horas.

Manhã de todos,
se o Sol nasceu foi para que tu fosses. 
Por ti se libertaram
estas flores.

Ah!, porque não é Domingo,
manhã linda, mais linda que um namoro?

Porque vens quando calha, 
porque não vens apenas ao Domingo, 
para todos te levarem pelo braço?

Sebastião da gama - Itinerário Paralelo (1967). Ed. póstuma

sexta-feira, 19 de abril de 2013

«Assim às vezes»...


A manhã às vezes fica muito longe

Perco-me então por caminhos de água

Na língua que te despe o sol
respira rente à relva

Eugénio de Andrade, Véspera da Água