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quinta-feira, 23 de maio de 2019

Conta-me contos...

[23-05-1916]
Não sei, ama, onde era,
Nunca o saberei...
Sei que era primavera
E o jardim do rei...
(Filha, quem o soubera!...)

Que azul tão azul tinha
Ali o azul do céu!
Se eu não era a rainha, 
Porque era tudo meu?
(Filha, quem o adivinha?)


E o jardim tinha flores 
De que não me sei lembrar... 
Flores de tantas cores.... 
Penso e fico a chorar...
(Filha, os sonhos são dores...)


Qualquer dia viria
Qualquer coisa a fazer
Toda aquela alegria
Mais alegria nascer
( Filha, o resto é morrer...)


Conta-me contos, ama... 
Todos os contos são
Esse dia, e jardim e a dama 
Que eu fui nessa solidão...

Fernando Pessoa, in Cancioneiro

quinta-feira, 3 de janeiro de 2019

O Sonhar...


Deve haver um lugar onde um braço
e outro braço sejam mais que dois braços,
um ardor de folhas mordidas pela chuva,
a manhã perto nem que seja de rastos.

Eugénio de Andrade, in O Peso da Sombra


quinta-feira, 20 de dezembro de 2018

A estrada incompreendida


Foi um momento
O em que pousaste
Sobre o meu braço,
Num movimento
Mais de cansaço
Que pensamento,
A tua mão
E a retiraste.
Senti ou não? 
Não sei. Mas lembro
E sinto ainda
Qualquer memória
Fixa e corpórea
Onde pousaste 
A mão que teve
Qualquer sentido 
Incompreendido, 
Mas tão de leve!...
Tudo isto é nada,
Mas numa estrada
Como é a vida
Há muita coisa
Incompreendida...
Sei eu que quando 
A tua mão 
Senti pousando
Sobre o meu braço,
E um pouco, um pouco,
No coração,
Não houve um ritmo
Novo no espaço?
Como se tu, 
Sem o querer, 
Em mim tocasses
Para dizer 
Qualquer mistério,
Súbito e etéreo,
Que nem soubesses 
Que tinha ser.
Assim a brisa
Nos ramos diz
Sem o saber
Uma imprecisa 
Coisa feliz.

Fernando Pessoa, in Cancioneiro-[09.05.1934]

domingo, 28 de abril de 2013

Ruínas...


...Apesar das ruínas e da morte,
Onde sempre acabou cada ilusão,
A força dos meus sonhos é tão forte,
Que de tudo renasce a exaltação
E nunca as minhas mãos ficam vazias.

Sophia de Mello B. Andresen


quarta-feira, 27 de fevereiro de 2013

Murmúrio da fonte...


O que é que a fonte murmura?
,O que é que a fonte dirá?
 - Ai, amor, se houver ventura,
Não me digas onde está.

[...]
Allheia, - sem dar por nada,
A fonte lá continua...
E o que é que diz? Cantiga,
Reza, choro, ou melodia?
- Possuir uma certeza,
Interrogar,
Saber onde, - 
É o mesmo que chamar
Alguém que nunca responde.

Vive só à mercê da sensação

Definirmos, - 
É reduzirmos 
A alma
E é fechar o entendimento.

E todo aquele que afirma
Que a força do pensamento
É a maior e a mais bela,
Nem sente que se assim fosse
- Não poderia com ela!
[...]
E a fonte 
Lá continua
Sendo,amor, como a sentimos?
Não!
-Para mim
É como a vejo;

Água passando nos limos.

António Botto - (excertos)

segunda-feira, 17 de outubro de 2011

Longe...


Lá em cima, na luz do sol, estão as minhas aspirações mais elevadas. Posso não as alcançar, mas posso olhar para cima e ver a sua beleza, acreditar nelas e tentar seguir o caminho a que elas conduzem.

Louisa May Alcott [1832-1888)

segunda-feira, 11 de julho de 2011

Rafael Alberti - Canção


Equivocara-se a pomba.
Se equivocava.

Por ir ao norte, foi ao sul.
Pensou que o trigo era água.
Se equivocava.

Pensou que o mar era o céu;
que a noite, madrugada.
Se equivocava.

Que as estrelas eram orvalho,
o calor era nevada.
Se equivocava.

Que a tua saia era a blusa;
teu coração, sua casa.
Se equivocava.

( Ela adormeceu na margem.
Tu, na mais alta ramagem.)

Eugénio de Andrade, Trocar de Rosa



domingo, 3 de julho de 2011

Amor adormecido


Dormias, os braços me estendeste e de surpresa
Rodeaste-me a insónia. Afastavas assim
A noite desvelada, em cima a lua presa?
Teu sonhar me envolvia, sonhado me senti.

Eugénio de Andrade, Trocar de Rosa

quinta-feira, 2 de junho de 2011

Paraíso perdido



Que vens aqui fazer, espírito velho
De tudo o que foi perdido
e nunca mais achei?

Então...
ainda eu olhava o mundo
com meus olhos de manhãs azuis,
e nos lábios
havia ainda a ternura dos beijos moços
como a relva dos prados.

Foi mais tarde...
que a vida entardeceu.
(Tardes enevoadas e frias,
abandonadas,
ermas,
tristes como eu...)

Foi mais tarde...
que a tal desgraça se deu.

João José Cochofel, Búzio

quarta-feira, 20 de abril de 2011

segunda-feira, 4 de janeiro de 2010

Saudade


Vestida da saudade mais longa, ó meu amor,
Abafei o pranto no diverso desencanto
De não mais ousar até a ti chegar...
O calor de uma entrega ainda pairou no ar...
Vergada na dor, sequiosa do teu calor,
Ainda e sempre sonhando em te abraçar
Ultrapassei da tristeza a ponte
Para além do horizonte...
Além...
Além do mar...

Sofia Guiomar - 2009,11,o2




quinta-feira, 31 de dezembro de 2009

Ilusão



Ilusão

Espero...
Todos esperamos
Que a vida nos compense
Do mal que nos tem feito...
- Do mal que nos fizemos...
A vida foi o engano
Que nasceu
Do erro de sonharmos.


Mário Pissarra de Almeida